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1 de mar. de 2018

Além da felicidade possível



"O indivíduo não realiza o sentido da sua vida se não conseguir colocar o seu "eu" a serviço de uma ordem espiritual e sobre-humana." Carl Gustav Jung

Sócrates dizia que uma vida não examinada não merecia ser vivida. Por mais que protelemos, ao ultrapassarmos mais da metade do tempo de existência, convém fazermos um balanço da vida que optamos por levar. Sim, a vida que optamos, pois, coautores, não devemos chamar de “destino” as consequências de nossas próprias escolhas.

Dito isso, de que valeria embrenhar-se pela sabedoria dos antigos se esse empenho não resplandecesse na vida? 

De que adiantaria vencer a inércia, a apatia, às vezes até a covardia, lutar contra os vícios, perseguindo, dia após dia, as vantagens de se cultivar as virtudes se, ao avaliar nossos passos, não nos sentíssemos satisfeitos com o resultado de nossas ações?



Neste mês de março, além de comemorar 21 anos de sobrevida (em 14/03/1997, numa tentativa de assalto, fui baleada nas costas), festejo também duas décadas de um afortunado matrimônio que rendeu dois preciosos frutos, hoje adolescentes. Estou, enfim, satisfeita com o que tenho me tornado.

Num exercício de imaginação, findada essa breve passagem, de volta ao pó, se me fosse dada a oportunidade de alertar sobre algo realmente significativo eu diria: temos prazo de validade!

A advertência acima faz jus ao negrito, pois – mortais – não dispomos de todo o tempo do mundo para realizar nossos sonhos, a saber, ser e fazer feliz.

Embora a felicidade seja em si objeto da filosofia, não há necessidade de insistirmos o quanto responder ao que é felicidade é pessoal e intransferível. No entanto, além das necessidades básicas que precisam estar asseguradas para uma existência digna, há angústias inerentes – “humano, demasiado humano”, às quais urge transcender.

A vida é árdua, difícil e sujeita às vicissitudes, tem seus imprevistos e, por mais coerentes e dotados de bom senso que possamos ser, é a heraclitiana impermanência, a instabilidade que dá o tom.

Sem dúvida, prover nosso sustento e os daqueles que gerarmos e estão sob nossa responsabilidade já nos ocupa e responde por grande parte de nossas preocupações. Mas, eis que não é somente a esse tipo de incumbência que nos atemos e, um dia, nos flagramos pensando no que mais daria sentido à nossa vida: “A única forma de medir o significado da nossa vida é valorizando a vida dos outros”, afirmou o psicanalista francês Jacques Lacan.

E, em sua obra “A Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith afirma que: "Independente de quão egoísta possa ser o homem, há evidentemente um princípio natural que o faz interessar-se pela sorte dos outros e considerar sua felicidade necessária para si, mesmo que nada obtenha dela além do prazer de vê-la".

Se, quando jovens, nossos objetivos estão prévia e relativamente delineados, à medida em que o tempo passa e vamos envelhecendo, nossos anseios já não são assim, tão óbvios, tão claros.

Tendo cumprido, realizado satisfatoriamente boa parte dos nossos propósitos, insinua-se um sorrateiro gotejar de angústia que, à revelia, instala um aplicativo que suscita uma inefável falta de entusiasmo, um discreto sentimento de vazio e, junto ao marasmo, vem certa apatia e carência de sentido.

Contando com cinquenta e dois anos, vinte de casamento, doze de Carta Forense, há seis meses vivencio uma experiência filantrópica nobilitante que alçou minha existência a um patamar mais elevado de satisfação e de felicidade.

Para além do núcleo familiar e de amigos próximos, há toda uma sociedade da qual participamos. Findada nossa principal missão, a saber, a de nos formarmos, aprimorarmos nossa técnica, cultivarmos boas relações afetivas, gerarmos e criarmos filhos, o mundo clama por uma ação efetiva de nossa parte.

A solidariedade, a filantropia oferece uma saída a todos aqueles que sentem que já terminaram uma etapa, mas que isso não preenche tudo, não é tudo. Ralph Waldo Emerson está correto quando diz que: "Uma das mais belas compensações da vida é que nenhum ser humano pode ajudar o outro sem que esteja ajudando a si mesmo.".

Asilos, creches, prisões e hospitais são exemplos de lugares que descortinam realidades onde a carência que as permeiam, preenchem os anseios de nosso espírito.

Encontramos ainda mais sentido para nossa vida à medida em que contribuímos para a melhoria do bem-estar dos desfavorecidos, dos desassistidos.

De "ta onta" a "ta pragmata", tive a sorte de conhecer, através do Facebook (viva a Era de Aquário!), uma família carente de Guaianases que conferiu ainda mais sentido à minha existência e tem sido razão de grande felicidade. 


Trata-se de um rapazinho portador de necessidades especiais, Jamesson, cujo trabalho encontra-se disponível aqui mesmo, em nosso blog, sob o título “Como ajudar a nós mesmos” (confira AQUI).

Penso que a afirmação, do senso comum, de que "a caridade deve ser anônima, do contrário é vaidade" encerra um perverso estigma que eclipsa a propagação da bondade, do Bem, da LUZ. Portanto, ajude, ampare, propague, compartilhe, contagie. Até porque a “compaixão é [mesmo] a parte mais bela da sabedoria”.


Obs.: Eis os dados bancários da mãe do Jamesson, d. IVANILDA MEDEIROS - Banco Itaú - 
Ag. 7471 - c/c. 06.353-2 CPF 298.272.644/00

E, se você realizar ou tiver realizado alguma ação de cunho filantrópico que queira relatar, sinta-se à vontade para compartilhar conosco na área de comentários abaixo. Muitíssimo grata!


15 de out. de 2017

Aristófanes e o mito dos andróginos no Banquete de Platão


O trecho que transcrevo abaixo é um recorte de um artigo que publiquei quando estudei “O Banquete” no Curso de Graduação em Filosofia na PUC-SP com a Titular de Filosofia Antiga, Profª Drª Rachel Gazolla. 
Para conferir o artigo completo, clique AQUI.


O comediógrafo grego Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito dos andróginos, legitimará a homo afetividade e a desenfreada busca pelo que denominamos “almas gêmeas”.

Eis que os seres humanos, inicialmente eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram também duplicados e unidos pelo umbigo.

Zeus (Júpiter, o soberano do Olimpo), temendo a presunção de tanta autossuficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à procura de sua outra metade original, que pode ser um outro homem, caso o original tenha sido a união de dois homens, uma mulher, em busca de outra OU ainda um homem e uma mulher que se anseiam, caso dos andróginos.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se restabelecer o original e primitivo “todo”. 

Não se trata somente de união sexual, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.

Se o ferreiro divino Hefestos (Vulcano, na mitologia romana) surgisse com seus instrumentos indagando aos amantes: “Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? (...). Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? 

Pois se é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades (Plutão na mitologia romana), em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso”.

Aristófanes diz que depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Reiterando que nossa natureza é una, que éramos um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e procura do todo que se dá o nome de Amor.

(...)

Ao ser indagada por Sócrates sobre a origem do Amor, Diotima (da cidade de Mantinéia, uma sábia versada nas artes da feitiçaria) relata-nos o belíssimo mito de que quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os demais, se encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza. 

Esse rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. 

Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: “Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. 

Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. 

Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.

A estrangeira reitera que uma das coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo filósofo está entre a sabedoria e a ignorância.

A ação (do Amor) é o que garante aos mortais alcançar a imortalidade que lhes é possível. 

Diotima ressalta uma hierarquia sobre a concepção amorosa dizendo que há os que concebem na alma (belos pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça.

Será o Amor, um grande deus? Indômita potência? Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga? Eterno? Universal, pois presente em todo cosmos? A busca pela unidade? Belo e jovem? Um tipo de delírio? 

Filósofo por excelência? Concepção de nossa alma? Um daímon (anjo) entre o divino e o humano? Afortunada benção que garante felicidade (eudaimonia)? O que é o Amor? Entusiasmada que sou, do Belo em si platônico, vivencio-o como a assinatura do theós (divino) em todos nós.

Saiba mais:
O Banquete, ou, Do amor – Platão. Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.


SOBRE ALMAS GÊMEAS (entrevista concedida a Revista Capricho em Fev/2008 )

Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo entre homem e mulher apenas?

Um dos mitos gregos que ilustra bem a condição das almas gêmeas, é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes no início da obra “O Banquete” (sobre o Amor) de Platão.

No famoso mito dos andróginos, os seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E também eram duplicados (dois em um só), unidos pelo umbigo. Tínhamos então, dois homens “colados”; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo, os andróginos, juntos e de sexo opostos.

Mas Zeus, o soberano do Olimpo, observa-os e constata que se tornaram muito presunçosos, autossuficientes, felizes. Preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca desesperada por sua “outra” metade esqueçam do poder que possuem.

Acontece que, quando qualquer um desses três tipos encontrava sua outra metade, ficava tão embasbacada e feliz que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente: enlaçavam-se com seus pares iguais e não se desgrudavam. 

Ficavam inertes, pois nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de inanição (fome). E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra “metade”, fosse outro igual ou mesmo diferente.

Zeus, o ordenador do Cosmos, tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a frente, para que pudessem gerar novos seres.

Segundo esse mito, o amor entre almas gêmeas ocorre quando se encontra no outro algo que seja igual, idêntico àquilo que já se possui em si mesmo. 

É curioso que nesse mito, o amor de homem para homem seja valorizado como estando acima do amor homem-mulher. Isso porque o amor entre dois homens iguais (homói) é de uma ordem de ideias (ideal) e interesses comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do amor físico, sensual, carnal.

Todos nós temos uma ou elas são aspectos das divindades?

Não há como afirmar a existência de uma única alma gêmea. Somos polítropos, ou seja, somos muitos. Os homens, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não fizeram mais do que retratar a si mesmos.

Os encontros e desencontros fazem parte do que você denomina “aspectos das divindades”. E como são diversos esses aspectos! 

Há a divindade do erotismo (Afrodite e seu filho Eros), a divindade do matrimônio (deusa Hera, patrona do casamento e dos amores legítimos), a divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia (Dioniso, o deus do vinho e do êxtase) e etc. 

Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e, certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão sendo “mais gêmeas” com a nossa alma que qualquer outra.

O que a nossa alma gêmea tem a nos ensinar e por que ela nos faz falta?

Se nossa alma gêmea tiver algo a nos ensinar, certamente será sobre nós mesmos. Semelhante atrai semelhante (essa é a 1ª Lei da magia, segundo Sir James Frazer em "O Ramo de Ouro"). 

Ela nos faz falta porque Eros (o poder de união) é dos deuses mais antigos e a tendência (do grego pathós) do ser humano é sempre se unir. 

É por isso que quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.

Há algo que possamos fazer para encontrá-la?

Sem dúvida. Basta que estejamos predispostos a isso. O grande poeta Hesíodo (600a.C), na obra “Teogonia” esclarece que Zeus, o ordenador do Cosmos é kydistos.

Kydós (Vitória) é uma derivante de Kleós (Glória). Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o vencedor já sabia que sairia vitorioso da batalha porque tinha, trazia a vitória dentro de si.

Do mesmo modo, estamos na vida como entidades livres, leves e soltas. À partir do momento em que acalentamos o interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e apreendido por alguém que esteja também desejoso de amor. Eis o segredo! Ou melhor, não há segredo.

E sobre o amor platônico?

Para o senso comum, e assim está assentado, o amor platônico é o amor ideal, perfeito e, portanto irrealizável. Ao menos por um tempo muito longo. Explico: o amor platônico se dá no campo mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e maravilhoso no campo das ideias mesmo.

Mas a realidade é que vivemos aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos (Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a perfeição se esvai com o tempo. 

Mas isso não significa, necessariamente o fim do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em cultivar o Amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena.


luciene felix lamy
E-mail: mitologia@esdc.com.br
Whats: (13) 98137-5711

21 de jul. de 2017

Luciene Felix Lamy - Mitologia Grega


Entrevista (06/07/2017) concedida à jornalista Clara Monforte no Programa "Olhos nos Olhos", veiculado pela TV Santa Cecília - Santos, SP


Informações sobre Curso de Mitologia Grega na Galleria Borghese, clique AQUI.







E-mail: mitologia@esdc.com.br


8 de out. de 2016

Curso de Mitologia Grega na Pinacoteca

PINACOTECA BENEDICTO CALIXTO

10 | NOVEMBRO | 15 ÀS 18H

O point + cult de SANTOS! 

 Pinacoteca Benedicto Calixto pelo fotógrafo Nilo Piccoli.




Intervalo de aula, no Café Bistrô Calixto (imagens abaixo).




Confira, abaixo, alguns trechos de nosso Curso de Mitologia:


MATRÍCULAS - email: mitologia@esdc.com.br

1 de fev. de 2015

Volta às Aulas! “Sapientia et augebitur scientia”




“A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos”. Platão

Desde quando iniciei a graduação em Filosofia na PUC-SP (2002), ao final de cada semestre tínhamos que escolher as disciplinas a cursar no próximo. Era praxe, nos intervalos, pelos corredores, sondarmos os veteranos buscando informações sobre os docentes.

Sobre a Titular de Filosofia Antiga, a Profª Drª Rachel Gazolla de Andrade, a resposta era unânime e categórica: “Competente, mas muito exigente”. Ao aventar tê-la como orientadora, seja para um TCC, Mestrado ou Doutorado, ironizavam dizendo que isso era buscar “grife”. De fato, por conta da seriedade, seu nome tornou-se paradigma de rigor científico e, até hoje, é essa a fama que a precede.

Exigente, sem dúvida, mas também generosa (éramos orientados a cursar o grego ático, custeado por ela mesma aos que não dispunham de recursos), compartilhando seus saberes aos privilegiados discípulos dispostos a ouvir seu “lógos”.

O estudo da Filosofia passa, necessariamente, pelo debruçar-se sobre a Filosofia Antiga que, indispensável, constitui a base de todo pensamento filosófico ocidental.


Eis que, surpreendentemente, a admirável helenista, com mais de três décadas de “casa”, detentora de vasta e relevante produção acadêmica em pesquisas e docência na área de Filosofia Antiga, editora da Revista Hypnos (classificação B1 no Qualis/Capes, com mais de trinta números publicados), idealizadora e realizadora dos Simpósios Interdisciplinares de Estudos Greco-romanos, evento internacional, promovido anualmente, reunindo os mais renomados helenistas (já na 21ª Edição), fundadora do Grupo de Estudos Platônicos, reconhecida nacional e internacionalmente, a Profª Drª Rachel Gazolla de Andrade, juntamente com outros 49 catedráticos, foi demitida.

A notícia nos deixou perplexos, indignados. Incrédulos, pensamos tratar-se de um equívoco, um lamentável mal-entendido, pois à dispensa de uma produtiva acadêmica, de indiscutível dedicação à Cátedra, não encontramos justificativa.

Considerando que o espanto é o que desencadeia o pensar, a filosofia, somos levados a refletir sobre a perversidade de nosso sistema de governo que, habituado a socorrer bancos e indústrias em crise – por exemplo –, permanece, no entanto, alheio, desatento à importância do apoio e do amparo às universidades.

Dentre os inúmeros ensinamentos, aprendi que “excelência” (cumprir bem àquilo para o qual se destina) em grego é “areté”. Que a “areté” do médico é a cura; a do olho, enxergar bem; a do guerreiro, a vitória e que a “areté” da empresa, é o lucro. Sendo assim, qual é a “areté” da universidade?


Seu “télos”, seu propósito basilar é a ciência, a pesquisa, a formação de seres aptos a pensar e trabalhar pela melhoria do mundo, tarefa que a doutora sempre exerceu com maestria, mantendo acesa a chama do verdadeiro espírito socrático, consolidando a excelência do Curso de Filosofia da PUC-SP.

A contribuição que uma docente dessa estirpe traz à universidade e, consequentemente à toda sociedade é intangível, inabarcável, ainda mais depois de décadas compartilhando sua “philía à sophia”.

Registro meu respeitoso apelo aos dirigentes universitários para que não seja comprometida a qualidade do corpo docente, até porque nesses tempos tão sombrios em que vivemos, não podemos prescindir de brilhantes e dedicados profissionais com os quais a universidade e todos que dela se beneficiam direta e indiretamente, se engrandece.


Reduto de liberdade onde se forma a elite intelectual de nosso país, não podemos traficar a “ratio”, compactuando com a deplorável decadência que, há tempos à espreita, bate à porta do ensino superior, atingindo justamente o cerne de um dos mais nobres componentes de nossa constituição político-social: a cátedra.


No brasão da PUC-SP lê-se: “Sapientia et augebitur scientia”, que em latim significa: “a sapiência e a ciência serão aumentadas”. Que esse lema norteie a todos, constituindo um legítimo símbolo de resistência, de enaltecimento do entendimento e do humanismo.

Desejando a todos feliz “Volta às aulas”, conclamo que não prescindamos de erguermo-nos à luta por nossos ideais. Aliás, sempre foi sobre a relevância do “ideal” que a Mestre tanto nos ensinou. À todos os docentes, especialmente à ela, minha eterna gratidão.


Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana da
Galleria Borghese, Roma
lucienefelix.blogspot.com
e-mail: mitologia@esdc.com

2 de jan. de 2015

Platão: POLÍTICO - Conclusão.


Platão afirma que são os juízes – quando julgam corretamente – os guardiães das leis e subordinados a essa força motriz que traduzimos por Justiça!


Veremos como é importante punir todo aquele que transgride a lei e também concluiremos o retrato do homem político verdadeiramente digno, pois assim como o capitão de um navio ou um médico não podem permitir que incompetentes opinem sobre navegação ou doença, a política requer “Ciência”.

Sobre as transgressões às leis, Platão afirma que ao término da gestão de cada governo, os dirigentes deveriam prestar suas contas, e qualquer pessoa poderia acusá-los de não haverem dirigido a cidade em conformidade com as leis e os códigos de conduta e ainda, que cabe aos juízes fixar as penas e/ou as multas a serem pagas.

Mas a atividade política deve ser orientada também pela arte e não somente pelas leis escritas, do contrário veríamos desaparecer todas as artes, sufocadas por essa lei que proíbe toda pesquisa: “E a vida, que já é bastante penosa, tornar-se-ia então totalmente insuportável”.

Na hipótese de um chefe de governo, não respeitando a lei escrita e desprovido de conhecimentos, se dispuser a agir contra a lei tendo em vista obter vantagens pessoais, urge que imponhamos as sanções, sem nenhuma exceção.

O que Platão chama de “arte real” (régia), de “ciência superior”, seria a arte do homem competente, do verdadeiro político que se inspirará em sua arte não se atendo necessariamente aos ditames das leis escritas se, conforme o caso, lhe parecer que um outro proceder trará mais benefícios ao povo do que as prescrições redigidas e promulgadas.

Aquele que reivindicar para si a competência nessa arte não o sendo é um tirano, que – inspirado por ganância e cobiça – age sem levar em conta as leis, violando-as. Como não há como identificar e reconhecer os traços que tornam alguém superior em virtudes, é necessário que os homens se reúnam e façam as leis, que procurem seguir os traços da verdadeira constituição.

Recusamos-nos a acreditar que alguém possa ser digno o bastante governar com virtude e ciência, distribuindo imparcialmente, justiça e equidade, sem corromper, roubar e matar a quem lhe aprouver. Por isso, o filósofo pondera que “Se existe pois uma arte real, a massa dos ricos ou do povo jamais se apropriará dessa ciência política (…). É necessário que constituições (…) procurem, uma vez estabelecidas suas leis, jamais fazer algo contra as leis escritas e os costumes nacionais”.

Desde tempos memoráveis, as cidades perecem, pereceram e perecerão “pela incúria de seus indignos pilotos e marinheiros que, culpados da mais grave ignorância das noções fundamentais, e nada conhecendo da política, creem possuir essa ciência.”.

Em todas as formas de governo há um princípio de dicotomia: nos governos de um só (monarquia), de alguns (aristocracia) ou da multidão (democracia). No entanto, o governo de um só culmina em realeza ou tirania; o de alguns, origina aristocracia ou oligarquia; e o governo composto e eleito por um grande número, a democracia, também desemboca em duas formas, como veremos.

Sobre a monarquia, Platão aponta que quando unida a boas regras escritas – leis! – é a melhor das constituições, ao passo que sem leis, é a que torna a vida mais penosa e insuportável. O governo aristocrático (nem um só, tampouco todos) é intermediário e o da multidão, a democracia, “(...) é fraco em comparação com os demais (...)”, incapaz de grande bem ou grande mal, pois nele o poder está distribuído entre muitas pessoas. Entretanto, é a pior forma de constituição quando submetida à lei e a melhor quando estas são violadas. Estando todas as formas de governo citadas, fora das restrições da lei, é na democracia que se vive melhor.

A menos que os políticos sejam virtuosos, devem ser rejeitados, pois não passam de partidários e criadores das piores ilusões, charlatães e, por isso mesmo, segundo Platão, os maiores sofistas entre todos os sofistas e é necessário separar o bando de sátiros gananciosos da arte política.

As ciências parentes da ciência política são as ciências militar, jurídica e a retórica, quando empresta à justiça sua força persuasiva.

É pelo Justo, o Bom e o Belo que existe uma ciência régia, “superior” à qual devemos dar primazia: é a ciência que decide, por exemplo, se é necessário ou não aprender aquela (ciência) que ensina. Referindo-se à retórica, diz que acima da ciência que sabe persuadir as massas as multidões, está a ciência que decide ou não fazê-lo. Saber se deve ou não usar a força da persuasão, é dessa ciência que o político deve ser dotado, sempre visando o Bem comum.

Platão afirma que são os juízes – quando julgam corretamente – os guardiães das leis e subordinados a essa força motriz que traduzimos por Justiça!

Insistindo na distinção da ciência política sobre as demais, o filósofo afirma que ela não possui obrigações práticas, mas dirige as ciências que existem para realizar essas obrigações de ordem prática: “(...) pois sabe que ocasiões são favoráveis ou não para iniciar ou levar adiante os grandes empreendimentos (...)”, enquanto as demais apenas executarão suas ordens.

Eis o que é a política: a ciência de função universal, que dirige a todas, que tem o cuidado das leis e dos assuntos da pólis. Para um retrato do político, examinemos duas características opostas que concilia em seu espírito.

A coragem, por exemplo, é uma parte da virtude. E a mansidão, mesmo sendo diferente da coragem, também é uma parcela da virtude. Mas sabemos que ambas, muitas vezes apresentam-se como sendo “inimigas”.

A coragem é mesmo admirável! Em muitas ações, não há como não enaltecer atributos tais como: força, impetuosidade, energia! Com efeito, também nos encantamos pela moderação e a doçura nas ações. A maneira pacífica, tranquila, o movimento bem cadenciado, o refinamento, a elegância, a sobriedade.

Se uma dessas coisas, tanto a coragem quanto a docilidade, se manifesta fora de propósito ou de proporção, tornam-se alvo de críticas. Assim, a coragem passa a ser rude, extravagante, violenta; E a docilidade passa a ser vista como indolência, frouxidão.

É importante que o político calibre esses caracteres de impetuosidade e parcimônia, pois a desmedida nessas virtudes torna-se a enfermidade mais perigosa que há para as cidades.

Os mansos demais perdem toda aptidão para a luta, colocam-se à mercê do primeiro assaltante e, correm o risco de se verem escravizados. Já os enérgicos demais, arrastam toda a cidade para a guerra, correndo o risco de expor a pátria ao ódio e à ruína.

Opostos, nesses dois gêneros de espírito (destemido e prudente) há uma fonte contínua de inimizade e discórdia: “(...) e engendram, nos espíritos onde residem, as mesmas oposições”.

O esforço de toda ciência é o de eliminar os maus elementos conservando os úteis e bons e, quer sejam semelhantes ou dissemelhantes, fundi-los numa obra que seja perfeitamente UNA por suas propriedades e estrutura, diz Platão.

Algo divino se realiza nas almas quando os homens estabelecem uma opinião realmente verdadeira a propósito do belo, do bom e do justo e de seus opostos: “Somente o político e o sábio legislador tem esse privilégio de, auxiliados pela musa da ciência real, poder imprimir tal opinião nos espíritos formados pela boa educação”.

Inspirados por essa ciência superior, uma alma enérgica se tornaria receptiva às ideias de justiça ao invés de ser refém duma ferocidade bestial. E o moderado não atrairia a humilhante fama de tolo, mas faria reluzir sobriedade e prudência.

É somente entre caracteres em que a nobreza é inata e mantida pela educação que as leis poderão criar esse laço divino que une entre si as partes da virtude, por mais contrárias que possam ser.

Cabe ao político, jamais permitir o divórcio entre o caráter enérgico e o moderado, mas uni-los, confiando-lhes sempre em comum as magistraturas nas cidades.

Onde for necessário um único chefe, que escolhamos um que tenha esse duplo caráter (coragem e moderação); onde for necessário muitos chefes, formemos partes iguais das duas naturezas: “As pessoas de temperamento moderado são, com efeito, circunspectas, justas, pouco propensas a se aventurarem, mas falta a elas a agudeza e essa espontaneidade que é própria à ação”.

Impetuosos, os enérgicos tem menos respeito à justiça e à prudência, mas quando se trata de agir, não titubeiam. Primando pela concórdia e a amizade, o verdadeiro político, detentor e cônscio da “arte real”, associa essas características, congrega energia e moderação, governa e dirige, assegurando à cidade toda a felicidade de que pode desfrutar. 

Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da
Galleria Borghese, Roma
Acesse “Cursos & Palestras” em: lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

1 de dez. de 2014

Platão: Político - Parte II



No artigo anterior, acompanhamos o raciocínio de Platão até onde ele conclui que entregamos as rédeas do Estado aos políticos por serem homens que possuem a ciência que lhes é necessária. No entanto, elegemos “titicas de tiriricas”. Mas, qual seria o retrato do político, do homem “real” (no sentido de régio mesmo)?

A pesquisa sobre o que é o político existe para nos tornar melhores dialéticos a propósito de todos os assuntos possíveis, pois é preciso aprender a distinguir os astuciosos, mágicos sofistas, dos verdadeiros políticos.

Examinemos o gênero de governo exercido sobre a cidade e vejamos se os políticos estão acima de seus súditos “tal como o pastor divino, ou no mesmo nível”, pois a arte que prima por cuidar dos seres humanos é a “arte” do rei (real) e do político.

Esse “cuidado” pode ser exercido pela força, como fazem os tiranos ou pode ser aceito de boa vontade pelo povo: trata-se da política, que é a arte que se ocupa da pólis (cidade).

Para que possamos ter uma régua que nos auxilie a elogiar ou censurar – seja lá o que for –, precisamos ponderar sobre a arte da medida, que versa sobre grandeza e pequeneza, excesso ou falta.

O maior, por exemplo, só é maior com relação ao menor; E vice-versa: “(...) aquilo que ultrapassa o nível da medida, ou permanece inferior a ele, seja em nossa conversa, seja na realidade, não é exatamente, a nosso ver, o que melhor denuncia a diferença entre os bons e os maus?”.

Com o raciocínio acima, Platão conclui que somos forçados a admitir que, seja para o grande, seja para o pequeno, há dois modos de existência e dois padrões. Um desses padrões é a relação recíproca e outro é a relação de ambos com o que ele denomina como sendo “a justa medida”.

A “arte da medida” é o que nos permite aferir que, profissionalmente, Fulano é superior a Ciclano, entretanto, inferior ao que seria ideal, perfeito, desejável, por exemplo.

Para que abarquemos a arte de medir, precisamos distinguir, de uma lado, as artes para as quais o número, os cumprimentos, as profundidades, larguras e espessuras se medem por seus opostos (pouco/muito; curto/cumprido; raso/profundo; largo/estreito; fino/grosso, etc.) e, de outro lado, todas aquelas que se referem à justa medida, a tudo aquilo que é conveniente, oportuno e devido, a tudo que conserva o meio entre dois extremos.

Essas duas divisões amplas diferem entre si. E a ciência da medida se aplica a todas as coisas que se transformam: “A regra exata seria, quando nos apercebermos de que um certo número de coisas possui algo em comum, não abandoná-la antes de haver distinguido, naquilo que tem em comum, todas as diferenças que constituem as espécies (...)”. É assim que encontramos dois gêneros de medida, conforme os caracteres que lhes atribuímos.

Para Platão, certas realidades possuem suas semelhanças naturais, fáceis de se descobrirem, em objetos que falam aos sentidos, mas no caso das maiores e mais preciosas realidades, das que não possuem imagens criadas que deem aos homens uma intuição clara, nos embaraçamos com argumentos: “(...) Assim é necessário procurarmos saber dar a razão de cada coisa e compreendê-la; pois as realidades incorpóreas que são as maiores e mais belas, revelam-se apenas à razão e somente a ela (...)”.

Sobre os modos de governar, sabemos que a monarquia é uma das formas de poder político. Governo de pequeno número – aristocracia –, também. E há ainda a terceira forma de constituição, que é a soberania das massas, denominamos democracia.

A monarquia pode ser tirânica ou pode ser mesmo uma realeza. Num governo de pequeno número, podemos ter uma aristocracia ou uma oligarquia: “Apenas, na democracia, é indiferente que a massa domine aqueles que tem fortuna (...)”.

A questão é discernir: “Em qual dessas constituições reside a ciência do governo dos homens, a mais difícil e a maior de todas as ciências possíveis de adquirir? Pois essa é a ciência que é necessário considerar se quisermos saber que rivais devemos afastar do rei competente, concorrentes que pretendem ser políticos (…), embora não o sejam de maneira alguma”.

Quer reine ou não, só merecem o título de rei os que possuem a ciência real: “E quer governem a favor ou contra a vontade do povo; quer se inspirem ou não em leis escritas; quer sejam ricos ou pobres, é necessário considerá-los chefes, de acordo com o nosso atual ponto de vista, desde que governem competentemente por qualquer forma de autoridade que seja”. Para o filósofo, os chefes seriam possuidores da ciência verdadeira e não de um simulacro de ciência.

Quanto às leis, diz estar claro que, de certo modo, a legislação é função real; entretanto o mais importante não é dar força às leis, mas ao homem real, dotado de prudência, isso porque a lei jamais seria capaz de estabelecer, ao mesmo tempo, o melhor e o mais justo para todos, de modo a ordenar as prescrições mais convenientes: “A diversidade que há entre os homens e as ações, e por assim dizer, a permanente instabilidade das coisas humanas, não admite em nenhuma arte, e em assunto algum, um absoluto que valha para todos os casos e para todos os tempos”. Embora seja precisamente este “absoluto” que a lei procura.

Se é impossível, ao que permanece sempre absoluto, adaptar-se ao que nunca é absoluto, por que é necessário fazer as leis se elas não são a regra perfeita?

O que acontece com o legislador é que “tendo que prescrever obrigações de justiça e contratos recíprocos, jamais seria capaz, promulgando decretos gerais, de aplicar, a cada indivíduo, a regra exata que lhe convém”. Não há como, a cada momento, aproximar-se de cada indivíduo a fim de prescrever exatamente o que deve ou não fazer.

As leis estabelecem o que convém à maioria dos casos e dos indivíduos, e assim de modo geral, legisla para cada um, por meio de leis escritas ou não, contentando-se, neste caso, em dar força de lei aos costumes nacionais: “(...) se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua própria cidade senão com o consentimento de cada cidadão”.

Um chefe pode ou não lançar mão da persuasão, ater-se às leis escritas ou livrar-se delas, desde que governe utilmente, afirma Platão: “Não é nisto que reside a verdadeira fórmula de uma administração correta da cidade, segundo a qual o homem sábio e bom administrará os interesses de seu povo?”.

E, citando o capitão de uma embarcação como exemplo, aponta que este: “(...) longe de escrever um código, mas tendo sempre sua atenção voltada para o bem do navio e seus marinheiros, estabelece a sua ciência como lei e salva tudo o que com ele navega, assim também, de igual modo, os chefes capazes de praticar esse método realizarão a constituição verdadeira, fazendo de sua arte uma força mais poderosa do que as leis.”.

E nos pergunta se não será verdade que os chefes sensatos podem fazer tudo, sem risco de erro, desde que observem esta única e grande regra: distribuir em todas as ocasiões, entre todos os cidadãos, uma justiça perfeita, penetrada de razão e ciência, conseguindo não somente preservá-la, mas também, na medida do possível, torná-la melhor.

Esses são atributos do homem que detém a ciência real e faz jus ao cargo político que ocupa, pois é incontestável “Que a massa, qualquer que seja, jamais se apropriará perfeitamente de uma tal ciência de sorte a se tornar capaz de administrar com inteligência uma cidade (…)”.

Platão chama a atenção para o fato de que, não havendo, para nós, senão uma única constituição exata, aquela a que nos referimos (a perfeita, a ideal), sabes que as demais devem, para substituir, procurar naquela (na perfeita, na ideal) as suas leis escritas e agir de acordo com o que hoje se aprova.

Cabe ainda ao chefe dotado de ciência real, proibir a todas as pessoas de transgredir as leis e punir aquele que ousar fazê-lo, pois em qualquer domínio em que se estabeleçam leis e códigos escritos, impõe-se jamais permitir ao indivíduo ou à massa qualquer ato que possa infringi-los, no que quer que seja.

Faz-se necessário ouvir os ensinamentos de Platão, sempre perfeito, sempre atual. Com os votos sinceros de um Natal de Amor e um Ano vindouro de paz e prosperidade, prossigamos, amigos!

Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da
Galleria Borghese, Roma
Acesse “Cursos & Palestras” em: lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

1 de nov. de 2014

Platão: Político - Parte I


“(...) devemos sempre procurar reconhecer nossos parentes
pela maneira por que conversam.” Platão

No discurso intitulado “Político”, Platão (427-347 a.C.) aponta o caminho para que se chegue à compreensão do que seria desejável que fosse o político, colocando-o entre os sábios.

Inicialmente, classifica todas as ciências em duas: ciência prática e ciência teórica. Afirma que se um leigo, um cidadão qualquer for capaz de dar conselhos a um médico ou a um soberano, é inegável que isso se deve ao fato de que nesse indivíduo existe a “ciência” (aqui entendida como conhecimento) que o próprio médico ou soberano deveria ter.

Assim como não há diferença entre o governo de uma casa, de uma empresa e o de uma pequena cidade, só há uma ciência, quer se diga real, política ou econômica. Que “ciência” será essa?

A ciência de um verdadeiro rei, diz Platão, é a ciência própria do rei e aquele que a tiver, seja rei ou simples cidadão, em virtude de sua arte, tem todo direito ao título real.

Ressalta que para manter-se no poder, um rei não recorre à força física, mas à força de sua inteligência e de sua alma, de onde conclui que o rei tem muito mais relação com a ciência teórica do que com as artes manuais e todas as artes práticas, fazendo da ciência política e do político, da ciência real e do homem real, uma só unidade.

Com o intuito de classificar a ciência teórica, dizendo encontrar sua dualidade de conhecimento, Platão esclarece que a arte do cálculo, por exemplo, faz parte das ciências teóricas, nos dá a conhecer a diferença entre os números, mas não tem outra função que vá além de julgar essas diferenças (numéricas).

E, trazendo como exemplo o arquiteto, esclarece que esse profissional não trabalha como operário, mas dirige os operários, apontando que sua contribuição é de um conhecimento e não uma colaboração manual.

É correto dizer que o arquiteto participa da ciência teórica, no entanto, uma vez traçado o plano, ele não deve considerar-se livre e abandonar a tarefa como faria o calculista, pois cabe-lhe ainda indicar a cada um dos operários tudo quanto lhes compete fazer até que determinado trabalho esteja concluído, tal qual havia planejado.

Assim, todas essas ciências são teóricas, diz o filósofo, incluindo as que participam da arte do cálculo, mas os dois gêneros que elas formam diferem, pois um deles, em seus cálculos, apenas julga, e outro, além de julgar, também dirige.

Permeado por esse raciocínio, Platão distinguirá em toda a ciência teórica uma parte a que chamará de diretiva e outra que chamará de crítica. E será na ciência teórica diretiva que se inserirá o rei, pois na realidade, como um “senhor”, ele ordena, comanda, dirige.

Platão parte então para averiguar se também a arte de dirigir permite qualquer divisão: “Penso que do mesmo modo que na arte dos comerciantes se distinguem os produtores dos revendedores, da mesma forma se diferencia o gênero real [dos reis e dos políticos] do gênero dos arautos [mensageiros].

Os comerciantes, afirma, compram mercadorias produzidas por outrem, e as revendem a terceiros. E assim também, a família dos arautos (poderíamos interpretar hoje como sendo os jornalistas) recebe as decisões alheias para transmiti-las a terceiros, diz ele: “Confundiremos a arte do rei com a do intérprete, do patrão de barco, do adivinho, do arauto e muitas outras semelhantes, que têm em si, realmente [a arte do rei], um poder diretivo?”.

Nesse momento, Platão prossegue a comparação propondo forjar, por analogia, um outro nome, pois nenhum existe para designar esse gênero de dirigentes cujo mando deriva deles mesmos.

E ressalta que esta característica servirá para divisão, colocando o gênero real [dos reis e dos políticos] na classe autodirigente, sem que tenhamos que nos preocupar com as demais classes e darmos a ela outro nome qualquer, pois sua pesquisa tem por objeto o dirigente e não o oposto do dirigente.

Se o gênero em questão (o gênero real, da classe autodirigente) está bem separado dos outros por meio desta oposição, do poder pessoal e do poder de empréstimo, afirma que é mister que o dividamos novamente, se encontrarmos possibilidade para isso: “Quando pensamos em dirigentes, no exercício de alguma direção, não vimos também que as suas ordens tem sempre como finalidade alguma coisa a ser produzida? (…) Não é difícil dividir-se em duas partes tudo o que se produz – seres inanimados e seres animados”.

É desse modo que a parte diretiva da ciência teórica deve ser dividida, diz ele. E é natural que a ciência real não dirige, do mesmo modo que a arquitetura, coisas sem vida: seu papel é muito mais nobre: “É sobre os seres vivos que ela reina e é sobre eles que ela [a ciência real] sempre exerceu seu império”.

Não consideremos o político, roga o filósofo, como o lavrador que cuida do seu boi ou o tratador que cuida de seu cavalo, mas sim como o criador de todos os cavalos ou de todos os bois, da criação de rebanhos” ou “criação coletiva”.

Para mostrar que há duas espécies de rebanhos e, ao mesmo tempo, conseguir que este inquérito, em lugar de ser relativo a um duplo objeto, mas se faça apenas em relação à sua metade, conclui que a criação de homens é diversa da dos animais.

A arte política se refere aos que ele denomina “bípedes implumes”, aos que andam sobre a terra. Política é a arte de pastorear homens, de cuidar dos que vivem em comunidade.


Sobre o político, Platão chama a atenção para o fato de que, pastor e alimentador do rebanho humano, ele é mais importante do que dez mil outros que pretendam sê-lo.

E é por isso que lhes entregamos as rédeas do Estado, por serem homens que possuem a ciência que lhes é necessária. Mas ainda não o separamos suficientemente dos seus rivais para mostrá-lo, unicamente, em sua pureza. É o que Platão fará. Prossigamos, amigos!


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

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Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

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