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1 de abr de 2014

A VONTADE DE CRER - William James (Parte I)


“A fé é uma das forças pelas quais os homens vivem, 
e a sua ausência total significa colapso.” William James


O médico e filósofo norte americano William James (1842-1910) é um dos fundadores da psicologia moderna e seus escritos figuram entre os clássicos.

A genialidade de James está em fundir a mente “científica” com a inquietação espiritual e seu opúsculo “A vontade de crer” é considerado por muitos a expressão dessa fusão, explicitando coerência ao afirmar a necessidade da fé.

Suas ponderações, que iniciaremos agora, culminarão numa afirmação positiva da fé religiosa, justificando: “(...) nosso direito a adotar uma atitude de crença em questões religiosas, mesmo que nosso intelecto meramente lógico talvez não tenha sido compelido a isso”. A questão é cara à filosofia, pois abarca ontologia (ciência do ser enquanto ser) e epistemologia (teoria do conhecimento).

Seus argumentos visam estabelecer de modo filosoficamente lícito, a fé quando voluntariamente adotada. Para isso, começa estabelecendo algumas distinções técnicas.

Ele chama de hipótese qualquer coisa que possa ser proposta à nossa crença e, assim como os eletricistas falam de fios vivos e mortos, James falará das hipóteses como vivas ou mortas: “Uma hipótese viva é a que aparece como uma possibilidade real para a pessoa a quem é proposta”.

O que ele quer dizer com essa “hipótese viva” é que, se pedirem para que acreditemos no Mahdi (em árabe, “aquele que é guiado por Deus”) e desconhecermos o que seja um Mahdi, essa ideia não criará nenhuma conexão elétrica com a natureza e, como hipótese, será completamente morta. Mas para um árabe (mesmo que nem seja um dos seguidores de Mahdi), a hipótese estará entre as possibilidades, portanto é “viva”.

Ele nos esclarece que: “o caráter vivo ou morto de uma hipótese não é uma propriedade intrínseca [da hipótese em si], mas está relacionado ao pensador individual [que poderá ou não cogitá-la].

Assim o caráter “vivo” de uma hipótese é aferido pela disposição do indivíduo para agir [e/ou reagir] diante dela: “Na prática, isso representa uma crença; mas há alguma tendência de crença [ao menos uma suspeita] sempre que existe alguma disposição a agir”, diz o estudioso.

William James chama de opção a decisão entre duas hipóteses e diz que as opções podem ser de vários tipos:

1) Vivas ou Mortas: opção viva quando ambas as hipóteses tem algum apelo (mesmo que pequeno) à crença, por exemplo: “Seja agnóstico ou seja cristão”. E, opção morta quando para nosso entendimento, nenhuma das hipóteses nos fale de perto, por exemplo: “Seja teosofista, ou seja muçulmano”.

2) Forçosas ou Evitáveis: se pedir que escolham entre sair com ou sem o guarda-chuva, por exemplo, não está sendo oferecida uma opção genuína, pois ela não é forçosa, basta que se decida não sair para que seja evitável. Mas, se digo: “Aceitem esta verdade ou passem sem ela” é uma opção do tipo forçosa, pois não deixo margem para uma posição fora dessas alternativas. E o autor estabelece: “Todo dilema baseado numa disjunção lógica completa, sem nenhuma possibilidade de não escolher, é uma opção forçosa”.

3) Prementes (urgentes) ou Triviais: se lhes propusesse participar de uma expedição ao Polo Norte, diz o autor, sua opção será premente (urgente), pois seria uma oportunidade única e sua escolha implicaria na perda dessa experiência, ou, na chance de vivenciar essa aventura: “Aquele que se recusa a abraçar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente como se tivesse tentado e falhado. A opção por uma hipótese é trivial quando a oportunidade não é única, quando o que está em jogo é insignificante, ou quando a decisão é reversível se, posteriormente, se revela equivocada”, afirma James.

Após assentar esses pressupostos sobre uma hipótese (significativa quando viva, forçosa e premente), Willian James passa a considerar a psicologia da opinião humana.

Quando olhamos certos fatos, diz ele, é como se nossa natureza passional e volitiva (de querer, desejar) se encontrasse na raiz de todas as nossas convicções. Já quando olhamos para outros [fatos], parece-nos que eles não poderiam fazer mais nada após o intelecto ter dado seu veredicto.

Mas não parece despropositado, diante disso, indaga o autor, supor que nossas opiniões possam ser modificáveis de acordo com nossa vontade? Pode nossa vontade ajudar ou atrapalhar o intelecto em suas percepções da verdade?

Será que seríamos capazes de, por um profundo desejo ou por uma força de vontade homérica acreditar que estamos realmente bem quando fomos diagnosticados com câncer e estamos sentindo dores insuportáveis?

Podemos até dizer que estamos bem, afirma ele, mas nos é absolutamente impossível acreditar nisso: “e exatamente dessas coisas é constituída toda a tessitura das verdades em que acreditamos (...)”. Do constatável e do imponderável.

O autor então chama a atenção para a célebre passagem conhecida como a aposta de Pascal, quando este, como num jogo de azar, pergunta: “É preciso acreditar ou não acreditar que Deus existe – o que você fará?”. Nossa razão humana não pode dizer, pondera James.

E, no terreno da justificativa lógica prossegue: “Pese quais seriam seus ganhos e suas perdas se você apostasse tudo o que tem na existência de Deus: se você ganhar, o prêmio será a beatitude eterna; se perder, não perderá absolutamente nada (...). Por que não? No fim das contas, o que você tem a perder?”.

Bem, quando a fé religiosa se expressa dessa maneira, diz ele, na linguagem da mesa de jogos, é sinal de que está reduzida a seus últimos trunfos. A fé adotada intencionalmente após tal cálculo mecânico seria desprovida da alma interior da realidade da fé; e, se estivéssemos nós mesmos no lugar da Divindade, provavelmente teríamos um prazer especial em excluir os crentes dessa espécie de sua recompensa infinita, salienta William James.

A menos que haja alguma tendência preexistente a acreditar em Deus, a opção oferecida à vontade por Pascal não é uma opção “viva”, diz.

A discussão quanto a acreditar por nossa própria vontade parece tola e até pior do que tola, vil, diz ele, afirmando que quando nos voltamos para o magnífico edifício das ciências e vemos como foi construído, quantos milhares de vidas morais desinteressadas encontram-se enterradas em suas fundações, que paciência, que sacrifício de preferências, que submissão às leis gélidas do fato externo estão gravados em suas pedras, quão absolutamente impessoal ele se ergue em sua vasta majestade – diante de tudo isso, quão estúpido e desprezível parece cada pequeno sentimentalista que vem pretendendo decidir coisas a partir de seu próprio sonho pessoal.

James, indaga: “Podemos ter alguma dúvida de que aqueles criados na escola árdua e briosa da ciência terão vontade de vomitar tal subjetivismo (...)?”. E revelando o outro lado da mesma moeda, aponta que é assim que, aqueles que pegaram a febre científica passam para o extremo oposto, professando como se o intelecto incorruptivelmente confiável devesse sem nenhuma hesitação preferir amargor e inaceitabilidade ao coração inebriado.

Puro discernimento e lógica, o que quer que possam fazer idealmente, não são as únicas coisas que, de fato, produzem nossos credos. William James diz ser evidente que nossa natureza “não intelectual” influencia nossas convicções e que: “Há tendências passionais e volições que vem antes e outras que vem depois da crença (...)”.

Prosseguiremos esmiuçando como e por que a volição nos encaminha e também legitima a crença até que, com ajuda desse brilhante intelectual, tenhamos iluminado (ao menos de relance) o imbróglio essencial em filosofia, que é a questão de “fides et ratio”. E, a propósito: Boa Páscoa!


Convido os amigos para conferir o vídeo sobre a Villa Tantafera, em Florença, onde comemoraremos o término de nossos Cursos em Roma, previstos para Maio/2014.

Confira Programação dos Cursos na Galleria Borghese (Roma), AQUI.


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