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1 de nov de 2017

Tempo, sabedoria e felicidade

“A chama altaneira de Prometeu se esgotou, e no lugar dela se usa hoje em dia a chama produzida pela farinha do licopódio*... É tudo fogo teatral. ” Friedrich Von Schiller

Penso que não é o fato de estarmos expostos a imagens, vídeos e opiniões (doxa) a todo instante o que seja prejudicial em si, mas é inegável que tamanha aceleração não propicie adequada assimilação dessa avalanche de conteúdo.

Conectados, mais do que nunca, é imperativo que adotemos critérios para que possamos selecionar ao que convém ou não dedicarmos o bem mais precioso de nossas vidas: tempo.

Simples, as verdades mais profundas são assim mesmo, óbvias: o tempo é implacável, pois escasso. E, embora os avanços tecnológicos da arte de Asclépio aliado a escolhas conscientes e salutares prolonguem e estendam, tanto as capacidades de nossos corpos quanto de nossas mentes (por mais de oito ou nove décadas), sim, nosso tempo de vida é finito. Em virtude disso, convém discernir sobre como dispô-lo.

À revelia, mesmo sem nos darmos conta, nosso tempo vem sendo abduzido por uma grande quantidade de informações que nem sempre nos munem de conhecimentos, tampouco de sabedoria, que deveria ser o propósito de amealhar saberes.

Uma das buscas basilares do homem, portanto, da filosofia, é a de alcançar a tal felicidade, palavrinha mágica que abarca estado de bem-estar físico e psíquico, a máxima do poeta romano, Giovenale: “(..) mens sana in corpore sano”.

Está assentado que nesse breve e finito período no qual usufruímos da vida, permanecemos reféns do afã de suprir necessidades básicas, tais como alimentação, vestimenta, moradia, saúde, educação e transporte, por exemplo.

Em termos psíquicos, há a necessidade de sentir-se amado (ou ao menos reconhecido), de expressar afeto e de manifestar opiniões.

Também concorre para a felicidade desfrutarmos da liberdade de exercermos um papel social, nos sentindo úteis, pois, necessários àqueles que nos cercam, seja no seio da família da qual originamos, na que formamos, seja numa empresa/instituição e até mesmo na esfera mais ampla, transcendente, que nosso espírito sintonizar e ousar abarcar.

Tornarmo-nos indivíduos (indivisíveis), expressar nossa personalidade, tão única e dotada de talentos, subsidiar nosso sustento através desses dons, desfrutar de um lar, refúgio seguro, aprazível e aconchegante; disciplinados, trabalhar com afinco, contar com a sorte do cúmplice com quem se possa erigir e compartilhar a vida, desfrutando do prazer da sexualidade, poder escolher entre gerar ou não e criar os filhos, viajar, conhecer culturas estrangeiras, ter o trabalho reconhecido, contar com a dádiva de confiáveis amigos, atuar em alguma atividade filantrópica que ampare aos desassistidos tão desafortunados e, ao fim do dia – quem sabe da vida – nos entregarmos a Hypnos (Somno, na mitologia romana) com a consciência tranquila, em paz.

Independente da raça, cor ou credo, lograr êxito nos itens apontados acima seriam reconhecidos como incontestáveis motivos de felicidade. Que a satisfação de cada um deles não está completamente em nossas mãos, já nos ensinaram os estoicos: há as vicissitudes, as tragédias, os reveses, os golpes, as traições e as competições – nem sempre justas e imparciais – às quais estamos sujeitos.

Na aleatória, portanto, eventualmente injusta, loteria da vida, talvez não tenhamos nascido num dos países cujos dirigentes políticos sejam dos menos corruptos e/ou que não tenhamos sido desejados e acolhidos no seio da família mais amável, responsável e estruturada do mundo, mas que tenhamos surgido e sejamos mero fruto dos hormônios em ebulição de nossos pais.


Pode acontecer até de ignorarmos quem seja nosso pai (o que pode acarretar uma fratura psíquica portentosa) e, mesmo que conheçamos o biológico, o “Pai” metafísico (Criador) será avidamente buscado até o nosso último suspiro. Talvez, sobretudo, neste instante.

Mesmo que não tenhamos sido agraciados com a saúde e a aparência (altura, peso ou cor e demais características fenotípicas) consideradas ideais e, avançando a galopadas, Geres já reivindique seu reinado, não somos frutas e legumes, passíveis e submissos a esses crivos: somos mais!

A centelha divina que – literalmente –, nos anima, dotou-nos de vontade e de coragem. Sendo assim, cabe a cada um de nós, independente do histórico pregresso e dos desafios à espreita, nos empenharmos e partirmos em busca daquilo que constituirá felicidade para nós, dentro de nossos anseios e expectativas, que serão sempre balizados pelos pares que elegemos como sendo dignos de admiração.

É justamente esse o ponto do presente ensaio, que tangencia sobre o tempo, a sabedoria e a felicidade: os pares que elegemos como dignos de admiração. Quem são e onde estão?


Muitas vezes, ao acessarmos a web, navegamos num mar de lama e nos deparamos com uma turba assombrosa, uma escória libertina e devassa que vomita dejetos putrefatos e, tal qual cães encolerizados, ladra e vocifera com vigor todo tipo de barbaridade e impropérios.


Uma rápida espiada em suas vidas infelizes – a abrigar a larva do fracasso e da derrota destilando ressentimento – seria suficiente para que, convictos, emitíssemos nosso veredicto: Não! Não há vida digna de admiração, apenas os agitados e desprezíveis zumbis que, trajando os farrapos da má fé e do mau gosto, reivindicam traiçoeiramente – em nome da LIBERDADE – o posto de paladinos da perversa moral atual, alastrando fétido odor, fazendo barulho e causando estardalhaço, muito estardalhaço.


Bombardeados a todo instante, não por sábios e virtuosos, mas por néscios, ignaros, infelizes – vemos sequestrado o que temos de mais raro e precioso: o tempo que, à revelia, destinamos ao que os pseudointelectuais tem a nos dizer.

Embora surjam inutilidades e imundices em nossas telas, urge usar a falange do indicador com discernimento e lucidez pois, além de escasso, Chronos (Saturno) é impiedoso e, sábio é ser feliz.

Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana
lucienefelix.blogspot.com


Dedicado a sábia discípula de Athena (Minerva), juíza 
Daniela Maria Cilento Morsello.

(*) Com as sementes do licopódio eram engendrados, outrora, os raios sobre os palcos nas apresentações teatrais. Soprava-se com rapidez o pó em chamas das sementes e assim era produzido o efeito de um raio.



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15 de out de 2017

Aristófanes e o mito dos andróginos no Banquete de Platão


O trecho que transcrevo abaixo é um recorte de um artigo que publiquei quando estudei “O Banquete” no Curso de Graduação em Filosofia na PUC-SP com a Titular de Filosofia Antiga, Profª Drª Rachel Gazolla. 
Para conferir o artigo completo, clique AQUI.


O comediógrafo grego Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito dos andróginos, legitimará a homo afetividade e a desenfreada busca pelo que denominamos “almas gêmeas”.

Eis que os seres humanos, inicialmente eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram também duplicados e unidos pelo umbigo.

Zeus (Júpiter, o soberano do Olimpo), temendo a presunção de tanta autossuficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à procura de sua outra metade original, que pode ser um outro homem, caso o original tenha sido a união de dois homens, uma mulher, em busca de outra OU ainda um homem e uma mulher que se anseiam, caso dos andróginos.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se restabelecer o original e primitivo “todo”. 

Não se trata somente de união sexual, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.

Se o ferreiro divino Hefestos (Vulcano, na mitologia romana) surgisse com seus instrumentos indagando aos amantes: “Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? (...). Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? 

Pois se é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades (Plutão na mitologia romana), em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso”.

Aristófanes diz que depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Reiterando que nossa natureza é una, que éramos um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e procura do todo que se dá o nome de Amor.

(...)

Ao ser indagada por Sócrates sobre a origem do Amor, Diotima (da cidade de Mantinéia, uma sábia versada nas artes da feitiçaria) relata-nos o belíssimo mito de que quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os demais, se encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza. 

Esse rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. 

Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: “Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. 

Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. 

Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.

A estrangeira reitera que uma das coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo filósofo está entre a sabedoria e a ignorância.

A ação (do Amor) é o que garante aos mortais alcançar a imortalidade que lhes é possível. 

Diotima ressalta uma hierarquia sobre a concepção amorosa dizendo que há os que concebem na alma (belos pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça.

Será o Amor, um grande deus? Indômita potência? Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga? Eterno? Universal, pois presente em todo cosmos? A busca pela unidade? Belo e jovem? Um tipo de delírio? 

Filósofo por excelência? Concepção de nossa alma? Um daímon (anjo) entre o divino e o humano? Afortunada benção que garante felicidade (eudaimonia)? O que é o Amor? Entusiasmada que sou, do Belo em si platônico, vivencio-o como a assinatura do theós (divino) em todos nós.

Saiba mais:
O Banquete, ou, Do amor – Platão. Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.


SOBRE ALMAS GÊMEAS (entrevista concedida a Revista Capricho em Fev/2008 )

Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo entre homem e mulher apenas?

Um dos mitos gregos que ilustra bem a condição das almas gêmeas, é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes no início da obra “O Banquete” (sobre o Amor) de Platão.

No famoso mito dos andróginos, os seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E também eram duplicados (dois em um só), unidos pelo umbigo. Tínhamos então, dois homens “colados”; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo, os andróginos, juntos e de sexo opostos.

Mas Zeus, o soberano do Olimpo, observa-os e constata que se tornaram muito presunçosos, autossuficientes, felizes. Preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca desesperada por sua “outra” metade esqueçam do poder que possuem.

Acontece que, quando qualquer um desses três tipos encontrava sua outra metade, ficava tão embasbacada e feliz que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente: enlaçavam-se com seus pares iguais e não se desgrudavam. 

Ficavam inertes, pois nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de inanição (fome). E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra “metade”, fosse outro igual ou mesmo diferente.

Zeus, o ordenador do Cosmos, tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a frente, para que pudessem gerar novos seres.

Segundo esse mito, o amor entre almas gêmeas ocorre quando se encontra no outro algo que seja igual, idêntico àquilo que já se possui em si mesmo. 

É curioso que nesse mito, o amor de homem para homem seja valorizado como estando acima do amor homem-mulher. Isso porque o amor entre dois homens iguais (homói) é de uma ordem de ideias (ideal) e interesses comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do amor físico, sensual, carnal.

Todos nós temos uma ou elas são aspectos das divindades?

Não há como afirmar a existência de uma única alma gêmea. Somos polítropos, ou seja, somos muitos. Os homens, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não fizeram mais do que retratar a si mesmos.

Os encontros e desencontros fazem parte do que você denomina “aspectos das divindades”. E como são diversos esses aspectos! 

Há a divindade do erotismo (Afrodite e seu filho Eros), a divindade do matrimônio (deusa Hera, patrona do casamento e dos amores legítimos), a divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia (Dioniso, o deus do vinho e do êxtase) e etc. 

Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e, certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão sendo “mais gêmeas” com a nossa alma que qualquer outra.

O que a nossa alma gêmea tem a nos ensinar e por que ela nos faz falta?

Se nossa alma gêmea tiver algo a nos ensinar, certamente será sobre nós mesmos. Semelhante atrai semelhante (essa é a 1ª Lei da magia, segundo Sir James Frazer em "O Ramo de Ouro"). 

Ela nos faz falta porque Eros (o poder de união) é dos deuses mais antigos e a tendência (do grego pathós) do ser humano é sempre se unir. 

É por isso que quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.

Há algo que possamos fazer para encontrá-la?

Sem dúvida. Basta que estejamos predispostos a isso. O grande poeta Hesíodo (600a.C), na obra “Teogonia” esclarece que Zeus, o ordenador do Cosmos é kydistos.

Kydós (Vitória) é uma derivante de Kleós (Glória). Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o vencedor já sabia que sairia vitorioso da batalha porque tinha, trazia a vitória dentro de si.

Do mesmo modo, estamos na vida como entidades livres, leves e soltas. À partir do momento em que acalentamos o interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e apreendido por alguém que esteja também desejoso de amor. Eis o segredo! Ou melhor, não há segredo.

E sobre o amor platônico?

Para o senso comum, e assim está assentado, o amor platônico é o amor ideal, perfeito e, portanto irrealizável. Ao menos por um tempo muito longo. Explico: o amor platônico se dá no campo mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e maravilhoso no campo das ideias mesmo.

Mas a realidade é que vivemos aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos (Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a perfeição se esvai com o tempo. 

Mas isso não significa, necessariamente o fim do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em cultivar o Amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena.


luciene felix lamy
E-mail: mitologia@esdc.com.br
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1 de out de 2017

A queda de Faetonte - quando o exibicionismo é fatal

A queda de Faetonte,por Van Eyk

Atemporais, as narrativas mitológicas revelam o que há de “humano, demasiado humano”, em nós, como diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Tão antigo quanto o homem, por conta da “vanitas”, o exibir-se, faz parte de nossa “natureza”.

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em sua obra “Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens”, também chamou a atenção para esse fato, ilustrando que, mesmo em situação, aparentemente, de igualdade, como um grupo animado, dançando em torno de uma fogueira, por exemplo, há algo que faz com que alguns se empenhem em dançar mais e melhor que os outros, a fim de se sobrepor aos demais, angariando mais “likes”: olhares, aplausos, mais admiração.

Talvez nem convenha mesmo combater – de todo – a vaidade, pois como afirma Bastos Tigre: "A vaidade profissional [por exemplo] é virtude merecedora do máximo respeito. Ela é que estimula o obreiro a aperfeiçoar o seu trabalho para não se deixar vencer pelos concorrentes." 

Orgulhoso, Faetonte é um belo e corajoso jovem criado por sua mãe Climene. Noutras versões é filho da ninfa Rodes, que nomeia a ilha a qual o deus Apolo (Hélio, na mitologia romana) preside.

Certo dia, cansado do constrangimento de ser constantemente desafiado por seu mui amigo Épafos, filho de Zeus com Io, que vivia a provocá-lo afirmando sarcasticamente que ele não tinha pai, Faetonte confronta sua mãe, inquirindo-a sobre sua paternidade: “Eu não me envergonharia de ser filho de um mortal, mas o que me deixa triste é que venho sendo enganado por minha própria mãe! ”.



No entanto, além das juras de sua mãe, assegurando que ele era sim, filho do deus Apolo, Faetonte desejava algo mais: provar para o amigo Épafos, o quão divino e poderoso era seu pai e, por conseguinte, ele também.

Faetonte decide então procurar Apolo, o deus da harmonia, saúde e da música, para que, confirmada sua paternidade, ele o atenda num pedido que lhe confira distinção.

Recebido com festa, Faetonte sente-se acolhido por seu divino pai e o desafia a atender seu ousado e temeroso pedido: dirigir o carro do Sol. Ao ouvir o que o jovem pleiteava, Apolo recusa-se a atendê-lo.

Cônscio da inexperiência do jovem, Apolo declina, mas como já havia jurado pelo rio Stix que atenderia a qualquer pedido do filho, se vê obrigado a manter a palavra diante de todos.

Aos prantos, é em vão que Climene roga que o filho desista de tão perigosa façanha. Faetonte está decidido! Após mil recomendações à imponente parelha de corcéis, Apolo lastima: “Não é justo que a coragem de meu filho acabe para sempre nas profundezas do Tártaro.”. E, apressa-o, pois já passava da hora do Sol nascer.

Deslumbrado, é com altivez que Faetonte dá início a sua majestosa jornada, a fim de mostrar a seu amigo Épafos e os demais moradores da aldeia onde vive, quem ele é: o brilhante e invejável Faetonte, filho do próprio deus Apolo!

De fato, o jovem viu e ouviu – lá do alto – a quão poderosa e venerada era a posição que agora ocupava. Ainda de longe, os poucos, via cada vez mais e mais pessoas admiradas, muitas ainda em trajes de dormir, bocejando, erguendo os olhos aos céus, alardeando sua chegada, enaltecendo sua beleza: “O dia hoje está lindo!”; “Radiante!”; “Magnífico!”. 

Isso era o que mais ele ouvia enquanto proclamavam seu surgimento, ou melhor, do resplendoroso carro do Sol que, precedido pela deusa Aurora, trazia um novo dia, repleto de luz, de promessas e esperanças, da dádiva da vida. Acima das nuvens, Faetonte sente a glória de ser reverenciado como um deus.

Como previsto por Apolo (sim, ele também é o deus da profecia!), no afã de exibir-se para Épafos, o jovem não detém maestria para dominar a indômita parelha de corcéis que, desgovernada, sai da rota e aproxima-se demais da terra, começando a causar danos aterrorizantes: florestas, colheitas e cidades inteiras incendiadas, tanto os animais quanto os seres humanos, aflitos, correndo desesperados, de um lado para outro, agonizando em chamas, sem nada compreender do fenômeno que os acometia.

Ao constatar tamanha tragédia, Faetonte, agora assombrado, ergue as rédeas dos cavalos do carro do Sol para o alto, o que também não ajuda, pois, a terra tornava-se escura e congelada, sem o calor do Sol.

Diante do caos desses nefastos efeitos – da superfície às entranhas –, Gaia (a terra) decide, então, apelar a Zeus, para que interrompa toda aquela temeridade: homens e animais padeciam, ora carbonizados, ora congelados, por conta dos extremos de elevada e de baixa temperatura.

Sem titubear, o soberano do Olimpo dispara um raio certeiro, mesmo sem saber que fulminava o sobrinho, que precipita numa queda mortal. Desolado, Apolo abraça Climene, que sem cessar pranteia a morte do filho.

O exibicionismo, por conta da insolente vaidade, causou a morte do jovem que –, mais que estar cônscio ser filho legítimo de um deus – ansiava mostrar a todos sua singularidade.

Não é muito diferente de como agimos, sobretudo na web. Nem precisa ser a exibição de algo de inequívoca envergadura, de espetacular supremacia como comandar a LUZ, detendo o poder que Faetonte ambicionou e ousou mostrar. 

Na atual “Idade Mídia”, somos todos “faetontos” quando insistimos em alardear nossas – tantas vezes tão prosaicas e quase sempre ordinárias – façanhas (lugares, vestes e alimentos, etc.), bombardeando a todos o tempo todo, com nossos reais e/ou supostos méritos, gabando-nos, só para provar aos inúmeros duvidosos “amigos” como Épafos – o quanto somos ilustres, singulares e abençoadamente prestigiados e aclamados pelo “theós” (divino).

Curiosamente, mas não por acaso, “Nada em excesso” alerta o frontispício de Apolo, em Delfos. Quando passamos da medida – o métron grego – também “caímos do cavalo”. E, embora a queda não seja mortal como a de Faetonte, não deixa de ser patética. 

Luciene Felix Lamy
E-mail: mitologia@esdc.com.br
WhatsApp: (13) 98137-5711

PS: Confira Programação de OUTUBRO da Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, SP.

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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br