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1 de mar de 2013

Memórias do Subsolo - Dostoiévski (Parte I)




“(...) A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”. Friedrich Nietzsche, sobre essa obra.


A máxima aristotélica de que só pratica o mal aquele que desconhece o bem encerrava uma explicação plausível ao desmantelo e estupidez do mundo.

Mas, nessa que é, seguramente, uma de suas magistrais obras (“Memórias do Subsolo”, de 1864), o russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) filosofa com propriedade sobre os insondáveis do subconsciente e nos traz uma óbvia – e ao mesmo tempo chocante – revelação sobre a psique.

Nessas acachapantes linhas, somos provocados: “(...) quem foi o primeiro a declarar, a proclamar que o homem comete ignomínias [ações altamente desonrosas, infâmias] unicamente por desconhecer os seus reais interesses, e que bastaria instruí-lo, abrir-lhe os olhos (...) para que (...) se tornasse, no mesmo instante, bondoso e nobre, porque, sendo instruído e compreendendo as suas reais vantagens, veria no bem o seu próprio interesse, e (...) passaria a praticar o bem?”.

Alicerçados no incontestável poder da razão, do raciocínio lógico (“dois e dois são quatro” e não há o que se discutir), como entender que algumas pessoas possam sentir prazer em perseguir o grotesco, a humilhação e até orgulharem-se de vilezas e desonras?

Cáustico, irônico, paradoxal, logo no início, o personagem do subsolo afirma ser um homem doente, mau, desagradável e que, além de ser o primeiro a reconhecer isso, diz, convicto, que não querer se curar só prejudicará a si mesmo e a mais ninguém.

Desalmado, confidencia o prazer em prejudicar, propositalmente, os humildes (“É hábito meu ser assim.”), consciente de que “(...) apenas assustava passarinhos em vão e me divertia com isso”. Afirma ainda, que não se vive além dos quarenta anos, pois à partir daí já é uma vida “indecente, vulgar, imoral!”, aludindo ao fato de que aos quarenta, conformamo-nos, já não vivemos uma “vida viva”.

Declarando-se detentor de um “terrível amor-próprio” confessa ser desconfiado, que se ofende facilmente, não fita as pessoas nos olhos e se põe a explicar como é que acalenta um estranho prazer – “sutil, às vezes inapreensível à consciência” – na própria degradação.

Presume não estar só, pois milhões de fatos, diz esse homem do subsolo, testemunham que homens, com conhecimento de causa, isto é, compreendendo plenamente as suas reais vantagens, as relegam e, teimosos, se lançam em busca do risco, ao acaso, com teimosia, a seu gosto, procurando quase nas trevas esse caminho árduo, absurdo.

Para ele, essa teimosia, essa ação a seu gosto lhe era mais agradável que qualquer vantagem, que na verdade não há como determinar com absoluta precisão em que consiste a vantagem humana, pois essa pode consistir simplesmente em desejarmos o prejuízo, a degradação e não aquilo que a unanimidade tem como mais salutar.

Indaga-se: “Não existirão algumas pessoas que não apenas não se enquadraram, mas nem podem enquadrar-se em qualquer classificação?”.

Diz que se levantássemos um cadastro das vantagens humanas, calculando a média a partir de cifras estatísticas e das fórmulas científicas e econômicas, é provável que concluíssemos que vantajoso é o bem-estar, a riqueza, a liberdade, a tranquilidade etc., e que negando essas vantagens o indivíduo poderia ser considerado um demente.

A surpreendente ruína, aponta, é que “(...) todos esses estatísticos, mestres de sabedoria e amantes da humanidade, ao computar as vantagens humanas, deixam de mencionar uma complicada que (...) não cabe em nenhuma classificação e não se enquadra em nenhuma lista!”.

Quantas vezes não testemunhamos alguém discorrer que agirá assim ou assado, porque usando o raciocínio lógico, ponderou e chegou a tal conclusão, até se dá ao trabalho de censurar atitude inversa nos outros, considerando-os estúpidos e blá-blá-blá, mas que, inexplicavelmente “devido a algo interior, mais forte que todos os seus interesses”, contra todas as leis da razão, contra tudo e contra todos, até contra sua própria vantagem, faz exatamente o oposto do que apregoava?

Aproximando-se de um dos pontos nevrálgicos, o autor inquire: “Não existirá, de fato (...) algo que seja a quase todos mais caro que as maiores vantagens [uma vantagem omitida], mais importante e preciosa que todas as demais e pela qual o homem, se necessário, esteja pronto a ir contra todas as leis, isto é, contra a razão, a honra, a tranquilidade, o bem-estar, numa palavra, contra todas essas coisas belas e úteis, só para atingir aquela vantagem primeira, a mais preciosa, e que lhe é mais cara que tudo?”.

Desafiando-nos, roga que olhemos a nossa volta: “o sangue jorra em torrentes (...) embora o homem já tenha aprendido por vezes a ver tudo com mais clareza do que na época bárbara, ainda está longe de ter-se acostumado a agir do modo que lhe é indicado pela razão e pelas ciências (...)”. Infelizmente, os horrores das guerras assombram, assombraram e... Assombrarão.

Esmiuçando o subconsciente do mais racional dos animais, faz pilhéria: “E tudo isso devido a mais fútil das causas, à qual, parece, quase nem valeria a pena referir-se: tudo precisamente porque o homem, seja ele quem for, sempre e em toda parte gostou de agir a seu bel-prazer e nunca segundo lhe ordenam a razão e o interesse (...)”.

Egoístas, extravagantes e teimosos, dificilmente abriríamos mão de “Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que dos mais absurdos, nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura [mentir, trair, invejar, amaldiçoar, odiar, perverter, se humilhar, acovardar-se, acomodar-se... Bem, a lista é vasta!] – tudo isso constitui aquela vantagem das vantagens que deixei de citar, que não se enquadra em nenhuma classificação, e devido à qual todos os sistemas e teorias se desmancham continuamente, com todos os diabos!”.

Cáustico, desdenha: “E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa?”. Ora, o homem é estúpido, de uma estupidez fenomenal –, sentencia.

Para o homem do subsolo, uma vontade ajustada com a razão nos levaria a privilegiar a lógica e isso impediria de desejarmos algo sem sentido: “(...) o que é um homem sem desejos, sem vontades nem caprichos? (...) que prazer se pode ter em desejar segundo uma tabela?” – provoca.

Para muitos, como prescindir do abuso de “senhores”, da “harmoniosa” instabilidade, de uma angústia doentia ou de certa afinidade com o caos? Ser feliz pode não ser nada fácil.

Não podendo ir, conscientemente, contra a razão e desejarmos o que é nocivo a nós próprios e viver assim de acordo com a nossa estúpida vontade: “(...) o que sobrará de livre em mim, sobretudo se sou um sábio [gracejo do homem do subsolo] e terminei um curso de ciências em alguma parte?”.

De forma lapidar, decreta: “O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar. Bem, o diabo sabe o que é essa vontade...”.




Reiterando nosso convite para hoje à noite:


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

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