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01/06/2013

APOLO & DAFNE - O mito da origem do amor não correspondido

Apollo e Daphne por Gian Lorenzo Bernini - Galleria Borghese (Roma)
E mesmo que esteja passível de cometer um engano, um erro de pessoa, quem ama verdadeiramente é digno de nobreza”. Pausânias, n’O Banquete, de Platão.

É possível que em algum momento de nossas vidas tenhamos amado sem que fôssemos correspondidos. Mas isso não é motivo para constrangimento, pois até mesmo um deus foi irremediavelmente preterido: Apolo vivenciou a dilacerante dor da recusa e transmutou aflição em glória.


O poeta romano Ovídio (43a.C.-17d.C), que inspirou Dante Alighieri, William Shakespeare e tantos outros, expõe esse mito com ampla riqueza de detalhes. Vamos ao relato, tão apropriado nesse mês dos namorados.
O brilhante Apolo ou Febo (do grego, phobos = luz e vida) é também conhecido por Hélios (SOL). O deus da harmonia, saúde e profecia, filho de Júpiter (Zeus) e Latona (Leto) ousou subestimar um aparentemente inofensivo garoto, Cupido (Eros), detentor de poderosas flechas, tomando-o por inferior.
Desde o nascimento, Júpiter entreviu as perturbações que a imaturidade do filho da mais bela divindade – Vênus (Afrodite) – causaria.

De fato, o Amor é poderosíssimo e, aleatórias, as flechas de Cupido também causam danos terríveis.
Ao avistar o menininho (de cerca de sete ou oito anos) carregando um arco, Apolo provoca: “Ó jovem tolo, o que você está fazendo com uma arma dessas? Isso é para gente grande!”.
Aproximando-se com imponência, relata ter acabado de subjugar a terrível Píton, que nunca falha e, orgulhoso, desdenha: “O archote, meu garoto, é o melhor brinquedo para você, para pôr fogo no coração dos apaixonados. Não tente igualar proezas que são minhas!”, proibindo-o de intrometer-se com seu tipo de arma.
Percebendo a provocação, Cupido atenta que Apolo incorreu em hýbris (desmedida) e abanando suas asinhas protesta: “Seu arco acerta todas as coisas, Apolo – talvez –, mas o meu acerta você! Você se coloca acima de todas as criaturas vivas, e só por essa distância sua glória é menos que a minha”.
Ovídio relata que depois disso, Cupido desceu até as sombras de Parnasso e de lá trouxe diferentes tipos de flechas: as douradas, afiadas e cintilantes, para inspirar e despertar o sentimento de amor; e outras com ponta de chumbo, grossas e rombudas, que provoca repulsa e aversão ao amor.
Apontou a de ouro para Apolo e disparou-a, perfurando-o até a medula, através dos ossos e, com a de chumbo, mirou acertando a graciosa ninfa Dafne, filha do deus dos rios, Peneo.
Dafne tornou-se a primeira donzela amada por Apolo, mas ela estava acometida por uma forte aversão ao deus, horrorizando-se à ideia de amar, de submeter-se a um senhor.
Da parte de Apolo foi amor à primeira vista. Imediatamente queria desposá-la. Inebriado pela beleza da jovem, imaginava como ela ficaria se ricamente adornada, o quanto belas vestes a tornariam ainda mais encantadora. Enlevado pelo brilho, displicência e sedosidade de seus cabelos, sonhava acordado: “Como seriam eles penteados?”.
Contempla os olhos de Dafne, que brilham como as estrelas, seus lábios, e sabe que a contemplação não é suficiente. Maravilha-se com seu corpo, com os ombros nus, e o que ele não vê pensa que deve ser melhor ainda do que o que enxerga.
Mais fugidia que o vento, a ágil e casta donzela escapa dele. Quando Apolo a chama, Dafne esquiva-se de seu clamor, nem ouve. Em desespero, implora que não corra, diz que a ama, admira e que, se a persegue, é porque o amor o fez seu seguidor. Mas a jovem dispara, cada vez mais apavorada.
Roga que ela corra mais devagar, prometendo também reduzir a corrida, que não fuja dele como a ovelha do lobo, pois teme que se machuque.
Esclarece que não é um rude camponês ou grosseiro pastor cheirando a gado, mas legítimo filho de Júpiter: “Eu sou o senhor de Delfos (...) sou aquele que revela o presente, o passado e o futuro; pelo meu poder, a lira e a canção se harmonizam; minha flecha tem certeza de seu objetivo – só existe uma flecha assim, a que fere meu coração.”. Mas, se não amamos, que importa os atributos de quem nos ama?
Refém de uma espécie de “doença”, Apolo se vê fragilizado, impotente: “O poder da cura é descoberta minha; todas as ervas são minhas súditas. Mas, para minha desgraça, o amor não se cura com nenhuma erva; a arte que cura os outros não faz a mim, seu senhor, nenhum bem!”.
Dafne assustada e em fuga, com seus braços nus ao vento, suas vestes esvoaçantes e seus longos e macios cabelos revoltos, tornava-se, aos olhos de Apolo, mais linda do que nunca.
Ovídio relata que assim corriam o deus e a ninfa, ele, veloz e esperançoso, ela, aterrorizada: ela, com asas do medo, ele, no entanto, cada vez mais rápido, pois era “Levado pelas [incansáveis] asas do amor”.
O desespero de ambos permanece até que, totalmente esgotada, Dafne sente suas forças se extinguirem: “De longo voo, mortalmente pálida, olha para o rio de seu pai e grita: ‘Ajuda-me! Se existe algum poder nos rios, que ele transmute e destrua o corpo que despertou tanta adoração”. Roga então, ser livre e poder ignorar os deveres do himeneu.
Mal terminou de implorar, sentiu suas extremidades transformarem-se como nas de uma árvore de loureiro: seus cabelos viraram folhas, seus braços em ramos se alongaram, seus pés criaram raízes: “Tudo se transfigurou, exceto sua graça, seu brilho”. A cena inspirou muitos artistas.
Apolo presenciou a transformação com grande tristeza e a amou mesmo assim, afirma o poeta.
Colocou as mãos sobre seu coração ainda pulsando, beijou a madeira e sentiu vibrar a mais bela de todas as virgens: “Já que você nunca poderá ser minha noiva, (...) deixe que os louros adornem, doravante, meus cabelos, minha lira, minhas conquistas: deixe que os vitoriosos romanos, numa longa procissão, usem as folhas de louro para o triunfo e a aclamação”.
Num último apelo: “E, já que minha cabeça é sempre jovem, deixe que os louros sejam sempre verdes e brilhantes!”. Arrebatada, Dafne parecia consentir.
Acredita-se que a romana Dafne de Ovídio corresponda à diáfana grega Aurora, que foge sempre que a luz do sol (Apolo) surge e seus primevos raios a tocam, fazendo-a desmaiar sob os olhos do deus imortal.
Ondulando suavemente sua copa, inclinando-a em sinal de gratidão, ela concordou com as intenções de Apolo e manteve suas folhinhas de louro imperecíveis.
Ornamento a cingir a augusta fronte dos poetas e dos valorosos guerreiros que triunfam, “Apolo e seu loureiro (Dafne) estarão juntos para sempre, onde quer que se cantem canções e se contem histórias”.
Amar é tão nobilitante que mesmo quando não correspondido, tem mérito. Por isso Apolo consagrou os louros à vitória, coroando-se pela glória de ter amado.

Em memória do querido e inesquecível Mestre, Antônio Medina Rodrigues (1940-2013), doutor em Língua e Literatura Grega pela FFLCH (USP), poeta, crítico, tradutor e professor de Mitologia Greco-romana.

Desde meus longínquos tempos de Anglo, ensinando, encantando, celebrando a vida. Profundo pesar pela partida desse Sábio e adorável Leão.

Abaixo, uma de suas preciosas obras, a qual me presenteou. Minha eterna gratidão à você, Professor.




Referências bibliográficas:

Ovídio – Metamorfoses (pág. 20-23). Ed. Madras. São Paulo (2003).
Mattiuzzi, Alexandre – Mitologia ao alcance de todos (pág. 62-75). Ed. Nova Alexandria. São Paulo (2000).
Graves, Robert – Mitos gregos (pág. 32-36). Ed. Madras. São Paulo (2004).
Bulfinch, Thomas – O livro de ouro da mitologia – histórias de deuses e heróis (págs. 30-32). Ediouro. Rio de Janeiro (2006).
Hamilton, Edith – Mitologia (pág. 160-2). Ed. Martins Fontes. São Paulo (1997).
Souza Brandão, Junito. Mitologia Grega – Vol. II (pág. 86-87). Ed. Vozes, Petrópolis (2002).
Commelin, Paul. Mitologia Grega e Romana (págs. 34-38 e 71). Ed. Martins Fontes. São Paulo (1997).
Meunier, Mário. Nova Mitologia Clássica (Pág. 31-36). Ed. Ibrasa. São Paulo (1997).
Genest, Émile. As mais belas lendas da mitologia (pág. 1632). Ed. Martins Fontes. São Paulo (2000).

01/05/2013

Tratado Sobre a Tolerância - Voltaire e UNESCO


Para ampliar as imagens, basta clicar sobre elas.

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”. Voltaire

O exercício da tolerância ao estranho, ao estrangeiro, é algo tão árduo aos ‘racionais’ que, atendendo ao direito arcaico, na mitologia grega, não por acaso (sem causa) esse foi o primeiro epíteto do ordenador do cosmos, Zeus: “Protetor de Forasteiros” (Xênios). É também a isso que roga o Primeiro Artigo da “Declaração Universal dos Direitos do Homem” (ONU – 1948), onde impera o dever de agir com espírito de fraternidade.

Insiste-se nisso porque dificilmente alguém pode orgulhar-se de não acalentar nenhum preconceito. Quando não adversos à sexualidade (homoafetivos, por exemplo), são quanto ao aspecto físico (negros, idosos, obesos, portadores de deficiência), à religião (judeus, evangélicos, mórmons, etc.), simplesmente à precária condição econômica ou de deficiência cognitiva. 

Mesmo aquele que se declara isento de preconceito – que nada mais é que uma reação moral espontânea – poderá se flagrar espantado com a visão de uma quinquagenária grávida, por exemplo. Nossa psique é formada em nosso ambiente e seus valores, o que constitui nossa "cultura".


Quando se roga por tolerância, a primeira ideia que vem à mente é a da ‘obrigação’ de consentir, aguentar, suportar, aceitar algo indesejado. Mas, como esclarece a Declaração de Princípios sobre a Tolerância (UNESCO - 1995), em seu Artigo 1º: “A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência”. A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo.

Sustentáculo dos direitos humanos, não é só um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos fundamentais do outro.

A perda do sentido de dever é tão forte que ao pensar nos direitos pensa-se nos “meus” direitos, não nos direitos dos outros. Curioso é o esquecimento dos “meus” deveres, mas não, jamais se esquece dos deveres dos outros.

Seja no seio familiar, nas escolas, nos locais de trabalho e, enfim em toda comunidade à qual participamos, acalentar intolerância fomentando a hostilidade promove a exclusão conduzindo os marginalizados à frustração, à revolta e ao fanatismo. A educação, em todos esses meios, é o modo mais eficaz de prevenir a intolerância. Ensinar sobre os direitos e liberdades dos outros é uma forma de assegurar o respeito e um incentivo à vontade de proteger esses direitos e liberdades.


Nossa intolerância advém da cegueira do nosso tempo. Outrora, em nosso ainda estreito horizonte, uniões inter-raciais ou divórcio, por exemplo, foram deploráveis. Hoje, constitui uma realidade aceita e os filhos de pais separados não são mais olhados de soslaio.

Enfrentar, esclarecer e iluminar o hoje, pelo amanhã é um caminho para a tolerância. Com isso se empenhou o filósofo iluminista François-Marie Arouet (1694-1778), conhecido pelo pseudônimo de Voltaire, que lutou ferrenhamente em defesa da tolerância, da liberdade e da Justiça.

Na França de Voltaire, as autoridades arrogavam para si o direito de apontar, perseguir, condenar e matar as minorias por suas crenças religiosas.

Seu “Tratado sobre a Tolerância” (1763) partiu da revolta pela injustiça cometida a um humilde pai de família, que, após um julgamento apressado e obscuro fora condenado a uma morte dramática devido à intolerância religiosa. Trata-se do famoso caso de Jean Calas, onde o clamor popular eclipsou a falta de provas.

O nobilíssimo e aristocrático pensador encarrega-se do caso e ganha a causa moralmente, reabilitando a inocência do injustiçado: “(...) o furor da facção e a singularidade do destino concorreram para assassinar juridicamente na roda o mais inocente e mais infeliz dos homens para dispersar-lhe a família e para reduzi-la à mendicância (...)”.

Será a partir de seu envolvimento nesse drama que Voltaire, cauteloso, pois sabe que enfrenta poderosos, amplia perspectivas e propõe modificações na legislação antiprotestante.

Humanista, Voltaire advoga com brilhantismo! A agudeza argumentativa para mobilizar a opinião pública fez parte de sua estratégia e o empenho na redenção de Jean Calas pôs fim à perseguição dos protestantes.

Segundo o estudioso René Pomeau: “Foi somente em 1787 que o rei Luis XVI decidiu-se a promulgar um édito de tolerância, em favor de seus súditos que não pertenciam à religião católica (...).”.

Avançando e ampliando mais, a Declaração dos direitos do homem de 1789 (link:  http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001315/131524porb.pdf ) institui que “todos os cidadãos [...] são igualmente admissíveis a todas as funções graduadas, colocações e empregos públicos [...] sem outras distinções além daquelas de suas virtudes e de seus talentos”, findando então a exclusão teórica dos protestantes.

Ainda que a Declaração de 1789 não afirme explicitamente a liberdade do culto público, seu artigo X estipula que “ninguém deve ser importunado por suas opiniões, inclusive religiosas, contanto que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei”.

E o artigo XI, ao afirmar que “a livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem” implicava uma liberdade de culto que era, na verdade, daí em diante, praticada sem entraves, afirma Pomeau.

Embora tenha se inspirado em John Locke, que desenvolveu como ideia principal “a distinção entre a comunidade política e a sociedade religiosa, a distinção e a separação radical entre as funções da Igreja e as do Estado”, Voltaire não tinha por objetivo essa separação, mas a subordinação da Igreja ao Estado, pois enxergava nisso um meio eficaz de se garantir a tolerância.

Fortemente embasado através de um amplo panorama histórico, o “Tratado” está repleto de relatos de atrocidades cometidas por diversas religiões ao longo de toda a história até sua época. São sofrimentos desumanos, dilacerantes.  

Atento quanto à supremacia dos interesses mundanos sobre os preconceitos, inclusive religiosos, Voltaire designa a Bolsa de Londres, como sendo um dos lugares privilegiados da tolerância.

Dentre os trechos mais comoventes dessa sua obra, destacamos a impressionante “Prece a Deus”, com a qual Voltaire conclui seu Tratado: “Já não é aos homens que me dirijo, é a Ti, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos” (confira texto na íntegra, logo abaixo).

A despeito de nossa revelia, urge nos imbuirmos de dissipar os preconceitos, se não por nós, ao menos a favor de nossos descendentes, para que sejam poupados da violência cultivada em nossas enraizadas, egoístas e caquéticas convicções morais (de mores, costumes).


Certamente, não nos referimos aqui a aberrantes e indiscutíveis perversidades (pedofilia, necrofilia, zoofilia, etc.), mas a recusa em legalizar civilmente uma relação homoafetiva que pressupõe amor e mútuo consentimento, revela-se arbitrariamente violenta.

Quanto às religiões, compartilho da ideia de Voltaire de que o conhecimento absoluto, em matéria de metafísica, ultrapassa o alcance do espírito humano e o que produz o valor de um credo, de uma crença, não é seu conteúdo, mas a fé: “Quanto mais seitas houver, tanto menos perigosa cada uma será (...)”.


Em nosso país, convivem pacificamente, espíritas, católicos, judeus, mórmons, testemunhas de Jeová, muçulmanos, ateus, umbandistas, zoroastras, budistas, protestantes, taoistas e muitos, muitos outros.


O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) nos diz que o dever fundamental do homem é a própria perfeição e a felicidade alheia. Nós invertemos: a própria felicidade e a perfeição alheia.

Prece a Deus - Voltaire

Não é mais aos homens, portanto, que eu me dirijo, mas a você, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos; se a frágeis criaturas perdidas na imensidão e imperceptíveis ao resto do universo, for permitido ousar pedir algo a você, você que tudo concedeu, você cujos decretos são tanto imutáveis quanto eternos, digne-se olhar com piedade aos erros ligados à nossa natureza; que tais erros não se transformem em calamidades. 

Você não nos deu um coração para odiar nem mãos para nos degolarmos uns aos outros; faça com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira; que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos débeis, entre todas as nossas línguas insuficientes, entre todos os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas condições tão desproporcionais a nossos olhos, mas tão iguais diante de você; que todas estas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados homens, não sejam sinais de ódio e de perseguição; que aqueles que acendem velas em pleno meio-dia, para celebrar você, suportem aqueles que se contentam com a luz de seu sol; que aqueles que colocam sobre a roupa um véu branco para dizer que é preciso amar você, não detestem os que dizem o mesmo debaixo de um manto de lã negra; que aqueles cujas roupas são tingidas de vermelho ou púrpura, que dominam uma parcelazinha de uma porçãozinha do barro  deste mundo e que possuem alguns fragmentos redondos de certo metal, usufruam sem orgulho daquilo que eles chamam de grandeza e riqueza, e que os outros os olhem sem inveja: pois você sabe que nessas vaidades não há o que invejar nem do que se orgulhar.

Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos! Que todos tenham horror à tirania exercida sobre as almas, do mesmo modo como acham execrável a bandidagem que toma à força o fruto do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos dilaceremos uns aos outros no seio da paz e empreguemos o instante de nossa existência a bendizer igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia, a sua bondade, que nos concedeu este instante.


Fonte: Tratado sobre a Tolerância - por ocasião da morte de Jean Calas (1763), cap. XXIII.

Dedicado aos 70 anos de João Antonio Ferreira: tolerante e otimista, meu amado pai.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estáis louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República. Confira nesse Blog (lista no final).

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcáica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Leia artigo nesse Blog.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A areté do Homem se completa

como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

Jamais a subestimem!

Jamais a subestimem!
Aphrodite Kallipygos. Cópia romana de escultura helênica (150-100 a.C.). Museo Archeológico Nazionale in Napolis, Itália - 1802.

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br