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1 de dez de 2013

Movimentos filosóficos helenísticos: O epicurismo (Parte II)

 “Devemos indagar por ocasião de todos os desejos: o que há de acontecer quando o meu apetite for satisfeito, e o que acontecerá se ele não o for?”. Epicuro

Nem movimento hippie, nem punk, tampouco o grunge, nas últimas edições trouxemos as principais ideias propostas por três movimentos que surpreenderam os antigos greco-romanos, conquistando muitos adeptos: o cinismo de Diógenes de Sínope, o estoicismo de Zenão e o epicurismo, de Epicuro.

Para concluir esse breve resumo de algumas das ideias propostas por Epicuro, versaremos sobre a importância de controlar, de “calibrar” nossos desejos para conquistar o prazer de uma vida feliz que, além de ser a principal característica do epicurismo é também a maior fonte de mal-entendidos e de preconceitos quanto a essa corrente filosófica.

Em sua “Carta a Meneceu”, Epicuro foi bem claro: “Quando dizemos que o prazer é o fim [télos = propósito, objetivo, finalidade] da vida, não nos referimos aos prazeres da gente dissoluta [desregrada, devassa, libertina] e aos que residem no gozo, como acreditam aqueles que ignoram nossa doutrina”. Obviamente, há prazeres vis e prazeres legítimos, edificantes.

O desvirtuamento do que é uma vida prazerosa se acentuou quando o epicurismo foi adotado em Roma, tornando-se sinônimo de lascívia, de indolência.

O prazer (em grego, hedoné) para Epicuro é a ausência de sofrimento e não sensualidade, luxúria. O que ele intenta, através de sua filosofia é certa “tranquilidade prazerosa” atestando que o prazer já está “programado” em nossos genes.

Cícero, discípulo de Epicuro, escreveu: “Todo animal, desde o nascimento, busca o prazer e foge da dor como o maior dos males [...].”, afirmação esta que sabemos ter sido corroborada, séculos depois, pelo “Pai” da psicanálise, Sigmund Freud.

Cordero chama a atenção para o fato de que essa relação entre a dor a ser evitada e o prazer a ser alcançado é essencial para que possamos compreender o que é o prazer para Epicuro, que em uma de suas Máximas Capitais afirma: “A eliminação do sofrimento é limite do alcance do prazer. Quando o prazer está presente, a dor, a pena, ou ambos de uma só vez, estão ausentes”.

Podemos pensar a felicidade e o prazer como sendo frutos da ausência de sofrimentos, sem dúvida, mas como percebemos os sofrimentos?

Através da sensação, indica o epicurismo: “É a sensação que detecta tanto o sofrimento como o momento em que este cessa, mas os estímulos sensoriais chegam à alma, que é a que efetivamente sente”.

Sendo assim, é a alma que deve analisar quais prazeres ela precisa eleger e quais convêm de que se abstenha para que não soframos: “Esse controle da alma se exerce sobre os desejos, já que o prazer é a concretização de um desejo”, insiste Epicuro.

Desejo em grego é “epithymía”, sendo que o prefixo “epi” significa dirigir-se, ir até. E, “thymós”, significa peito, coração. O desejo, então, é uma tensão em busca de algo, um anseio por algo que preencha o peito.

Mas é ela, nossa alma, a responsável por permitir ou impedir que esse desejo se realize, ou seja, que se transforme em prazer.

Para a filosofia epicurista, nossos desejos podem ser estratificados como sendo: 

a) naturais e necessários; 
b) naturais, mas desnecessários ou ainda, 
c) nem naturais nem necessários: vazios.

Quanto aos nossos desejos naturais e necessários, a alma deve admiti-los, pois seu objetivo é assegurar a sobrevivência do ser humano: “Este é o clamor da carne: não ter fome, não ter sede, não ter frio. Quem alcança tais estados pode rivalizar com Zeus”. 


Além de comer, beber e vestir-se, morar, ter amigos e filosofar (que, segundo Epicuro é o que vai nos curar de todos os sofrimentos) também são desejos naturais e necessários.

Há outros desejos que, mesmo sendo naturais, são desnecessários e podemos optar por satisfazê-los ou ignorá-los. Entre eles está o desejo sexual e a tendência à beleza estética que “se trata de um desejo desnecessário, pois se pode prescindir dele para viver e, mais grave, pode ser pernicioso [doentio, nocivo] (...).”, pois, desenfreados, extrapolam, driblando o senso de saciedade.

Por fim, há os desejos que nem são naturais nem necessários, que Epicuro denomina-os de “vazios”, pois são ilimitados, como é o vazio. Como exemplos desses tipos de desejos, Epicuro cita o desejo de que a alma seja imortal, de acumular riquezas ou de amar infinitamente, tornando-nos ciumentos.

Segundo Epicuro, “Um estudo dos desejos deve condicionar toda escolha e toda recusa à saúde do corpo e à imperturbabilidade da alma, que é o fim da vida bem-aventurada”, sofremos quando estamos carentes de algo. Cessou a carência, surge o prazer.

Mas salienta que, uma vez que o sofrimento oriundo de uma carência cesse, isso não significa que o prazer possa aumentar: “Essa situação de quietude, de calma, de tranquilidade, caracteriza-se pela presença daquilo que Epicuro chama de ‘o prazer em repouso’”, diz o estudioso Néstor Luis Cordero.

Talvez, o que traduza bem essa sensação agradável de bem-estar e de serenidade seja o tão famoso quanto almejado “estar em paz”.

Para que tenhamos uma vida realmente feliz é necessário que saibamos escolher bem quais desejos iremos satisfazer e aos quais devemos recusar. Para sacar desse discernimento possuímos “sagacidade” (phrónesis), que Epicuro diz ser até superior à filosofia: “caso se escolha satisfazer o desejo de filosofar, é porque a sagacidade – que é prévia – escolheu bem”.

Assim como na Escola de Diógenes (os cínicos), para os epicuristas, uma das características dos sábios é justamente a autossuficiência (autarquia) que nos livra da tirania de sermos reféns da necessidade de bens exteriores, como diz Cordero: “Quem está acostumado a viver frugalmente, encontra um autêntico prazer em não precisar de nada; quem está acostumado à abundância, por outro lado, nunca estará satisfeito e será escravo da tirania e de falsas necessidades”.


Estarmos cônscios de que a morte não deve ser temida (vide as razões no artigo anterior, clicando aqui), sabermos escolher com lúcida sagacidade quais desejos serão privilegiados e que a liberdade é possível, isso é ser Sábio. Se agirmos assim: “viverás como um deus entre os homens”, diz Epicuro.

Dezembro. Vivenciamos o encerramento de mais um ciclo; o momento é oportuno para um balanço de vida, rever nossos sonhos e refletirmos sobre quais desejos eleger para que possamos atingir a plenitude dessa vida prazerosa e feliz acenada por Epicuro. Um Ano Novo de Paz, amigos.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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