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luciene felix lamy

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1 de dez de 2009

Por que cremos?



“Oh! Virtude, ciência sublime das almas simples, serão necessários então, tanta pena e tanto aparato para conhecer-te? Teus princípios não estão gravados em todos os corações?" Jean-Jacques Rousseau.

Nessa época do ano realça-se o sentimento de religiosidade. Muitas pessoas, até involuntariamente, experimentam solene introspecção. A ocasião parece apropriada para refletirmos sobre o surgimento da religiosidade humana e seu desaguar no vasto campo das religiões.

Surpreende o fato de somente agora a religiosidade estar sendo apontada como um dos fatores que contribuíram para a evolução do homem na terra. Segundo o jornalista do The New York Times, Nicholas Wade: “A religião carrega as marcas de um comportamento evoluído, o que significa que existe porque foi favorecida pela seleção natural. É universal porque está impressa em nossos circuitos neurológicos desde antes de os primeiros humanos se dispersarem a partir da África”.

Se, como diz Nicholas, “(...) a religião evoluiu porque conferia benefícios essenciais às primeiras sociedades humanas e seus sucessores”, estamos diante de fato irrefutável, mas não paradoxal. Numa palestra intitulada “Origens da Religião e Pólis Grega(disponível em vídeo no site da Escola Superior de Direito Constitucional: www.esdc.com.br), que proferi em 2007, explico como e porque o próprio Estado já nasce no seio da religiosidade humana.

O artigo do Times, começa afirmando que dois arqueólogos “fizeram uma descoberta notável sobre a origem da religião ao longo de 15 anos de escavações (...)”. Ora, os primeiros ensaios de uma comunidade gregária se deram em torno dos alimentos. As primevas organizações políticas, as mais primitivas comunidades surgem tendo como esteio essa voraz necessidade dos indivíduos de, juntos, enaltecerem a magia que os circundava e, desse modo, em sincronia se estreitarem à natureza que os provia.

Embora o “Pai” da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) com propriedade, tenha apontado a religião como sendo uma espécie de delírio coletivo, a religiosidade “em si”, que floresceu em nossos antepassados não fora um mero e infundado “delírio coletivo”: a crença, em sua origem, foi fomentada por instinto de sobrevivência.

A abundante, diversificada e bem orquestrada “mãe-natureza” serviu de base a nosso primevo e rústico tecido social. O nascente e o poente, os ciclos de lunação, as estações do ano, o cortejo dos planetas por entre as constelações fixas, cachoeiras, rios, lagos e mares; trigo, milho, oliveira, cevada e todas as aves e os animais, além de reais, eram tudo o que tinham para inteligir a potência (dýnamis) da vida.

O homem primitivo, de racionalidade ainda rudimentar, encontra uma forma mítica para compreender e explicar aos demais a realidade que os circunda. O pequeno grupo ao qual pertence, se convence da lógica embutida nessas explicações.

Surge então um elo comunitário de compreensão dos fenômenos mais prosaicos, irrompidos periodicamente em seus habitats. Rituais que celebram a magia de inícios e fins (ciclos de vida e morte) são estabelecidos consensualmente.

É sabido que o comportamento religioso (qualquer que seja a forma de religação adotada) é identificado em todas as sociedades humanas, independente de qual seja o estágio de desenvolvimento em que se encontre. Digno de nota é o fato de que nesse estágio da religiosidade, o sujeito encontra, no meio no qual se insere, correspondência análoga às suas expectativas individuais.

A adesão aos ritos é espontânea e essa sacra consonância, essa fusão de valores criará um elo de fidelidade entre os membros, tornando o grupo forte e coeso. Unidos, amparando-nos mutuamente, sempre fomos mais fortes e detemos maiores oportunidades.

A religiosidade humana se impôs, inicialmente, por questão utilitária, sobretudo depois que o homem deixou de ser nômade, buscou abrigo fixo e, dependendo da agricultura (entenda-se estações do ano) sabiamente passou a ir ao encontro do tempo cíclico, em simbiose com a natureza.

Embora até hoje não tenhamos deixado de beneficiarmo-nos da caça (presente, ao menos duas vezes por dia, na mesa dos abastados), foi devido ao reconhecimento às misteriosas dádivas de Deméter (deusa grega da agricultura - Ceres em romano, daí a palavra cereal) que nossos ancestrais se aproximaram comungando e rejubilando-se num sentimento de pertença (confira breve relato desse mito celebrado nos “mistérios de Elêusis”, cerca de 800a.C. em "primavera", nesse Blog).

Mas não se intenta subjugar o acaso e seus inescrutáveis caprichos apenas manifestando gratidão . É fundamental evitar os “castigos” interpretados como zangas divinas. Deimos e Phobos (1) sempre foram meios de persuasão muitíssimo convincentes.

Por receio de que mazelas sucedam a todo o clã, expulsa-se transgressores das leis, os profanadores dos costumes sagrados; rituais de expiação zelam pela manutenção da ordem, da paz e das boas graças de uma “autoridade invisível”.

Arregimenta-se credulidade também sob coação, pelo sentir dilacerado da dor. Podia acometer-nos a morte, oriunda das guerras, da fome, de doenças, furacões, vulcões, raios, enchentes, maremotos, enfim, temíamos que pairasse sobre nossa família e/ou comunidade grandes males e infortúnios.

Nesse estágio da religiosidade humana, legitimar a autoridade do grupo levando-nos a colocar o bem-estar do clã acima de nossos interesses pessoais é atitude altruísta que mais nos humaniza; é o que nos tornou e nos tornará sempre mais “humanos”.

Alguns estudiosos tem levantado a hipótese de que, se com a teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1882) compreendemos que sofremos alterações com o constante aprimoramento de nossas aptidões físicas, não é improvável que o mesmo tenha ocorrido em nossa psyché.

Nesse sentido, Nicholas Wade afirma: “O que a evolução fez foi dotar as pessoas de uma predisposição genética a aprender a religião da sua comunidade, assim como há uma predisposição para a linguagem. Tanto na religião quanto na linguagem, é a cultura, e não a genética, que fornece o conteúdo do que é aprendido”.

O fato da religiosidade poder ser observada sob uma perspectiva psiquicamente evolucional, como algo que tenha fomentado, alicerçado e impulsionando o desenvolvimento das sociedades humanas não desempata o duelo entre crentes e ateus pois, como aponta o próprio autor: “O favorecimento da religião pela seleção natural não comprova nem refuta a existência dos deuses”.

Nicholas chama a atenção para o fato já sabido de que em “sociedades hierárquicas maiores, os governantes cooptaram a religião como fonte de autoridade”, o que resvalará em atrocidades ou, no mínimo nos tais “delírios coletivos” apontados por Freud, algo que nem crentes nem ateus suportam mais testemunhar.

Se lastimavelmente, algumas religiões e seus ferrenhos seguidores acalentam preconceitos, promovem guerras e perseguições é porque se esqueçam de que seu longinquo e nobilíssimo berço é ser primeva fonte de amparo à fragilidade humana. Deturpam a religiosidade que surgiu, em nossos antepassados unindo os homens na imprescindível promoção do bem estar da coletividade, que “subjaz a” e “abarca a” função social.

A religiosidade primeva não escandaliza a razão. É de uma inteligibilidade intuitiva, dispensando provas ou argumentos, é puro instinto de sobrevivência “impressa em nossos circuitos neurológicos” como denominam os cientistas.

Vislumbraram a Alma (psyché), outrora tão magnânima em seu propósito de nos religar com a ordem (cosmos) presente na natureza (physis) da qual também fazemos parte. Espantados constatam: fomos feitos para crer.

1- Deimos e Phobos: terror e medo, filhos do deus grego da guerra, Ares, que na mitologia romana será denominado Marte. Esse é também o nome dos satélites naturais desse planeta.

1 de nov de 2009

Exploração das ninfetas - eichmannite é não pensar




"O bom senso é a qualidade mais bem distribuída entre os homens, pois todos pensam que a possuem o suficiente" René Descartes (Filósofo francês)



A beleza é uma promessa de felicidade. Nas campanhas publicitárias, quando associada aos produtos, nos seduz, detendo estatuto de virtude, constituindo insígnia de classe e bom gosto.

Indagado sobre a importância da beleza, Aristóteles teria dito que somente um cego faria essa pergunta. Sabedores de que uma petrificante beleza confere inegável poder, o que dizer da “tenra” e “fresca” beleza feminina quando ela pura e simplesmente desponta?

Símbolo da delicadeza que é a pureza inviolada, o termo “ninfeta” deriva do grego nymphé, significando botão de rosa, menina adolescente, noiva, púbere, velada. Segundo registros mais arcaicos, são mortais, mas permanentemente jovens e graciosamente diáfanas. Não são mais crianças: nem meninas, nem mulheres – magia – elas estão em toda parte.

Habitam fontes (Crenéias), rios (Náiades), lagos (Pegéias), mares (Nereidas e Oceânides), árvores (Hamadríades), vales (Dríades), florestas, selvas (Napéias) e também as montanhas (Oréades). Em Homero e Hesíodo, as mais antigas são as Melíades, descendentes do céu (Ouranós), mas também serão retratadas como sendo filhas de Zeus.
Desde os primevos aedos, o mundo dessas “fadas” evoluiu muito e hoje elas povoam as ruas, as praias, os parques, as escolas e os shoppings. Mortais, mas eternas, as ninfetas são verdadeiramente encantadoras.

A deusa Hera, rainha do Olimpo (esposa de Zeus), é a soberana dos amores legítimos, por razões igualmente legítimas, sempre se envolverá em conflitos nesse cenário, pois, são constantes as investidas de Zeus às ninfas e Hera é a guardiã dos contratos e a protetora dos casamentos.

Embora a idade assentada para união (entenda-se vida sexual) seja cultural, biologicamente, a menarca (primeira menstruação) constitui indício de que os órgãos responsáveis pela reprodução humana estão aptos a iniciar suas funções. É fato que, ao longo de nossos mais de dois milênios, a idade cronológica da ocorrência da menarca têm se antecipado.

Conta-se que na Grécia antiga, com cerca de doze anos, as meninas recolhiam suas bonecas, seus brinquedos, seu último vestidinho de infância e, reunindo-os como dádivas, deixavam-os na entrada duma floresta. Esse ritual visava pedir a proteção da deusa Ártemis para o parto.

Obviamente não significa que saiam dali para parir, mas que já se encontravam aptas ao matrimônio. Historiadores relatam ter sido encontrada uma antiquíssima rocha com inscrição de um pai rogando bênçãos e agradecendo a proteção para a filha.

Independente de reverências cerimonialísticas religiosas ou meramente sociais – como os bailes de debutantes – pré-adolescentes são Botticellis vivos que catalisam e deleitam o olhar de homens, mulheres, jovens e idosos.

Ninguém é indiferente ao – algumas vezes sobrenatural – desabrochar duma ninfeta. Filha, irmã, sobrinha ou neta, todos já tiveram, tem ou terá alguma(s) enfeitando a casa, na família.

Diferente das ninfas dos museus (cujo termo, apropriadamente vem de Musa), retratadas com respeitosa e inefável maestria por Volegov, Bouguereau e Vermeer, por exemplo as de hoje tem sido aviltantemente exploradas por uma ideologia capitalista de modo muito similar à ideologia totalitária que cegou o carrasco nazista Karl Adolf Eichmann (leia nesse Blog, artigo intitulado “Hannah Arendt – No murmúrio da multidão a consciência adormece”).

Detentoras de um encanto, por natureza, tão deslumbrante quanto efêmero, imprimi-se inequívoca eroticidade às ninfas. Na boca, geralmente entreaberta, destacam-se os lábios com gloss a fim de passar a sensação de convidativa umidade.

Orienta-se a luz, estrategicamente oculta sobre os seios ou por entre as pernas – mesmo vestidas, as próprias mãos ou algum objeto dissimuladamente próximos à região pubiana insinuam lascívia.

Se as ninfas retratadas outrora dirigiam um olhar de piedoso desamparo, algo entre a surpresa e o recato, nas de hoje testemunhamos uma desconcertante profanação dessa pureza.

É justamente isso que os profissionais perseguem: traficar a mais ingênua expressão de pudor com dissimulada perversidade.

Assim como o burocrata nazista Eichmann, publicitários, marqueteiros e empresários (como o dedicado ao comércio de moda, Tufi Duek, cujo site disponibilizo abaixo) não são demônios encarnados. São indivíduos absolutamente “normais”: zelosos pais de família, cumpridores das responsabilidades civis, em dia com os impostos e obrigações sociais. E, vale dizer, talentosos!

Mas, em geral, inadvertidamente, adoradores de ouro, anseiam pelo polêmico destaque midiático que multiplicará seus lucros. Tendo suas sinapses vorazmente ativadas na busca desenfreada por ascender econômica e socialmente no exercício de suas technai, muitos não se detém a questionar o éthos que lhes compete.

Sinapses desativadas, “esquecem” que, como indivíduos ou grupo de indivíduos, também são responsáveis pela formação dos valores da sociedade que os acolhe e que lhes permite prosperar. Acometidos por uma espécie de “eichmannite”, não pensam.

Banalizando as imagens de pudicas ninfetas, não atentam ao alcance de suas ações, não indagam se podem ou não estar incitando perversidades como a pedofilia.

Se a crueldade do sistema totalitário cria pessoas destituídas da mínima capacidade de distinguir o bem do mal, de atinar para as conseqüências de suas ações, pois se encobrem no coletivo, o sistema capitalista quando igualmente encoberto por nós, tendo como télos (objetivo, propósito, finalidade) o lucro a qualquer custo, segue com notória avidez, o mesmíssimo caminho.

Obviamente, o sistema totalitário seqüestra ainda mais nossa liberdade que o sistema capitalista, pois esse último, ainda que se ancore num instrumental extremamente apelativo, não nos impede absolutamente de pensar, refletir, julgar e, conforme o caso, se nos sentirmos atingidos em nossos “phrenas”, como diria Homero, denunciar.

Farra de velhacos, não há como impedir que uma jovem goze da liberdade de poder negociar seu corpo (talvez até para se vestir com grifes), mas devemos evitar que a institucionalização do abuso nas imagens das ninfetas seja algo legitimado pelo Estado ou ainda que conte com a anuência dos adormecidos cidadãos.

É preciso ponderar sobre o efeito dessas ordinárias extrapolações, desses apelos maliciosos – sobretudo com modelos verdadeiramente precoces – nos meios midiáticos.

Sem a prudência de um Ulisses, que pediu para ser amarrado ao mastro, a massa se perde no “canto das sereias”. Delirantemente embriagados pelo incessante tilintar das caixas registradoras, sob aplausos e holofotes, facínoras podem (metaforicamente) “estuprar” toda uma sociedade. Pathetikós, filisteus os alçam à “elite”.

Felizmente, desde os primórdios, “Aristois” - os melhores, os bem educados – são os que pensam. Àqueles que, mesmo após partir, permanecem contribuindo para a evolução do aprimoramento da humanidade. Os que nos fizeram, fazem e farão pensar, como Hannah Arendt.

Saiba mais:

"(...) Forum traz a sua essência de ousadia, vanguarda e transgressão (FALTA DE NOÇÃO!), características que construíram o reconhecimento ao longo do tempo da sua origem jeanswear".





1 de out de 2009

Incesto e Pedofilia



Areté, em grego é excelência! Àquilo para o qual algo foi feito: a areté do olho é enxergar bem; a do médico, curar; a do guerreiro, vencer, a da empresa, lucrar. Qual é a “Areté”, a excelência do Mal?


Sem sombra de dúvida, incesto e pedofilia encabeçam a lista dos mais abjetos e repugnantes delitos; seguramente os que mais causam repulsas e indignação à sociedade.

É precisamente o interdito, a proibição do incesto, como aponta o renomado antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908) o que opõe o homem ao animal: “constitui o passo fundamental graças ao qual, pelo qual, mas, sobretudo no qual se realiza a passagem da natureza para a cultura”, definindo o âmbito limítrofe entre o estado de natureza e o de civilização: “o limite oposto à [liberdade] livre atividade conferiu um novo valor ao irresistível impulso animal”. Somente nós valoramos.

A fim de ampliar ainda mais a compreensão desse alcance – de poder valorar e escolher –, a interdição do incesto é o que o pensador francês Georges Bataille (1897-1962), em sua obra “O erotismo” denominou “um fato social total”, isto é, dotado de uma “significação simultaneamente social e religiosa, mágica, econômica, utilitária e sentimental, jurídica e moral”. Entrevemos a centelha divina da ratio ao atentar que: “O incesto é uma dessas situações que só têm existência, arbitrária, no espírito dos seres humanos”. Por dispor da força que é o Espírito iluminado pelo lógos, instituto que nos distingue, somos livres para pensar, deliberar e escolher.

É perfeitamente compreensível que o tipo e intensidade de contato físico submetem-se às normas sociais e que a malícia não está nos atos em si. Mas, desde os antigos gregos, cuja cultura permitia certos costumes inconcebíveis nos dias atuais, sempre houve os doentiamente perversos.

Sobre a obscenidade ser uma relação, afirma Bataille: “Não existe ‘obscenidade’ como existe ‘fogo’ ou ‘sangue’, mas somente como existe, por exemplo, ‘ultraje ao pudor’. Isso é obsceno se essa pessoa o vê e o diz, não é exatamente um objeto, mas uma relação entre o objeto e o espírito de uma pessoa. (...) as acomodações com as necessidades da vida são numerosas”. Não há como banir a inerente sexualidade, apenas restringir os campos onde não nos é permitido manifestá-la. Somente estabelecendo valores que renunciem à barbárie, protegendo os inocentes da violência é que, em oposição à desordem animalesca “do gozo imediato e sem reserva”, realizamos nossa humanidade.

Regressemos à Helade a fim de discernir o que foi o Paidóphilos em seu ainda não desvirtuado [literalmente destituído de virtudes] sentido original. Do termo grego Paideuma, que remete a problema/fonema, uma espécie de placenta de onde tudo sai (e tudo o que “sai” é a palavra, ação por excelência) derivará a palavra Paidéia, ensino, orientação.

Paidagogós é àquele que toma pela mão e educa (culminará em nosso conhecido termo pedagogia) e originalmente pedagogo é o escravo encarregado de acompanhar os jovens à palestra e à escola. Paidóphilos seria, portanto, o instrutor (pai, tutor, enfim, uma pessoa mais velha) que dedica um tipo de amor, amizade (philía) pela criança. Entretanto, Paidóphilos, acaba por significar alguém que nutre pela criança sentimentos/impulsos eróticos.

Uma das mais lúcidas críticas ao desvirtuamento do Paidóphilos já entrevemos no diálogo de Platão “O Banquete”, sobre o Amor, escrito em cerca de 400 a.C. Pausânias, denunciando esse ponto nevrálgico, apontará que toda ação “em si mesma, enquanto simplesmente praticada, nem é bela nem feia (...) o que é bela e corretamente feito fica belo; o que não o é fica feio. Assim é que o amar e o Amor não são todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente”.

Reiterando, diz Pausânias: “(...) se decentemente praticado é belo; se indecentemente, feio. Ora, é indecente quando é a um mau [doente] e de modo mau que se consente [obtenção de vantagens] e, decente quando é a um bom e de um modo bom. E é mau aquele amante popular [o que sucumbe aos apelos da carne, pois Afrodite/Eros se subdivide em Urânia, a Celestial e Pandêmia, a de todo povo], que ama o corpo mais que a alma (...)”.

A philía confere uma nobreza que a impede de encobrir-se, Pausânias atesta: ”ser mais belo amar claramente que às ocultas”. Não por acaso, uma das características dos transviados que, desrespeitando limites, resvalam à bestialidade de incorrer no erro de praticar um interdito (incesto, pedofilia, necrofilia, etc.) é o empenho no cuidado de esconder suas ações.

A fim de ilustrar a dificuldade em distinguir o amor que é belo do que é feio, um desvio: “não é isso uma coisa simples”, diz Pausânias, relato que, quando minha primogênita contava com cerca de seis meses, viajei até uma cidade próxima, para que uma querida e já idosa caseira, a conhecesse.

Eis que a referida senhora, muitíssimo grata e feliz por nossa visita, pediu-me para trocar-lhe a fralda. Atendi-a prontamente, disponibilizando-lhe todos os apetrechos de higiene. Após retirar a fralda de xixi e limpá-la com lenços umedecidos, qual não foi minha surpresa testemunhar que ela começou a “fazer festa” nos genitais da tenra criança dizendo: "mas que gordinha! É muito linda, dá um cheiro pra avó". Segurava e erguia os pezinhos unidos, cobrindo-lhe de beijos a genitália e as nádegas, na maior demonstração de amor e carinho, como se tivesse uma dádiva diante de si.

Ao flagrar a perplexidade estampada em meu rosto, fitou-me com severidade e, em tom de repreensão indagou: "Ora, ora, você num beija não é?". Constatando que eu ainda ostentava visível expressão de espanto, sentiu-se ofendida: “Mas faça-me o favor, era só o que me faltava...". Constrangida, apazigüei-a enquanto pensava com meus botões: "Não D. Maria, talvez pela herança vitoriana, desconheço esses hábitos e, ciente dos estudos freudianos sobre a latente sexualidade infantil: troco, limpo e reponho tudo o mais rápido possível”.

Intensidade e formas de contato físico com os pequenos são culturais. Desde nossos ancestrais, os odores proporcionados pelo olfato constituem uma das mais prazerosas formas de carinho. Irresistíveis, é comum, nos sentirmos impelidos a “cheirar” os recém-nascidos. Vivenciar o episódio que relatei, fez recordar um antigo costume de meus antepassados, a tal “pitada no cacho de côco”. Consiste em, flagrando algum menininho da família, nu, reunir as falanges dos dedos de uma das mãos (como quem pega uma pitada de sal) tocar o escroto e, levando a mão às narinas, fazer de conta que sentiu o cheirinho do “cacho de côco”. As crianças riam e saiam correndo para se vestir.

Esse hábito era abandonado, naturalmente, tão logo as próprias crianças se mostrassem arredias (algo sempre respeitado!) ou, como na antiga Grécia, quando nos imberbes começassem a surgir indícios do início do período pré-púbere.

Como bem observou Bataille, é inegável que existem variáveis de lugares, circunstâncias e pessoas reservadas e que essas variáveis são sempre definidas arbitrariamente. Os limites, sempre incertos, tênues mutáveis. Àquilo que seu vizinho tem como meramente erótico, é capaz de ser aviltantemente pornográfico para você. E até mesmo entre cônjuges pode surgir desconforto nesse ponto.

Exemplificando a nudez, Bataille diz que ela “não é em si mesma obscena; ela se tornou obscena um pouco por toda parte, mas de maneira desigual”. Um simples traje de banho, conforme o lugar pode ou não chocar. A indumentária pode ser considerada indecorosa, conferir poder, vulgaridade ou afronta, conforme horário e ambiente. Nem mesmo o uso das cores escapa a interditos: não se batiza uma criança toda vestida de preto. Esclarecendo a relevância do contexto, aponta o estudioso: “E a nudez mais íntima não é obscena no consultório de um médico”.

Para que não lesemos, de modo irreversível, um inocente (vítima ou acusado), ultrajando a Justiça, sejamos prudentes e atentos ao fato de que, justamente por estarmos em zona cinzenta, à atenção aos detalhes na averiguação da suspeita desses delitos deve ser redobrada, investigada da forma mais profunda, abrangente e cautelosa possível.

Indubitavelmente, esse território é perfeito para acobertar o Mal que, silenciosa e confortavelmente abrigado na confiança (que o seio da família pressupõe), está bem camuflado para, insuspeitavelmente, realizar sua “areté(excelência) que é eclipsar o Espírito. Mas como aponta Rachel Gazolla (Titular de Filosofia Antiga da PUC-SP), “o mal não tem excelência, porque não é virtude”.


1 de set de 2009

Prometeu - Direitos do Homem e Hýbris

“a dialética é a suprema dádiva dos deuses, o verdadeiro fogo de Prometeu”. Platão

Arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) são atemporais e universais. Na politeísta cultura grega, deuses e homens, imortais e mortais, interligados, são interdependentes.

Encabeçando o arquétipo de defensor dos direitos da raça humana temos o Titã Prometeu (pro=antes e metheus=vidência, aquele que sabe antes), que criou os homens do barro, feito de terra e de suas próprias lágrimas.

A analogia entre as palavras terra (do latim, humus) e homem é recorrente. Os helenos acreditavam que uma centelha divina, pois imortal, percorria e se aprofundava por toda terra geratriz. E, se simbolizando a história evolutiva do gênero humano, no mito judaico-cristão, Deus é único e supremo criador dos homens, no paganismo grego, é Prometeu o criador e benfeitor da humanidade.

Tanto para as criaturas do Deus de Abraão, quanto para as de Prometeu há um interdito: conhecimento. Que abismo espreita àquele que anseia pura e simplesmente... conhecer? O poder de um intelecto cego e desmedido, falível, é condenável. Ambos referem-se à discórdia inicial entre espírito e matéria, relatam a hýbris (desmedida, a insolente falta de limites), o castigo da queda, arrependimento e reconciliação final.

Quanto à experiência de se estar cônscio do mal e mesmo assim praticá-lo, diz Jung: “Talvez ele [o ser humano] deva experimentar o poder do mal e sofrer-lhe as conseqüências, porque só por este processo pode abandonar a sua atitude farisaica em relação às outras pessoas. Talvez o destino, ou o inconsciente, ou Deus – chamem-lhe o que quiserem – tenha que lhe dar uma boa pancada e fazê-lo rebolar no chão, porque só uma experiência drástica pode surtir efeito, tirá-lo do seu infantilismo, amadurecê-lo. Como pode alguém descobrir de quanto precisa para ser salvo se está absolutamente certo de que não há nada de que deva ser salvo?”.

Filantropo, venerado como sendo uma das divindades civilizatórias (como a deusa da Sabedoria e guardiã da Justiça, Palas Athena e o mestre da techné Hefestos), pioneiro ao atentar para nossas necessidades, Prometeu agiu, desde os primórdios, com irredutível firmeza em defesa da fragilidade da pessoa humana.

Sobre Prometeu, discorreram os apoteóticos poetas Hesíodo, Píndaro, o tragediógrafo Ésquilo (525 ou 524 a 456 a.C.) e seu contemporâneo, o Filósofo Platão. Na maioria das versões, diz-se ser filho de Jápeto com a deusa Thêmis, Justiça divina. Tem como irmãos Atlas, Menoécio e Epimeteu (epí=depois e metheus=ver, saber), seu gêmeo, que pensa somente depois de fazer.

Já sabendo de antemão quem venceria uma grandiosa e inevitável guerra porvir (o próprio nome já denuncia seu caráter oracular), Prometeu se aliou a Zeus contra as divindades mais antigas. Mas, rebelde, o defensor da humanidade nunca escondeu certo ressentimento por esse novo e (em seu entendimento) orgulhoso deus, pois fora também graças a seu empenho que o soberano do Olimpo conquistou seu posto. Aqui, entrevemos ser antiga a relutância do homem em se submeter. Há essa negação ao “superior”. O deus não é visto como representante da justiça inerente, mas como temível inimigo.

Em Píndaro, Zeus encarrega Prometeu de distribuir os dons e mecanismos de defesa entre todos os animais, inclusive aos homens. Atarefado, Prometeu atende ao apelo de seu irmão Epimeteu, que insiste em se incumbir da missão. Eis que Epimeteu se empolga: garras, presas pontiagudas, força, velocidade, acuidade visual, auditiva, faro excepcional, aptidão para se metamorfosear, de adentrar subitamente ao solo, de elevar-se aos ares, pelagem espessa, carapaças, condições para respirar dentro d’água e tantas outras qualidades foram dispersadas a torto e a direito.

Banalizando preciosas aptidões, Epimeteu, como o próprio nome diz, não se detém a pensar, não reflete antes de agir e, esquecido dos homens, exagera na dádiva a alguns animais (que além de força, ganharam também velocidade e presas dilacerantes, como os leões e os guepardos). Consumidos todos os recursos, quando chega nossa vez, bípedes implumes, somos deixados nus, frágeis e indefesos.

Quando Prometeu foi conferir a tarefa, constatando o estrago, lamentou profundamente a insensatez do irmão: e agora? O que seria dos homens, tão limitados em suas capacidades físicas? Desprotegidos, tornar-se-iam presas fáceis para inúmeros predadores tão bem guarnecidos. Prevendo o aniquilamento de sua criação, contrariando os ditames de Zeus, que já havia lhe negado um apelo seu dessa natureza, Prometeu rouba o fogo divino (conhecimento) e dá-lhes às suas criaturas, assegurando assim a superioridade dos homens sobre os demais animais. Zeus não tarda a enviar Pandora como castigo (vide artigo “Parmênides, Heráclito e a Caixa de Pandora” já publicado nesse Blog).

O progresso da humanidade se deve à capacidade dos homens de, aconchegados em torno do calor do fogo, tornarem-se sociáveis. Desse modo, descobrimos e compartilhamos a linguagem, os números, o movimento dos astros, a memória, pudemos enfim, “pensar antes” de agir: preparamos alimentos, tecemos vestimentas, confeccionamos tigelas e tijolos, construímos casas, fundimos ouro, prata e ferro, aramos a terra, cultivando o sustento. Mas, infelizmente, mesmo providos de inteligência, vontade, astúcia, avidez, coragem e de tantas outras qualidades, os homens eram miseráveis, pois lhes faltava a política, qualidade necessária para que se relacionassem harmoniosamente entre si.

Sem união na pólis não se consegue vencer as adversidades, promover o Bem comum: “E, ao tentar se reunirem em grupo, a anarquia reinante fazia de todos inimigos e vítimas de querelas militares”. Acumulando cada vez mais informações, detendo inúmeros conhecimentos, mas ainda sem sabedoria, os homens passaram a se autodestruir, tornando todo ambiente insustentável.

A arte de viver em conjunto, ser “zoopolitikon” para Platão, é indispensável para o progresso das cidades e para a instituição de um governo virtuoso e justo, enfim, para o bem da própria humanidade.

Cada vez mais confiantes num intelecto puramente “científico” como sendo “a Verdade”, incendiados por vanglórias (hýbris), os homens afrontavam os deuses, já não os invocavam nem rogavam por sua proteção. Orgulhavam-se de haver cada vez menos diferença entre eles e os imortais. A felicidade humana já não dependia do acaso, do destino, de caprichos divinos. Prometeu finalmente criara oponentes ingenuamente crentes de estarem à altura (ou acima?) de Zeus. Como lhe disse Oceano, o parentesco influi e muito: os Titãs estavam vingados!

Em Ésquilo, mesmo sofrendo severa punição, o benfazejo não se dobra. Por ter desrespeitado a advertência de Zeus, Prometeu é condenado a 30 mil anos de prisão. Acorrentado a uma rocha (simbolizando a matéria) no Cáucaso, todos os dias uma águia vem bicar-lhe o fígado, regenerado durante as noites.

Paira, até hoje, o suspense insinuado por Prometeu: de que Zeus ainda será ser destronado por um dos seus filhos. Ameaçado, é coagido a falar sobre o que viu, mas se recusa terminantemente a dizer: “Nada, força nenhuma pode constranger-me a revelar-lhe o nome de quem deverá destituí-lo de seus poderes tirânicos!”.

Esquecido, sua grande dor é constatar que, vaidosos, bélicos e também como ele, extremamente presos à matéria, os seres humanos, mesmo animados pelo fogo/conhecimento divino, possuem um espírito ressentido, guiado por um intelecto revoltado. Com a imaginação assim exaltada, não mais os surpreende sucumbir à perversão. Seja como opressores ou como oprimidos, se degradam em sua própria efemeridade.
Com consentimento de Zeus, Hércules mata a águia e graças à intervenção do centauro Quíron, Prometeu finalmente se reconcilia com o ordenador do Cosmos, encontrando paz.

Preocupado com a insolência (hýbris) humana que poderia antecipar-lhes o aniquilamento ou algo pior (a profecia de Prometeu se cumprirá?), Zeus delegou a seu mensageiro Hermes a tarefa de distribuir igualmente entre todos os homens pudor e justiça. Disse ainda que aqueles que não os tivessem, por estarem contra o princípio unificador da sociedade, deveriam morrer. O que o arauto dos Direitos do Homem queria era assegurar-nos a dignidade da liberdade. Somos livres. Mas sem pudor (aidós=vergonha, respeito) e justiça não se ascende ao Olimpo.
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2 de ago de 2009

Freud e a busca pela felicidade


Sigmund Freud (1856-1939), em seu opúsculo “O Mal Estar na Civilização”, afirma que o homem anseia pela felicidade e que esta advém da satisfação de prazeres. Essas buscas pelas coisas que nos fazem bem provêm da satisfação (de preferência repentina) de necessidades represadas em alto grau. Ganhar na mega-sena será diferente para um endividado ou um milionário. O enfermo anseia por algo que uma pessoa saudável nem pensa.

Tornarmo-nos pessoas felizes é um impositivo do princípio do prazer que trazemos desde a origem e para o “pai” da psicanálise, isso não pode ser plenamente realizado. Mas nem por isso devemos [ou podemos] deixar de empreender esforços para nos aproximarmos ao máximo desse objetivo.

Uma situação de júbilo, inicialmente intenso (tal como o sucesso numa árdua e arrebatadora conquista amorosa) pode até se prolongar, mas, após certo tempo, ela produz somente um sentimento de contentamento. A felicidade e o prazer proporcionados por tantos bens de consumo se esvaem tão logo o adquirimos: “Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas”. Embora sejam diversos os meios para alcançarmos a felicidade, é ainda mais fácil experimentarmos a infelicidade.

Significativas fontes de sofrimento são: a) testemunhar a irreversível decrepitude e a certeza da mortalidade de nosso corpo; b) ameaças do próprio mundo externo, cuja destruição, seja fruto do poder superior da natureza ou da violência de nossos semelhantes sempre nos assombram e, c) a maçante tarefa de nos relacionarmos com os outros, no seio da família, em sociedade e no Estado.

As “lamparinas do juízo” nos forçam a reconhecer essa impotência: não há muito a fazer em relação às duas primeiras fontes de angústia. Só nos resta à sensatez de nos submetermos ao inevitável: “Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de adaptação e realização”. Conviver pode ser complicado e nisso talvez consista a maior fonte de infelicidade (lembremo-nos do nosso artigo já publicado aqui, “Sartre – O inferno são os outros”).

Freud diz que não é de admirar que os homens tenham se acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade: “Na verdade, o próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto princípio de realidade”. Assim, um indivíduo pode pensar ser feliz, simplesmente porque sobreviveu ao pior.

Espanta-nos a resignação de tantos desafortunados que, habituados à luta de evitar ainda mais sofrimentos, não priorizam obtenção do prazer. (Mal) disfarçadamente, se comprazem ao relatar um caso de pandemia, duma falência, da queda de um avião e proferem de cor a máxima: “antes pobre com saúde...”. Desconfiados, ao se depararem com um rico saudável, sentenciam: não deve ser feliz!

Evita-se sofrimento mantendo distância das pessoas, se isolando. Mas a felicidade passível de ser alcançada assim é apenas a da quietude. Não convivem. Freud aponta o que considera mais plausível: “tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência [entenda-se, trabalho], passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana”. Eis a razão pela qual a civilização tanto dignifica o trabalho: estamos com todos, para o bem de todos.

Considerando que o sofrimento é sensação e que ele só existe na medida em que o sentimos, o estudioso da psyché (alma) verifica como o uso de prazerosas substâncias que alteram a percepção (álcool ou outro tipo de droga) pode constituir um “amortecedor de preocupações”, um precursor de felicidade. É justamente por deter qualidades tão apreciáveis que o uso desmedido de psicotrópicos é perigoso e capaz de causar grandes danos à humanidade, pois desperdiçam energia que poderia ser “empregada para o aperfeiçoamento do destino humano” (confira meu vídeo sobre esse tema nesse blog).

Eficazes no combate à contrariedade da satisfação dos instintos estão os “agentes psíquicos superiores, que se sujeitaram ao princípio da realidade”. Dessa forma, o ego, através da sublimação, sujeita os desejos irrefreáveis, doma os instintos mais selvagens, a agressividade e a tendência à barbárie. Exemplos desses “agentes psíquicos superiores”, ordenadores, são as leis, os direitos e deveres, o respeito à ordem e a consideração aos nossos semelhantes.

Trabalhar faz bem: “a alegria do artista em criar ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade especial”. Para Freud: “Obtém-se o máximo [de felicidade] quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual”, que considera “mais refinadas e mais altas”.

Infelizmente, diferente da satisfação de nossos impulsos mais primitivos e grosseiros, essa salutar felicidade pela realização de um trabalho é acessível a poucas pessoas: “pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que, para qualquer fim prático, estão longe de ser comuns”. São àqueles que não trabalham somente pela remuneração.

Mesmo um trabalho profundamente gratificante não garante proteção contra as vicissitudes inerentes à vida; e é impossível que, dessa forma, alguém consiga se precaver contra toda forma de sofrimento. Mas ao nos orientarmos para uma espécie de “vida interior”, buscando alento em nossos processos psíquicos internos, intentamos nos tornar independentes, ao máximo possível, das pressões do mundo externo.

Outra forma de felicidade é a que nos proporciona o fruir das ilusões. A beleza é uma promessa de felicidade e a civilização não pode dispensá-la. Quando, em lazer, contemplamos alguma obra de arte (música, literatura, cinema, teatro, shows, exposições, parques e mares), experimentamos uma “suave narcose”. Mas embora isso nos afaste momentaneamente dos problemas, não é forte e constante o suficiente para nos fazer esquecer as preocupações reais.

Dentre os perigos de não se aceitar a realidade, rompendo as relações com ela, está o de nos tornarmos loucos. Assim, na busca cega pela felicidade, rejeitamos a realidade, recriamo-la a nosso gosto, eliminando seus aspectos mais insuportáveis.

É certo que, em algum grau e sob algum determinado aspecto de nossa vida, agimos como o paranóico que “corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade”. A linha que separa a atitude de quem vê o mundo através de lentes cor-de-rosa da de um ‘louco’ é tênue. O louco é “alguém que (na maioria das vezes) não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio”. Talvez seja por isso que hoje em dia, com a adesão de muitos, inúmeros absurdos nem sejam mais considerados “coisas de louco”.

Freud aponta a religião como um típico exemplo de como a loucura pode ser legitimada, bastando ser compartilhada, por um número significativo de pessoas. Intenta-se obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade. A religião, para ele, restringe o jogo de escolha e adaptação, pois impõe, igualmente para todos, como sendo o caminho certo e seguro, tanto para a felicidade quanto como proteção para todo e qualquer sofrimento: “Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual”.

O fervor da fé, presente no coração de uma pessoa extremamente religiosa pode poupá-la da dor e do sofrimento? Quando um crente/temente, acometido por alguma desgraça se vê obrigado a creditar a causa de sua angústia e desespero a algum insondável “desígnio” de Deus, nada mais faz senão admitir que tudo o que lhe restou de consolo foi essa sua submissão incondicional ao imponderável. Para o psicanalista, se o ser humano estiver lucidamente cônscio de que é passível de vir a se deparar com essas adversidades, pode muito bem dispensar fundamentalismos.

Amar e ser amado! O amor também é um caminho para a felicidade. Mas, dentre os perigos do amor, está a vulnerabilidade à qual nos sujeitamos: podemos perder nosso objeto de amor ou o sentimento de amor que o amado nutre por nós pode acabar. Mesmo assim: “Há porventura, algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo como a encontramos pela primeira vez?” indaga o analista da psyché.

É ilusão imaginarmos que tenhamos tudo o que desejamos: “A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo”. Resta descobrir, por nós mesmos, de que modo podemos ser felizes, ponderando sobre quanto de satisfação real podemos esperar do mundo exterior, quanta força dispomos para alterar o mundo que nos cerca a fim de adaptá-lo aos nossos desejos e também de adequar nossos desejos a ele.

Nessa empreitada, ainda mais relevante que as circunstâncias externas, será nossa constituição psíquica. Embora sejamos multifacetados (e estejamos sempre em mudança ao longo da vida), o indivíduo predominante erótico, por exemplo, priorizará seus relacionamentos emocionais. Os narcisistas, solitária e auto-suficientes, encontrarão mais satisfação em seus processos mentais internos. Não por acaso, quase sempre são muitíssimo bem sucedidos profissionalmente. Já o homem de ação, indômito, jamais abandonará o mundo externo, palco ideal para por em teste suas forças.

Freud nos ensina que, assim como um negociante cauteloso não cometeria a insensatez de empregar todo seu capital somente num tipo de negócio, a própria sabedoria popular nos alerta a não depositar nossa expectativa de felicidade e de satisfação numa única aspiração. Embora assegure que “Não existe regra de ouro que se aplique a todos”, alguns caminhos nos levam à felicidade. Acalentemos um amor, zelemos pela família, ocupemo-nos com prazer, apreciemos (com moderação!) as "suaves narcoses", cultivemos sinceras amizades e, para que não sejamos dilacerados, resignemo-nos ao inescrutável propósito maior, no caso de tudo falhar.


1 de jul de 2009

A violência da Justiça - Heráclito / Horkheimmer


"A Guerra é pai de todas as coisas - de uns faz deuses, de outros homens, de uns livres, e de outros, escravos". Filósofo grego pré-socrático, Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.).

 
Tanto em nossa razão subjetiva (fruto de um lógos instrumentalizador, que recolhe e ordena, classifica, infere e deduz segundo a utilidade de nossos próprios interesses, lucros e vantagens individuais ou coletivos) quanto nossa razão objetiva (outro lógos, de reflexão e discernimento que abarca e perpassa o pensar-dizer possível, englobando a totalidade, o "todo") associamos Justiça à Paz, tomando-os quase por sinônimos.

Acessar esses lógos (razões subjetiva/objetiva) é dispor de agentes de compreensão ética e moral. Lembremo-nos que a razão subjetiva, relativa ao sujeito, está bem definida quando o sofista Protágoras proclama que
"O homem é a medida de todas as coisas, das que são porque são e das que não são, porque não são".
Já a razão objetiva impõe a ideia de que um objetivo possa ser racional por si mesmo, independente do sujeito, como intentaram os criadores dos grandes sistemas filosóficos tais como Platão, Aristóteles, a escolástica e o próprio idealismo alemão. (Vide Horkheimmer).

Uma vez evidente essa apreensão dualística da ratio, do lógos, ponderemos sobre o emprego da violência.


A palavra "violência" vem do latim e significa força. E, "violentus" é aquele que impiedosamente, faz uso exagerado da força. Sendo assim, a palavra violência aderiu à violação, dilaceração, brutalidade, desmedida. Uma vez que a chocante violência física é a mais aparente, automaticamente, associamos violência a sangue e isso nos causa aversão.

Curiosamente, mesmo nas representações mais arcaicas da deusa grega, da sabedoria e justiça, Palas Athena, identificamos a imagem de uma lança (ou de uma espada, numa versão posterior). Qual é o significado da presença de um objeto que simboliza a força da guerra e da violência, nas mãos da guardiã da Justiça?

A apresentação de uma arma, instrumento de violência, se opõe ou, ao menos de imediato, não coaduna com Paz. Mas, contrariando nossos sentimentos mais compassivos, podemos atinar a razão de sua existência como ferramenta necessária para se estabelecer, restaurar e manter a Paz. A força (representada pela lança ou a espada), empregada com justa medida pela Justiça é condição sine qua non para que impere a Paz. Sabemos que sem Justiça a paz não é possível, e ela têm de se impor com firmeza.

Filha do soberano Zeus, Athena é zelosa guerreira. Gestada na cabeça do pai, enquanto não nasce, as dores de cabeça do ordenador do Cosmos são inevitáveis. E assim como nasce (miticamente) do lógos do pai, graças ao empenho do mestre da téchne, Hefestos, também a Justiça vem à luz graças aos operadores do direito.

Vale dizer, Athena é patrona de um tipo muito específico de violência. Trata-se do inevitável combate feito com inteligência e astúcia, motivado por um ideal, um valor honroso. Guerreia somente enquanto último recurso, quando se torna insuficiente a resolução diplomática de qualquer polêmica. A força para a batalha deve ser encarada como derradeira e importante argumentação na defesa da justiça quando todas as outras vias falharam.

Como dito acima, assim como atinamos à plausibilidade de dois modos de apreensão pela razão (subjetiva e objetiva), inferimos haver também modos distintos de se conceber e de fazer uso da força/violência: o legitimado e o desvirtuado.

A natureza (physis) é caprichosamente violenta em sua dýnamis (potência). Nos assola a violência dos mares, dos ventos e até das paixões, pois, na ousía (essência), não somos poupados do que há de natural em nós. A própria criação da vida de um novo ser não se origina sem determinada violência: o vitorioso e singular espermatozóide que engendrou a alma (psyché) de que quem lê essas linhas, teve forças, lutou e muito para romper a resistente barreira da parede de um óvulo.

Origem, florescimento, plenitude, degeneração e decrepitude (geres, a velhice maldita) até o inexorável fim. Quando lhe é de direito, o sol invade a escura madrugada e, precedido pelo espetáculo da aurora, avança impondo sua luz; tal qual o inverno atual a suceder o outono, que naturalmente acata o fim desse seu ciclo.

Temos também na música, um dos mais belos, inefáveis e transcendentais exemplos do bom uso da violência. É extasiante constatar o paradoxo de que através do emprego de certa violência, aplicada com a intensidade adequada e no devido kayrós (tempo oportuno) um compositor extrai as mais belas melodias: estendendo as cordas com virtuose, deleitando-nos a alma.

Vislumbra-se uma muitíssimo bem orquestrada harmonia (sophrosyne): a "visível", passível de ser recolhida pela razão subjetiva, do sujeito; bem como a "invisível", recolhida por uma razão objetiva, pontilhando todo o Cosmos (ordem) da galáxia em que habitamos. Observe que nosso planeta Terra se situa entre as mitológicas divindades/planetas Vênus (Afrodite) e Marte (Ares) -, também subjetiva e objetivamente, equilibramo-nos entre o amor e a guerra.

Ainda que nossa razão subjetiva não tenha alcançado o "Ser em si e por si" de uma razão objetiva, sabemos que a reunião das ações que empreendemos como pessoas individuais formam o todo coletivo, podendo culminar na aparente totalidade desse mundo em que vivemos.

Ao furtar-nos à consciência da necessidade do emprego da boa violência/força, abdicando de nossa responsabilidade na obrigação de Pensar e agir, cerceamos, tolhemos nossa liberdade. Se, fracos, paralisamo-nos pelo temor de sermos removidos de nossa preciosa (embora cada vez mais frágil) zona de conforto e, como avestruzes, enterramos a cabeça no chão, promovemos indesejada violência: a injustiça, fruto da omissão.

Devemos atentar ao fato de que, ao nos esquivarmos dos combates, nos omitindo numa chamada à ação, sobretudo política, estamos sendo coniventes com os desmantelos de nossos dirigentes. Essa (falta de) atitude erige o pântano no qual chafurdamos: numa política (pólis) juridicamente deteriorada e pútrefa.

Muitas vezes, nas ações empreendidas em nossa vida particular e pública, optamos por preservar o status quo, manter a paz e a harmonia a qualquer preço, encobrindo uma situação sabidamente injusta. Sobrevém-nos uma pseudo paz, a um custo muito mais elevado (sim, valoramos!) do que se perseguíssemos a verdadeira Paz indissociável da Justiça. Livres, ao escolhermos isso, fomentamos mentiras deslavadas, premiamos a perfídia, perpetramos injustiça.

Numa passagem da Odisséia, narra Homero, que o ardiloso rei de Ítaca, Ulisses (Odisseu) apresenta-se ao gigante ciclope chamado Polifemo, dizendo que seu nome é "ninguém". Ameaçadoramente acarinhando a própria barriga, prontamente o ciclope assegura: "pois de ninguém será o meu jantar!". Num arremesso certeiro, Ulisses, atinge em cheio o olho de Polifemo. O filho de Poseidon, cego e desesperado, aos brados, exige do pai que o vingue, dizendo ao deus dos mares que quem o atingiu foi "ninguém":
"O nome dele é ninguém! Procure ninguém."
Recentemente, o Presidente de nosso Senado, Sr. José Sarney, afirmou que: "Ninguém vai acobertar ninguém". E que "Ninguém vai evitar que qualquer um seja punido como deve ser". Como a astúcia pode ser vil: é impossível encontrar
"ninguém".
Eis o bom combate. Não devemos promover a barbárie, empunhando lanças ou espadas. Mas violência não é (somente) sangue, portanto, sejamos fortes e corajosos o suficiente para que, em todos os âmbitos (público e privado), manifestemos nosso desejo de que a Justiça seja assegurada.

Não vivemos no melhor dos mundos, talvez nunca tenhamos vivido mesmo, mas não é justo que, acovardados, neguemos a nós mesmos o direito de conquistá-lo. Um mundo mais harmonioso, igualitário, respeitoso, de Paz.


 
Dedico esse artigo à Deputada Mara Gabrilli que, tetraplégica, luta pela inclusão dos deficientes. Um exemplo de como ser político, do agir na pólis. Homero (Ilíada e Odisséia) , o maior aedo/poeta que a humanidade conheceu, era cego.

2 de jun de 2009

Platão e o mito da caverna - O que é ser Filósofo?


Alguns especialistas apontam o famoso “mito da caverna”, como sendo a obra mais iluminada de Platão. Trata-se do Livro VII da “República”, obra que poderia, apropriadamente, intitular-se “Da Justiça”. Ou ainda “A cidade perfeita”.

Nesse imprescindível capítulo, dois modos bem distintos [mas tão ligados e intercambiáveis quanto o céu e a terra] de percepção de mundo se apresentam a todos nós: o inteligível e o visível. Esse último, o visível, refém e escravo do que pode ser apreendido e conhecido pelos sentidos, é limitado. Já o inteligível, oriundo de uma percepção mental, psíquica (psichê é a alma), “nos alça a senhores das mais altas instâncias”, pois nele encontramos a verdadeira essência da qual a realidade que nos circunda, também repleta de muitos bens, é apenas cópia.

O amigo leitor poderia intervir que a realidade que nos circunda também está repleta de muitos males, mas isso seguramente não é cópia de luz, mas de sua ausência: trevas.

Nas palavras proferidas pelo sapientíssimo Sócrates, em diálogo com seu amigo Glauco, Platão irá descrever o modus vivendi dos homens que desde a mais tenra infância, confinados no breu do fundo de uma caverna, atém-se a viver uma vida estritamente limitada ao mundano, uma vida ordinária, comum (como a vida de todos nós) e o que os diferencia daqueles que, imbuídos primeiramente de coragem (que segundo Aristóteles é a principal das virtudes, pois garante as demais) e de uma inquietante curiosidade, ousam desvencilharem-se dos grilhões e numa ascese (ascensão mental possibilitada pelo uso da razão), libertos das limitações da ignorância, contemplam a luz do Saber.

Tudo graças ao lógos dialético, pois como diz Sócrates: “não posso pensar em nenhum outro estudo que faça a alma olhar para cima, senão o que diz respeito ao Ser e ao invisível”. O lógos dialético é próprio da filosofia, pois tem como télos (propósito, objetivo, finalidade) a contemplação da Verdade. É um Pensar que não é sobre o “isso” e o “aquilo” do mundo porque tributa honra a Justiça, à Beleza e à Bondade.

Além de descrever, minuciosamente, como todos nós, os habitantes da caverna, apreendemos a realidade que nos cerca, única e exclusivamente através dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e de como esse modo de apreender é limitado, Platão também discorre sobre a resistência que encontramos em nós mesmos, para ampliar o alcance de nossa visão. Somente através do exercício da dialética é que se abre essa possibilidade, que é a capacidade de ter uma visão de conjunto, do todo. Pacientemente, tomando-nos com docilidade, Sócrates e seu encantatório “suponha que ...” do mito da caverna, nos revela que essa mudança de perspectiva proporcionada pela dialética não é súbita, tampouco indolor.

Primeiramente, devido à existência de uma fogueira atrás de si [mas que não a veem], os prisioneiros confinados às trevas da caverna, estando com suas cabeças voltadas para a parede, só conseguem enxergar as sombras das imagens que são projetadas nelas. Imagens essas que só se tornam visíveis, como já dissemos, devido à luz do fogo que ignoram. Eis que assim, vivemos como crianças a assistir uma apresentação de sombras de fantoches e, por cômoda ignorância, tomamos essas sombras de objetos como a mais pura realidade. Nominamo-las, classificamo-las, hierarquizamo-las etc.

Posteriormente, alguns desses homens poderão volver a cabeça para trás e, surpresos, enxergar, tanto a fogueira que iluminava a caverna, quanto os objetos que eram iluminados, mas dos quais, que até então, só se viam sombras.

Mas isso ainda não é toda a realidade. Ao menos não é a única. Somente dando mais um passo adiante, que é o de se dirigir pelo caminho íngreme que sobe até o orifício localizado na entrada da caverna e de se deparar com a luz do próprio sol (fonte primeva de toda vida e de tudo o que aqui na terra não passa de cópia), é que esses homens, antes escravos dos sentidos, como os demais parceiros lá embaixo, espantados, inteligirão que é ele mesmo, o astro-rei, o único e verdadeiro “responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo” [inclusive o outrora “tão real” fogo da fogueira lá embaixo].

Eureca! Contempla-se a essência (ousía) do Sol, o que equivale a inteligir a Ideia de Bem.

Estupefato com a descoberta de que até o fogo de sua fogueira que parecia tão real não passa de cópia do calor do sol, esse homem, que nutre amor à sabedoria, experimenta uma irreversível conversão.

É natural que nele ocorra uma transformação e que, por compaixão, pois também nutre philía ao antropos (amor ao homem), lamente profundamente que seus companheiros não comunguem desse maravilhoso descortinamento. Não será sem angústia que testemunhará as pessoas, acometidas pela cegueira da ignorância, se digladiarem em busca de glórias, honras, elogios e prêmios que os toscos concedem àqueles igualmente miseráveis por distinguirem com mais agudeza os detalhes daquilo que pensam ser tudo o que há.

Quanto ao homem assim modificado, citando o magnânimo aedo (poeta) Homero quando põe na boca de Aquiles já morto, em diálogo com a sombra do ilustre visitante Ulisses no reino do Hades (reino dos mortos), que preferiria mil vezes “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba”, Platão alude que o filósofo escolheria “antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo”. A verdade é que para àquele que viu a luz com os olhos da alma, que agora sabe que há mais do que nosso limitado corpo conhece, não há nada mais insuportável que voltar a conviver como se tudo o que existisse de mais valoroso fosse essa mutável, decrépita e perecível realidade mundana. E, no exemplo citado do já finado Aquiles, pior ainda: não poder mais agir, pois a vida se exauriu. É de inquietante desassossego esse “despertar da consciência crítica”.

Tendo se desembaraçado da escuridão da caverna, submergido do lamaçal da ignorância e contemplado, não somente os bens mundanos, mas o bem em si mesmo, ao regressar para a companhia de seus camaradas, para àquele mundo que todos consideram o único possível e denominam realidade, esse indivíduo certamente seria, no mínimo, alvo de chacota (recomendo a leitura do poema “O Albatroz” de Charles Baudelaire, disponível aqui, em meu Blog). E, se ousasse desamarrar seus amigos e conduzi-los até acima para compartilhar daquilo que se revelou, com certeza correria risco de morte, como realmente sucedeu com o próprio Sócrates e o Nazareno.

E Sócrates prossegue esclarecendo ao ouvinte Glauco que “Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível [das coisas que aparecem] é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e do inteligível, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública”.

Platão afirma que é natural que os que ascenderam àquele ponto não queiram mais tratar dos assuntos dos homens, mas sim empreenderem esforço para manter sempre sua alma nas alturas, e que no regresso à “realidade” ficam desajeitados: “Ora, pois! Entendes que será caso para admirar, se quem descer destas coisas divinas às humanas fizer gestos disparatados e parecer muito ridículo, porque está ofuscado e ainda não se habituou suficientemente às trevas ambientes, e foi forçado a contender, em tribunais ou noutros lugares, acerca das sombras do justo ou das imagens das sombras, e a disputar sobre o assunto, sobre o que supõe ser a própria justiça quem jamais a viu?”

Vislumbramos duas instâncias de Justiça, a divina (Thêmis) e a mundana, dos homens (Diké) e sobre o embaraço que o filósofo é obrigado a suportar ao tratar com os homens que ignoram Thêmis, prossegue: “Mas quem fosse inteligente lembrar-se-ia de que as perturbações visuais são duplas, e por sua dupla causa”. Uma se dá com a “passagem da luz à sombra e [a outra] da sombra à luz. Se compreendesse que o mesmo se passa com a alma, quando visse alguma [alma] perturbada e incapaz de ver, não riria sem razão, mas reparava se ela não estaria antes ofuscada por falta de hábito [nas mundanidades], por vir de uma vida mais luminosa, ou se [ao contrário], por vir [a alma] de uma maior ignorância a uma luz mais brilhante, não estaria deslumbrada por reflexos demasiadamente refulgentes; à primeira [que acaba de regressar da contemplação do Bem], deveria felicitar pelas suas condições e pelo seu gênero de vida; da segunda [que por sua recente descoberta está desajeitada no mundo], ter compaixão e, se quisesse troçar dela, seria menos ridículo essa zombaria do que se se aplicasse àquela [outra alma] que descia do mundo luminoso” e que ainda não se adaptou à pequenezas.

É de valor inestimável e atemporal prosseguirmos na análise desse precioso legado, pois Platão examinará ainda a importância da educação no processo de detecção e formação do filósofo, quais devem ser seus passos e em quais idades e responde com muita clareza, de forma irrefutável, porque é que o filósofo, depois de ter visto o bem em si, de usá-lo como paradigma para ordenar os particulares e a si mesmo, a cidade e cada um por sua vez, para o resto da vida, repleto de amor, vencerá os embates da política e assumirá a chefia do governo: "Não somente porque isso é belo, mas porque para que uma cidade seja justa, é necessário".

4 de mai de 2009

Justiça ou Vingança? Defesa de Shilock por Rudolf Von Ihering


Por isso, para que possa contar com a poderosa combatividade da Justiça, todo mortal deve encarar a Medusa, símbolo de sua própria vaidade, personificação da decadência espiritual.

Em inúmeros processos litigiosos, o que menos está em jogo é o papel moeda. Tanto que muitos optam por doar todo o ganho da causa a alguma instituição de caridade, deixando bem claro que não estão sendo movidos pela ganância do dinheiro.

Nem por isso furiosa e cegamente deixam de perseguir algo que prezam: o valor moral da dor infringida à alma (psique). Aviltados em sua dignidade, atingidos na honra que trazem no peito (timós), no caráter, na personalidade, exige-se reparação, clama-se por Justiça!

Justiça ou vingança? Os antigos gregos dispunham de um teste infalível para discernir de qual dos dois se tratava.

Antes de discorrer sobre isso, retornemos ao tribunal do dramaturgo inglês William Shakespeare em “O Mercador de Veneza”, pois não há como não se apiedar pelo desfecho do personagem do judeu Shylock, na referida peça teatral (veja o artigo AQUI).


O jurista alemão Rudolf Von Ihering (1818-1892), em seu clássico opúsculo “A Luta pelo Direito” (de onde recorto somente a questão relativa à peça) insurge-se contra a covardia da astuta sentença aplicada a Shylock: “(...) uma vez admitida [a validade da letra], a eficácia do título não deveria ter sido frustrada por um ardil infame quando da execução da sentença. (...) todos concordavam em que o direito estava ao lado do judeu. E, imbuído duma confiança inabalável no direito universalmente reconhecido, Shylock recorre à Justiça. (...) vencedor, completamente seguro do seu direito, quer realizar aquilo a que a sentença o habilitou, o mesmo juiz que solenemente proclamou esse direito, frustra o mesmo por uma objeção, uma artimanha que de tão desprezível e vil não merece sequer uma refutação séria. Será que existe carne sem sangue?”

Embora não deixe de render homenagens à grande heroína da peça, referindo-se à ardilosidade de Pórcia, Ihering prefere “não recomendar à juventude dedicada ao estudo do direito que frequente sua escola”.

E prossegue: “se quiséssemos submeter a mesma à crítica do jurista, este só poderia concluir que o título de Shylock era nulo, por conter uma disposição contrária à moral; por isso mesmo o juiz deveria ter-lhe negado validade desde logo. Se não o fez, se apesar de tudo o 'sábio Daniel' reconheceu a eficácia do título, usou ele dum estratagema miserável, cometeu uma rabulice lamentável, quando recusou ao homem a quem tinha concedido o direito de cortar uma libra de carne dum corpo vivo a faculdade de derramar o sangue indissoluvelmente ligado à mesma”.

Noutro esclarecedor exemplo, Ihering diz que é como se alguém autorizasse a passagem por um determinado caminho e depois reclamasse das pegadas. Ora, caminhar não pressupõe deixar pegadas?

Mesmo reconhecendo que a fraude fora cometida por motivos humanitários, Ihering indaga “deixará a justiça de ser injusta quando inspirada num móvel humanitário?” Vejamos.

Justiça é um sentimento que em sua abstração abarca harmonia, simetria e equidade. Ihering foi muito feliz ao comparar o sentimento de justiça ao sentimento de amor, afirmando que sua força jaz no sentir.

Sobre o sentimento que uma injustiça acarreta, diz que “quem nunca sentiu essa dor, em si mesmo ou em outrem, ainda não compreendeu o que é o direito, mesmo que saiba de cor todo o corpus juris. Não é raciocínio, mas só o sentimento que pode dar-nos essa compreensão, e é por isso mesmo que o sentimento de justiça costuma ser designado com toda razão como a fonte psicológica primordial do direito”.

Plenamente de acordo com sua argumentação, raciocino que o sentimento de compaixão é capaz de transmutar injustiça em justiça. Lamentável que não tenham prosseguido nesse sentido quando foi proferida a dura sentença de Shylock.

Regressemos à Grécia arcaica para ponderar sobre a causa do judeu. As Górgonas são três irmãs (Medusa, a dominadora; Euríale, a errante e Esteno, a violenta) que simbolizam os inimigos interiores que temos de evitar.

São deformações monstruosas da psique nascidas do desvirtuar de três pulsões humanas: sociabilidade (Esteno), sexualidade (Euríale) e espiritualidade (Medusa). Como a perversão espiritual prevalece sobre as demais, Medusa é conhecida como rainha das Górgonas.

A perversão da pulsão espiritual, por excelência, é a vaidade (imaginação exaltada em relação a si mesmo) cujo símbolo é a serpente. Inúmeras serpentes coroam Medusa.

Sua cabeça foi presente do herói Perseu à deusa grega da Sabedoria e Justiça Palas Athena, quem o auxiliou em combate, emprestando-o seu escudo, para que não a encarasse e ficasse estagnado.


Para derrotar a Medusa, foi necessário que o herói a surpreendesse enquanto dormia, pois o homem somente é lúcido e apto ao combate espiritual quando a exaltação de sua vaidade não está desperta.

Arma muito cobiçada, mesmo morta, a cabeça da Medusa continuou mantendo seu poder imobilizador. O temido adorno foi então incrustado na égide (proteção intransponível, peitoral feito de couro de cabra) da patrona da Justiça, Athena.

Como Shylock se enxergaria diante de algo que refletisse a imagem verídica das coisas e dos seres, que permitisse o “conhecer a si mesmo” com toda clareza, em que o homem se vê tal como é, e não como imagina ser?

No frontispício do templo de Apolo (deus da harmonia, irmão de Athena), na cidade de Delfos, leem-se as palavras que resumem toda a verdade oculta dos mitos: “conhece-te a ti mesmo”.

A única condição do conhecimento de si mesmo é a confissão das intenções ocultas, que, por serem culpáveis, são habitualmente maquiadas pela vaidade (por um clamor de justiça falso, pois sem mérito, infundado).

A inscrição reveladora significa, portanto: desmascara tua falsa razão, tua desmedida (hýbris) ou, o que dá no mesmo, aniquila o ódio proveniente de tua vaidade.

Faz-se necessário a clarividência, o amor, a compaixão, o inverso do funesto egoísmo que ninguém consegue confessar a si mesmo, nem suporta a visão paralisante.

Athena é a deusa da combatividade espiritual (as três manifestações da elevação espiritual são a verdade, a beleza e a bondade). O sentimento de amor pela verdade é a condição para ascender ao conhecimento de si e, em conseqüência, para desfrutar a harmonia (Apolo), a sapiência e justiça (Athena).

O télos (propósito, objetivo, finalidade) é muitíssimo relevante, daí a ruína de Shylock. A deusa da Justiça prioriza o sentimento de humanitarismo: “a compaixão é a parte mais bela da Sabedoria”, profere ela com austera solenidade.

Convidando os mortais a reconhecerem a culpabilidade advinda da agudeza do olhar de Medusa, obriga-os a recuar à luta contra a mentira essencial, a mentira subconscientemente desejada, o exaltado desejo de vingança, o recalcamento, as falsas razões.

Somente assim têm-se certeza de que a reivindicação não oculta outra intenção. Ante essa prova, quem recorre a Athena na busca por Justiça tem somente duas possibilidades: contar com sua proteção, certeza da Vitória (deusa Niké que sempre acompanha sua lança, sua espada) ou petrificar-se em seu manifesto ódio, pois a vingança é de uma fealdade aterrorizante.

Todo esse legado mitológico pode ser resumido numa palavra: limite. Ora por comungar da Justiça, ora por não alcançar esse “sentir”, é justamente contra isso que o ser humano empreende toda sua luta, pois, “limite” compromete justamente, nosso bem mais perseguido e precioso: liberdade.

Quando ultrapassamos limites, a dor e a deformidade (tanto física quanto moral) evidenciam nossa derrota: “Quod licet Jovi, non licet bovi” (O que é permitido a Júpiter [Zeus] não é permitido a um boi).

Animais e racionais, participando de ambos, nem sempre a luta é digna. Em todo caso, é eterna.

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2 de abr de 2009

O Mercador de Veneza - Shakespeare


"Por maior que seja a patifaria, aquele que a comete escapa a toda e qualquer punição, desde que demonstre habilidade suficiente para escapar às malhas da lei penal".
Rudolf Von Ihering.

Embora permeada por outras sublimidades da alma, nessa obra, o mote central é a Lei e a Justiça. Mais precisamente sobre a "a letra da lei", o que está escrito, objetivamente, e o sentimento de Justiça que subjaz e à qual deve estar amalgamada toda e qualquer decisão de Direito.

Na peça, um pai, preocupado com o futuro de sua linda e rica herdeira, a fim de assegurar o mais virtuoso consorte para sua filha, antes de morrer, lança mão de um ardil fantástico, como atesta a criada Nerissa: "Vosso pai foi sempre virtuoso, e as pessoas assim pias ao morrerem têm inspirações felizes".

Alvoram-se nobres, de todos os cantos do mundo, dispostos a tentar a sorte de unir o destino ao da disputada donzela. A encantadora Pórcia, primeira heroína do autor a se destacar também por atributos intelectuais, resoluta confirma: "Ainda que eu chegue a ficar tão velha quanto Sibila, morrerei tão casta como Diana, no caso de não ser conquistada segundo as condições estipuladas por meu pai".

Eis que essa mocinha, passando-se por eminente "consultor" jurídico, irá protagonizar uma das mais eloqüentes cenas de tribunal legada pela genialidade do famoso poeta inglês.

A fim de obter meios de pleitear a mão da moça, Bassânio, um rapaz agoniado por sustentar um estilo de vida acima de suas posses, se vê refém de problemas pecuniários e recorre ao bondoso coração de um amigo. Antônio se comove com o apelo do amigo, mas avisa que tudo o que tem está no mar e que, se Bassânio conseguir levantar crédito em seu nome, em Veneza, tudo estará resolvido.

Numa praça da pujante e próspera Veneza, o ansioso Bassânio encontra o judeu Shylock e firma contrato de empréstimo de Três mil ducados, por três meses e Antônio como fiador.

Shylock, acalenta profundo ódio pelo mercador: "Por ele ser cristão é que o odeio, mas acima de tudo, porque em sua simplicidade vil, dinheiro empresta gratuitamente e faz baixar a taxa de juros entre nós aqui em Veneza. Se em falta alguma vez puder pegá-lo, saciado deixarei meu antigo ódio (...) ele insulta-me, meus negócios condena e o honesto lucro que de interesse chama. Amaldiçoada minha tribo se torne, se o perdoar".

Outro ponto nevrálgico dessa peça é a questão relativa à usura, ou seja, ao empréstimo mediante cobrança excessiva de juros. Repleta de estrangeiros, mercadores com inúmeros negócios, Veneza fervilha e desponta acelerada no cenário comercial Renascentista.

Os juros, decorrentes da defasagem do valor, são justos até em casos de empréstimos de pai para filho. Mas o ato de lucrar tão e somente por dispor de recursos, fazendo do desespero e da desgraçada necessidade pecuniária alheia um meio de vida era questionável, sobretudo para a mentalidade cristã. Sendo assim, Antônio deixa claro a Shylock que, embora nunca empreste nem peça emprestado a juros, para socorrer ao amigo, se dispõe a romper seus hábitos.

Categórico, para Shylock, não sendo roubo, todo lucro é benção e entende perfeitamente lícito seu modo de ganhar a vida. Cita a ancestral figura de Jacó, quando cuidava das ovelhas de seu tio Labão: "ele e o tio assentaram que todos os cordeiros malhados e de rajas ficariam para Jacó, à guisa de salário, as ovelhas em cio foram postas, no fim do outono, junto dos carneiros. E quando entre esses animais o ato da geração se processava, pelou-me algumas varas o astucioso pastor e, ao trabalhar a natureza, frente as pôs das ovelhas voluptuosas que, concebendo então, no tempo próprio só pariram cordeiros variados, que com Jacó ficaram".

Não convencido, Antônio contesta dizendo que o lucro de Jacó foi mero acaso: "Não dependia dele o resultado. É a mão do céu que tudo faz e guia. Mas justifica a história o cobrar juros? Vossa prata e vosso ouro são, acaso, ovelhas e carneiros?".

E o judeu: "Não vos posso dizer ao certo; mas os multiplico com a mesma rapidez (...) Tres mil ducados... Soma bem redonda. Por tres meses em doze. Ora vejamos quanto isso vai render".

O empenho de Shylock não é mais pelo lucro. Atingido em seu timós, sua honra (seu "phrenas", diria Homero), sucumbe a um dilacerante ódio ao mercador: "Senhor Antônio, quantas, quantas vezes lá no Rialto fizestes pouco caso do meu dinheiro e de eu viver de juros! Suportei tudo sempre com um paciente encolher de ombros, pois o sofrimento é apanágio de toda a nossa tribo. De tudo me chamáveis: cão, incrédulo, degolador, além de me escarrardes neste gabão judeu, e tudo apenas por eu usar o que me pertencia. Ora bem; mas agora está patente que precisais de mim (...). Deveria perguntar-vos: 'Cachorro tem dinheiro? Será possível que um cachorro empreste a alguém tres mil ducados?' Inclinar-me devo até ao chão e, em tom de voz de escravo, humilde a murmurar, quase sem fôlego, dizer assim: 'Na última quarta-feira, caro amigo, cuspistes-me no rosto; noutro dia, chamaste-me de cão; e em troco dessas cortesias, preciso ora emprestar-vos tanto dinheiro assim?"

Antônio deixa claro que se Shylock quiser emprestar seu dinheiro, não o faça como se faz a amigos, pois: "em que tempo a amizade cobrou do amigo juros de um metal infecundo?".

Dissimulado, Shylock o enreda: "Vede como vos exaltais! É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. É amiga a oferta. (...) Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao notário e assinai-me o documento da dívida, no qual, por brincadeira, declarado será que se no dia tal ou tal, em lugar também sabido, a quantia ou quantias não pagardes, concordais em ceder, por eqüidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver".

Com essa inusitada proposta, Shylock quer desfazer a idéia de interesseiro, pois o que lucraria com um pedaço de carne que, por ser humana, diferente duma carne de carneiro ou vitela, para nada tem serventia?

Apesar de Antônio ter encorajado o amigo Bassânio, insistindo que um mês antes da letra vencer, seus barcos terão retornado, seus negócios naufragam. Vencido o prazo, Shylock insiste em vingança reiterando seus motivos: "Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios (...) E tudo, por quê? Por eu ser judeu. (...) Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda".

Após sucesso na escolha dos enigmáticos escrutínios, fazendo jus à mão de Pórcia, Bassânio esclarece a noiva, que "para obter recursos, penhorei-me a um amigo mui querido e o penhorei ao seu pior inimigo".
Salânio confirma a irredutibilidade de Shylock: "Não vi nunca uma criatura sob a forma de homem que revelasse tão feroz empenho em desgraçar um homem (...) o próprio doge (maior autoridade Jurídica de Veneza), vinte mercadores, os senadores de maior prestígio tentaram persuadi-lo, sem que nada conseguisse do pleito demovê-lo tão odioso, baseado na justiça, numa letra vencida e numa multa".

Testemunhando o desespero do futuro marido, a noiva intervém e considerando a quantia irrisória, se dispõe a pagar muito mais. Mas Bassânio segura uma carta de Antônio nas mãos: "Querido Bassânio, todos os meus navios naufragaram, meus credores tornaram-se cruéis, minha situação financeira é desesperada, a letra que eu tenho com o judeu já está vencida (...) não me será possível viver (...)".

Solidária, Pórcia concorda que o futuro marido parta imediatamente em socorro ao amigo.

Antônio insiste em argumentar com Shylock, mas esse está absolutamente irredutível e todos sabem que "Se fossem denegados aos estrangeiros todos os direitos que em Veneza desfrutam, abalada ficaria a justiça da república, pois o lucro e o comércio da cidade se baseiam só neles". Confiante nas leis de Veneza, brada o judeu: "Invoco a lei!".

Numa Corte de justiça, o julgamento do mercador de Veneza tem início. O doge indaga: "Está presente Antônio?" e ele responde: "Às ordens de Vossa Graça". O doge prossegue dizendo a Antônio que sua situação causa comoção. E este afirma saber que o doge tem se esforçado e muito para atenuar sua rigorosa pena, mas que está disposto a suportar com grande tranqüilidade de alma a cólera de Shylock.

O doge pede que Shylock adentre a sala e diz que, embora o mundo pense que ele tenciona persistir nessas provas de crueldade, isso será somente até a última hora do processo, que depois disso mostrará consideração. Que movido pelo amor e o sentimento de humanidade dispensará o castigo ao mercador.

"Já expus a Vossa Graça o que pretendo, como jurei por nosso santo Sábado cobrar o estipulado pela multa", proclama Shylock. "Se mo negares, que com o risco seja das leis e liberdades de Veneza. Decerto haveis de perguntar-me a causa de eu preferir um peso de carniça a ter de volta os meus tres mil ducados. E então? Se um rato a casa me estragasse, e para envenená-lo eu resolvesse gastar dez mil ducados? (...) de igual modo, não sei de outra razão, nem saber quero, se não for o ódio inato e a repugnância que Antônio me desperta e que me leva a persistir assim numa demanda".

Bassânio oferece o dobro a Shylock e esse deixa claro que, como sabemos, não se trata de valores venais. Todos pelejam para que o credor mostre piedade, para que também possa encontrá-la, mas ele é resoluto: "Que castigo tenho a temer, se mal algum te faço? (...) essa libra de carne, que ora exijo, foi comprada muito caro; pertence-me; hei de tê-la. Se esse direito me negardes, fora com vossas leis! São fracos os decretos de Veneza".

O doge informa estar aguardando por Belário, um jurista erudito, que mandou vir de Pádua, para estudar o caso.

Shylock, permanece impassível às críticas: "Só vim aqui para impetrar justiça". Nesse instante, o escrivão introduz o jovem Baltasar (na verdade Pórcia, com trajes de doutor em direito) trazendo uma carta de recomendação de Belário, onde este esclarece que o portador desta, um renomado doutor de Roma, estava a par da controvérsia entre o judeu e o mercador Antônio e que com seu saber, cuja profundidade seria incapaz de elogiar suficientemente, está apto a atender o chamado do doge.

O doge recomeça indagando a Baltasar se é de seu conhecimento a dissidência que se discute naquela corte. Pórcia, digo, Baltasar, confirma: "Conheço os pormenores da pendência. Onde está o mercador? Qual é o judeu?". Após distingui-los, dirige-se a Shylock e afirma: "Assaz estranha é a natureza dessa vossa causa. Mas as leis de Veneza não vos podem desatender, se persistis no intento". Após confirmar o reconhecimento da letra por ambos, Pórcia prossegue dizendo que é preciso que o judeu se mostre clemente. Ao que esse responde: "Constrangido por que meios, não podereis dizer-me?"

O jurista é mesmo brilhante: "A natureza da graça não comporta compulsão. Gota a gota ela cai, tal como a chuva benéfica do céu. É duas vezes abençoada, por isso que enaltece quem dá e quem recebe. É mais possante junto dos poderosos, e ao monarca no trono adorna mais do que a coroa (...) atributo é de Deus; quase divino fica o poder terreno nos instantes em que a justiça se associa à graça. Por tudo isso, judeu, conquanto estejas baseado no direito, considera que só pelos ditames da justiça nenhum de nós a salvação consegue (...) Quando disse, foi para abrandar o teu direito; mas, se nele insistires, o severo tribunal de Veneza há de sentença dar contra o mercador".

Shylock insiste que só reclama a aplicação da lei, a pena justa cominada na letra já vencida. Quando o juiz indaga se há como pagar a dívida, Bassânio confirma que até o dobro, mas que "caso isso ainda não chegue, fica patente que a malícia vence, nesse pleito, à lisura".

Reitera-se que força alguma pode em Veneza mudar as leis vigentes, pois, diante de um exemplo desses, muitos abusos viriam a insinuar-se na república. E ao ouvir que isso "Não pode ser", Shylock se entusiasma com fervor: "Daniel veio julgar-nos! Sim, um novo Daniel! Ó sábio e jovem juiz, como eu te acato!". Pedindo para examinar a letra, o juiz a recebe e ouve de um empolgado Shylock: "Aqui está ela, reverendo doutor: aqui está ela".

Ainda se clama: "Tres importes da dívida, Shylock, te oferecem", ao que o judeu convicto: "Um juramento! Um juramento! Tenho no céu um juramento. Poderia na alma lançar o fardo de um perjúrio? Nem por toda Veneza".

O tribunal prossegue: "O documento já está vencido. Legalmente pode reclamar o judeu, por estes termos, uma libra de carne, que ele corte de junto ao coração do mercador". E roga: "Sê compassivo; aceita triplicada a importância da dívida e permite-me rasgar o documento". Shylock diz: "Após o vermos liquidado de acordo com seus termos. Mostrastes ser juiz de grande mérito; conheceis bem as leis; foi muito clara a exposição de há pouco. Assim, intimo-vos, pela lei de que sôis um dos pilares mais dignos, a emitir o julgamento. Juro pela minha alma que nenhuma língua humana é capaz de demover-me de minha decisão".

Resignado, é com impaciência que Antônio suplica a corte que pronuncie a sentença. O juiz diz que consiste a decisão em preparar o peito para a faca do credor. Shylock não se contém de alegria: "Oh nobre juiz! Oh extraordinário jovem!". O juiz reitera que a intenção e o espírito da lei estão de acordo com a penalidade cominada na letra e Shylock rejubila-se: "É muito certo. Oh juiz íntegro e sábio! Quanto, quanto mais velho não serás do que aparentas!".

O juiz pergunta se Shylock já deixou uma balança no jeito, para pesar a libra de carne e um cirurgião, para evitar que Antônio venha a morrer de hemorragia. Ele responde que isso não se encontra estipulado, ao que juiz afirma que, por caridade, seria conveniente. Mas o judeu diz que não pode achar um cirurgião naquele momento e que isso não consta na letra.

Eis que a Corte confirma o direito de Shylock: "Pertence-te uma libra aqui da carne do mercador; a Corte o reconhece, porque a lei o permite". Shylock, em êxtase proclama: "Oh juiz íntegro! Oh juiz sábio! Isso, sim, que é sentença! Vamos logo; preparai-vos."

O juiz então intervém: "Um momentinho apenas. Há mais alguma coisa. Pela letra, a sangue jus não tens; nem uma gota. São palavras expressas: 'Uma libra de carne'. Tira, pois, o combinado: tua libra de carne. Mas se acaso derramares, no instante de a cortares, uma gota que seja, só, de sangue cristão, teus bens e tuas terras todas, pelas leis de Veneza, para o Estado passarão por direito".

Ao ouvir isso, é Graciano, quem não se contém de alegria: "Oh juiz honesto! Toma nota, judeu: quanto ele é sábio!". Perturbado, Shylock indaga se a lei diz isso. O juiz responde que ele pode ver o texto: "reclamaste justiça, fica certo de que terás justiça, talvez mesmo mais do que desejaras".

Shylock recua afirmando que, nesse caso, aceita a proposta de que lhe paguem tres vezes a importância da dívida. Quando Bassânio se apressa em dar o dinheiro, o juiz intervém: "Devagar! Justiça total para o judeu. Nada de pressa. Só tem direito à multa estipulada".

Novamente em glória, Graciano profere: "Ó judeu! Que juiz idôneo e sábio. (...) Um segundo Daniel, judeu, um novo Daniel! Agora, cão, peguei-te firme (...). Um segundo Daniel! Outro Daniel! Judeu, muito obrigado por me haveres ensinado esse nome".

Shylock apela. Em vão. Ao intentar se retirar, o juiz diz: "espera aí, judeu! A lei ainda tem outras pretensões a teu respeito. Diz a lei de Veneza, expressamente, que se a provar se vier que um estrangeiro, por processos diretos ou indiretos, atentar contra a vida de um dos membros desta comunidade, há de a pessoa por ele assim visada, assenhorear-se da metade dos bens desse estrangeiro, indo a outra parte para os cofres públicos. A vida do ofensor à mercê fica do doge (...) Agora, ajoelha-te e ao doge implora que te dê o perdão". O doge se manifesta: "Para que vejas como nosso espírito é diferente, a vida te concedo antes de ma pedires".

Desolado, Shylock profere: "Não, a vida também; não perdoeis nada. Tirais-me a casa, se a privais do esteio no qual ela se firma; da existência já me privastes, quando me deixastes sem os recursos com que me sustento".

Indagado se está contente, sem alternativa, Shylock confirma que sim. Sente-se arrasado e, cabisbaixo, roga para ir embora. Obtém consentimento. A corte se encerra.

Cabe recurso! Embora de 1596, esse julgamento não precluirá. O judeu será defendido do "artifício infame" com apropriada lucidez pelo jurista alemão Rudolf Von Ihering (1818-1892), em sua obra "A luta pelo Direito". Retornaremos a esse tribunal para perscrutar onde Diké (a Justiça dos homens) se funde ou conflita com Thêmis (a Justiça divina).

Saiba mais:

Shakespeare, William - O Mercador de Veneza.
Assista ao filme "O Mercador de Veneza" com Al Pacino (disponível em DVD nas locadoras).
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br