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1 de fev de 2017

A felicidade em Aristóteles




Os hábitos dignos de louvor chamamos de virtudes”. Aristóteles

No Livro I de sua obra “Ética a Nicômaco”, Aristóteles (385-323 a.C.), imbuído de estabelecer no que consiste aquilo que todos os seres humanos mais prezam e buscam acima de tudo, conclui que é a felicidade (eudaimonia), o bem viver.

A felicidade é um bem que se busca por si mesmo, pois não a ansiamos por causa de outra coisa que não seja ela mesma: “chamamos de absoluto incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa”.

Nas palavras do filósofo, a felicidade é algo absoluto e autossuficiente, sendo também a finalidade da ação. Todas as coisas tem uma função ou finalidade, e a exclusivamente humana é a atividade virtuosa da alma.

Ela pertence, portanto, ao número de coisas estimadas e perfeitas, pelo fato de ela ser um primeiro princípio, pois é tendo a felicidade em vista que nos empenhamos em tudo o que fazemos.

O desejo de amar e ser amado, de se casar, constituir família, de desfrutar de um lar acolhedor, de dispor de bens, como um bom automóvel, de conquistar um diploma, uma carreira bem remunerada, viajar, ser esbelto, angariar boas amizades e de até impressionar, conquistando os aplausos dos demais, todos esses exemplos são buscados a fim de se sentir a mais desejável de todas as coisas.

Para se aprofundar mais, confira abaixo o adendo dos estudos de Úrsula Wolf sobre a Ética a Nicômaco (trechos em verde).


Sem dúvida, ser feliz é o que há de mais belo e agradável, o maior e melhor bem a ser alcançado pelo agir humano e, justamente por isso, o estagirita desenvolve uma teoria sobre o que seria o bom uso da racionalidade – para refletir, agir e, claro – viver uma vida digna de inveja.

Uma vida digna de inveja! Embora valha a pena atingir esse fim para um indivíduo só, é mais belo e mais divino alcançá-lo para uma nação, afirma Aristóteles, pois o objetivo da vida política é o melhor dos fins, e essa ciência – a política! – dedica o melhor de seus esforços a fazer com que os cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações.

Alguns identificam a felicidade com a virtude, outros com a sabedoria prática, outros com uma espécie de sabedoria filosófica, acompanhadas ou não de prazer. E outros ainda incluem a prosperidade exterior. Dos demais bens, alguns devem necessariamente estar presentes como condições prévias de felicidade, e outros são naturalmente cooperantes e úteis como instrumentos.

Com efeito, diz ele, o prazer é um estado da alma, e para cada homem é agradável aquilo que ele ama: um cachorro ao amigo dos cachorros, uma partida de futebol, ao amante do futebol, mas também os atos justos ao amante da justiça e, em geral, os atos virtuosos aos amantes da virtude.

Na maioria dos homens os prazeres estão em conflito uns com os outros porque não são aprazíveis por natureza, mas os amantes do que é nobre se comprazem em coisas que tem essa qualidade: nobreza. Tal é o caso dos atos virtuosos, que não apenas são aprazíveis a esses homens, mas a si mesmos e por sua natureza, que é de bom caráter. O homem que não se regozija com as ações nobres não é sequer bom; e ninguém chamaria de justo o que não se compraz em agir com justiça.

Caráter é destino, daí a importância da reta conduta pessoal daqueles que exercerão algum papel dentro do poder político. Aristóteles ponderou sobre hábitos, moral, vida privada e vida pública, ética e política, que também é âmbito ao qual pertence o caráter, pois “não é possível tratar de assuntos de Estado quando não se tem um certo tipo de compleição, a saber, quando não se é bom”, entendendo aqui que, ser bom é possuir excelência (areté).

Quanto ao fato de, em Aristóteles, a relevância do bom caráter (moral) ser um ramo e o ponto de partida da política (ética), a estudiosa alemã Úrsula Wolf esclarece que nas sociedades tradicionais não se fazia distinção entre ética e moral, pois as normas sociais estendiam-se tanto no agir da vida privada quanto na vida pública.

Do que foi dito até aqui, que fique claro que todas ações nas quais nos empenhamos tem como fim último alcançar a felicidade e que, ainda que tal fim seja o mesmo tanto para o indivíduo quanto para o Estado, o do Estado parece ser algo maior e mais completo, quer a atingir, quer a preservar.

Isso porque a política, afirma Aristóteles, é a arte mais prestigiosa, é a arte mestra de todas as demais. É ela quem determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas às suas diretrizes.

Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. Mas a fim de ouvir inteligentemente as preleções sobre o que é nobre e justo, e em geral sobre temas de ciência política, é preciso ter sido educado nos bons hábitos.

Os sábios e o vulgo concebem a felicidade de forma distinta! A maioria das pessoas pensa que a felicidade seja uma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras.


Os doentes a identificam com a saúde, os que estão sem dinheiro, com a riqueza e, talvez os obesos, com a magreza, quando bem o sabemos que não se trata propriamente de algo exterior ao indivíduo. A vida consagrada ao ganho é uma vida forçada, e a riqueza não é o Bem que procuramos e sim algo de útil.


Dos três principais tipos de vidas: a de prazeres, a política e a contemplativa, a julgar pelo tipo de vida que a maioria das pessoas levam, as mais vulgares parecem (não sem um certo fundamento) identificar o Bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida de gozos.

E irônico, prossegue: “A grande maioria dos homens se mostra em tudo iguais a escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de Sardanapalo [rei mítico da Assíria, provavelmente bem imbecil]”.

Muitos, cônscios de sua própria ignorância, admiram aqueles que proclamam algum grande ideal inacessível à sua compreensão e, à parte esses numerosos bens citados, existe um outro que subsiste e também é causa da bondade de todos os demais.


Para o filósofo, as pessoas de grande refinamento e índole ativa identificam a felicidade com a honra; pois a honra é, em suma, a finalidade da vida pública. No entanto, considerando que os homens buscam a honra para convencerem-se de que são bons e que a honra depende mais de quem confere esse tipo de distinção do que de quem a recebe, Aristóteles diz que o bem próprio de um homem e que dificilmente lhe poderia ser arrebatado é… A virtude!


Adendo dos estudos de Úrsula Wolf sobre a Ética a Nicômaco:

A partir da compleição constitutiva do querer individual, Aristóteles torna compreensível porque a questão sobre esse fim último ou sobre o melhor dos bens é inevitável

Agora já não estão em questão os âmbitos de ação e sua ordenação e sua graduação internas; argumenta-se antes a partir da perspectiva “nós” do homem agente: SE há um fim para as ações que desejamos por ele [fim] mesmo, e SE queremos outro fim por causa daquele, e SE não buscamos tudo o que buscamos por causa de um OUTRO fim, então fica claro que esse fim é o melhor dos bens.

Embora a frase seja formulada hipoteticamente, Aristóteles quer sugerir que na realidade há um bem que é o melhor de todos.

A fundamentação acentua que sem tal fim a aspiração se encaminharia ao infinito, tornando-se vazia e vã.

É evidente que o querer gira no vazio se a cada pergunta que diz: “por que é que você faz isso?” podemos responder: “para alcançar aquilo”, e assim sucessivamente. Mas para eliminar o problema do vazio do querer, parece ser suficiente haver em geral pontos finais para o querer, sem que seja necessário ser precisamente um.

Diversos encadeamentos da ação poderiam muito bem sustentar-se em diversos pontos finais, que nós desejamos por eles mesmos. Por que então haver um fim último?

Aristóteles aponta a importância de um tal fim para a vida do indivíduo: como os arqueiros que tem diante dos olhos sua meta, ele nos possibilita atingir o que é correto.

Aristóteles diz que é uma grande falta de compreensão não subordinar sua vida a um fim último. Isso mostra que a adoção de um fim último tem fundamentação normativa ou prática e contém uma sugestão inteligente para uma vida humana boa.

Suponhamos que na vida de uma pessoa haja três fins a que ela aspira por causa deles mesmos, por exemplo, honra, riqueza e formação.

A fim de que sua aspiração não fique no vazio, bastaria que ela realizasse um, dois ou até os três fins sem ligação entre eles. Todavia, visto que uma pessoa, enquanto organismo unitário, realiza uma vida no tempo e possui capacidade deliberativa, ela se vê colocada diante da questão de dar ordenação aos diversos fins, que peso dá a qual fim e quanto tempo dedica a qual deles, etc.

E mesmo que a confrontação com essa questão não seja absolutamente obrigatória é pelo menos plausível afirmar que, para um ser cuja capacidade deliberativa assume os diversos conteúdos das aspirações, é necessário impor-se a pergunta pela ordenação destes [conteúdos das aspirações].

Mas então, mesmo que ela deseje diversos fins e de mesmo nível, a pessoa irá perseguir um fim último, a saber, o fim de realizar a quantia ordenada dos três fins mencionados.

Isso leva a uma outra questão de interpretação controversa. Poderíamos compreender o fim último da aspiração como foi há pouco explicitado, a saber, que o fim é desejado por causa dele mesmo, sustentando assim a aspiração, porque contém todos os outros fins.

É assim que Aristóteles afirma que o fim da política, o bem para o homem, abarca todos os outros fins.

Por outro lado, as explanações sobre a gradação das technai e a comparação com o arqueiro sugerem haver um modelo hierárquico dos bens. Para essa interpretação, a pessoa que persegue como fins a honra, a riqueza e a formação deveria decidir qual deles é o sumo fim para ela.

Suponhamos que ela considere que o sumo bem que ela deseja realizar no todo de sua vida seja a honra, ENTÃO deveria subordinar os fins da riqueza e da formação ao desejo de honra; aspirar a eles, portanto, apenas na medida em que representam meios que ajudam a alcançar a honra como fim último.

PROBLEMAS RELACIONADOS COM O CONCEITO DE EUDAIMONIA (Úrsula Wolf):

Como surge a eudaimonia? Quando e em que circunstâncias podemos chamar alguém de eudaimon? A questão resulta do segundo modo de dependência do acaso, a dependência das circunstâncias exteriores cambiantes; poderíamos fazer coincidir a questão com o problema de estados de coisas contingentes.

Como surge a eudaimonia? A eudaimonia poderia surgir por meio do exercício, por um presente de Deus ou pelo acaso.

A eudaimonia como atividade de acordo com a areté, ela surgiria, portanto, por meio do exercício. Correspondentemente, a política, que tem como fim o melhor dos bens, procura formar os cidadãos e educá-los para a areté. Crianças e animais não podem alcançar a eudaimonia, porque não estão em condições de agir de modo próprio.

SE a eudaimonia surge pelo exercício e pelo aprendizado, com isso radicaliza-se em muito o problema da contingência. SE ela surgisse pelo acaso ou se fosse um presente da natureza, então para a maioria dos homens não haveria qualquer esperança de alcançá-la.

É só se ela surge pelo exercício que pode ser alcançada pela maioria; todavia, mesmo assim, não o é para todos. Não podem alcançá-la aqueles que não tem acesso ao exercício pela educação. Não alcançam aqueles que não se desenvolvem como crianças cidadãs bem situadas (pois é só sob essas condições que podem receber formação em geral).

Entre esses, alcançam a eudaimonia apenas aqueles que tem bons educadores, que conhecem e praticam eles próprios a areté ética e conseguem fazer que as outras pessoas se exercitem nela.

Se seguimos os pressupostos desse pano de fundo, as condições de acesso à eudaimonia, portanto, são dadas a poucos.

Quando é que se pode chamar alguém de eudaimon?

Os gregos dão grande importância à questão de saber até que ponto se pode considerar alguém feliz, uma vez que a felicidade nasce da experiência de que mesmo uma pessoa a quem sua vida transcorreu bem até o momento presente pode, de repente, tornar-se infeliz, em virtude de acontecimentos exteriores, como aconteceu a Príamo, o rei de Troia, que sofreu a destruição de sua cidade e a morte de seus filhos.

É a esse tipo de destino que se refere a conhecida frase do político e poeta Sólon: “antes do fim de sua vida não se pode considerar ninguém eudaimon”.

Aristóteles e sua concepção de eudaimonia, para quem os bens exteriores pertencentes ao âmbito da TYCHÉ têm o teor de meras condições adicionais (…).

A eudaimonia consiste em última instância nas atividades conforme a areté porque estas garantem um modo de vida de muita estabilidade, ao passo que a admissão da eutykhia como parte constitutiva da eudaimonia tornaria a eudaimonia uma espécie de camaleão, modificando-se constantemente de felicidade em infelicidade.

Com isso, fica clara de novo a razão que orienta a concepção aristotélica de eudaimonia: o melhor dos bens para o homem deve apresentar duração e consistência, e a continuação da atividade conforme a areté deve fazer jus precisamente a essa razão no interior da vida.

O primeiro tratado sobre o prazer afirma que é errôneo considerar eudaimon alguém que caiu em grande infelicidade exterior, mesmo se ele for bom. Todavia, Aristóteles acentua a diferença entre eudaimonia e tyché.

Na sua teoria sobre o prazer encontrado na atividade (I-11), Aristóteles acentua a importância de apreender de maneira bem precisa o nexo entre eudaimonia e tyché.

Esse prazer se instaura quando a atividade humana é realizada sem impedimentos, uma vez que os impedimentos são considerados como um desprazer. Felizes acasos podem aumentar a eudaimonia, enquanto acasos infelizes perturbam-na.

Também aquela pessoa que é eudaimon, no sentido da definição encontrada em I-6, pode portanto, ver-se impedida no exercício desse modo de vida, na medida em que é acometida de doença, perda dos bens, etc., ou quando seus próximos morrem ou sofrem infortúnios.

Mesmo sob circunstâncias adversas é possível não perder a eudaimonia, na medida em que essa pessoa suporta esses infortúnios exteriores de modo adequado, e apesar das adversidades exerce a atividade da areté.

Por outro lado, não diríamos que a pessoa é completamente feliz; completamente feliz parece ser apenas quem vive sua vida sob condições que fomentam a atividade conforme à areté, de tal modo que seu exercício se torna alegria. 

Aristóteles usa a apalavra makarios (venturoso, feliz, aquele que tem a forma perfeita da felicidade), que significa a eudaimonia que inclui em si a eutykhia.
Meu e-mail: mitologia@esdc.com.br

2 de jan de 2017

Riqueza, Prazer, Trabalho e Pobreza

Clicando sobre as imagens, elas ampliam.
Uma dança para a música do tempo” (1638), de Nicolas Poussin, pode ser apreciada no Wallace Colection, em Londres.

Amigos da Carta Forense, nesse janeiro, mês de férias, trazemos a brisa e os ensinamentos presentes na delicadíssima tela do francês Nicolas Poussin (1594-1665), que fez carreira (e muito sucesso!) em Roma.

Tudo a ver com nossos propósitos (e o alerta!) para o ano que se inicia, “Uma dança para a música do tempo” traz as figuras alegóricas da Riqueza, do Prazer, do Trabalho e da Pobreza, além do deus Jano (esculpido numa pedra, sobre um pedestal e envolto numa guirlanda de flores), a carruagem de Apolo e seu cortejo, a criança e o velho, no canto inferior direito e a outra criança fazendo bolhas de sabão, no canto inferior esquerdo.

Embarquemos numa das atividades mais prazerosas do mundo: contemplar uma obra de arte para – olhos e alma atentos – tentar “traduzir” o que o erudito artista está a nos revelar através de suas pinceladas.


Observem que o deus grego da saúde e da harmonia, Apolo (Hélios, na mitologia romana) está, lá do alto, dentro de um círculo dourado, o que representa a eternidade que é o nascer do Sol (Apolo).

Ele é precedido por uma jovem – seguramente a deusa Aurora – que faz jorrar algo como pó de ouro (ou flores douradas) de suas mãos. E sua carruagem é seguida por algumas donzelas, a bailar, conhecida como sendo as “Horas”.

A representação pictórica dessas quatro divindades alegóricas, diz muito sobre as instâncias que presidem.


O Prazer é a única que nos encara convidativa e, reparem como seu olhar é tranquilo, alegre, feliz. Assim como a Riqueza, o Prazer também está calçado (isso é MUITO importante!). Não há dúvida de que o fato do Prazer ser a alegoria mais distante da Pobreza, nos diz muito sobre seu âmbito.

Sobre a cabeça de todas essas alegorias está algo ligado ao que elas representam e, o Prazer traz uma guirlanda de flores. Ora, flores são belas, exalam aromas agradáveis e… Perecíveis, efêmeras. O prazer também abarca a luxúria, o ócio e talvez seja por isso mesmo que dá às mãos à Riqueza. Afinal, sem dinheiro, como gozar o melhor da vida?

Atentem que o Trabalho está centralizado, entre o Prazer e a Riqueza. E ostenta a guirlanda de louros em sua cabeça! Realmente, o Trabalho é dignificado, faz jus à coroa de louros, símbolo da vitória. Note-se que o trabalho, assim como a Pobreza, estão descalços. Como sempre, nada é em vão, ou seja, em tudo o artista está a nos relatar o que apreende dessas instâncias.

O Trabalho dá as mãos à Pobreza e essa tenta dar às mãos à Riqueza, mas observem que elas (mãos da Pobreza e mãos da Riqueza) não chegam a se tocar. A Pobreza traz em sua cabeça um simples pano a prender seus cabelos, está descalça, se veste com modéstia e expressa um semblante comovente.

Muito bem trajada, a Riqueza, calça belíssimas sandálias douradas e traz uma guirlanda de pérolas na cabeça. É apropriado que a Riqueza ostente alguma joia, símbolo de fortuna, de recursos em abundância.

Também podemos ver que, enquanto a Pobreza traz mesmo uma expressão facial de sofrimento, a Riqueza apresenta um perfil sereno; já o Trabalho parece focado noutra coisa (na Riqueza?) e, como já dissemos, travesso, o Prazer tem uma carinha de felicidade, de indisfarçável satisfação.


Como se trata de “Uma dança para a música do tempo”, a figura do velhinho sentado tocando um instrumento musical parece introduzir a velhice (ou a morte) como elemento à espreita.

Não importa o que façamos, a velhice e/ou a morte, está lá, rogando pela harmonia (aventa-se pela música) que essas quatro alegorias, quando bem orquestradas, presidem. Quanto às asas do idoso (o Tempo), Bem, o tempo voa mesmo.

Já a criancinha ao lado do velho, segurando uma ampulheta (que ainda tem muita areia para passar), indica que, como esse ano de 2017, a dança começou há pouco e vai durar algum tempo.

É curioso que uma inocente criança segure a frágil ampulheta. Podemos, heraclitianamente, “ler” algo também nisso: “O tempo é criança brincando, de criança o reinado.” (Frag. 52 , do filósofo pré-socrático, Heráclito de Éfesos, inspirador de Sócrates e Platão).

A outra criança, no canto inferior esquerdo, fazendo bolhas de sabão, parece estar a indicar a efemeridade da vida, que passa tão rápido. Muitos elementos nessa obra reiteram isso insistentemente. Fato que é que esta criança está a brincar. Talvez a vida seja mesmo uma brincadeira, que levamos a sério demais.


Sobre a presença do deus Jano (daí janeiro) nesse sólido pedestal, também vale a pena elucubrar. O maior monumento a Jano se encontra no Museu do Vaticano. Ele é bifronte, ou seja, tem duas faces: jovem, indicando o futuro e outra velha, representando o passado. Mas, às vezes, como no do Vaticano, ambos possuem longas barbas.

Jano, do latim, Janus, é o deus pagão dos fins e dos começos (dezembro e janeiro). Talvez sua presença nessa obra se justifique pelo fato dos antigos romanos considerarem que esse deus traz dinheiro. À Jano é creditada a invenção da moeda, que como ele também tem duas apresentações distintas: cara ou coroa.

A guirlanda de flores ornamentando Jano sugere mais uma contraposição entre o eterno e o efêmero: flores murcham, mas Jano se reinicia a cada ano. Sua afinidade com o Tempo, Saturno (Chronos) talvez se deva ao fato de alguns relatos mitológicos afirmarem que ele deu guarida ao deus do Tempo, quando esse fora destronado por seu caçula, Júpiter (Zeus).

Que nesse ano novinho em folha que agora se inicia, evitemos a pobreza, desfrutemos de muito prazer graças à riqueza, fruto de nosso trabalho!


FELIX ANO NOVO! \o/

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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

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