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20/10/2014

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luciene felix lamy

01/10/2014

O mito do Minotauro - a tragédia da ganância


"As ações de Zeus respeitam e reforçam princípios reconhecíveis de justiça". Charles H. Kahn

Aristóteles estabelece e explica a estreita relação que se dá entre o mito e a filosofia. Na "Metafísica", ele afirma que é a admiração que impele os pensadores às especulações filosóficas.

O estagirita diz ainda que, no começo, a admiração (ou o espanto) se voltou para as dificuldades que se apresentavam primeiramente ao espírito: "Ora, aperceber-se de uma dificuldade e admirar-se é reconhecer sua própria ignorância. É por isso que mesmo o amor pelos mitos é, de alguma maneira, amor pela sabedoria, pois o mito é uma composição de coisas maravilhosas".

Os relatos mitológicos geralmente culminam em tragédias, causam espanto, impelem a pensar e tem por finalidade dar um norte aos cidadãos, estabelecer valores e propor uma ordem, uma conduta moral.

O mito do minotauro põe em relevo a questão da posse, personificada pelo rei Minos, soberano da Ilha de Creta e de sua mulher, a rainha Parsífae.

Antes do relato, vale esclarecer que desde os primórdios, esse robusto animal - o touro- está associado à força, sobrevivência, riqueza e, consequentemente, ao poder sobre os demais. E de onde vem esse "poder"?

O poder que o touro simboliza vem dos recursos que o animal dispõe. Da saciedade da fome (carnes, leite, queijos, manteiga, etc.), do privilégio de vestes e calçados (e demais acessórios, tais como botões, bolsas, cintos, chapéus, pentes, etc.), da força física, quando ele é utilizado de forma instrumental para cultivo da lavoura, enfim, tudo isso traduz a solidez e a segurança que a posse dele representa. 

O touro – com seus diversos recursos – é a insígnia primeva de elevado status material (vide o touro de bronze na Bolsa de Valores, em Wall Street).


Esclarecida a associação do touro aos bens, vejamos como o mito que trazemos explicita as consequências da ganância e do quanto é vão querer esconder, a todo custo, aquilo que nos constrange, pois nada nos envergonha mais que testemunhar a transmissão de nossas falhas aos nossos descendentes.

Minos era um rei visivelmente abençoado pelos deuses. Muito próspero, em seu reinado os animais – saudáveis – davam crias robustas, a agricultura florescia pujante, farta e todos os súditos reconheciam seu discernimento para tratar dos assuntos polêmicos, agindo sempre com justiça, harmonizando tudo e todos à sua volta.

Como a paz é o maior sinal de sabedoria, Minos era reverenciado e bem-quisto, gozava não somente do poder, mas também da autoridade que lhe outorgavam.

Certo dia, prestes a iniciar mais sete anos de governo, o rei Minos fez uma oração a Zeus, rogando que lhe enviasse um sinal que aprovasse seu bom governo, autorizando-o a permanecer no poder por mais sete anos.

Atendendo ao pedido, o soberano do Olimpo enviou-lhe um sinal divino. No amanhecer, ao postar-se diante do mar, Minos e todos os habitantes da Ilha de Creta ficaram estupefatos ao ver, emergindo das ondas do mar, um magnífico, imenso e imponente touro branco.

O touro era fantástico, gigante. Sua pele, de uma brancura que ofuscava os olhos da plateia que, maravilhados, compreendendo o sinal de Zeus, saudavam o rei.

Obviamente, todos sabiam que o touro deveria ser sacrificado e incinerado num altar, remetendo-o de volta ao verdadeiro dono, em agradecimento e honra a Zeus.

Mas Minos, que também possuía sua belíssima criação de gado, ficou fascinado pelo animal. Impaciente, passava os dias em angústia e as noites insones, pensando: – Esse touro é o animal mais belo que meus olhos já viram.

Ardilosamente, se indagava: − Desfazer-me de um animal robusto e perfeito como este? E, se eu escolher meu melhor touro e sacrificar no lugar desse portentoso touro divino? Zeus nem perceberia... E que linhagem extraordinária de touros eu posso desencadear!

Sem conseguir tirar isso da mente – vir a possuir o mais valioso rebanho – Minos decide sacrificar o seu melhor touro e o incinera, oferecendo em gratidão ao todo poderoso.

Onisciente, Zeus não aprova nem um pouco a atitude de Minos e, com desgosto, mesmo contrariado, pois sentia apreço pelo rei, lhe prepara uma lição.

Na calada da noite, a rainha Parsifae, esposa de Minos, entra no estábulo e prostra-se diante do imponente animal. Tomada por uma – inicialmente terna –, mas depois, louca e furiosa paixão, começa a acaricia-lo, beijando-o todo, sem parar.

E lá fica: não come, não dorme, não tece, não faz mais nada senão maravilhar-se do touro, de sua pele macia, branquíssima, de sua docilidade... O touro parecia compreendê-la e, até mais que isso, o brilho em seus olhos denunciava retribuir-lhe a paixão.

Desesperada, a rainha vai até o ferreiro divino, Hefestos (Vulcano na mitologia romana) e lhe implora: ­− Por favor, Hefestos, construa uma imponente vaca de madeira, cubra-a com uma branca e macia pele, que seja enorme, bela e majestosa.

O mestre da technné hesita em atendê-la, mas em se tratando de um pedido da realeza, cumpre o solicitado: constrói a grandiosa vaca de madeira e a cobre com um branquíssimo e macio couro, tão perfeita que ninguém diria ser artificial.

De madrugada, a rainha Parsifae – discretamente – para que ninguém a veja, caminha até o estábulo onde se encontra o magnífico touro. Entra dentro da vaca construída por Hefestos e copula com o touro.

Passado um tempo, qual não foi sua surpresa em descobrir-se... Grávida! Sim, a rainha engravidara do touro de Zeus!

Após o período de gestação, dá à luz a uma aberração: corpo de humano, cabeça de touro. Trata-se do famoso Minotauro.

Perturbadoramente impressionado, Minos logo compreende, percebe que o responsável pela geração daquela anomalia, de certa forma, era ele mesmo. Sente-se impedido de condenar a rainha por ter se apaixonado pelo touro, assim como ele mesmo também se apegara.

Vê que aquele monstro é uma demonstração da insatisfação de Zeus. Constata que toda desgraça – castigo dos céus – é fruto de sua própria ganância, de seu desvario em se apropriar de algo que não era seu.

Tratou de chamar outro mestre da technné, Dédalo, e pediu que construísse um labirinto para confinar a criatura, escondendo dos olhos de todos a besta, nascida de sua ambição irrefletida às riquezas mundanas.

O que este mito nos ensina é que tudo está posto, tudo nos é dado, à nossa disposição, mas cabe a nós usufruirmos das coisas, sem permitirmos que elas sequestrem nosso juízo, corrompam nossos valores, dominem nossa alma (psique).

Não convém nos escravizarmos, nos tornar cegos a ponto de permitir que a cobiça nos domine. Agindo com desmedida (hýbris), nossos descendentes explicitarão essa falta: ora pródigos, ora avaros, sempre descomedidos.

No exercício do desapego está a maior das riquezas; pois, em geral, o que mais tem é aquele que menos precisa.


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

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Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

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TER, vale + que o SER, humano?

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Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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