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luciene felix lamy

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1 de dez de 2010

O que é dialética?


"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê." Platão

Do nascimento ao último suspiro, pautada por ininterrupta atividade cerebral, toda nossa vida é diálogo, ou seja, se dá através do embate de lógos.

Havendo ou não interlocutor, mesmo emudecidos, a sós, pensando "com nossos botões”, nos valemos de operações mentais constantes, das mais simples às mais sofisticadas para, com lógica, apanhar, separar, escolher, distinguir e classificar o que nos chega através dos sentidos e que brota de nossa ratio.

Cotidianamente recorremos à dialógica (via de duplo lógos: é; não é. sim; não. talvez, etc.), seja para optar por um meio de transporte, eleger (ou recusar) um afeto, buscar a mais adequada moradia, obter um título ou cargo profissional, escolher a gravata ou, mais prosaico ainda, ao preferir entre açúcar ou adoçante. Podendo também, desprezando a ambos, tomá-lo "puro".

A dialética, no entanto, não recai apenas sobre problemas lógico-cotidianos, mas também sobre os epistemológicos (teoria do conhecimento), bem como sobre os metafísicos (ontologia – ciência do ser enquanto ser) e isso não é de pouca monta, em Filosofia torna-a pedra angular.

Dialética é movimento do lógos a respeito de algo. A dificuldade de se conceituar com precisão esta palavra deve-se ao caráter polissêmico do vocábulo, ou seja, dialética abarca mais de um significado. Armand Cuvillier salienta que: “(...) esse termo se tornou tão equívoco que é necessário precisar sempre em que sentido se está a empregá-lo”. Academicamente é "método". E o que é um método?

A palavra grega hodós significa caminho (daí rodovia, rodoviária, rodoanel etc.) e metà significa acima, além (da phýsis, natureza). Método, então, acaba por significar (met+hodós = caminho superior, correto) “percurso feito obedecendo a regras e normas intelectuais”. Assim, dialética pode ser conceituada genericamente como “um” método para se alcançar algo superior.

Dentre os primevos dialektikós citamos: Parmênides, Zenão, Heráclito, Sócrates, Platão, os sofistas (Górgias, Trasímaco, Protágoras, cujo método dialético é melhor esclarecido no link abaixo) e Plotino, cuja dialética prenunciará a moderna hegeliana.

Para Aristóteles, o pré-socrático Zenão de Eléia (cerca de 460 a.C.) é o criador da dialética. Mas ele não a utilizava para descobrir a verdade ou provar algo, usava-a simplesmente para refutar e triunfar sobre seus adversários, apontando as falsidades.

O método dialético socrático, por sua vez, subdivide-se em duas partes: a destrutiva ironia (pergunta), que revela a ignorância do interlocutor e a construtiva maiêutica (parto) que “dá à luz” ideias novas. Assim, irônico e maiêutico, Sócrates destrói, reconstrói; destrói, reconstrói sucessivamente, chegando muitas vezes a uma aporia (a=negação + poros=saída).

Como exemplo de uma aporia, Sócrates indagaria a um transeunte: “O que é a beleza?”. E este, hoje, talvez respondesse: “Ah, a beleza... não sei dizer, mas Gisele Bündchen é bela”. E ele prosseguiria: Um cavalo também pode ser belo?”. E o interlocutor apressado: “Claro que sim”. E o Filósofo com insistência: “E uma panela, uma panela também pode ser bela?”. E seu conhecido já impaciente: “Sim, pode haver também a bela panela”. Sócrates então pergunta: “E o que há em comum entre Gisele, um cavalo e uma panela?”. Desconcertante, assim era Sócrates.

Mas, se com a dialética (dialektiké), Zenão revelava a falsidade do discurso e Sócrates chegava a uma aporia, seu discípulo Platão (427 a.C. – 347 a.C.) vai além de uma técnica discursiva, intentando nada mais, nada menos que descobrir a verdade.

Aperfeiçoando a maiêutica, ele desenvolverá seu método dialético ascendente, que possibilitará alcançar a verdade e o Bem. Platão iniciaria a marcha do lógos rumo à verdade buscando sucessivas intuições do pensamento, contrapondo teses e antíteses, afirmações e negações até se aproximar o máximo possível da essência (ousía) do que persegue.

No mito da caverna (vide artigo já postado neste Blog), por exemplo, Platão insiste que devemos resistir às percepções sensíveis (dos sentidos), pois são as ideias puras e inteligíveis que, invariáveis, permanecem sendo, mesmo diante da mutabilidade dos fenômenos particulares.

Assim, no exemplo acima, confirma que o que há em comum nos seres de nosso mundo sensível (Gisele, certo cavalo e determinada panela) é a presença de uma arché (arquiterura, comando principial) de harmonia, equilíbrio, proporção, simetria, eqüidade.

Estes elementos presentificam a ideia, o Ideal da beleza em si. Perecíveis, Giseles, cavalos e panelas passam. Platão busca o Belo eterno, não o contingente. Sua dialética torna-se ferramenta de ascensão à verdade, à beleza, à justiça e ao Bem.

Com a dialética, diz Werner Jaeger “(...) o homem se liberta, pela primeira vez, das amarras do conhecimento sensível, das aparências sensíveis das coisas e descobre na inteligência o órgão para chegar à compreensão da totalidade do ser”.

Mas a dialética não é somente um modelo normativo. É retórico e também ideológico. E chegará a ser um "sistema", como veremos oportunamente.

Sendo o lógos uma ferramenta altamente capaz de advogar contra ou a favor de quem e do que quer que seja, convém versarmos quanto à origem da dialektiké techné (arte da dialética) e sua expansão.

De berço aristocrático, – pois quem detinha a palavra na Ágora (praça pública) eram os aristóis (os bem-nascidos, mais bem educados), – a arte da dialética é um produto social humano, de genealogia elitista.

Até então, estavam excluídos os iletrados (analfabetos), os escravos, os estrangeiros (metecos), as mulheres, as crianças e os incapazes (idiotas), aos quais era vedada participação na vida pública.

Com a ascenção dos metecos (estrangeiros, geralmente comerciantes) que devido à nova dynamis (potência) dos oikósnomós (economia, que é a norma, a lei do lar, da pólis), promoveram a figura do sophistès (sábios), foi desenvolvida e aprimorada a techné (arte), criando a arte da retórica, do bem dizer.

Assim advém a pólis: da necessidade de se organizar as regras de aquisição e administração das riquezas (economia) que surge e alcança pujança com a presença e o poder dos mercadores (metecos/estrangeiros), reflexo da própria vida em comunidade, que se expande e consome.

De fato, em comum, compartilhamos e negociamos recursos (naturais, tecnológicos, humanos, etc.) e carências. Além de valores, nascedouro da Justiça. A política pública advém da organização econômica que reflete anseios e normas privadas.

Conforme o método “palavra filosófico-científica por excelência”, a dialética incorporará caráter mais ou menos ideológico, em conformidade com os interesses daqueles que desfrutam ou intentam desfrutar do kratós (poder) político, na pólis.

Seja um método para apontar falsidades, desaguar em aporias, descortinar verdades, convencer e encantar (retórica), demonstrar ideias estruturantes ou mesmo desenvolver perguntas científicas, a dialética constitui um dos instrumentais mais elaborados para a evolução ininterrupta do pensamento. Fascinante.

Fundamental a todos àqueles que, em socorro dos injustiçados, zelam pela justiça, foi também graças a ela, à dialética, que instantaneamente, você decidiu que leria este texto.

Saiba mais:


Marcelo Lamy em “Metodologia da Pesquisa Jurídica: Técnicas de Investigação, Argumentação e Redação” – Ed. Elsevier (2011).


2 de nov de 2010

Mito da deusa grega da Sabedoria e da Justiça


No mito, a Sabedoria e a Justiça, personificadas pela deusa grega Athena, é fruto de Métis (a astúcia, a inteligência) com o poderoso Zeus.

Após ter sido proferido pelo oráculo que se tivesse uma filha, ela se tornaria ainda mais poderosa que ele, Zeus tratou de engolir Métis para impedir o nascimento. Findado o período de gestação, o supremo deus começou a sentir terríveis dores de cabeça (enquanto a Justiça não nasce, elas são inevitáveis). Desesperado e no limite, Zeus ordena ao ferreiro divino Hefestos (Vulcano) que lhe abra a cabeça. Mesmo a contragosto, com técnica e precisão, desferra-lhe o machado de ouro certeiro e todos se surpreendem ao verem surgir, imponente e armada, a deusa Palas Athena.

Athena é gerada na cabeça do soberano do Olimpo, por isso é associada ao lógos, à ratio.

O epíteto "Palas" significa "a donzela", pois a poderosa filha pede ao pai para manter-se sempre virgem e, desta forma, impor-se com a autoridade de quem não se deixa seduzir ou corromper.

A Espada de Athena é arma para fazer valer a Justiça. Com a espada de ouro em punho ou lança resplandecente (numa imagem mais arcaica), que fora presente do deus da techné Hefestos, a deusa está sempre pronta para a guerra.

Athena é patrona da guerra sim, mas do combate feito com inteligência e astúcia, motivado por um ideal honroso e, somente enquanto último recurso, quando se torna insuficiente a lúcida resolução diplomática e pacífica do prenúncio de uma polêmica.

As aves, por serem considerados os seres mais próximos dos céus, foram, conforme suas características e atribuições, associadas aos deuses. A águia, para zeus; o pavão, de sua consorte, a deusa Hera. A ave símbolo de Athena é a coruja.

Vemos a imagem da coruja, símbolo de uma vigilância constantemente alerta, impressa nas mais antigas moedas atenienses, as dracmas. A coruja, em grego gláuks “brilhante, cintilante”, enxerga nas trevas, e um dos epítetos de Athena é “a de olhos gláucos” (esverdeados).

Em latim é Noctua, “ave da noite”. Noturna, relacionada com a lua, a coruja incorpora o oposto solar. Observem que Atena é irmã de Apollo (Sol). É símbolo da reflexão, do conhecimento racional, mas aliado ao intuitivo que permite dominar as trevas, inteligir o obscuro. Apesar de haver uma forte associação desta ave à escuridão e a sentimentos tenebrosos, o que é natural a um ser noturno, o fato de ela ter sido (devido a suas específicas características) atribuída à deusa Athena também a tornou símbolo do conhecimento e da sabedoria para muitos povos.

A coruja é uma excelente conhecedora dos segredos da noite. Enquanto os homens dormem, ela fica acordada, de olhos arregalados, banhada pelos raios da inspiradora Lua. Vigiando os cemitérios ou atenta aos cochichos no breu, essa ambaixadora das trevas sabe tudo o que se passa, tendo-se tornado em muitas culturas uma profunda e poderosa conhecedora do oculto.

Havia uma antiga tradição segundo a qual quem como carne de coruja participa de seus poderes divinatórios, de seus dons de previsão e presciência. Esta ave tornou-se assim atributo tradicional dos mânteis, daqueles que praticam a mântica, a arte do divinatio, da adivinhação, simbolizando o dom da clarividência.

Eis a ave apropriada à deusa da Sabedoria e da Justiça: atenta coruja, cujo pescoço gira 360°, possuidora de olhos luminosos que, como Zeus, enxerga “o todo”.

Athena carrega ainda, no peitoral de sua armadura (égide feita com pele de cabra), a cabeça de Medusa, rainha das Górgonas.

As Górgonas são três irmãs (Medusa, a dominadora; Euríale, a errante e Esteno, a violenta) que simbolizam os inimigos interiores que temos de evitar. São deformações monstruosas da psique (psyché, alma) nascidas do desvirtuar de três pulsões humanas: sociabilidade (Esteno), sexualidade (Euríale) e espiritualidade (Medusa). Como a perversão espiritual prevalece sobre as demais, Medusa impera.

A perversão da pulsão espiritual, por excelência, é a vaidade (imaginação exaltada em relação a si mesma) que é simbolizada pela serpente, por isso, inúmeras coroam sua cabeça.

No frontispício do templo de Apollo (irmão de Athena), deus da harmonia, lêem-se as palavras que resumem toda a verdade oculta dos mitos: “conhece-te a ti mesmo”. A única condição do conhecimento de si mesmo é a confissão das intenções ocultas, que, por serem culpáveis, são habitualmente maquiadas pela vaidade (por uma justiça falsa, pois sem mérito, infundada).

A inscrição reveladora significa, portanto: desmascara tua falsa razão, ou, o que dá no mesmo, aniquila tua vaidade. Faz-se necessário a clarividência em relação a si mesmo, o inverso do ofuscamento vaidoso e petrificante.

Ver Medusa significa reconhecer a vaidade culposa, perceber a nu suas falsas razões, suas intenções ocultas, o que ninguém consegue confessar a si mesmo, da qual ninguém suporta a visão.

A cabeça da rainha das Górgonas foi presente do herói Perseu, a quem Athena muniu com seu escudo. Ao refletir a imagem verídica das coisas e dos seres, o escudo reluzente permite conhecer a si mesmo: é o espelho da verdade. Neste escudo, o homem se vê tal como é, e não como gosta de imaginar ser.

Athena é a deusa da combatividade espiritual (as três manifestações da elevação espiritual são a verdade, a beleza e a bondade). A sapiência, o amor pela verdade é a condição para ascender ao conhecimento de si e, em conseqüência, para adentrar na harmonia (Apollo).

Para derrotar a Medusa, foi necessário que o herói a surpreendesse enquanto dormia, pois o homem somente é lúcido e apto ao combate espiritual quando a exaltação de sua vaidade não está desperta. Arma muito cobiçada, mesmo morta, a cabeça da Medusa continuou mantendo seu poder de petrificar quem a encarasse.

Contra a culpabilidade advinda da exaltação vaidosa dos desejos, não há senão um único meio de salvaguarda: realizar a justa medida, a harmonia (sophrosyne).

A deusa, símbolo da combatividade que inspira o amor à verdade, convida os mortais a reconhecerem-se em Medusa, incitando-os à luta contra a mentira essencial, a mentira subconscientemente desejada, o recalcamento, as falsas razões.

Antes de fazer jus, merecer o apoio de Athena, todo mortal deve encarar o símbolo da decadência espiritual (a vaidade). Somente assim têm-se certeza de que sua reivindicação não oculta outra intenção, ou seja, não é capricho, teimosia. Ante a imagem da Medusa, quem busca a deusa clamando por justiça tem somente duas possibilidades: contar com sua proteção (vitória certa, pois é sempre acompanhada por Niké) ou imobilizar-se no pânico, num desespero paralizante.

1 de out de 2010

Introdução à Fenomenologia


"Existe uma coisa que eu não sei o que é.
Porém, sei que se essa coisa não existisse nada mais existiria, nem Deus.
Que coisa é essa?"


A pergunta acima foi feita a Jéssica, uma estudante de 11 anos de Curitiba. Para espanto do professor, ela respondeu que essa coisa era a realidade. O “real” existe, independente de nós? Através de nós? Ou ainda: É possível alcançarmos o entendimento do que é real?

Sabemos que, tanto nós mesmos, quanto as atividades políticas, econômicas, sociais e culturais (artísticas) que vivenciamos estão em constante movimento. E, na realidade (literalmente), quando um movimento desses se destaca, se sobressai, é comum utilizarmos o termo “fenômeno”. Constatamos assim, o fenômeno das redes sociais; o fenômeno da crise econômica mundial; do elevado número de divórcios; da corrupção, fenômenos da moda, da música e até mesmo o brilhantismo técnico de um esportista o alça à alcunha de “fenômeno”.

Ininterrupto e imensurável, o caldeirão da realidade abarca tudo o que aparece aos nossos sentidos ou à nossa intuição intelectiva. Realidade é espelho, aparência de “algo” e tudo o que manifesta (phainestai) é fenômeno (phaenomenon). Assim, é também o que aparece no placar que faz ou não, de Ronaldo, “fenômeno”.

Fenômeno é algo em constante movimento, sempre em aberto e justamente por ter seu campo ilimitado, se esquiva a ser enquadrado dentro de uma ciência particular. Desta espécie de “árvore”, com suas raízes ocultas, proliferam inúmeros galhos, em diferentes direções, sem um télos (propósito) pré-determinado ou definitivo.

Diante dessa imensidão, Paul Ricouer (1913-2005) diz que “atendo-se à etimologia, quem quer que trate da maneira de aparecer do que quer que seja ou, consequentemente, que descreva as aparências ou as aparições, faz Fenomenologia”. Contando com estudiosos de diversas áreas, grupos ou associações acadêmicas mais informais, o “círculo” (os alemães denominavam "kreis”) de fenomenólogos é vasto. Um exemplo interessante é o do experiente engenheiro Kleber Sernik, que discorre sobre o desencadeamento da crise econômica mundial valendo-se do sistema dialético hegeliano (http://www.blogdoklebers.blogspot.com/).

Uma vez que esse “movimento” se assentou definitivamente na Filosofia e, a rigor, “o movimento fenomenológico” ambiciona, nas palavras de Merleau-Ponty (1908-1861) “revelar o mistério da razão e o mistério do mundo”, há de se estabelecer um recorte mais austero do que é Fenomenologia.

Dos pré-socráticos aos modernos, muitos versaram sobre a questão das aparências. Platão (427 a.C. – 347 a.C.) já tratara do problema do “ser em si e suas aparências no mundo sensível” quando, no Livro VI da República, em diálogo com Glauco, Sócrates diz: “Reconhecerás que o Sol proporciona às coisas visíveis, não só, segundo julgo a faculdade de serem vistas, mas também a sua gênese, crescimento e alimentação, sem que seja ele mesmo a gênese”.

O termo “fenomenologia” foi utilizado pela primeira vez na obra “Novo Organon” (1764), de J.H. Lambert (discípulo de Christian Wolff), entendendo-o como sendo “a teoria da ilusão” e suas inúmeras formas. Ilusão porque a aparência pode: a) revelar ou apontar o caminho rumo à verdade; b) iludir encobrindo-a ou ainda, c) ocultar a verdade.

Immanuel Kant (1724-1804), afirmou numa carta, que a primeira parte de sua “Crítica da Razão Pura” deveria ter o título de “A Fenomenologia em geral”, uma espécie de introdução a preceder à metafísica. Mas preferiu o título de “Estética Transcendental”, atribuindo-lhe a “tarefa de investigar a estrutura do sujeito e das ‘funções’ do espírito, circunscrevendo o campo do aparecer ao ‘fenômeno’”. Com isso, Kant delimitou as pretensões de alcance de nosso conhecimento e, incognoscível, a metafísica foi excluída de nossas faculdades de entendimento.

Ao estudo do “Ser” (em si e por si, que subjaz à realidade/manifestação) já se denominou teologia, metafísica, mas é com o fundador do movimento fenomenológico, Edmund Husserl (1859-1938) que temos um conteúdo novo a uma palavra já antiga: Ontologia – o ramo da Filosofia que se propõe a estudar a ciência do Ser como uma disciplina distinta.

Na evolução do “Movimento Fenomenológico” ao longo da História, foi o alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830) quem impôs definitivamente o termo na tradição filosófica. Com a obra “Fenomenologia do Espírito” (1807), nos apresentará conceitos de Ser em si, de “o Absoluto”.

Será no modo como concebe a relação entre o fenômeno e o ser – ou o Absoluto, que Hegel ultrapassará a fenomenologia kantiana, pois, enquanto Kant insiste na incognoscibilidade, ele afirmará que, sendo cognoscível, o fenômeno nada mais é que a manifestação do próprio Ser, ou seja, do Absoluto, qualificando-o como sendo o Espírito.

Assim, a Fenomenologia em Hegel será uma filosofia do Espírito, do Absoluto: “O trágico na História humana é um momento necessário para o vir-a-ser do Espírito, por ser o que Hegel denomina o negativo – isto é, o motor do movimento da História, sem o qual o Espírito não poderia enriquecer-se de suas sucessivas figuras e manifestações”.

A fenomenologia hegeliana, refutando a incognoscibilidade dessa ciência, acaba por fornecer “todos os materiais ao filósofo, cabendo a este pensar sobre esta ordem oculta e falar de seu significado absoluto”.

Enquanto que na fenomenologia kantiana, o Ser é concebido como limitador do conhecimento do “nômeno”, que é a “causa” do fenômeno (inalcançável por nossa vã filosofia, pois não pode ser pensado como objeto dos sentidos, mas somente como coisa em si), no sistema hegeliano: “o fenômeno é reabsorvido dentro do conhecimento sistemático do ser”.

O filósofo francês André Dartigues, em sua obra “Qu’est-ce que la phénomenologie”, esclarece: “Não se trata, para Hegel, de construir uma filosofia na qual a verdade do absoluto se enunciasse de fora ou ao lado da experiência humana e sim de mostrar como o absoluto está presente em cada momento desta experiência, tanto religiosa, como estética, jurídica, política ou prática”.

A genialidade de Hegel está em elucidar que tudo o que aparece na realidade, o fenômeno (suspendamos juízos de valor) é manifestação do Absoluto. A magnitude que sua teoria atinge, através de uma peculiar dialética (a presentificação do eterno e o mecanismo intrínseco de seu incessante vir a ser), o eleva a vertiginosa estatura de um Platão.

1 de set de 2010

Pluto - A Riqueza (Parte II)

Testa Di Vecchia – Antonio Carneo

Prosseguindo na comédia de Aristófanes sobre Pluto, o deus da Riqueza, conheceremos Blepsidemo, o incrédulo amigo do camponês Crêmilo; testemunharemos a expulsão da Pobreza, indignada com a nova ordem das coisas, a aflição de uma velha patética, lamentando o abandono do amante e a ardilosidade de Hermes, buscando “emprego”, agora que o Olimpo faliu.

Ao saber que o deus da Riqueza era realmente cego, Blepsidemo interpreta: “Ora aí está, porque nunca foi a minha casa”. Constatando banimento, chega a Pobreza: “Oh, empresa temerária, sacrílega e ilegal, o que dois homens de nada, os desgraçados, tentam fazer!”

Crêmilo pergunta: “E tu quem és? Pareces-me pálida!”. Blepsidemo diz que talvez seja a Erínia, vinda da tragédia. “Tem um olhar de loucura e de tragédia”.

Com altivez, indaga a Pobreza: “sabes quem eu sou?”. E Crêmilo: “Uma taberneira ou regateira”. Ela prossegue: “Ah, sim? Não procederam vocês de forma mais ameaçadora, ao procurarem expulsar-me de toda a terra? (...) A Pobreza é que eu sou, a pobreza que vive convosco, há muitos anos”.

Em pânico, Blepsidemo avisa que irá fugir: “É a Pobreza, oh velhaco, o animal mais daninho que jamais existiu (...). Qual é a couraça, qual é o escudo que esta enorme patifa não faz pôr... no prego?” Crêmilo tenta contê-lo: “Coragem, porque o nosso deus sozinho, é bom que o saibas, é capaz de erguer um troféu de vitória contra as manhas desta fulana”.

A Pobreza protesta: “E vós ainda ousais, parelha de imbecis, grunhir, apesar de apanhados em flagrante fazendo coisas monstruosas? (...) estais convencidos de que não me prejudicais nada, ao tentar fazer com que Pluto recupere a vista?”

Mas o camponês está convencido de que fez o bem, expulsando-a da Grécia.

Pobreza argumenta que isso é o maior mal que se pode fazer aos homens e, imbuída de dar-lhes suas razões diz: “E se vos provar que só eu sou a causa de todos os bens que gozais e que é, graças a mim, que vós viveis...”.

Crêmilo alega que se Pluto não vaguear como cego “dirigir-se-á àqueles homens que são bons e não os abandonará. E fugirá dos maus e ateus. E depois fará que todos sejam bons e ricos – naturalmente – e respeitadores da divindade. E quem jamais poderá descobrir alguma coisa melhor do que isso, para os homens?”

Ela diz que isso não seria útil “Se Pluto voltasse a ver de novo e se repartisse por igual, ninguém mais dentre os homens se preocuparia com a arte ou com a sabedoria. E tendo vós feito desaparecer estas duas, quem quererá trabalhar os metais, construir navios, coser tecidos, fazer rodas, cortar o couro, moldar tijolos, lavar, fazer correias ou ‘com o arado rasgando da terra a superfície, colher o fruto de Deméter’, se vos for possível viver na ociosidade sem vos preocupardes com isso?”

Os criados que agüentem, diz Crêmilo. Pobreza quer saber onde Crêmilo os arranjará e ele diz que comprando. Ela quer saber quem é que os venderá se também tem dinheiro: “Alguém que queira ganhar, um comerciante que chegue da Tessália, onde há insaciáveis ladrões de escravos”.

Pobreza esclarece que não haverá traficantes de escravos, que sendo rico, ninguém arriscará a própria vida nisso e que, desse modo, ele mesmo será obrigado a lavrar o campo, cavar e colher: “(...) em tudo o mais e levarás uma vida muito mais dolorosa do que a atual”.

Não haverá quem faça camas, tapetes, perfumes, mantos: “de que vale ser rico, estando privado de tudo isso? Comigo, todavia, está à vossa disposição tudo aquilo de que precisais, porque eu fico aqui, como uma patroa que força o trabalhador manual, por meio da necessidade e da pobreza, a procurar meios de vida”.

Crêmilo começa a descrever os infortúnios da pobreza: falta de higiene, piolhos, fome, andrajos em vez de um manto, esteira de junco, ao invés de uma cama, pedra, no lugar de travesseiros e inquire: “Não estou eu mostrando que tu és a causa de muitos bens para todos os homens?”

Injuriada, Pobreza contesta, pois isso não é sua vida, mas a dos mendigos, que nada têm. E Crêmilo: “Então não é verdade que se diz que a pobreza é irmã da mendicidade?”

Ela diz que sua vida não passa por tais carências e que nem há de passar: “Mas a vida do pobre é a de quem poupa e se aplica ao trabalho, a quem nada sobra, decerto que não, mas também nada falta”. Crêmilo provoca: “Que feliz, ó Deméter, essa vida do pobre de quem tu falas, se depois de poupar e de penar não deixará com que ser enterrado”.

Convicta de seus predicados até no aspecto físico das pessoas, assinala que os ricos são gordos: “Ao passo que os meus são magros, de cintura de vespa, e incômodos aos inimigos”. Irônico, Crêmilo retruca: “É talvez com a fome, que tu lhes arranja a cintura de vespa”.

Pobreza diz então que a moderação (sophrosyne é o que há de mais caro aos gregos) mora com ela e que Pluto é a própria insolência. Crêmilo cita os ladrões e conclui que furtar e arrombar as casas é o cúmulo da moderação.

Imbuída de provar o quanto a riqueza corrompe, Pobreza diz que basta observar os políticos, que enquanto pobres, são justos com o povo, mas que basta enriquecerem com o dinheiro público para, imediatamente, se tornarem injustos e conspirarem contra a plebe.

Crêmilo reconhece que nisso, a Pobreza tem toda razão, mas roga que não tente se enfeitar, persuadindo-os que é melhor que a riqueza. Senão, diz ele, “como é que todos fogem de ti?”.

Pobreza exclama que os faz melhores. “Pode ver-se muito bem o que acontece com as crianças. Fogem dos pais, porque estes só querem o bem delas. De tal modo, conhecer o que é justo é coisa difícil”.

Irredutível, Crêmilo expulsa Pobreza, que se vai, com a ameaça de que ele ainda haverá de chamá-la. Aliviado, Blepsidemo diz: “Sim, por Zeus, eu quero enriquecer e viver regaladamente com filhos e mulher e, depois de tomar banho, sair reluzente do balneário, a dar peidos para os artesãos e para a Pobreza”.

Eis que entra um denunciante (Sicofanta) com uma testemunha: “Infeliz de mim, como estou perdido, desgraçado que sou! (...) estou submerso num destino cheio de infelicidades”.

Confessa ter perdido tudo o que tinha por causa desse deus que há de voltar a ser cego, se a justiça não o abandonar. Crêmilo inquiri: “Por ventura, era tu dos patifes e dos arrombadores?”.

O denunciante protesta a insolência. Um Justo pergunta se é lavrador e ele diz que não é assim tão maluco. Negociante, então? “Sim, finjo sê-lo, quando convém”. O Justo prossegue: “Se não aprendeste um ofício, como ganhavas a vida ou donde, se nada fazias?”

Diz-se, então, curador dos negócios da cidade e de todos os negócios particulares. O Justo fica indignado. E o denunciante: “Não me diz respeito prestar serviços à minha cidade, pateta, na medida das minhas forças?”.

Sagaz, prossegue: “Sim senhor, é socorrer as leis existentes e não deixar passar, se alguém prevarica”. E o Justo: “Então a cidade não estabelece expressamente que os juízes superintendam nessa matéria?”.

Presunçoso o denunciante pergunta: “E quem é o acusador?”, ao que o Justo responde: “Quem quiser”. O patife afirma que esse tal é ele, por tal forma que nele vêm a dar os negócios da cidade. Carião diz que o denunciante, que agora foge, não merece o que come.

Entra uma velha que, desolada, pergunta a Crêmilo se chegara à casa de Pluto: “Acabo de sofrer ofensas terríveis e contra a lei, meu querido. Desde que esse deus começou a ver, ele fez com que minha vida não se pudesse viver”.

Crêmilo fica curioso e a coroa então prossegue: “Ora ouve! Eu tinha um mocinho por amigo, pobrezinho, mas bem apessoado e belo e bom. Se eu precisava de alguma coisa, ele tudo fazia ao meu serviço com delicadeza e graça. E eu, pela minha parte, servia-o em todos os seus desejos”.

Salienta que o rapaz não pedia muito porque tinha nela um acanhamento excepcional. Crêmilo a assegura que: “É de fato um homem com um amor muito excepcional”.

Ela diz que agora rico, o desavergonhado foge de suas investidas, dizendo que “outrora eram poderosos os milésios”. Crêmilo não se contém: “(...) já não se contenta com sopa de lentilhas. Dantes, levado pela pobreza, comia de tudo”.

Inconformada, a velha diz que antes, o rapaz vinha todos os dias à sua porta: “E dizia que eu tinha as mãos lindíssimas...”. “Principalmente, quando exibiam as vinte dracmas”, satiriza Crêmilo. Ingênua, prossegue nostálgica: “E afirmava que a minha pele cheirava bem... (...) que meu olhar era terno e belo...!”.

Crêmilo conclui que não era bronco o sujeito, “sabia comer os recursos de uma velha no cio”. Ela insiste que é injusto que não receba recompensa nenhuma. Ele pergunta se por acaso o rapaz não retribuía a cada noite. Ela diz que sim, mas que havia prometido jamais abandoná-la enquanto fosse viva. Sarcástico, Crêmilo ironiza: “E agora crê que tu já não vives”.

Eis que, passa o rapazinho e a cumprimenta cerimoniosamente: “As minhas saudações! (...) vetusta amiga (...)”. Isso a mortifica: “Infeliz de mim, pela insolência com que sou tratada”. Crêmilo diz parecer que há muito tempo não a vê. “Qual muito tempo, ó infeliz! Ele esteve em minha casa, ontem!”.

O jovenzinho aproveita para troçar perguntando se a velha quer brincar um pouco. Quando ela se anima e pergunta de que brincadeira, ele diz: “Quantos dentes tens”. Crêmilo arrisca: “Mas sabê-lo-ei, também eu. Tem talvez uns três ou quatro”. E o jovem: “Paga! Só é portadora de um molar”. Empolgados, fazem pilhérias aviltantes.

Chega Hermes dizendo que Zeus está furioso porque ninguém sacrifica coisa alguma aos deuses. Carião rememora que no passado, os deuses mal se preocupavam com o povo. Aflito, Hermes confessa: “Mas com os outros deuses pouco me ralo, eu é que estou perdido e destruído (...).

Outrora mensageiro dos deuses, Hermes implora: “Não guardes ressentimento, agora que estais por cima. Mas recebei-me como companheiro de casa, pelos deuses”. Carião se espanta: “O quê? Achas correta a tua deserção?” Ao que ele responde: “Pátria é toda a terra onde alguém é feliz”.

Hermes enumera seus talentos e Carião o deixa entrar: “Como é bom ter muitas invocações! Não é sem razão que todos os juízes se apressam a fazer-se inscrever em muitas letras”.

A peça finda com a chegada do Sacerdote de Zeus, dizendo estar morto de fome, pois as pessoas só entram no templo para fazer as necessidades: “Portanto, também eu creio que vou mandar passear Zeus Salvador e ficar aqui mesmo”.

1 de ago de 2010

Pluto - Aristófanes - A quem a Riqueza acompanha?



“É ilusão achar que enriquecer torne os homens melhores;
A virtude não está relacionada à riqueza ou pobreza”.

Hilárias, desbocadas e atualíssimas são as revelações do comediógrafo grego Aristófanes, em sua obra “Pluto – A Riqueza” (388 a.C.), que ilustra como os espertos se apropriam da riqueza.

Cego, Pluto, o deus velho e maltrapilho da Riqueza, foi privado de poder escolher a quem distribuir a dádiva da fartura e da bonança: “Foi Zeus que me fez isso, por má vontade aos homens. Quando eu era rapaz, ameacei que só me dirigiria aos justos e sábios e honestos. E ele fez-me cego, para que não distinguisse nenhum deles. É assim que ele inveja os bons”.

Na peça, tudo começa com o impagável escravo Carião acompanhando seu senhor, Crêmilo, um modesto agricultor que, preocupado com o futuro de seu único filho, decide consultar o Oráculo de Apolo, a fim de saber se, para obter êxito na vida, convém que o rapaz permaneça bom e justo ou deve moldar-lhe o caráter para canalha e injusto.

O oráculo ordena que Crêmilo siga o primeiro transeunte que encontrar à saída do Templo e que o persuada a ir até sua casa. Ele então se empenha para que um velho e cego mendigo (Pluto!) os acompanhe.

Carião, chamando o patrão de grandessíssimo pateta, interpreta o oráculo por sua conta, assevera que Crêmilo deve educar o filho na maneira tradicional: “Porque até a um cego parece evidente o quanto importa nada fazer de útil nos tempos que correm”.

O camponês, desdenhando a opinião de Carião, aborda o mendigo e indaga quem ele é: “Eu sou Pluto”. Carião não se contém: “Tu, Pluto, com essa aparência desgraçada!”. Após ouvir o porquê do deus da Riqueza viver assim, Crêmilo fica estarrecido e diz que Zeus só é honrado justamente pelos bons e justos, ao que Pluto concorda.

Ele pergunta então se, caso voltasse a enxergar, o deus da Riqueza fugiria dos maus e procuraria os justos, ao que ele promete que sim, sem dúvida, pois há muito tempo não os vê. Crêmilo diz que isso não é maravilha nenhuma, pois ele próprio, mesmo enxergando muito bem, também não avista nenhum.

Tanto Crêmilo quanto seu fiel escravo Carião insistem não haver melhor caráter que eles: “Isso é o que todos dizem. Mas quando, verdadeiramente, me apanham e se tornam ricos, simplesmente ninguém os excede em patifaria”, diz Pluto.

Prometem levá-lo ao templo de Asclépio (deus da Medicina), mas Pluto, temente a Zeus (tenho um medo dele que me pelo), receia voltar a ver.

Decidido a fazê-lo rever seus conceitos, Crêmilo diz: “Ó, a mais covarde de todas as divindades! (...) Fique calmo. Eu provar-te-ei que tens muito mais poder do que Zeus”.

Dialéticos, numa sintonia hilariante, Crêmilo começa inquirindo: “Por que é que Zeus reina sobre os deuses?”. Carião, prontamente responde: “Pelo dinheiro, porque tem muitíssimo”. Crêmilo: “Aí está! E quem é que lho dá?”. Carião, encostando-se a Pluto: “Este aqui”.

Pluto fica mudo e eles prosseguem dizendo que os sacrifícios feitos em honra a Zeus buscam as graças de Pluto: “Rezam para enriquecerem sem demora. Não é este sujeito então a causa, e não acabará com tudo isso facilmente, se quiser?”

Crêmilo explica que é por Pluto que agradam ao soberano do Olimpo: “tu sozinho destruirás a força de Zeus (...) se há alguma coisa de brilhante, belo e agradável aos homens, é graças a ti que acontece. Tudo está submetido à riqueza”.

Carião reitera que ele mesmo, por exemplo, é escravo por causa de meia dúzia de patacas: “eu que antes era livre”. E Crêmilo prossegue: “E dizem que as prostitutas de Corinto quando um pobre, por acaso, as tenta, nem sequer lhe prestam atenção. Mas se é rico, logo lhe oferecem o cu”.

Carião auxilia Crêmilo em toda essa persuasão dizendo que os rapazes, por amor ao dinheiro, fazem o mesmo: “Não os honestos, mas os venais”. Ironicamente, esclarecem que os honestos pedem cavalos, belos mantos: “Talvez, envergonhados de pedir dinheiro, cobrem de uma crosta de palavras bonitas a sua desvergonha”.

Empenhadíssimos, Crêmilo e Carião se intercalam: “Graças a ti foram descobertas, entre os homens, todas as artes e manhas: um de nós, sentado, remenda os sapatos, outro é ferreiro, outro ainda é carpinteiro... Outro ourives, com o ouro que lhe dás... E outro é gatuno, por Zeus, outro ainda é arrombador. E o tintureiro... E o que lava as peles... E o que amacia os couros... E o que vende cebolas... O que é apanhado em adultério”.

Pluto está estarrecido: “Infeliz de mim! Quanto tempo isso me escapou!”.

Carião e Crêmilo se entusiasmam ao perfilar que o dinheiro é a mola propulsora de tudo e de todos: “E o Grande Rei [chefes de Estado], por quem se dá ares, senão por ti? E a Assembléia [política], não é por causa dele que reúne? E então? E não és tu que dás de comer em Corinto ao exército mercenário? Não é graças a ele que Agírrio [vive de lucros] peida? E Filépsio [jogador] não trapaceia por tua causa? E as alianças [com ditadores] não são graças a ti? Não é por ti que Laís [a mais bela prostituta de Corinto] é amante de Filônides [desajeitado, mas muito rico]?

Concluindo, Crêmilo aponta: “E os negócios não se resolvem todos, graças a ti? Tu és de tudo o agente exclusivíssimo, quer do bem, quer do mal, fica-o sabendo”. E, tocando os ombros de Pluto, diz até a guerra, não vencem os justos, os que têm razão, mas àqueles sobre os quais Pluto pousa.

O deus da Riqueza fica espantado: “Sozinho, sou capaz de fazer tanta coisa?”

Crêmilo: “muito mais do que isso, de tal modo que jamais alguém está cheio de ti. De todo o resto nos saciamos: de amor; de pão [Carião só cita as comidas]; de música; de guloseimas; de glória; de bolachas; de coragem; de figos secos; de ambição; de papas; de comandos militares; de sopa de lentilhas... Mas de ti nunca ninguém ficou cheio. Se alguém recebe treze talentos, muito mais deseja receber dezesseis. E quando os alcança, quer quarenta ou diz que a vida não merece ser vivida.”

Pluto fica convencido: “Parece-me que vocês dois falam muito bem. Só receio uma coisa... Como dessa força que vocês dizem que tenho, virei eu a tornar-me senhor”.

Crêmilo: “Dizem todos que a riqueza é a coisa mais covarde que existe”. Pluto revida: “Isso foi um arrombador qualquer que me caluniou. Uma vez, conseguindo entrar em casa, não logrou levar nada, porque encontrou tudo fechado. E então chamou a minha previdência... covardia”.

O agricultor assegura que Pluto voltará a enxergar e pede que Carião vá chamar outros camponeses para que participem da parte de Pluto. E, virando-se para o deus da Riqueza diz: “E tu, Pluto, a mais poderosa de todas as divindades, entre aqui para dentro comigo! Esta é a casa que tu precisas encher de riquezas hoje, com justiça ou sem ela”.

O deus Pluto confessa que se aborrece profundamente cada vez que entra numa casa: “Se entro, por acaso, em casa de um homem econômico, imediatamente me esconde embaixo da terra. E se algum amigo honesto vem pedindo-lhe um dinheirinho, nega jamais ter-me visto. Mas se, por acaso, entro em casa de um maluco, dado a putas e a ao jogo, saio pela porta afora nu, num instante”.

Crêmilo o tranqüiliza dizendo que isso ocorre porque ele nunca encontrou um homem equilibrado como ele. Apressado, convida-o a conhecer sua mulher e seu filho: “(...) que é quem mais amo, depois de ti”. “Bem o creio”, diz Pluto. E Crêmilo: “Por que é que se não há de dizer-te a verdade?”

Aristófanes revela que o deus da Riqueza, não agracia, necessariamente, bondade, honestidade ou Justiça. Manipulado por quem o venera, sucumbe à ardilosidade dos astutos.

1 de jul de 2010

Adam Smith - Autodomínio sobre o Orgulho e a Vaidade


 “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”
Frontispício da Capela dos Ossos, na igreja de São Francisco.
Erguida entre os séculos XVI-XVII, é ornamentada de ossada humana
(há imagens no google). Évora, Portugal.


Não há como estimarmos nosso próprio valor (e o de nossos pares), aferir mérito e demérito, êxito ou fracasso, sem que estabeleçamos critérios. É demasiadamente humano compararmo-nos aos demais. Estamos inseridos e amarrados a esse jogo.

Comumente dirigimos o olhar aos nossos semelhantes, àqueles que de algum modo alcançaram o que valoramos e almejamos em termos de virtudes, sucesso, fortuna e felicidade. Nada mais natural que nos espelhemos nas pessoas que o ordinário senso comum, elege, estabelece e propaga como sendo os mais magníficos padrões de excelência.

Talvez porque ainda não sejamos suficientemente racionais, relutamos a avaliar nossa conduta considerando modelos abstratos, ideais, arquétipos de perfeição. Sensíveis ao que nos chega pelos sentidos (perdoem a redundância), atemo-nos ao mundano e, nessa seara, o princípio da autoestima pode ser tanto muito elevado quanto muito baixo. Não espanta que alguns de nós, em distintas circunstâncias, se considerem superiores, muito superiores ou inferiores aos demais, independente de realmente o sermos.

Mas estejamos cônscios de que, ao intentar realizar uma auto-avaliação, isenta e imparcial, de nosso comportamento, dispomos de dois critérios de julgamento. Sob essa sensível percepção, Adam Smith nos explica o Orgulho e a Vaidade, ambos provenientes de um excesso de autoestima.

Para Smith, há dois padrões diferentes com os quais – ora um, ora outro – nos comparamos. Seremos mais ou menos orgulhosos e/ou vaidosos, conforme o padrão adotado.

Sobre o primeiro padrão, ele afirma que: “é a ideia de exata conveniência e perfeição, na medida em que cada um de nós é capaz de compreender essa ideia”. Obviamente, essa “capacidade” de compreensão já é distintiva.

O homem sábio e virtuoso se empenha em perseguir esse ideal: “Imita, contudo, a obra de um divino artista, que jamais poderá ser igualada”. Consciente de suas fraquezas, esse homem se sente constrangido e se aflige quando “por falta de atenção, de discernimento e moderação, violou em palavras e ações, em conduta e conversa, as regras exatas da perfeita conveniência (...)”, diz Smith.

Esse extraordinário primeiro padrão de auto-avaliação (visivelmente platônico) impede que a arrogância e a presunção se instalem: “o mais sábio e melhor de nós nada pode ver em seu próprio caráter e conduta senão fraqueza e imperfeição (...), inúmeras razões para humildade, remorso e arrependimento”.

O segundo padrão de auto-avaliação (mais aristotélico) é da excelência do mundano, concreto, real, mais ordinário; segundo Adam Smith “é aquele grau de aproximação com essa ideia que habitualmente se obtém no mundo, que a maior parte de nossos amigos e companheiros, rivais e competidores, pode ter realmente atingido”.

Ambos os padrões cultuam, por exemplo, o sucesso. Mas no primeiro, nunca um sucesso a qualquer preço; ambos coroam o êxito profissional, mas jamais em qualquer “atividade” profissional; ambos anseiam por aplausos, mas não de qualquer platéia.

Prova cabal da veracidade de distintos padrões, por mais bem sucedidos que sejam, não tributamos honra às sinistras patifarias de desprezíveis muambeiras de luxo, empresários de prostíbulos, sonegadores, megatraficantes, especuladores financeiros, exploradores da fé, da miséria e da ignorância dos povos e de execráveis corruptos.

Se pautarmos nossa conduta tendo em mente o ideal de perfeição, dificilmente estaremos plenamente satisfeitos com efêmeras conquistas mundanas. Isso nos torna mais condescendentes, complacentes, humanitários e dignos. Modéstia, delicadeza, humildade e acurácia do espírito (sensibilidade) impedem a prepotência de arrogarmos valor acima de nosso próprio mérito.

Se, por outro lado, balizarmos nossa autoestima, nosso amor-próprio, nosso sentimento de valor unicamente através do grau de excelência que nossos amigos e conhecidos atingiram, podemos de fato, entrever alguma superioridade: “(...) há algumas que real e justificadamente se sentem acima dele, e que assim são reconhecidas por todo espectador inteligente e imparcial”, salienta o pensador.

Dentre os riscos de julgarmos nosso caráter nos atendo somente ao segundo padrão de excelência, está o de nos tornarmos arrogantes, soberbos e patéticos, sobretudo quando (mesmo detendo uma inteligência notoriamente acima da média, grande fortuna ou virtude, por exemplo) somoa vaidosos e nos deixamos levar pela admiração geral da multidão: “o próprio rumor dessas tolas aclamações contribui muitas vezes para confundir o entendimento (...) a grande populaça [o populacho] está naturalmente predisposta a erguer os olhos com uma admiração espantada, embora sem dúvida muito fraca e tola”, nos adverte o sapientíssimo Sr. Smith.

E assim, somos enredados na teia dos vícios do orgulho e da vaidade, com o risco de nos cercarmos de muitos bajuladores e (pior) ardilosos traidores. Smith salienta que “Uma vez que esses dois vícios freqüentemente se mesclam no mesmo caráter, necessariamente suas características se confundem; e às vezes encontramos a ostentação superficial e impertinente da vaidade reunida à mais maligna e ridícula insolência e orgulho”. É por isso que, muitas vezes, não sabemos se classificamos um caráter colocando-o entre os orgulhosos ou entre os vaidosos.

Orgulhoso é o indivíduo que “se acha”, e está sinceramente convencido que é o tal. Realmente tem uma autoestima inquebrantável. Para ele, todos os demais são mesmo inferiores; talvez apenas não tenham percebido isso. Àqueles que o criticam, o orgulhoso despreza, ou simplesmente desdenha-os. Não raro, é alvo de críticas, pois costumamos censurar ou abandonar àqueles que arrogam uma superioridade que não possuem.

O Vaidoso, por sua vez, é inseguro, precisa que os outros afiancem seu valor. Insiste em destacar seus feitos e qualidades: “Longe de desejar mortificar tua autoestima, fica feliz em cultivá-la, na esperança de que em troca cultives a dele. Lisonjeia para ser lisonjeado; estuda como agradar, e esforçar-se por subornar-te para que tenhas boa opinião dele mediante polidez e complacência”, revela Adam Smith.

É sabido que reverenciamos talentos e virtudes, bem como que respeitamos posição e fortuna (bens materiais). O Vaidoso é refém dos signos de status, para usurpar o prestígio da fortuna, por exemplo, o deslumbrado se endivida por grifes da moda, automóveis sofisticados, alta tecnologia, viagens e restaurantes caros; Smith alerta para o fato de que: “(...) anunciam uma posição e uma fortuna maiores do que as que realmente possuem; e, a fim de manter, essa tola impostura por alguns poucos anos, não raro se vê reduzido à pobreza e aflição muito antes do fim da vida”. Assim, o descontrole leva ao desespero de faltar salário e sobrar mês.

Mais confiante, o orgulhoso não paga esse mico. Para Adam Smith: “Seu senso da própria dignidade o torna cauteloso na conservação de sua independência e, caso sua fortuna não seja grande, ainda que deseje apresentar-se com decência, estuda meios de ser frugal e atento em todas as suas despesas”. Diferente do orgulhoso, o vaidoso é fake, talvez por isso, ainda mais lamentável.

Cultivar uma elevada autoestima é salutar: “É tão agradável julgarmo-nos favoravelmente, e tão desagradável julgarmo-nos medíocres, que a própria pessoa [e até o espectador] não duvida de que algum grau de excesso deve ser menos desagradável do que qualquer grau de falta”, diz Adam Smith. Quanto à ausência de autoestima, postei, na íntegra, a análise do autor sobre a idiotia e o idiota, confira logo abaixo.

Ter-se em alta conta é benéfico, fundamental para nosso progresso e evolução, pois, como diz o estudioso, grande êxito no mundo, visível autoridade sobre sentimentos e opiniões, imortalidade na memória da humanidade, raramente foram obtidos sem algum grau dessa excessiva admiração de si: “os homens que realizaram as ações mais ilustres, que provocaram as maiores revoluções (...), os mais bem-sucedidos guerreiros, os maiores estadistas e legisladores, os eloqüentes fundadores e líderes das mais numerosas e bem-sucedidas seitas e partidos – muitos destes não se distinguiriam mais por seu intenso mérito do que por um grau de presunção e admiração de si inteiramente desproporcional até mesmo em relação a esse imenso mérito”.

Ao olhar de um sábio, no entanto, somente a análise objetiva, diante do imortal e não da transitória fama é que se revela o verdadeiro valor de um homem. O sábio é extraordinário; por mais enaltecido que seja, é consciente do quão distante está da verdadeira excelência.

Com baixos padrões de comparação, resvalamos facilmente ao orgulho e vaidade. Com altos padrões de comparação (a ideia de perfeição) saberemos quem realmente somos e nos empenharemos cada vez mais a atingir o ideal. Sempre abaixo do divino, mas seguramente, muito acima do mundano.


Idiotia – O idiota (Adam Smith em Teoria dos Sentimentos Morais)
As pessoas infelizes, a quem a natureza formou bastante abaixo do nível comum, às vezes parecem atribuir-se um valor ainda mais baixo do que realmente possuem. Às vezes essa humildade parece mergulhá-las na idiotia.

Quem quer que tenha se dado o trabalho de examinar os idiotas atentamente, descobrirá que em muitos deles as faculdades do entendimento não são em absoluto mais fracas do que em várias outras pessoas as quais, embora sabiamente embotadas e estúpidas, não são consideradas idiotas.

Muitos idiotas, que receberam uma instrução comum, aprenderam a ler, escrever e contar razoavelmente bem. Muitas pessoas jamais consideradas idiotas, a despeito da mais cuidadosa instrução, e a despeito de terem, em sua idade avançada, suficiente espírito para tentar aprender o que na infância sua instrução não lhes ensinou, nunca conseguiram obter em grau razoável uma só dessas três habilidades. Por um orgulho instintivo, contudo, elevam-se ao mesmo nível de seus iguais em idade e situação, e, com coragem e firmeza, mantêm adequada sua posição entre seus companheiros.
Por um instinto oposto, o idiota sente-se inferior a todos os companheiros a quem o apresentares. Maus tratos, aos quais é muito exposto, podem lançá-lo aos mais violentos ataques de cólera e fúria. Mas nenhum trato agradável, nenhuma gentileza ou tolerância podem animá-lo a conversar contigo como teu igual. Se ao menos puderes fazê-lo conversar contigo, verás, porém, que muitas vezes suas respostas são bastante pertinentes, e até sensatas. Mas estão sempre marcadas com uma nítida consciência de sua imensa inferioridade.

O idiota parece encolher-se, como se se afastasse de teu olhar e da tua conversa, e, ao colocar-se na tua situação, parece sentir que, apesar de tua aparente condescendência, não podes evitar considerá-lo imensamente inferior. Alguns idiotas, talvez a grande maioria deles, parecem ser assim, principal ou inteiramente por certa estupidez ou torpor das faculdades do entendimento. Mas há outros em que essas faculdades não parecem mais estúpidas ou entorpecidas do que em muitas outras pessoas não consideradas idiotas.

O orgulho instintivo, necessário para provê-las de uma igualdade com seus irmãos, parece, todavia, faltar totalmente aos primeiros, não aos últimos.

(...) O homem que se estima como deveria, e não mais do que deveria, raramente deixa de obter de outros toda a estima que julga ser-lhe devida. Não deseja mais do que lhe é devido, e fia-se nisso com total satisfação.

O homem orgulhoso e o homem vaidoso, ao contrário, estão sempre insatisfeitos. Um é atormentado por indignação pela superioridade, que julga injusta, de outras pessoas; outro teme continuamente a vergonha que prevê resultaria do desmascaramento de suas infundadas pretensões.

Até as extravagantes pretensões do homem de real magnanimidade, quando amparadas por esplêndidas habilidades, virtudes e, sobretudo, pela boa fortuna, impõem-se à multidão, cujos aplausos pouco lhe importam, embora não se imponham aos homens sábios, cuja aprovação só pode valorizar, e cuja estima está tão preocupado em obter.

Percebe que decifraram, suspeita de que desprezem, sua excessiva presunção; e muitas vezes sofre o cruel infortúnio de tornar-se, primeiro inimigo invejoso e secreto, e finalmente, declarado, furioso e vingativo, das mesmas pessoas cuja amizade lhe teria proporcionado imensa felicidade usufruir com insuspeita segurança.

Embora nosso desgosto para com os orgulhosos e vaidosos freqüentemente nos predisponha a posicioná-los antes abaixo que acima de seu lugar apropriado, muito raramente nos aventuramos a tratá-los mal, a menos que nos instigue uma impertinência particular e pessoal. Em casos comuns, esforçamo-nos, para nosso próprio bem, para aquiescer e, conforme pudermos, para acomodar-nos à sua loucura.

Mas ao homem que se subestima, a não ser que tenhamos mais discernimento e mais generosidade do que a maioria dos homens é raro deixarmos de fazer pelo menos toda a injustiça que ele faz a si mesmo, e freqüente fazermos injustiça ainda maior. Este não apenas é muito mais infeliz, quanto a seus próprios sentimentos, do que os orgulhosos ou os vaidosos, como também muito mais passível a toda a sorte de ofensas por parte das outras pessoas.

Em quase todos os casos, é melhor ser um pouco orgulhoso demais, do que demasiado humilde em qualquer aspecto; e quanto ao sentimento de auto-estima, algum grau de excesso parece, tanto para a própria pessoa, como para o espectador imparcial, ser menos desagradável do que qualquer grau de falta.

Adam Smith – Teoria dos Sentimentos Morais, Seção III – Do autodomínio (páginas. 325-327)

1 de jun de 2010

Adam Smith - Autodomínio e Falso Autodomínio

Parte I - Medo e Cólera

 “Um momento de paciência pode evitar um grande desastre;
Um momento de impaciência pode arruinar toda a vida”. Provérbio chinês

Inteligência não é sinônimo de sabedoria: “O mais perfeito conhecimento, se não for amparado pelo mais perfeito autodomínio, nem sempre capacitará [o homem] a cumprir o seu dever”, diz o filósofo escocês Adam Smith (1723-1790).

Considerado o “Pai” da Economia moderna, é mais conhecido por sua famosa obra “A riqueza das Nações”. Porém, “Teoria dos Sentimentos Morais”, sobre a qual tangenciamos, foi publicada em 1759 e é considerada por muitos estudiosos sua verdadeira obra-prima.

É agradabilíssimo aprender ‘como ser juiz de si mesmo’, testemunhando o espantoso grau de erudição alcançado pelo Sr. Smith, em cuja alma notoriamente apaixonada pelos antigos, sobretudo os sábios filósofos gregos, pulsa uma magnanimidade ímpar.

Do inspirado pensador, ao qual tive a felicidade de ser apresentada pelo economista brasileiro Alexandre Schwartsman quando estudava a avareza/ganância dentre “Os Sete Pecados Capitais” (vide artigo já publicado), focaremos o “Autodomínio” que, como diz Adam Smith: “não é apenas em si mesmo uma grande virtude, mas dele todas as outras virtudes parecem derivar seu principal brilho”.

A necessidade de autodomínio está intimamente relacionada às tentações, pois como diz o autor “agir de acordo com os ditames da prudência, da justiça e da beneficência apropriada, parece não ter grande mérito se não existe a tentação de agir de outra forma”. Somos cônscios de que é justamente na capacidade de empreendermos autodomínio diante dos pathós (afecções da alma) que poremos em relevo nossas maiores virtudes, ou sucumbiremos a vexatórios e odiosos vícios.

Conhecer as regras, no entanto, não nos capacita a cumpri-las. Somos passíveis de medo, cólera e, como qualquer ser humano, orgulhosos e vaidosos. As paixões nos seduzem com facilidade e, insistentes, nos induzem a atitudes aviltantes, constrangedoramente indignas, que contrariam e traem nossas convicções.

O autor subdivide as paixões em duas classes: no primeiro grupo inclui as que mais exigem esforço de autodomínio e que são mais raras, pontuais; no segundo grupo enquadra as paixões que podem ser refreadas com mais facilidade, mas que, por serem mais constantes “por suas súplicas contínuas e quase incessantes, podem, no curso de uma vida, induzir a grandes desvios”.

É tarefa árdua manter lúcido autodomínio diante de uma inesperada situação aterradora: deimos e phobos (terror e medo), sabiam os gregos, são paralisantes. Por outro lado, é muito difícil refrear a reação imediata e impulsiva num agudo momento de cólera.

No segundo grupo das paixões sobre as quais convém que exerçamos autodomínio, nos enredam “o amor ao sossego, ao prazer, ao aplauso e a muitas outras satisfações egoístas”. Seguramente, se compararmos as do primeiro com as do segundo grupo, parece-nos mais fácil dominá-las, pois essas inclinações nos concedem algum tempo mínimo de reflexão; ao menos, mais do que quando somos assaltados pelo medo e pela cólera (primeiro grupo).

Medo e cólera, embora sejam arroubos muito intensos, são pontuais. Não se vive tomado por medo e cólera diuturnamente. Os apetites concupiscentes do segundo grupo, por sua vez, embora até menos desenfreados e impetuosos, são dóceis e brandos e por isso mesmo, mais insidiosos. Tão insistentes e constantes que “por suas súplicas contínuas [diárias até], não raro nos induz[em] a muitas fraquezas que depois com muita razão nos envergonharemos” nos momentos de acurada lucidez.

Ressaltando que “Nenhum caráter é mais desprezível do que o de um covarde” aponta que dominar o medo e a cólera exige coragem, vigor e força de espírito. De outro modo, o domínio dos desejos do ego, para os antigos moralistas (sem conotação pejorativa) demanda temperança (em grego Sophrosyne = justa medida; Espírito são), decência, modéstia e moderação.

Nos heróis (e até mesmo nos vilões!), a capacidade de alguns homens em subjugar o medo, mantendo a “presença de espírito” mesmo diante rainha dos terrores – a morte – não deixa de nos causar genuína admiração: “É esse habitual desprezo pelo perigo e pela morte que enobrece a profissão de soldado, e lhe confere na concepção natural da humanidade, posição e dignidade superiores às de qualquer outra”.

Essa ímpar característica distintiva do guerreiro destemido e vitorioso, que é a alké (coragem) guarda um “segredo” revelado por Hesíodo na Teogonia (cerca de 600 a.C.): “kydistos” (possuidor de “kydós”, uma variante de Kleós/Glória e Niké/Vitória) é um dos epítetos de Zeus (Júpiter, o grande Superintendente do Universo, como Adam Smith designa).

Numa batalha, prova ou em qualquer outro desafio, ao mortal que também trouxer o “kydós” dentro do peito será destinada a vitória. Dessa forma, ao cônscio e convicto de trazer a marca distintiva do kydós de Zeus em si, a tal “presença de espírito” como identifica o Sr. Smith, só cabe um destino: Victor! “Ele” o elege porque primeiro o candidato a herói “O” elegeu. É assim que o afortunado é eleito, que a Fortuna lhe sorri. O “segredo” é estar convicto da vitória antes do início do combate.

Dominar a cólera não é atitude menos generosa e nobre que dominar o medo, diz Smith. Sem dúvida, uma destemperada e ruidosa explosão de cólera “é sempre odiosa e ofensiva” conclui, salientando que “nos importa não o homem irado, mas o homem com quem este está irado”, e essa indignação, quando justa, faz toda diferença.

Apontando um dos caminhos para refrear a cólera, Adam Smith é lapidar: “Em muitas ocasiões a nobreza do perdão revela-se superior até mesmo a mais perfeita propriedade do ressentimento (...) o homem que consegue pôr de lado toda a animosidade e agir com confiança e cordialidade para com a pessoa que mais dolorosamente o ofendeu parece merecer com justiça nossa mais elevada admiração”.

Numa ação de falso domínio, freqüentemente é o medo que impede a reação encolerizada, mas “nesses casos a baixeza do motivo retira toda nobreza do controle”.

Reativa, “A cólera incita ao ataque, e às vezes, quando é saciada, deixa à mostra uma sorte de coragem e superioridade diante do medo. Saciar a cólera é por vezes objeto de vaidade; saciar o medo, jamais”.

Quando os propósitos são perniciosos “(...) o domínio da cólera nem sempre se mostra sob cores tão esplêndidas”. O indivíduo dissimulado, que consegue conter a cólera por medo de enfrentar quem a suscita, é falso e perigosíssimo: traiçoeiro, como ardilosa serpente, estará à espreita, aguardando apenas a ocasião mais propícia e segura para dar o bote.

Adam Smith é contundente ao afirmar que os homens vaidosos e fracos, quando diante de seus inferiores ou entre àqueles que nem se atrevem a enfrentá-los, mostram-se excessivamente passionais, pois acreditam que, agindo desse modo ostentam o que se chama de valor e angariam aplausos [dos igualmente toscos] admiradores.

Abomináveis, os que assim se portam são de uma arrogância deplorável: “Há sempre algo digno no domínio do medo, seja qual for o motivo sobre o qual este se funda. O mesmo não ocorre no que se refere ao domínio da cólera: a menos que se funde inteiramente sobre o senso de decência, de dignidade, de conveniência, nunca é perfeitamente agradável”.

Urge saber distinguir sabiamente a situação de “verdadeiro autodomínio” das de “falso domínio de si”, pois a coragem tanto pode ser usada para perpetrar justiça ou injustiça: “Trata-se, do trabalho lento, gradual e progressivo do grande semideus dentro do peito, o grande juiz e árbitro da conduta”, profere Adam Smith. É necessário empenhar-se constantemente no cultivo da virtude do autodomínio e acalentar forte senso de conveniência para fazer e principalmente manter esse comprometimento.

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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

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Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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