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1 de fev de 2016

O mito de Thoth - PLATÃO


A lição sabemos de cor, só nos resta aprender...”. Sol de Primavera, Beto Guedes


Escrever é bom ou mau? Registrar nossas descobertas, nossos saberes, legando-os aos demais ajuda ou atrapalha? Sócrates, que nada escreveu, através de seu mais famoso discípulo, Platão (427-347 a.C.), retomando uma tradição muito antiga, nos traz um mito que oferece alguns elementos para pensar.

Sobre a invenção da escrita, no Fedro, Platão narra que o antigo deus egípcio Thoth, inventor de muitas ciências e técnicas, durante o encontro com o rei Tamuz apresentou-lhe a arte da escrita, asseverando a necessidade de propagá-las entre as pessoas.

Afirmando tratar-se de um conhecimento que tornará os egípcios mais sábios, com entusiasmo, Thoth comemorou: “memória e ciência encontraram o seu remédio!” Prudente, Tamuz, que reinava sobre todo o Egito, respondeu-lhe: “Muito engenhosa [a arte da escrita] Thoth, mas uma coisa é ser capaz de criar as artes, outra é julgar em que medida trarão malefícios, ou serão úteis, aos que as deverão usar”.

E o rei então prosseguiu argumentando que Thoth, por ser o pai da escrita, é benevolente ao atribuir à ela efeitos contrários aos que tem, pois ela desenvolverá o esquecimento nas almas dos que a adquirirem uma vez que, confiando nos escritos, as pessoas negligenciarão a memória. Ressaltou que será a partir de fora, através de caracteres [letras/palavras] e não a partir de dentro [reflexão íntima] e graças ao esforço pessoal, que cada um lembrará as suas recordações.

A conclusão que o rei chega é que Thoth não encontrou uma solução para fortalecer a memória, mas para ajudar a lembrar: “Quanto à ciência, apenas forneces a sua aparência [de sabedoria] aos teu alunos e não a realidade. Visto que, depois de muito ter aprendido nos livros sem receber ensino, terão um ar muito sábio, e serão na maior parte dos casos desprovidos da capacidade de julgar (...)”, dizendo ainda que se tornarão insuportáveis, cultivando a aparência de sábios sem o ser.

Sócrates afirma que aquele que crê deixar para o futuro uma arte consignada nos caracteres da escrita, e aquele que por sua vez a recolhe com a ideia de que obterá algo certo e sólido, são sem dúvida muito ingênuos, e desconhecem certamente a profecia de Amom [divindade egípcia], se acreditam que discursos escritos são algo mais que um meio de recordar, àqueles que já as conhecem, as coisas tratadas nesse escrito.

O filósofo pondera sobre os inconvenientes da escrita comparando-a à pintura: “Com efeito, os seres que esta [a pintura] produz tem a aparência de vida; mas se lhes pusermos uma questão eles guardam silêncio. O mesmo se passa com os discursos escritos: poder-se-ia acreditar que falam como seres sensatos, mas se os interrogarmos com a intenção de compreender o que dizem, limitam-se a significar uma só coisa, sempre a mesma.

Uma vez escrito, qualquer discurso chega a todos os lados, e passa indiferentemente por aqueles que nele se reconhecem e por aqueles que nada tem a fazer com ele; ignora a quem deve ou não dirigir-se”.

Afirma que a escrita parece aumentar a memória e portanto a ciência, e poderia por esse fato servir como solução para o esquecimento e a ignorância. Mas isso é apenas uma ilusão, na realidade dá-se o contrário: a escrita promove o esquecimento. Quantos nºs de telefones, por exemplo, sabemos de cor?

E isso porque longe de desenvolver a memória, paradoxalmente, a escrita desenvolverá “o esquecimento nas almas”: a confiança nos traços no exterior de si desabituará a alma da rememoração no interior de si.

É que a escrita não é uma verdadeira memória, é apenas um apoio à memória que, ainda por cima, dará ao indivíduo a impressão de saber, ou a aparência de saber, e favorecerá ao mesmo tempo a preguiça e a pretensão intelectual.

Segundo as ponderações do rei, o texto escrito sofre três males congênitos. À semelhança de uma pintura, por ser apenas uma imitação ou cópia da realidade viva, não pode ter senão somente a aparência da vida. 

O escrito é estático, mudo, fechado sobre si mesmo: face àquele que o interroga só pode remeter-se ao silêncio, ou repetir “a coisa única que se contenta em significar, sempre a mesma, de uma vez por todas.” Uma vez publicados, os escritos tem existência própria, entram no domínio público: são de todos e de ninguém, e dirigem-se ao mesmo tempo e indiferentemente tanto ao conhecedor quanto ao leigo. 

Por fim, abandonado a si mesmo, e na ausência dos seus autores, é incapaz de se defender, de contestar ou de entrar em polêmica com os seus adversários: “Assim, inerte, imutável, intocável, petrifica o sentido, e monologa consigo mesmo.” adverte Tamuz.

Segundo Geneviève Droz (Les mythes platoniciens), a crítica à escrita presente no mito de Thoth, inventado por Platão, pode ser melhor compreendida se considerarmos que se enraíza na longa meditação que o filósofo conduziu sobre a memória (mnemósyne), e que é inseparável da doutrina da reminiscência (anamnesis): as almas estiveram, numa vida pré-empírica, em contato com as verdades; ainda que algumas apenas as tenham avistado muito indistintamente, ainda que, antes da sua nova encarnação, tenham tido que atravessar o Letes (o rio do esquecimento), elas tem neste mundo o poder de recordar. 


Talvez de forma desigual, certamente sob determinadas condições, mas a mensagem é indiscutível: saber é recordar-se e “não há ensino, há apenas reminiscências (Ménon 82b).”

No entanto, dialogar faz-se necessário, pois sabemos que a maiêutica socrática consiste na arte de ajudar a “parir” o saberes. Sendo assim, a discussão, a pesquisa compartilhada, tem precisamente a função de reavivar e ajudar à rememoração de conhecimentos que escaparam.

Certamente que o ato da escrita assegura simultaneamente tanto a fixação das informações quanto a sua rememoração quase mecânica. Aquele que escreve, fixando suas ideias e descobertas numa matéria exterior (cadernos, jornais, revistas, livros, blogs, etc.), conserva-as, instala-as na duração, garante-lhes a perenidade e permite-lhe sobreviver. 

A escrita oferece um processo mnemotécnico útil sem dúvida, pois a alma, encontrando no exterior de si mesma o acervo onde está conservada a informação, tem apenas que se reportar a esse suporte material: a informação “regressa” então à memória, sem que tenha existido sequer esforço de memória. No entanto, a prazo, isso pode ser nefasto para a alma em busca da verdade.

Porque assim a escrita mata a verdadeira memória, aquela que permite através de uma disciplina exigente reencontrar o “divino saber” que cada um traz em si. Ela assegura a sobrevivência, mas mata a vida do pensamento em ação. Habitua a alma a buscar ajuda em vez de a habituar a lembrar. 


Alimenta a confusão entre saber “aprendido” (do exterior) e saber reconquistado (em si mesmo), entre erudição livresca – conhecimentos – e sabedoria autêntica. Isso explica porque sempre houve, há e haverá iletrados de grande sabedoria.

Sócrates suspeita do livro e da escrita porque eles nos habituam a procurar conhecimentos fora de nós mesmos, além de encorajar a preguiça e incitar à pretensão de que basta ter lido muito para se julgar sábio, nos fazendo crer que – grande engodo! – uma mente cheia substitui uma mente bem formada.

Para Sócrates – bem lembrado! – a pesquisa, à semelhança da própria vida, é partilha, conflito, contribuição mútua, mutação perpétua. Ela permanece aberta à interrogação, à crítica, à polêmica ou à aporia (sem saída), jamais inerte ou indiferente ao parceiro. Nada que já não saibamos. 
Luciene Felix Lamy


Anote em sua agenda: dias 4 e 5 de março (6ª e sábado), em Higienópolis.
Programa, acesse a página acima "Cursos & Palestras".


Reservas: mitologia@esdc.com.br
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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