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luciene felix lamy

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23 de jan de 2008

Sartre: "O inferno são os Outros"


No artigo anterior, versando sobre "A Morte de Ivan Ilitch", constatamos que, dentre os riscos de se deixar pautar por valores alheios está o de viver uma vida destituída de sentido pessoal. Ponderemos agora como o ser humano, enredado pela má fé, acaba por delegar a terceiros a angustiante responsabilidade de decidir sobre sua vida. Como "piolhos", viver pela cabeça dos outros pode tornar nossa existência um inferno. Mas afinal, quem são os "outros"?

O Filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), além das famosas obras filosóficas ("A Náusea", "O Ser e o Nada"), escreveu romances, contos, peças teatrais e atuou também como crítico literário e de artes. (...)

Esse artigo estará disponível no site da Escola Superior de Direito Constitucional - ESDC ( http://www.esdc.com.br/ ) no início de fevereiro de 2008.

12 de jan de 2008

A morte de Ivan Ilitch - Tolstói


“O que justifica o ato de viver é a solidariedade, ativa e iluminada que aniquila o eu egoísta e fornece a paz interior” Luiz Venere Décourt (1911-2007)

Nessa magistral obra-prima (considerada por Vladimir Nabokov “a mais artística, mais perfeita e de mais sofisticada realização da história mundial”) legada pelo conde russo Leon Tolstói (1828-1910), defrontamo-nos com o soberano do destino: o fim. Eis nosso denominador comum.

Fim! Decreta a morte. Pode-se até contestar que seja ou não o “fim último”, mas abster-se desse encontro marcado ninguém conseguiu. A morte é uma prova final, aplicada a qualquer momento; e por mais que se creia não estar preparado, todos somos aprovados.

Impossível não se comover com esse personagem: “A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares e, contudo, das mais terríveis. Juiz do Tribunal, falecia aos 45 anos”.
Escarafunchando a angustiada consciência do irrepreensível juiz Ivan Ilitch, em breves 85 páginas, Tolstói nos brinda com o relato de um “acerto de contas”, revelando a futilidade do modelo de vida burguês. Será, preso ao leito, frente a morte certa, que a vida de Ivan Ilitch se revelará mais livre, mais autêntica e pujante. As preocupações corriqueiras, os afazeres mundanos impediram-no de pensar nela.

É com espanto que, diante da morte iminente, atina que viveu uma vida de aparências, tanto no desempenho de seu trabalho, quanto no casamento e em suas demais relações sociais. Ivan Ilitch conclui que sua existência fora desprovida de um propósito mais significativo, que não passou daquilo que a sociedade, com seu mero jogo de interesses, de galgar posições de prestígio, de “parecer estar bem”, preconizava. Em resumo: uma autêntica vida de falsidades. Para seu desespero, até mesmo àqueles a quem julgava ser fundamental e amado, sua mulher e filhos, vivenciam sua convalescênça como sendo um capricho inexplicável (a mulher) ou um aperreio, um estorvo (sua filha).

O sucesso profissional, o empenho pela manutenção da ordem, do status quo, daquilo que, aos olhos dos outros era tido como o “certo”, sempre fora o norte de sua “aparentemente” bem sucedida (na verdade, ordinária) vida: “Não era um adulador, nem quando menino, nem quando homem feito, porém, desde a infância, sentira-se naturalmente atraído pelas pessoas que ocupavam posição elevada na sociedade, tal como mariposas pela luz, e assimilava-lhes as maneiras e as opiniões, forçando ainda relações amistosas com elas”.

Leia esse artigo na íntegra no site da Escola Superior de Direito Constitucional - ESDC

Parmênides, Heráclito e a Caixa de Pandora


Alexandre Cabanel - Pandora

O eterno, a mudança e a esperança no porvir

Amigos leitores, estamos chegando ao final de mais um ciclo. Novamente, outro se iniciará, num eterno devir (vir a ser, porvir, tornar-se). 

A eternidade é uma espécie de presente contínuo; é o que experimentamos agora, em nossa vida, sempre em mudança. Filosofemos com os exponenciais filósofos pré-socráticos Heráclito, Parmênides e Hesíodo.

Parmênides, nasceu na cidade de Eléia, na Magna Grécia, em cerca de 540 a.C. Ele legou uma das maiores posições metafísicas radicais da história do pensamento filosófico ocidental. 

Trata-se da primeira grandiosa formulação do princípio de não-contradição; aquele princípio que afirma a impossibilidade de os contraditórios coexistirem simultaneamente. Esses dois supremos contraditórios são o “ser” e o “não-ser”. 

Para o Eleata, “O Ser é, e é impossível que não seja” e também afirma: “O Não-Ser não é e dele não se pode sequer falar”. Junto a essas duas proposições, há ainda uma terceira: “É o mesmo o Ser e o Pensar”. O ramo da filosofia que se debruça ao estudo do “Ser enquanto Ser”, chamamos ontologia.

O Ser, é ingênito e incorruptível. Impossível ter sido gerado pois se fosse, teria sido derivado do não-ser ou do ser: do não-ser é impossível, porque o não-ser não é; do ser é também impossível, porque então já seria e não haveria necessidade de ter sido gerado. 

E é também por essas mesmas razões que é impossível que se corrompa. O “Ser” não tem um passado (porque nesse caso não seria mais) e tampouco um futuro (porque não seria ainda). O “Ser” é o que há de imutável no mundo, o (tempo) presente eterno sem início nem fim. É o “agora”, é o que vivemos.

Heráclito, da cidade de Éfeso, contemporâneo de Parmênides (aquele da afirmação de que não se banha duas vezes no mesmo rio), legou o célebre aforisma de que “Tudo Flui” (Panta Rhei). Tudo muda, o tempo todo; que tudo se altera é uma certeza que temos. 

O Filósofo francês Marcel Conche afirma: “Que tudo muda, é algo que não muda. Que tudo passa, é algo que sempre será verdadeiro”. O que não muda é o devir. O que não se altera é o “Ser” (o tempo presente, o eterno “agora” do Ser de Parmênides).

Tudo passa. Mas é só no presente que nos damos conta dessa passagem. O passado já era, não é, não existe mais (embora no presente possamos rememorá-lo). 

O futuro é o porvir, ainda nem existe, não passa de uma promessa de vir a ser, tornar-se. Também, somente no presente possamos ponderar sobre o futuro; é necessário então, dispor do nosso tempo presente para imaginá-lo.

A eternidade é e, paradoxal e simultaneamente, está em mudança contínua. É agora e também será em instantes; será um outro “agora” (não mais enfadonha!), mas o será sempre.

Logo, o que caminha de mãos dadas com a eternidade parmenidiana é a certeza de mudança heraclitiana.

Ainda anterior aos Filósofos acima, o aedo (poeta) Hesíodo, em sua obra “Os Trabalhos e os Dias”, narra o mito de Prometeu e Pandora. 

O soberano do Olimpo, Zeus (Júpiter), encolerizado, encomendou ao mestre da technée, Hefestos (Vulcano), uma mulher belíssima, fascinante, perfeita, com todos os dons (pan = todos e dora = dons), juntamente com um grande e misterioso vaso (pithos = jarro) ou caixa, na versão mais corriqueira. 

Era para que os homens fossem castigados em razão de Prometeu ter roubado e lhes entregue o fogo divino. O ordenador do cosmos era contrário a esta dádiva, sabia que os homens se julgariam melhores que os deuses e esqueceriam seus deveres para com os semelhantes. 

Prometeu, conhecedor do que que estaria por vir (pro = antes e metheus = vidente), esquivou-se de tal presente, alertando também seu irmão, Epimeteu (que só sabe do resultado de uma ação depois de tê-la infringido). 

Mas Epimeteu não resistiu aos encantos da fêmea e acolheu Pandora. Dentre todos os dons com os quais fora guarnecida, ela contava também com a persuasão, a graça e a ardilosidade, a imprudência e a curiosidade: fez-se o malefício, brincadeira de Hermes (Mercúrio). 


Após muito resistir, Pandora sucumbe, abre a caixa e... tarde demais! Espantosa fonte de calamidades, dela escapam todos os males que assolam a humanidade (peste, guerra, violência, fome e miséria; também geres, a velhice maldita para o corpo e inveja, despeito e vingança para o espírito).

Desesperada, Pandora fecha imediatamente a caixa. Lá, só restou... o porvir.

O porvir, o futuro, o que está para acontecer, benéfico ou não, foi o que restou na magnética caixa, astutamente enviada por Zeus. E não poderia ser de outra forma. Ao sair da caixa, o porvir torna-se presente, passa a ser.

Santo Agostinho, ao esclarecer sobre a eternidade, dizia que ela era um presente que permanece presente, e que o real é, portanto, a própria eternidade: o perpétuo hoje de Deus (ou, para os não-religiosos, o perpétuo hoje do mundo).

Na expectativa, nós é que acalentamos a ESPERANÇA (Élpis) de que, na cidade dos homens e/ou na cidade de Deus, o porvir seja afortunado. 

Feliz e abençoada nova (eterna) caixa de Pandora para todos nós!

► Saiba mais:
Hesíodo – O Trabalho e os Dias. Trad. Mary de Camargo Neves. Ed. Iluminuras (1996)
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Discurso da Servidão Voluntária


“A tirania não é ato de força ou violência de um homem ou de um bando de homens, mas nasce do desejo de servir e é o povo que gera seu próprio infortúnio, cúmplice dos tiranos” (Marilena Chauí)

Com “Le Discours de la Servitude Volontaire” (1552), compreendemos que a gênese da desumana opressão exercida pelos poderosos aos menos favorecidos é atemporal e universal. Escrita como um mero panfleto militante, aos 16 ou 18 anos pelo Pensador francês Etienne de La Boétie, enquanto estudante de Direito, esmiúça os porquês que levam a multidão a se permitir escravizar, cega e voluntariamente, a se dispor a servir.

Para La Boétie é o povo que se sujeita e se degola; que, podendo escolher entre ser súdito ou ser livre, rejeita a liberdade e aceita o jugo, consente tal mal e até o persegue. Como ocorre esse processo é sobre o que o autor se debruça. Etienne esclarece que o tirano obtém seu poder com a conivência do próprio povo subjugado e que a este bastaria decidir não mais servir, recusar-se a sustentá-lo para que se tornasse livre. São apontadas na obra, as três razões que culminam numa servidão voluntária.

Ao esmiuçar os meandros da servidão, revela como está em nós enraizada a vontade de servir, apesar de existir em nossa alma um germe de razão produtor da virtude (desde que alimentados pelos bons costumes e bons exemplos) e de que a própria natureza é justa (pois para esta, nenhum ser humano pode ser mantido em servidão). Os próprios animais prezam a liberdade e se recusam a servir; quando o fazem é por imposição.

Afirma também haver três tipos de tiranos, maus Príncipes: 1) os que o obtém o poder pela força das armas; 2) àqueles que o herdam por sucessão da raça e 3) os que chegam ao poder por eleição do povo. Os que o obtém pelo direito da guerra, agem como em terra conquistada; quanto aos reis, nascidos e criados no seio da tirania, consideram os povos a eles submetidos como servos hereditários, têm todo o Reino e seus súditos como extensão de sua herança.

Quanto ao eleito pelo povo, não nos enganemos: ao se ver alçado a um posto tão elevado, tão alto – “lisonjeado por um não sei quê que chamam de grandeza” – toma a firme resolução de não abrir mão da res pública. “Quase sempre considera o poderio que lhe foi confiado pelo povo como se devesse ser transmitido a seus filhos”. Para La Boétie, é essa idéia funesta que o faz superar todos os outros tiranos em vícios de todo tipo e até em crueldades.

Leia esse artigo na íntegra no site da Escola Superior de Direito Constitucional - ESDC

Charles Baudelaire e os Paraísos Artificiais


Os etéreos “néctar e a ambrosia” eram bebida e alimento dos deuses.
Ao mortal que ousasse os ingerir era destinada a glória dos olímpicos
ou, em desmedida, a bestialidade humana.

O uso freqüente de substâncias que alteram a percepção consiste num perigoso exercício que aniquila a liberdade, tão cara a dignidade humana. Traremos as impressões de um espírito refinado e singular, que fez uso dessas emanações vegetais nos legando, numa lúcida experiência, a análise dos efeitos misteriosos e dos inevitáveis riscos que resultam de seu uso prolongado. O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), famoso por sua magnífica Obra “As flores do Mal”, reunindo-se com os amigos no luxuoso Hotel Pimodan, desfrutou do haxixe (cânhamo indiano, cannabis), do ópio e do vinho.

As propriedades excitantes do cânhamo eram bem conhecidas do Antigo Egito e seu uso era muito difundido, sob diferentes nomes, na Índia, na Argélia e na Arábia Felix.

Em “Paraísos Artificiais”, o poeta relatará sua aventura sem, no entanto, deixar de falar sobre os “esforços sobre-humanos de vontade que lhe foi necessário empregar para escapar à danação a qual ele, imprudentemente, se havia devotado”.

Baudelaire considera que é mais importante conhecer a ação do veneno sobre a parte espiritual do homem: “Se naturezas grosseiras e embrutecidas pelo trabalho diário e sem encanto (refere-se a “embriaguez mais repugnante dos suburbanos que, com o cérebro carregado de fogo e glória, rolam ridiculamente nos lixos da rua”) encontram no ópio grande consolo qual não será então o seu efeito num espírito sutil e letrado, numa imaginação ardente e cultivada?”

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O que confere dignidade ao homem?


“O propósito ideológico do jovem que melhor traduziu o espírito do humanismo, intentava unificar os dois maiores sistemas de pensamento da humanidade: o idealismo platônico e o realismo aristotélico”

Turbilhões de idéias e ideais foram fomentados, entre o crepúsculo da Idade Média e a aurora do Iluminismo. Fervilhante e incerto, como o nosso atual, era o universo que cerceava o jovem Filósofo que nos legou um dos textos angulares sobre o significado de dignidade, característica intrinsecamente humana. Estamos no Renascimento, época das grandes navegações e de muitas outras descobertas relevantes e irreversíveis para toda humanidade.

O autor que descortinaremos, Giovanni Pico Della Miràndola, situa-se então, entre o alinhamento transcendente e metafísico-religioso da cultura medieva e o homem novo, surpreendido pela ótica da autonomia da razão, consciente de sua liberdade e do potencial construtivo com o qual ela acena. Os estudiosos de seu pensamento consideram “A Dignidade do Homem” (Oratio de Hominis Dignitate) não somente seu texto mais original como ainda tradução fiel do que foi o movimento humanista do Renascimento.

Ao se debruçar sobre a questão da dignidade humana, Pico Della Miràndola revelou-se, nas sensíveis e certeiras palavras de Luiz Feracine “uma alma pura que se enamorou dos mais sublimes ideais de perfeição humana”.

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Platão e Aristóteles


O Discípulo não supera o Mestre, o complementa

Impossível discorrer sobre a singularidade do pensamento de Aristóteles (384 – 324a.C.) sem contextualizá-lo diante de seu Mestre, Platão (Arístocles: 428-347a.C.), que por sua vez fora discípulo de Sócrates e, o primeiro a elaborar uma teoria sobre a Alma. Para esclarecer o que distingue esses dois Pensadores, ponderemos sobre as dicotomias, as duplas de opostos/complementares que constatamos através dos sentidos (dia e noite; macho e fêmea) ou do Espírito (O Bem e o Mal). Dicotômica também será a linha teórica filosófica adotada por esses Filósofos de truz.


Em 387a.C., Platão fundou o que pode ser considerada a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental, a Academia de Atenas (dedicada à deusa da Sabedoria e da Justiça). No 1º nível (até os 16 anos), treinamento científico: matemática, ginástica, astronomia, música e geometria: na entrada uma placa avisava: “Ageometretos mé eisito” (sem geometria, não entre). Já no 2º nível (dos 16 aos 30 anos), os alunos aprendiam ética, a virtude e a política para, no 3º nível (dos 30 aos 50 anos), aprender a dialética e tornar-se Filósofo. O platonismo reverencia o mundo das Idéias, pois a realidade física, material, sensível, concreta, não alcança o “Ideal” de perfeição que somente a representação mental, abstrata (imaginem a geometria, o lógos) propicia.



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Aristófanes – A vitória do Discurso Injusto sobre o Justo

No artigo anterior, versávamos sobre o comediógrafo grego Aristófanes (455a.C.-365a.C) e uma de suas peças teatrais, “As Nuvens”, onde explicita seu repúdio às novas pedagogias que insurgem em Atenas. Importante esclarecer que, errôneamente, Aristófanes elegeu Sócrates por alvo de sua crítica porque identificou nele o mais famoso representante daqueles indivíduos pelos quais nutria profundo desdém: os sofistas, sábios que mediante pagamento se dispunham a ensinar a arte da retórica a fim de vencer qualquer litígio. Analogamente, é como se, para desferir críticas às igrejas, apontássemos Jesus Cristo. Sócrates foi Mestre no ensino do instrumento e não responsável pelo mal uso que fizeram dele.

Angustiado, o velho e endividado Strepsíades lamenta que, à medida em que as fases da lua se alteram, vai se aproximando o prazo de vencimento das dívidas. Apesar de todo seu desespero, tanto o filho quanto seu escravo não fazem outra coisa senão dormir e peidar. Inútil lamentar-se pois, com a possibilidade de guerra, é fácil escravos deserdarem. Não conseguindo, ele mesmo, lograr sucesso no Pensatório de Sócrates, por lhe faltar preparo intelectual, insiste e louva ter, finalmente, conseguido convencer e matricular o filho. Strepsíades comemora e não esconde sua expectativa com o sucesso que a arte da retórica promete.
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Aristófanes – As Nuvens

Não é de hoje que servimo-nos da comédia para manifestar nosso menosprezo a certas autoridades públicas, aos políticos, às instituições, às “celebridades” e aspirantes que, pateticamente, exteriorizam a decadência moral de uma sociedade. Corrupção, abuso de autoridade, vaidade e mesquinhez são, até hoje, alvo de críticas veladas sob a forma de sátira.

Em repúdio à ignorância, à ambição e a rudeza dessas pessoas o ateniense Aristófanes (455a.C-375a.C) fez do teatro, seu campo de batalha, para onde transportou as inquietações político-sociais, educacionais e religiosas de sua época. Sarcásticas, suas comédias são de fácil e agradável leitura: ricas em jogos de palavras, jocosidade e até obscenidades. Tendo por alvo as personalidades mais influentes, não poupava idosos ou jovens, pobres ou ricos.

Da vida do mais famoso comediógrafo da antigüidade grega, poucos detalhes sabemos, mas por sua obra, deduz-se possuidor de uma vasta cultura literária. Foi um aristocrata que, detentor de um espírito ousado, atrevido e insolente, soube traduzir em suas peças, a inquietação quanto às novidades que considerava demagógicas e oportunistas, e a desconfiança quanto à nova educação, enaltecendo as virtudes da educação tradicional.

Autor essencialmente político, gozando da estima do público, é significativo ressaltar que ele viveu o apogeu da cultura ateniense e testemunhou o início da guerra do Peloponeso, que terminou em 404 a.C, com a vitória de Esparta sobre a sua Atenas. Seu alvo fora, notoriamente, “àqueles filósofos” que pregavam o domínio da arte da retórica a fim de vencer qualquer litígio, os Sofistas, sábios que, mediante pagamento, dispunham-se a ensinar a arte do bem falar (e convencer) à platéia. Qualquer platéia. Aristófanes não poupou Sócrates e o elegeu, errôneamente, como alvo de sua crítica feroz, julgando-o um dos ícones responsáveis pela decadência de Atenas.

Apesar de ter escrito mais de quarenta peças, apenas onze são conhecidas. Sobre a que vamos discorrer, “As Nuvens”, trata-se de uma crítica contundente ao Poder Judiciário ateniense. A ironia de Aristófanes já começa no próprio título da peça: “As Nuvens”.

Faz alusão ao ateísmo e ao culto de novas divindades estranhas como o éter, o ar, a persuasão, em detrimento aos antigos – por ele considerados os “verdadeiros” deuses. Insurgindo-se contra as novas propostas pedagógicas e uma certa anti-eticidade por parte dos sofistas, Aristófanes desejava chamar a atenção quanto as conseqüências de uma inversão de valores, fruto um novo modelo educacional.

Vamos à peça. O velho simplório Estrepsíades, outrora abastado proprietário, vê-se agora arruinado e cheio de dívidas devido a seu casamento com uma perdulária e fútil aristocrata ateniense e à seu filho, Fidípides, uma espécie de “playboy”, de “mauricinho” que não faz outra coisa senão gastar em cavalos, dilapidando e obrigando o pai a estar sempre se endividando.
Desesperado e ignorante, ele pensa até em tratar com as feiticeiras da Tessália, para ver se há um modo de alterar as fases lunares, uma vez que o calendário de vencimento das dívidas eram lunares. Ao tomar conhecimento de que há agora um meio de ludibriar os credores, através da arte da retórica, tenta convencer seu filho a matricular-se e seguir um desses Mestres, no caso Sócrates. Diante da negativa do filho, decide ele mesmo ir ter com o filósofo e aprender e dominar essa poderosíssima ferramenta que é a arte da argumentação. Mas a Estrepsíades falta a capacidade intelectual e isso o obriga a desistir. Novamente, implora ao filho que vá aprender as artimanhas do discurso e, dessa vez, consegue fazê-lo aceitar.

O auge da comédia se dá quando o “Raciocínio/Discurso Injusto” vence o “Raciocínio/Discurso Justo”. O “Justo”, personifica os valores cívicos, o respeito às tradições e aos mais velhos. Já o “Injusto” incorpora os novos valores, onde são enaltecidos o hedonismo, a astúcia e o oportunismo. Animado, o pai não esquece de reiterar a Sócrates: “Não se esqueça de ensinar ao rapaz o que ele precisa para arrasar tudo o que é justo”.

É óbvio que Estrepsíades ainda se arrependerá dessa decisão pois, o “tiro sai pela culatra”! Fidípides aprende tão bem que se volta contra o próprio pai chegando até a lhe bater, justificando o absurdo de sua atitude, demonstrando argumentativamente como isso era perfeitamente legítimo. Retomaremos o diálogo entre os dois Raciocínios: Justo x Injusto e descobriremos porque o responsável pela vitória do Injusto somos nós mesmos: o público.

Saiba mais: Aristófanes – As Nuvens, Só para Mulheres, Um Deus Chamado Dinheiro - Tradução do grego e apresentação: Mário da Gama Kury – 1995, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.

Charles Sanders Peirce – A Lógica Pragmática

A dedução extrai a inferência contida nas premissas. A indução confirma as inferências pela experimentação. A abdução prova que alguma coisa pode ser.

Esclareçamos a diferença entre pragmatismo e empirismo, visto que essas duas correntes filosóficas são assentadas na noção de experiência. Pois bem, a distinção se dá pelo modo como essas teorias entendem essa noção de experiência. Enquanto o empirismo (lógica indutiva) toma a experiência enquanto experiência passada, ou seja, como um patrimônio limitado que pode ser inventariado e sistematizado de forma absoluta, o pragmatismo (lógica abdutiva) entende a experiência como abertura para o futuro, ou seja, como possibilidade de fundamentar a previsão, não em confronto com a experiência passada, mas em relação com o possível uso futuro dessa experiência passada. Signo, para Peirce, é “algo que está no lugar de (representa) outra coisa para alguém”.
Signo é o que traduz de modo mais claro o clássico aliquid stat pro aliquo, ou seja, uma coisa que está por outra, como o conceito tradicional de signo cunhado por Santo Agostinho.
O signo designa, em sentido lato, o próprio signo, o objeto e o interpretante, ou seja, a “coisa significada” e a “cognição produzida na mente”. É à partir da relação do signo com o objeto que se determina ou se produz um interpretante.O interpretante é um representante pois constitui o nome do objeto perceptível e, como nome, servirá como novo signo ao receptor. Esse processo é infinito e se designa “semiose”. Infinito porque a produção de um “interpretante” é uma representação, logo, um novo signo, que produzirá um novo interpretante... e assim sucessivamente.A semiótica se caracteriza pelo estudo de três aspectos: gramática (sintaxe); lógica (semântica) e retórica (pragmática). Segundo Peirce, a gramática se denomina como um âmbito independente em que se concebe, pela relação ou conexão de signos, a tarefa de determinar o que deve ser verdadeiro quanto ao representante utilizado, cujo objeto é o de incorporar um significado qualquer. A lógica se denomina como o âmbito da semântica em que se concebe, pela relação ou conexão dos signos com os objetos, a perspectiva do que é quase necessariamente verdadeiro em relação ao representante, cujo objetivo é o de aplicar-se a qualquer objeto; uma lógica que, a partir da unidade do diverso, compreende a teoria unificada da dedução, indução e abdução (inferência hipotética). Já a retórica refere-se à eficácia da semiose (práxis do pensamento), cujo objetivo é o de estabelecer os procedimentos para que um signo possa dar origem a outro signo.O pragmatismo nada mais é que abdução.
A máxima pragmaticista como uma questão de lógica abdutiva tem por fundamento o juízo perceptivo como fonte de conhecimento. Os juízos perceptivos contêm elementos gerais, ou seja, embora juízos perceptivos sejam singulares, considerando o sujeito (por exemplo: este caderno é...), não deixam de envolver a generalidade, considerando o predicado (... branco), o que possibilita a dedução de proposições gerais e, assim, a concepção, como apresentada, de juízo perceptivo, que é um juízo particular, ser suficiente para responder a indagação de como se passa deles para os juízos universais. É pela lógica abdutiva que a generalidade é introduzida aos juízos perceptivos, ou seja, na criação das premissas como fundamento para a dedução e das teorias, como fundamento para a indução.
A lógica tradicional ou silogismo formal, concebe a distinção somente entre dedução (como uma inferência necessária que extrai uma conclusão já contida nas premissas) e indução (como uma inferência experimental que não consiste em descobrir ou criar algo de novo, mas, sim, de confirmar uma teoria através da experimentação). Daí, se a lógica tradicional só distingue dedução e indução, como se dá a criação das premissas e das teorias, como fundamentadoras da dedução e da indução? Será em resposta a essa questão que Charles Sanders Peirce apresentará a lógica abdutiva que é uma inferência hipotética (um lampejo, uma idéia, um ato de insight) e, provando que algo pode ser, é o método que cria novas hipóteses explicativas, não contidas nas premissas.
Assim, a lógica abdutiva é tomada como uma lógica da descoberta, da invenção ou da criação. O exemplo da saca de feijões dado por Peirce, permite uma maior compreensão da questão. 1) Todos os feijões daquela saca são brancos. Esses feijões são daquela saca. Logo, esses feijões são brancos (dedução).2) Esses feijões são daquela saca. Esses feijões são brancos. Logo, todos os feijões daquela saca são brancos (indução). 3) Todos os feijões daquela saca são brancos. Esses feijões são brancos. Logo, esses feijões são daquela saca (abdução).
Conforme o professor Júlio Pinto esclarece: “a abdução compartilha com a dedução o fato de ter a regra geral como premissa inicial (todos os feijões, etc). Entretanto, como a indução ela arrisca um palpite que pode dar errado. Olhada desta maneira, a abdução está, portanto, entre a indução e a dedução. Contudo, ela difere das duas também pela maior possibilidade de erro implícita na hipótese que ela lança, porque é fácil perceber como, tanto a indução quanto a dedução, estão baseadas na experiência”.
Dos tipos possíveis de inferência, portanto, a abdução constitui o único que se projeta para o futuro, já que tanto a dedução quanto a indução dizem do passado, do já conhecido, na medida em que se referem à experiência. Seus limites estão pautados pelas premissas. Como palpites, os processos abdutivos podem levar a erros, mas a falibilidade de uma hipótese não quer dizer que a abdução seja um processo de ensaio e erro. Fundamentalmente, o que acontece é que uma hipótese é formulada com base na experiência, através da escolha de um interpretante logicamente possível para os signos que se oferecem à observação.Na medida em que a abdução é um processo de formação de uma hipótese explanatória, é a única operação lógica que introduz uma idéia nova. Embora essa forma de argumento não ofereça segurança quanto a sua verdade, o seu valor em produtividade (sua uberdade) é elevado. A abdução “simplesmente” prova que alguma coisa pode ser.

Saiba mais: Tópica e Teoria Constitucional do Direito: as Eternas Aporias e a Uberdade da Abdução, de Luiz Augusto Lima de Ávila, publicado na Revista Brasileira de Direito Constitucional (RBDC) nº 7. Editora ESDC.

Charles Sanders Peirce

“O pragmatismo peirceano deveria ser tomado como o diagrama e o programa de uma lógica da ciência do futuro”. Lucia Santaella

No artigo anterior, ponderamos sobre as bases epistemológicas daquele que é considerado o “Pai” da Filosofia Moderna, o racionalista francês René Descartes (1596-1650). Relembrando, epistemologia se refere ao método que tem por objeto o conhecimento científico, visando a explicar os seus condicionamentos, sistematizar suas relações, esclarecer os seus vínculos e avaliar os seus resultados e aplicações. Abordamos a questão do método e explicitamos o dualismo cartesiano: “cogito (penso) ergo (logo) sum” (existo). Constatamos sermos compostos por duas substâncias (res), a extensa (corpo) e a cogitas (pensante). Mais diet impossível.

Agora nos debruçaremos sobre o legado daquele que é considerado o “Pai” da Filosofia Pós-moderna, o matemático, lógico e químico americano Charles Sanders Peirce (1839-1914) e o Pragmatismo. Segundo Antonio Medina Rodrigues, o termo “pragmatismo” (depois modificado para pragmaticismo) deriva-se do grego pragma, que quer dizer “coisas”. Para Peirce, ao invés de falarmos “sobre” as coisas, deveríamos experimentá-las, pois o melhor sentido sobre uma coisa vem dos efeitos práticos de manuseá-la.

O estudo dos métodos das ciências foi a maior, única e verdadeira paixão deste pensador que ansiava criar uma lógica das ciências, estabelecer um novo método. E o que ele fez foi tomar Descartes como seu primeiro interlocutor, não necessariamente para criticar mas, para ir mais além, transcendendo os horizontes que nos fora legado pelo filósofo francês. Sem dúvida, a construção de um novo método científico, obrigatoriamente trazia consigo esse confronto. Erigir as bases da epistemé, constitui ainda o maior desafio a ser suplantado, para que se possa orientar os esforços que culminarão numa unidade metodológica. Vale salientar que a proposta que Peirce apresentou não só discutiu as fundações dos métodos, mas nos deixou um vasto material de como utilizá-los.

Para uma melhor apresentação deste pensador, ampliaremos este artigo, pois far-se-á necessário versar sobre Pragmatismo, semiótica, signos, indução, dedução e abdução (tríade peirceana) e outros conceitos pertinentes à sua teoria. Recorreremos às obras da brilhante e renomada pesquisadora Lucia Santaella e ao estudioso Antonio Medina Rodrigues.

O Pragmatismo é uma corrente apta a enfrentar, embasando e fornecendo esteio aos mais diversos campos de discussão: filosofia da mente, lógica, filosofia da linguagem e epistemológica, filosofia social, das religiões e política, do direito, da educação e etc. Trata-se da aplicação prática do empirismo, ou seja, da experiência cotidiana, mas culmina também numa certa “radicalização” do empirismo pois os pragmaticistas consideram o que não é perceptível através dos sentidos também é válido como experiência. Lembremo-nos que, para os empiristas, não temos contato com a realidade, mas sim com a representação que fazemos dela, de como ela se apresenta e se parece para nós.

O método pragmaticista consiste em tentar interpretar todo o conceito pelas suas conseqüências práticas, por exemplo: admitindo que um determinado conceito seja verdadeiro e outro não, que diferença resulta, na prática, cada um? Não havendo nenhuma diferença prática, concluímos que as duas alternativas são equivalentes e que é inútil discutir pois, se dois conceitos não produzem conseqüências diversas, são indistinguíveis. Para que uma controvérsia se apresente, é necessário poder demonstrar qual conseqüência resulta precisamente do fato de que somente esta alternativa é a verdadeira.

Para que possamos alcançar a perfeita clareza, acerca das idéias relativas a um objeto, devemos nos ater objetivamente aos efeitos de caráter prático que ele, a nosso juízo, é capaz de determinar. Segundo Ubaldo Nicola “as impressões que devemos esperar dele, as reações para as quais devemos estar preparados. O conceito que fazemos de um objeto quando não é desprovido de qualquer significado positivo se reduz, portanto, ao conceitos desses efeitos imediatos ou remotos”. Eis o fundamento do Pragmatismo proposto por Peirce.

O Pragmatismo é um método de investigação que se opõe tanto à orientação empirista corrente quanto à orientação racionalista. Abarca a natureza com todas as possibilidades que pode encerrar em si, numa atmosfera ampla, na plenitude da total liberdade, posiciona-se contra as teorias artificiais, os dogmas, contra a falsa aparência do caráter teológico, não se alinhando a nenhuma solução particular.

Saiba mais: Lucia Santaella – O método anticartesiano de C.S. Peirce – Editora UNESP, 2004 – São Paulo, SP.

11 de jan de 2008

Descartes: o método cartesiano


“Conhecer é perfeição maior do que duvidar”. René Descartes

O Filósofo francês René Descartes (1596-1650), considerado “Pai do Racionalismo”, empreendeu significativa revolução na epistemologia que, nada mais é que o conjunto de conhecimentos que têm por objeto o conhecimento científico, visando a explicar os seus condicionamentos, sistematizar suas relações, esclarecer os seus vínculos, e avaliar os seus resultados e aplicações. A Filosofia busca o “discurso universal”, abandona o reino da doxa (opinião) para chegar ao lógos (razão), pois o discurso racional é próprio da Filosofia.

Alguns conceitos são relevantes nesta nossa empreitada: o processo dedutivo, estudado por Aristóteles na Antigüidade, foi retomado por Descartes e pelo racionalistas do século XVII como a única fonte de conhecimento segura. O processo cognitivo dedutivo consiste em, partindo de premissas ou postulados iniciais, chegar a conclusões lógicas verdadeiras. Obviamente, para que a conclusão seja verdadeira, é obrigatório que as premissas sejam válidas.

Nos primórdios da revolução científica, a necessidade de formular um método geral de pensamento científico foi arduamente perseguida, pois era necessário explicar a natureza da inteligência e da criatividade. Estamos nos referindo a ambiciosa empreitada de especificar com exatidão as etapas necessárias para se chegar a um método cognitivo correto.

Descartes debruçou-se sobre a questão de elaborar um “método científico” de pesquisa que garantisse a legitimidade dos resultados, pois Método refere-se a um conjunto de regras capazes de evitar erros e garantir a validade dos resultados. Erigir as bases da epistemé: eis a hercúlea tarefa de Descartes!

Dentre as principais obras de Descartes destacamos: “Meditações Metafísicas” e o “Discurso sobre o Método”, que visa a bem conduzir a própria razão e buscar a verdade das ciências. Os quatro preceitos do Método empreendido por Descartes são: 1º) Clareza e distinção (“nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum para duvidar dele”; 2º) Análise (“repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las”, chegando aos elementos mais simples); 3º) Ordem (“o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e presumindo até mesmo uma ordem entre os que não precedem naturalmente uns aos outros”. Defende a dedução como forma de ampliar o saber, do mais simples ao mais composto) e 4º) Enumeração (“efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir”. Para que todos os elementos sejam considerados e para verificar se a visão total está de acordo como as regras que foram aplicadas).

Os pressupostos de Descartes revelam-se em sua célebre frase: cogito, ergo sum, penso (duvido), logo existo, sintetiza sua brilhante conclusão de que o pensamento é uma realidade em si mesmo, uma substância, distinta e diferente da matéria. Há duas substâncias finitas (res cogitas e res extensa) e uma finita (Deus). Substância (res) adquiriu um conceito fundamental no século XVII: de natureza simples, absoluta, concreta (realidade intelectual) e completa. Somos portanto uma substância (res) pensante (cogito) e também uma substância (res) que possui corpo, matéria (extensa).

Este dualismo cartesiano evidencia que cada indivíduo reconhece a própria existência enquanto sujeito pensante: nossa essência é a razão, o ser humano é racional. O cogito é a consciência de que sou capaz de produzir pensamentos, é um meio pragmático de dar início ao conhecimento. Estamos afirmando, portanto, uma verdade existencial. Há uma coincidência entre meu pensamento e minha existência. Existencial (cogito) é intelectual, para pensar é preciso Ser. A certeza da minha incerteza é infinitamente superior à certeza da matemática. As idéias matemáticas possuem referências necessárias a conteúdos (formas), já o cogito é capaz de fazer abstração de todo conteúdo.

O primeiro conceito de Descartes, portanto, denomina-se “dualismo cartesiano”, admitindo a existência de duas realidade: alma (res cogitans) e corpo (res extensa). A independência entre alma e corpo conduzirá a uma nova separação: sujeito e objeto. O segundo conceito de Descartes refere-se ao “idealismo”: o conhecimento é possível à partir das idéias: sujeito => idéia (representação mental na presença ou não do) => objeto.

Voltando ao método, a lição mais preciosa de Descartes é a de começar duvidando absolutamente de tudo, a não confiar nos sentidos e exemplifica como eles podem nos enganar. Quantas vezes, acordamos espantados por termos sonhado e este sonho nos ter parecido tão real? Ao observamos um galho submergido n'água, nossos olhos vêem que ele fica torto após tocar a água, mas sabemos que isso é uma ilusão: o galho permanece reto, mas nossos olhos nos dizem que não.

Mito e Razão

Onde está a Verdade (aléthea): no mito (mýthoi) ou na razão (lógoi)?

Costumeiramente, abordamos a obra de um Pensador, infelizmente já falecido e, com isso, deixamos de saber: o que faz um Filósofo vivo e atuante? Consternados com a perda recente do maior especialista em Grécia Clássica, o renomado Filósofo, historiador e antropólogo francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007), vamos conhecer um pouco de seu legado e desvelar o complexo e exaustivo trabalho de uma de suas discípulas: trata-se da competente Filósofa brasileira Ivanete Pereira.

Sua obra “Aspectos sagrados do mito e do lógos”, de notória qualidade acadêmica, é prova incontestável da condutora e inapagável luz de Vernant que, tomada com maestria pela autora, mantém acesa a chama que adentra à escuridão de nossa caverna.

Pereira busca esclarecer a importância e o lugar do lógos alethés (palavra sagrada) anterior à sua transformação em lógos filosófico. Arqueóloga, a pensadora retrocede ao Império Micênico e esmiuça uma delicada e fundamental questão: a de quando, como e porque se dá a separação entre o mýthos e o lógos.

O mito, esclarece Rachel Gazolla: “faz parte de nossa psyché, é um modo de ler o mundo, não é irracional, como querem alguns intérpretes. A palavra irracional, hoje, é extremamente pesada para explicar o pensamento mítico; afinal, ele é um pensamento bem estruturado, porém sem necessidade de provas, de argumentos. Seu valor de verdade não é aferido por sentenças, não se trata somente da linguagem, do lógos como discurso argumentativo, pois a psyché é bem mais extensa que a criação do pensar-dizer na forma sentencial”.

Em “Aspectos sagrados do mito e do lógos”, vemos que “ambas as palavras tiveram praticamente a mesma origem e uso iniciais, mas, após ocorrer uma diferenciação no uso, o mýthos ficou vinculado às narrativas acerca dos deuses, e o lógos, revestiu-se do aspecto lógico da filosofia”.

Mas onde estaria a Verdade (aléthea)? No mito ou no lógos?

Segundo o saudoso Jean-Pierre Vernant: a “Verdade (aléthea), não pode ser separada da ordem ritual, da prece, ou do direito, ou da potência cósmica que garante o retorno regular das auroras”. Sendo o “Lógos alethés” palavra divina e verdadeira, dispunham dela, os basileus (reis), os sacerdotes (advinhos) e os aedos (poetas), sendo que estes últimos as recebiam diretamente da divindade, mediada pelas Musas, filhas de Zeus e Mnemosyne. Inspiravam o poeta ditando-o ao seu ouvido, fazendo dele um mero porta-voz do “divino” (théos).

Para Vernant “Mýthos é da ordem do legêin, como indicam o composto mythologêin, mythología, e não contrasta inicialmente com os logoí, termo cujos valores semânticos são vizinhos e que se relacionam às diversas formas do que é dito”.

Ivanete Pereira salienta que “num determinado estágio da sociedade grega, os dois conceitos, mýthos e lógos, não apresentavam grandes diferenças entre si. E a palavra formulada no contexto de uma narrativa sagrada como a Teogonia que narra a origem dos deuses pelo monumental poeta grego Hesíodo, tanto pode ser considerada mýthos como hiéros lógos (discurso ou palavra sagrada). Só muito mais tarde essas palavras do vocabulário épico cairão em desuso e serão praticamente substituídas por lógos e legêin”. Ao que parece, foi esse processo de substituição que gerou a idéia posterior de oposição entre mýthos, que ficou associado aos hieroí logoí, e lógos, que passou a ser associado à Filosofia.

Para que possamos compreender melhor o fenômeno comum ao processo de evolução lingüística, onde há ambigüidade lexical, ou seja, a palavra tem mais de um significado, tomemos por exemplo a palavra “animal”. Como explica Jean Lauand, seu emprego sempre fora o de nomear os animais, o não-humano. Hoje, embora “animal” permaneça referindo-se à espécie, compreende-se que, quando algo se revela excepcionalmente bom, ousado ou radical (resquício da arrojada ferocidade de alguns animais?) é adjetivado de “animal”.

No caso da palavra lógos, contribuiu para isso seu uso no âmbito das matemáticas e da teoria da música dos pitagóricos, uma vez que o significado original do termo mythologêin (“reunir” e “contar”) é mais apropriado aos números. Gadamer explica: “...a palavra lógos narra nossa história desde Parmênides e Heráclito. O significado originário da palavra “reunir”, “contar”, remete ao âmbito racional dos números e das relações entre números no qual o conceito de lógos se constituiu pela primeira vez”. A partir desse contexto se generaliza a palavra lógos como conceito contrário a mýthos. Em oposição àquilo que refere uma notícia que sabemos somente graças a uma simples narração, “ciência” é o saber que repousa sobre a fundamentação e a prova.

Pereira esclarece que “com o tempo, as duas palavras passaram a ser utilizadas em oposição: uma, dado o uso associado à épica, passou a designar as narrativas sobre os deuses; outra passou a ser usada para designar a palavra do filósofo que, em oposição à narrativa sagrada, é objeto de reflexão e, eventualmente, até de comprovação. Desvincula-se, assim, a palavra que discorre acerca do ser e das coisas, a palavra-movimento, da palavra que simplesmente narra a história dos deuses como um fim em si mesma”.

Considerando o que foi exposto acima, concluímos que a genialidade de Ivanete Pereira está na tese de que “não se pode pensar que há oposição de sentido entre esses termos, pois tanto os lógoi, os mýthoi podem ser portadores da Verdade (aléthea)”.

Saiba mais: Aspectos sagrados do mito e do lógos – Ivanete Pereira. Educ-2006.
As Origens do Pensamento Grego – Jean-Pierre Vernant. Trad. Ísis Borges B. Da Fonseca. 11ª ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.
Mito e Pensamento entre os Gregos – Jean-Pierre Vernant. Trad. De Haiganuch Sarian. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
Mito e sociedade na grécia antiga – Jean-Pierre Vernant. Trad. Myriam Campello. 2 ed. Rio de Janeiro, José Olympio.
Entre mito e política – Jean-Pierre Vernant. Trad. Cristina Murachco. 1 ed. São Paulo, Edusp.

O que é o Homem?


Complexo, multifacetado, em constante processo de evolução. Pensadores de diversas áreas tais como antropólogos, sociólogos, psicólogos e sobretudo, filósofos estudam este diferenciado animal político. A seguir, uma breve exposição de algumas características que nos distinguem.

Ao observar que fecundar entre os seus (endogamia) gerava monstruosas aberrações, seres inaptos e dependentes que, ao invés de contribuir para manutenção e aprimoramento do clã, acabavam por se tornar um estorvo, prejudicando todo bando, o homem, com a proibição, o interdito do incesto, procria com membros de outros grupos (exogamia), estabelecendo assim a diferenciação primeva e mais notória de sua categoria animal: racional.

Sigmund Freud (1856-1939), identifica um sistema ternário inerente à condição psíquica humana: origem, sexo e morte. Eros e Tánatos: pulsão de libido (ação) e de morte (não-ação, repouso). Órfão, numa cega e desesperada curiosidade genealógica é homoreligious, em sua eterna busca pelas origens, pelo Pai, à procura do Criador.

Ser de alteridade, ou seja, tem sua presença atestada por outro Ser: só existo à partir do momento em que o Outro me confere existência. Sobre esta temática é interessante conferir a famosa peça de teatro do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) “Huis Clôs”, traduzida para o português com o título de “Entre quatro Paredes”, onde quatro pessoas morrem e vão parar no inferno. No ambiente fechado, entre quatro paredes, vivem a angústia de ficar imaginando o que o outro está pensando que se está pensando. Conclui-se que “o inferno são os outros”.

O homem é também um angustiado Ser para a morte, cônscio da finitude, embora rotineiramente se esquive de pensar no fim. Tabu, esse tema é deletado, como se a vida já não implicasse em morte, como se por trás de todo berço não houvesse um túmulo.

Axiológico, estabelece valores, hierarquiza prioridades, sendo que estes valores servem, antes de tudo, ao princípio freudiano de buscar o prazer e evitar a dor.

Homolaborius, trabalha e constata ser um sujeito dotado de perfectibilidade, ou seja, sempre capaz de aprimoramento contínuo. Homoludens, brinca: canta, dança, cria, pinta, borda e, na arte, transcende, atinge, toca e é tocado pelo sublime.

Ser de linguagem, decodifica, nomeia, apreende, registra, transfere conhecimentos. Será também graças à linguagem que será capaz de mentir, podendo representar o que é bem sob aparência de mal, e o que é mal sob a aparência de bem. Paradoxalmente, quanto mais esvaziado, mais tende à tagarelice, típica das massas.

Descobre-se Sujeito histórico, constata e reconstitui o progresso de sua evolução no mundo, avalia, pondera e, conforme sua vontade, direciona energia empenhando-se em atingir um télos (finalidade/objetivo) já estabelecido por seus valores, fruto de seus desejos.

Aristóteles define o homem como sendo Zoopolitiken. Aqui, entendemos o animal político como sendo um Ser de “acordos”. Não necessariamente justos, como bem o queria o filósofo grego Platão, quando enaltecia a simetria, harmonia e eqüidade, enfim, a Justiça.

Sendo seu próprio adversário, como bem sintetizou o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) “o homem é o lobo do homem”, luta para dominar, conquistar, preservar e muitas vezes, desrespeitar, usurpando o direito do Outro, estabelecendo limites aos estrangeiros (estranhos), erigindo muros, limites e fronteiras. Mesmo quando esse estranho é objeto de seu amor e devoção.

Como salientamos no início, o homem é um Ser complexo em processo de vir-a-ser. Mas será como intolerante Ser de Fronteiras, estabelecedor de limites, que o homem conservará e revelará sua mais animalesca característica: a de delimitador de território – Meu imenso país, possui muitas riquezas naturais; Na minha cidade se trabalha; Meu bairro é o mais arborizado; Minha rua é a mais enfeitada; Na minha casa não! Ou: este é o meu quarto, deixe-o como está; E, mesmo em seu quarto, junto a quem ama, não o subestimem: este é o meu lado da cama.

Seja na visão da floresta como um todo, ao observarmos as grandes nações mundiais e suas políticas de exclusões, ou na observação singular da árvore do cotidiano, é na ferrenha manutenção de fronteiras, na preservação de imensas barreiras, que o homem conserva distâncias e garante sua vasta solidão no mundo.

Magia, Mito, Rito e Religião


O homem, ao inserir-se no mundo, delimita o espaço e o tempo. Desde os primórdios, os antigos prestavam homenagens ao divino manifesto pois, o simples contemplar do infinito na abóbada celeste era suficiente para desencadear uma experiência de religião (re-ligare).

Intrigado com a Magia da physis, o homem imagina Mitos, elabora Ritos que re-atualiza o Tempo, religando-se ao Cosmos.

No paganismo arcaico, em gratidão à singela magia do cíclico germinar de cada semente ou à aurora de cada dia, o homem sacralizava o espaço de potentes cachoeiras, de imponentes rochedos que avançam aos céus e dos rios que o saciavam e alimentavam-no e, lá delimitava o fannum (sagrado). Neste, identificava o asylon (altar), onde depositava as primícias (primeiras colheitas) das dádivas da natureza. Pela suprema sacralidade do asylon, nele toda pessoa estava resguardada de sofrer qualquer ato de violência, daí o termo “asilo político”, quando se pretende salvaguardar a vida de alguém que se encontra sob ameaça.

O tempo, para o homem religioso ou não, divide-se em sagrado e profano (fora do fannum), e será através dos ritos que ele atualizará o tempo mítico primordial. Segundo Mircea Eliade “toda festa religiosa, todo tempo litúrgico, representa a re-atualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico, nos primórdios”.

Ao participar de festas como o Natal e o Ano Novo, deixamos o tempo ordinário e nos integramos no tempo mítico que é re-atualizado pela própria festa. Esse Tempo sagrado é indefinidamente recuperável, repetível. O homem reintegra esse Tempo Circular, periodicamente, pela linguagem ritual.

Na festa Cristã: a decoração festiva das árvores de natal; o capricho com que se busca reconstruir o cenário do nascimento de Jesus através dos elementos do presépio (o estábulo, a manjedoura, o burrico, as vaquinhas, a chegada, posterior, dos três Reis magos/astrólogos, que perseguiram por dias e noites a luminosa estrela de Belém, na verdade uma poderosa e brilhante conjunção planetária); a preparação de uma ceia especial, com seus alimentos típicos tais como peru, nozes, castanhas e panettones entre outros; a reunião e confraternização familiar com a troca de presentes. Tudo isso faz parte do rito que re-atualiza o mito, fruto de uma magia que nos religa ao Divino.

Em nosso mundo moderno, nos desligamos progressivamente dos padrões rituais de re-ligação tradicionais, como se a santificação periódica do Tempo cósmico fosse insignificante e inútil. O significado religioso do nascimento do Cristo, com a repetição dos gestos exemplares é esquecido. Ainda segundo Eliade: “a repetição esvaziada de seu conteúdo conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência”. Dessacralizado, o Tempo cíclico torna-se terrífico: revela-se como um círculo girando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo-se até o infinito.

O homem não-ritualista não acessa o mistério, pois para ele, o tempo constitui a mais rasa dimensão existencial, está ligado meramente à sua própria existência, tem apenas começo, meio e fim, que é a morte, e aí, sem religião, nenhum significado transcendente pode se inserir.
Já o Ano, dessacralizado, é um círculo matematicamente fechado, tem começo, meio e fim. Ritualizado, possui também o poder de “renascer” sob a forma de um Novo Ano. A cada reinício, recria-se um Tempo Novo, puro devir, porque ainda não foi usado.

Neste ano vindouro, o ingresso de Júpiter no signo de Sagitário prenuncia elevação dos Saberes, ampliação de conhecimentos filosóficos, de estudos superiores, abundância de riquezas materiais mas, em contrapartida, a expansão do fanatismo religioso o que, numa futura conjunção com Plutão, poderá culminar em tragédias de proporções alarmantes, mobilizando a intervenção de Zeus através dos homens.

Dentre os rituais para comemoração da chegada de um Novo Ano, está o trajar-se de branco, pular sete ondas no mar, brindar com champagne, comer lentilhas ou romãs e, mais uma vez, inevitavelmente, homo religiosus, nos dirigiremos à majestas da imensidade dos céus conclamando a Paz.

Maquiavel - pioneiro numa teoria do Estado


Platão e Maquiavel são os únicos filósofos a terem seu nome transformado em adjetivo. Enquanto platônico refere-se à algo idealizado (portanto, perfeito), o pejorativo termo maquiavélico remete a algo perverso, ardiloso, traiçoeiro. Fora do contexto o pensamento de Maquiavel torna-se maquiavélico e o de Platão, platônico.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), apaixonado pelos assuntos de Estado, é natural da cidade Florença. Sua revolucionária teoria política é fruto de uma meticulosa análise das causas que determinam a prosperidade ou a decadência de grandes impérios antigos e de sua vasta experiência administrativo-burocrática frente aos conflitos econômicos, políticos e sociais que permeavam as cidades/principados, especialmente sua Florença, a rival Pisa, a portentosa Roma e a próspera Veneza.

O Maquiavelianismo explicita a realidade interna do poder político, que é um fenômeno social e recomenda ao “Príncipe”, ao governante, o estabelecimento da supremacia do senso prático (virtù) aliada à boa sorte (fortuna).

Renascentista florentino, na terra dos astrônomos/astrólogos, dos filósofos/magos, revelou-se metafísico. Talvez conhecesse os trânsitos anuais do benéfico planeta Júpiter, sabedor de que ela, a Roda da Fortuna, se altera. 

Como Heráclito reconhece que “Tudo Flui”, apontando a transitoriedade do Poder. Cabe então ao homem de virtù, do homem provido de talentos e de um aguçado senso de oportunidade, saber extrair o máximo das ocasiões que lhe são favoráveis, antevendo e precavendo-se contra os infortúnios. O homem de virtù conhecedor atento do Bem e do Mal, corta este último pela raiz, “faz a hora, não espera acontecer”.

A política tem uma ética e uma lógica próprias. Retirando o caráter divino do poder, como que diante de um microscópio, ele observa que os ditames moralizantes podem significar a ruína do governante. Considera haver dois humores bem distintos: o dos ricos (poderosos!) e o dos pobres (o povo). Mantê-los em constante equilíbrio é arte política pois, como Aristóteles, pondera que o melhor Estado é o que tem poucos ricos, poucos pobres e bastantes remediados.

Sua obra é de agradabilíssima leitura. Uma das marcas de seu estilo é o pensamento dilemático: indaga sobre uma questão, discorre sobre as opções e conclui apontando a melhor alternativa.

Até “O Príncipe”, escrito em semanas, dispúnhamos somente de formas idealizadas de organizações políticas e sociais, mas não de um conjunto de técnicas eficazes que constituísse a arte de estabelecer um bom governo que perdure o maior tempo possível.

Estamos nos séculos XV e XVI, com o prenúncio do capitalismo, do insurgir da burguesia, com o início do declínio do poder da igreja, das grandes navegações, do revolucionário heliocentrismo, da defesa do método de investigação empírica. Trata-se notoriamente de uma instável e perturbadora época de transição que afetará o poder político, embora ainda imperassem a tirania e a ilegitimidade que geravam diversas e dramáticas situações de crise.

O caos reinava nos pequenos principados: sem recursos para impor alguma ordem, de se fortalecerem militarmente, impossibilitados de contar com uma coesão política e temerosos que o povo descontente se arme, tornam-se alvo fácil para os condottieri: mercenários, hábeis especialistas militares, que disponibilizam seus préstimos a quem melhor os remunerasse.

Maquiavel sonha com uma Itália unificada, acredita que somente um governante enérgico, astuto e criativo seja capaz de congregar e estabelecer a ordem econômica e sócio-política.

Traços humanos imutáveis tais como a avidez pelo lucro e a volubilidade como a dos os condottieri levarão Maquiavel a afirmar que “a soberania política depende de exército próprio, constituído por soldados leais e convictos de que lutam pela causa da pátria”. No “Discurso Sobre a Preparação Militar Florentina”, afirma que os Estados e governantes dependem de dois itens: justiça e armas. Por justiça entende um conjunto de sólidas instituições mantenedoras da estabilidade e da ordem social, que são as bases sobre as quais podem ser construídas as virtudes cívicas.

Mestre da maldade ou conselheiro que alerta os dominados contra a tirania? Rousseau esclarece que “Maquiavel, fingindo dar lições aos Príncipes, deu grandes lições ao povo”.

Quando a Fortuna, considerada por ele uma mulher, lhe dá às costas, Maquiavel é esquecido pelos novos poderosos da república e, em profundo desgosto, falece aos 58 anos de idade, ocasião de seu segundo regresso de Saturno.

Saiba mais: Maquiavel, N. - “O Príncipe” - Coleção Os Pensadores. Editora Nova Cultural.
Maquiavel, N. - “Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio (Discorsi)”, tradução de Sérgio Bath, Brasília, UnB, 1979 (Nova edição revista, UnB, 3ª ed., 1994).
Valverde, Antonio J. R. - “O problema da Liberdade no Primeiro Livro dos Discorsi, de Maquiavel, Relatório nº 8/1999, S. Paulo, NPP-FGV, 1999.

Kierkegaard: a conduta humana e os estágios estético, ético e a religioso


“o dever não é uma coisa imposta, mas algo que me incumbe”. Sören Kierkegaard

O filósofo e teólogo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) é considerado precursor do existencialismo, tendo influenciado Heidegger, Sartre e Kafka, além de Thomas Mann e Ibsen. Considerado o mais profundo intérprete da psicologia e da vida religiosa desde Santo Agostinho, ao apontar o desespero e a angústia inerentes a todos nós, legou-nos uma profunda análise da consciência humana. Dentre suas obras destacamos: Ou Isto ou Aquilo, Diário de um Sedutor, O Desespero Humano, e Temor e Tremor.

Para ele, o homem nasce com corpo e alma e, aos poucos, durante sua existência, através de suas escolhas, vai construindo o Espírito. “A verdade é a subjetividade”, não se escapa desta que é, para o indivíduo, sua própria medida e significação. Às etapas que constituem o caminhar ao transcendente, Kierkegaard denominou de “Stadium” e estes são o estético, o ético e o religioso. São etapas autônomas e descontínuas, pois a passagem de um estágio a outro se dá através de uma brusca ruptura ou de um salto.

Quando se encontra no estágio estético, que é o mundo da matéria, o homem vive no e para o “aqui e agora”. É neste estágio que nos deparamos com a mesquinhez e o narcisismo, onde nada é estritamente impossível. O que interessa ao homem deste estádio é o Don Juanesco jogo da sedução, da manipulação onde os meios justificam-se pelos fins. O sujeito apropria-se do entorno e faz de sua existência uma representação exclusivamente individual, não considera a instância de deveres éticos ou das obrigações sociais, esgota-se na exterioridade representada. O esteta vive na esferas das possibilidades e a expressão desse sujeito é sua rica, variada e vasta mobilidade de sentimentos.

Na obra “O Diário de um Sedutor” encontramos o personagem Johannes, um ardiloso jovem que goza, acima de tudo, da possibilidade da conquista mais que do próprio objeto da conquista. Ele faz da inocente Cordélia sua vítima e a vê como uma “presa” a ser meticulosa arrebatada e ardilosamente descartada. Por se tratar de um personagem extremamente inteligente e consciente, possuidor de uma visão de mundo onde coloca-se acima de tudo e de todos, uma das facetas de sua personalidade é a ironia.

No entanto, a insaciável e perpétua busca por novidades conduz ao desespero. Na vida do homem do estágio estético, submerge inevitavelmente a melancolia – que é fruto de uma personalidade que permanece na imediatidade, absolutamente desprovida de uma reflexão ética.

À partir de um salto para o estágio ético, o homem busca se auto-afirmar como sujeito, caminha para a realização dos deveres expressos por seus julgamentos de conduta ético-moral. O personagem que retrata essa transformação é o do juiz Guilherme. Segundo Reichmann “A personalidade quer tomar consciência de si mesma em sua validez eterna. Se isto não suceder o movimento permanece contido e, se a personalidade é reprimida, então surge a melancolia. Muito se pode fazer para mergulhá-la no esquecimento. Pode-se trabalhar, distrair-se, mas a melancolia permanece. Na melancolia existe algo de inexplicável. Quem tem sofrimentos e preocupações conhece sua causa. Quando se pergunta a um melancólico qual a razão de sua melancolia, o que o oprime, responderá que não sabe, que não pode explicá-lo. Nisto consiste o infinito da melancolia. Desde em que se a conhece, a melancolia deixa de existir, enquanto que o sofrimento do aflito não cessa pelo fato de conhecer a causa da aflição. A melancolia é um pecado de não querer profunda e sinceramente”.

Kierkegaard afirma que será por meio de suas escolhas que este homem vivenciará sua história, sendo esta parte indissociável das opções que fizer. No esteta, o mundo é terreno das sensações agradáveis; no estágio ético, o homem está consagrado às leis morais. Segundo esta teoria, desde sua origem, o homem encontra-se na “não-verdade” e, não podendo ser sua própria referência, necessita de um mediador externo ao “eu”.

A única esperança para o desespero humano está na compreensão da própria existência, que é finita. E tal compreensão só se alcança pela fé. Todas estas alternativas possíveis representam um risco e, como Kierkegaard quer que o homem se veja impulsionado pelo infinito, sua decisão tem de optar entre o Todo ou o Nada.

No estágio religioso supõe-se a intervenção de um elemento exterior, descortina-se uma nova e paradoxal realidade, trata-se da fé, da crença numa instância superior, num “Deus”. Convém ressaltar que, mesmo religioso, Kierkegaard foi um crítico mordaz das instituições religiosas, apontando-as como monopólio organizado, que tratam de administrar o que pertence ao domínio privado da alma individual: a fé.

Este estágio é pessoal, subjetivo. Pode ser ou não vivenciado com fervor por um rude e anônimo camponês, como também pelo mais elevado intelectual. Este salto que é dado mediante a relação direta entre o homem e Deus está retratado no mito judáico-cristão de Abraão, a quem seu Deus pede o sacrifício do filho Isaac. Trata-se de uma questão puramente de fé. Sabemos que, ao final, Deus suspende a realização desta prova.

A fé exige o sacrifício de Isaac, ou seja, um salto no escuro, a disposição sincera de abdicar daquilo que consideramos mais precioso. Paradoxalmente, “é preciso puxar a faca para que se possa ter Isaac de volta”. Isso é fé.

Saiba mais: Kierkegaard, Sören. Johannes Climacus ou é preciso duvidar de tudo. Prefácio e notas de Jacques Lafarge. Tradução de Silvia Saviano Sampaio. Revisão de Álvaro Valls e Else Hagelund. São Paulo, Martins Fontes, 2003.

Kant: É possível a metafísica como ciência?

“Duas coisas enchem meu coração de admiração e veneração sempre renovadas e crescentes: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”. Immanuel Kant

O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), merecidamente, figura entre as estrelas de primeira grandeza no céu estrelado sobre nós, a saber: Sócrates, Platão e Aristóteles, por exemplo. Neste artigo recortaremos o percurso de Kant ao indagar sobre a possibilidade da metafísica como ciência e, oportunamente veremos como este monumental filósofo funda a ética na racionalidade. O famoso imperativo categórico nada mais é que a razão (independente da religião) fundando a “lei moral dentro de nós”.

Para compreendermos a filosofia kantiana, convém contextualizar o momento histórico no qual suas teorias foram desenvolvidas. O filósofo francês René Descartes (1596-1650), aplicando um método de raciocínio absolutamente lógico, numa dieta sem precedentes, reduzira a compreensão da existência humana em res cogito (coisa pensante) e res extensa (coisa que possui extensão): corpo e mente. Kant foi herdeiro deste dualismo cartesiano, assim como também vivera a influência do surgimento da mecânica newtoniana. Com a física de Isaac Newton, a implicação da relação fenomenológica causa-efeito fora estabelecida. A ciência físico-matemática impõe seus sistemas de leis.

A física trata da realidade, de fatos mensuráveis e matematicamente demonstráveis. Quanto à metafísica, o termo foi utilizado pela primeira vez por Aristóteles para distinguir seus escritos de física daqueles que estavam para “além” da física. A metafísica se ocupa de abstrações intangíveis e não demonstráveis empiricamente (pela experiência) tais como a existência de objetos transcendentes, como Deus ou a Alma, por exemplo.

No início da obra Crítica da Razão Pura, Kant afirma que todo conhecimento começa com a experiência, mas logo à seguir esclarece que isso não prova que todo ele derive da experiência. Nossa mente nos pré-condiciona a alguns conhecimentos sem que haja comprovação de sua veracidade pela experiência, impressões dadas pelos sentidos.

O tempo e o espaço, por exemplo, são denominados conhecimento “a priori” porque nossa faculdade de inteligir esses conceitos são dados à nossa mente sem que haja necessidade de uma comprovação empírica.

Tempo e espaço são elementos apriorísticos porque somos (res extensa), pensamos (res cogito), enfim, quando “existimos” já contamos com eles. As demais interações que tivermos com o mundo partirão do pressuposto de que ocupamos um lugar, num tempo.

Já nossos sentidos (visão, olfato, paladar, audição e tato) nos proporcionam conhecimentos – do mundo que nos cerca e de todos os objetos que nos cercam neste mundo – por meio da sensibilidade que vem da experiência de ter tido algum tipo de contato com o que se nos apresenta. A esse tipo de conhecimento Kant denominou “a posteriori”.

Dentre os problemas sobre os quais o filósofo de Königsberg se debruça está a busca em saber se seria possível estabelecer a metafísica como ciência (lembremo-nos que ciência para Kant é a mecânica newtoniana). Entendendo-se como ciência um conhecimento universal e necessário. Universalidade significa exatamente o que a palavra diz: universal porque se cumpre em todos os casos ou que se vale sem exceção.

Já necessidade quer dizer que um enunciado é logicamente necessário quando sua negação implica uma contradição, por exemplo: se definirmos um triângulo como uma figura de três lados, logo, uma figura de três lados é um triângulo. Nas palavras de Mario Porta: “a lógica explicita a legalidade da Razão, sendo essa (a razão) a fonte da necessidade presente naquela (a lógica)”. Ciência seria conhecimento que reune as qualidades de universal e necessário . A matemática, por exemplo, trata-se de um juízo (entendimento) universal e necessário. Retomando a indagação: é possível a metafísica como ciência?

Kant conclui que não pois é impossível que comprovemos, através da racionalidade, a existência ou não de algo como a metafísica que, se existe, está fora do âmbito do que se estabeleceu como ciência (Universalidade e Necessidade).

De fato, é mesmo irracional querer comprovar com a razão algo que corre por fora dos trilhos por onde serpenteiam os vagões da racionalidade. A razão não tem como dar conta do que foge à possibilidade de entendimento ou seja, da inteligibilidade do sujeito cognoscente e a inexata metafísica, como alma d' outro mundo, vagueia para além dos domínios da razão.

Saiba Mais: Crítica da Razão Pura – Immanuel Kant. Fundação Calouste Gulberkian.
A filosofia a partir de seus problemas – Mário Ariel González Porta. Ed. Loyola.

O Poder do Discurso


Gisele Bündchen declara ter tido cinco parceiros sexuais (Vogue); Malu Mader afirma ter “dado” pouco (Marie Claire); Luíza Brunet revela um aborto aos dezesseis anos (Contigo); a Rede Globo escandaliza ao inserir na novela das 8 o depoimento de uma idosa relatando seu primeiro orgasmo.

Protágoras nos alerta sobre a subjetividade da verdade ao nos legar a máxima de que “o homem é a medida de todas as coisas, das que são porque são e das que não são porque não são”. Como já fundamentamos a relatividade da verdade no artigo anterior, analisaremos agora o poder que o discurso em voga exerce sobre o sujeito.

Palavra é um poder que se estabelece através da produção do discurso e, como o homem, está em constante mudança. Submete-o ininterruptamente à produção de novos discursos e novas verdades, modificáveis e em perpétuo deslocamento.

O sujeito altera seu ethos, modo de ser e de agir, conforme o discurso vigente. O poder nos interroga, registra e institucionaliza a busca pela verdade. Profissionaliza-a e a recompensa.
Aquilo que faz com que um corpo, gestos, comportamentos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos do poder do discurso. O sujeito não é “o outro” do poder, ele é um dos primeiros efeitos e centro de transmissão do poder pois este só funciona em cadeia, só se exerce em rede. De modo que seus valores e sua identidade são produzidos pelo discurso no qual ele está inserido.

O pensador francês Michel Foucault (1926-1984) investiga sobre que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos. Produzir verdade é então uma necessidade imperativa do poder. E “O que é o poder?” Para Foucault: “um jogo de forças, portanto reversível”. Como o discurso nunca é o mesmo, o poder é anônimo, é “legião”.
Afirma que em qualquer sociedade existem relações de poder múltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social. Estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer, nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação, enfim, um funcionamento do discurso.

No século XIX, a moral vitoriana imperava, era o auge da repressão sexual. O sexo era tema tabu e ato proibido fora das normas pré estabelecidas pela sociedade vigente. Desde que o Pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1938) libertou o discurso sobre o tema proibido, a pressão sobre a explicitação da intimidade do indivíduo vem sendo desenfreadamente exercida de modo inverso: ele se vê constantemente incitado e até mesmo coagido a falar detalhes de sua vida íntima e de seus hábitos sexuais não mais somente ao padre, ao psicanalista ou ao médico, mas de forma mais avassaladora na mídia. E a mídia é hoje a instituição de poder que mais formata o corpo, a sexualidade e a individualidade.

É ordinário que tanto pessoas famosas, as eleitas “celebridades”, quanto as anônimas escancarem detalhes de sua intimidade em rádios, jornais, revistas, televisão, internet, orkut, msn etc. Discorre-se naturalmente sobre o número de parceiros, tipologias orgásticas, abortos, fantasias e preferências sexuais entre outros.
O poder do discurso subjaz em mecanismos infinitesimais, quase que imperceptíveis e penetra o mais fundo possível no sujeito que sequer se dá conta da imposição deste dispositivo anônimo de normatização. É a norma; é normal. É este mecanismo que as faz revelar publicamente suas intimidades. São os mesmos meios de poder sobre a palavra da reprimida sociedade vitoriana que, agora diametralmente oposta, impõe a obrigação de falar de sexo.

Estamos submetidos a este poder midiático, também no sentido em que ele é lei e produz o discurso que decide, transmite e reproduz os efeitos de “verdade”. Somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar papéis e destinados a um determinado modo de viver, de desfrutar a sexualidade e de morrer em função dos discursos que trazem consigo efeitos específicos do poder. Expôr o indivíduo, explicitar e banalizar sua intimidade: são as palavras de ordem na atual Idade Mídia.

PS.: Os exemplos citados no início do texto não estão para corroborar julgamento de conduta no sentido de “certo/errado”, mas de moral em seu sentido original: Mores (do latim) = Costumes.

Saiba mais: Michel Foucault – A ordem do Discurso. Edições Loyola.Michel Foucault – Microfísica do Poder. Ed. GraalSalma Tannus Muchail – Simplesmente Foucault. Edições Loyola.

ALETHEIA - O que é a Verdade?



Sophistés (Sábios) fora a denominação empregada a um grupo de práticos intelectuais estrangeiros (metecos) que, na Atenas do século V, proporcionavam seus ensinamentos sobre a arte do bem falar, fundamentando o discurso em argumentos logicamente coerentes e por isso mesmo, unânimes.

Sofistas, então, ministravam aulas de retórica àqueles que tinham por aspiração dedicarem-se à carreira política e, claro, tinham dinheiro para pagar-lhes.

Este detalhe prático (Ta Prágmata) viria a causar certo desdém e repugnância por parte daqueles que se consideravam verdadeiros “Filósofos” (Ta Onta).

Os sofistas Protágoras, Górgias e Trasímaco são, por excelência, os maiores nomes do ensino da arte da retórica na Grécia de Sócrates e Platão. Para Górgias, o discurso é entendido como o veículo no qual o mundo se torna possível para a compreensão humana.

Para ele, “o ordenamento duma cidade está na coragem dos seus cidadãos, o dum corpo na sua beleza, o duma alma na sua sabedoria, o duma ação na sua excelência e o dum discurso na sua verdade. O contrário será o caos”.

Os sofistas sabiam que a palavra é instrumento do lógos e este manifesta-se através do discurso que pode ser também manipulado com eloquência para seduzir e impressionar a plateia objetivando atingir um propósito (télos) definido.

Eles obtinham reconhecido sucesso na Ágora, conduzindo os ouvintes pelo discurso persuasivo: considerando o momento oportuno para determinadas colocações, utilizando argumentos convincentes; levavam em conta o perfil do ouvinte e esmeravam-se em falar o que (bem como “de que modo”) agradaria ser ouvido.

Vale observar que o emprego da persuasão não se baseia somente na lógica, mas apropria-se da intuição, da sensibilidade ao que toca o coração, despertando emoções tais como indignação, revolta, coragem, enternecimento, compaixão, camaradagem, etc.

Esclarecido o papel dos sofistas, agora saberemos que Léthe é o famoso “rio do esquecimento”, em cujas águas as almas bebem a fim de olvidarem (esquecerem) completamente a existência terrena e numa elucidação "mítico-singela", a deusa Léthe é a Verdade.

Após ter sido assediada por Zeus, a deusa Léthe sofreu as terríveis perseguições por parte da esposa do soberano do Olimpo, Hera, protetora dos amores legítimos. Em vão, a deusa Lethe tentava a todo custo escapar, buscando para isso sempre novos lugares nos quais pudesse ocultar-se.

Do relato acima, temos a interpretação de que “a verdade - alethéia -, é aquilo que nunca se esconde”.

Os religiosos conectavam-se com a Verdade através das artes adivinhatórias (mânticas) e a revelavam por meios obscuros, aparentemente ininteligíveis, mas também passíveis de inúmeras interpretações.

Sendo a palavra orientada conforme o éthos, a conduta, o modo de ser interior de cada um, o indivíduo é o único critério prático (razão do sucesso dos sophistés?) da verdade. Não alcançamos a verdade objetiva, somente opinião (doxa) particular.

Diante de uma verdade velada (coberta), cabia aos detentores do poder das palavras, aos retóricos da pólis, argumentar e convencer para desvelar a verdade. 


Ocorre que esta (verdade) se des-vela ao ser re-velada. Re-velar é tornar a velar, a encobrir. Paradoxalmente, descobrindo o que esta velado, revela-se a “verdade”.

A verdade é a maneira de pensar do intérprete e de sua visão de mundo (que é decorrência de seu éthos, de sua conduta moral pessoal). Desse modo, a verdade é sempre subjetiva, relativa ao sujeito que a profere/revela.

Na Ágora, nas querelas judiciais, o choque das opiniões (dialética) dos retóricos busca revelar a verdade, melhor solução. No entanto, muitas vezes trata-se da verdade mais útil para quem a defende, não necessariamente para toda a sociedade: “Ele, o retórico, é o vilão do discurso e aliciador de razões desprotegidas, que sempre sucumbem ao seu encanto perverso. Retórica é prestidigitação verbal que envenena o espírito e o escraviza. É, em uma palavra simulacro”.

Era como se os sofistas tivessem o dom de ensinar a fabricar o que os gregos chamavam de pharmakón – o remédio/veneno.

Obviamente os sofistas não podiam responder pelo uso que seus aprendizes davam ao domínio desta poção mágica (retórica), que tanto pode curar quanto matar. Tanto pode trazer à luz a verdade ou ocultá-la.

A linguagem não é simplesmente o espelho da realidade, mas é um meio pelo qual pode-se estabelecê-la, sendo assim, instrumento de poder.

Eis algumas verdades sobre a verdade: subjaz no éthos (sujeita à conduta ética humana), que por sua vez obedece a um télos (propósito definido); é passível de manipulação (troca, venda), mantém, como no mito, a magia de sua natureza: velar/revelar/tornar a velar.

Tomando-nos de sobressalto, ela, a verdade (alethea) ressurge, vez ou outra, num lampejo de lucidez. De estupefata lucidez posto que, como o homem, tem sua própria lógica, o que corrobora a máxima do sofista Protágoras: 


“O homem é a medida de todas as coisas; das que são porque são e das que não são porque não são”.

 
 E Viva Sergio Moro e o trabalho da Polícia Federal! \o/ 


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

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