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21 de jun de 2017

Encontros Filosóficos



Sartre: Entre quatro paredes (Huis Clos) - “O inferno são os outros”


Dentre os riscos de se deixar pautar por valores alheios está o de viver uma vida destituída de sentido pessoal. Ponderemos agora como o ser humano, enredado pela má fé, acaba por delegar a terceiros a angustiante responsabilidade de decidir sobre sua vida. 

Como piolhos, viver pela cabeça dos outros pode tornar nossa existência um inferno. Mas afinal, quem são “os outros”?

O Filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), além das famosas obras filosóficas (“A Náusea”, “O Ser e o Nada”), escreveu romances, contos, peças teatrais e atuou também como crítico literário e de artes. 

Seu trabalho não está dissociado de sua biografia: órfão de pai aos dois anos de idade, foi prisioneiro dos nazistas durante a 2ª guerra mundial e ativista militante. Foi leitor voraz de Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche, Espinosa, Bergson, Stendhal, Hegel e de Husserl, entre outros. 

Embora o cristão Sören Kierkegaard seja considerado precursor do existencialismo moderno, o sartriano será ainda mais radical, posto que ateu.

Até Sartre, considerava-se válida a doutrina solipsista, ou seja, do que se tinha consciência era do “eu” individual e essa formava o que entendíamos por realidade. 

Mas ele irá afirmar que antes mesmo de uma consciência intencional há, de fato, uma espécie de vazio, como se nossa consciência fosse uma tábula rasa, uma folha de papel em branco, um lugar onde repousa a liberdade absoluta e de onde, a partir daí as escolhas serão conscientemente apontadas.

Suponhamos que nossa consciência seja uma espécie de “ser em si” (é o que é) mas que ainda não é tudo. A toda relação que essa consciência estabelecer denominaremos “ser para si”. 

Logo, a consciência está em branco, sempre se lançando ao exterior (ser para si), construindo “sua” realidade. Ela não passa de um nada, não tem significado até que alguma escolha seja feita.

Esse seria então o ser da consciência humana: um nada que se projeta para se tornar algo: “A consciência não é uma entidade “espiritual” pré-concebida, mas uma intencionalidade que não é nada em si mesma, mas que tem de formar-se com o mundo no qual está”. 

Sartre surpreende, ao afirmar: “a existência precede a essência”, ou seja, não há essência humana anterior a existência do homem. Para ele, “O homem [existe] primeiro e somente depois ele “é” isto ou aquilo: é lançando-se no mundo, sofrendo nele, lutando nele que aos poucos ele se define, e a definição permanece sempre aberta”. 

Se o homem se apresentou no mundo sem ser concebido por algum projeto divino, cabe a ele produzir sua própria essência, será o que fizer de si mesmo. Eis o primeiro princípio do existencialismo ateu.

Mas Sartre salienta que quando nos abstemos da responsabilidade por nossas escolhas, estamos agindo segundo aquilo que denominou “má fé” da consciência, ou seja, estamos nos isentando de atentar para a liberdade que temos à nossa inteira disposição, de graça. 

A má fé consiste em fingirmos não ser livres e podermos então, debitar nossa infelicidade ou fracasso à causas externas a nós (os pais, o “inconsciente freudiano”, o ambiente, a personalidade indômita etc). Sartre chama isso de covardia. Não sendo livres para deixar de ser livres, estamos, pois, “condenados à liberdade”.

Esse “ser” construído através daquilo que se escolhe (até mesmo quando não se escolhe já está se escolhendo) pode ser explicitado também através da relação com os outros. Essa relação se dá pela experiência do olhar, do corpo. O olhar do outro me objetiva, me torna real. 

O outro atesta minha existência e isso instiga e inquieta.  Desencadeia uma crise de aceitação pois só desejo ver refletido no outro o melhor de mim mesmo. Porém, o outro enxerga mais do que gostaríamos, desconhece nossas motivações interiores.

Na peça teatral “Entre quatro paredes” (1944), Sartre pondera-se sobre a questão da imagem e ilustra suas ideias filosóficas. A fenomenologia do Outro e do “ser para outro” foi um dos mais bem-acabados pensamentos de Sartre. A dialética humana de “ser um com o outro” é central: ver e ser visto corresponde a dominar e a ser dominado.

Após morrer, três indivíduos vão parar no inferno (não se trata do estereotipado inferno cristão, com diabinhos, fornalhas etc.). Garcin, era um homem de letras. Pretendia ser um herói e foi um covarde. Seu maior tormento é que suas novas companheiras desvendam sua condição de covardia, que não pode ser mudada. É em vão que luta para fugir da pecha de covarde.

Estelle é uma fútil burguesa que ascendeu socialmente pelo casamento. Em nome do conforto, assassinou o bebê que teve com o amante e vê este, tomado pelo desgosto, suicidar-se. Tenta redimir-se atribuindo sua culpa ao destino. Deseja a paixão como forma de escapar à realidade.

Inês é homossexual, funcionária dos correios, agressiva, admite suas culpas. É a única que não procura se desculpar e compreende estar no inferno. O ódio a alimenta; sádica, goza com o sofrimento dos outros.

Não foram parar no inferno à toa: cada um responde por um crime. Estão confinados numa sala, sem espelhos, sem necessidade de se alimentar ou de dormir, por toda eternidade. São obrigados a se ver através dos olhos dos outros; olhos esses que não teriam sido os escolhidos para se conviver.

Vaidosa e egoísta, é patético o desespero de Estelle por um espelho. Inês arregala os olhos para que ela possa se enxergar: ela se vê, tão pequenina.... Tudo isso os incomoda bastante, pois não conseguem enganar uns aos outros por muito tempo e, aos poucos vão se constrangendo cada vez mais.

Inês tentará conquistar Estelle, que a repudiará. Estelle, por sua vez, buscará a paixão de Garcin, que a ignora. Inês, interessada em Estelle, jogará um contra o outro, explicitando as faltas deploráveis de ambos; faltas essas que nenhum quer admitir. 

Numa convivência insuportável, Estelle, revoltada, tenta matar Inês, mas ela dá boas gargalhadas: já está morta. Garcin tenta, inutilmente, convencê-la de que não é um covarde. Não conseguindo, tenta se vingar amando Estelle diante de Inês.

Sem que possam sequer expiar suas faltas, descobrem o horror da nudez psíquica que os outros lhes evidenciam. Está revelado o verdadeiro inferno: a consciência não pode furtar-se a enfrentar outra consciência que a denuncia, por isso: “o inferno são os outros”.

“Os Outros” são todos aqueles que, voluntária ou involuntariamente, revelam de nós a nós mesmos. Algumas vezes, mesmo sufocados pela indesejada presença do outro, tememos magoar, romper, ferir e, a contragosto, os suportamos.

Uma vez que a incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a convivência realmente um inferno, o angustiante existencialismo ateu sartriano não nos deixa saída. Sem o mínimo de boa-vontade, não há paraíso possível.

► Saiba mais: Entre quatro paredes – Jean-Paul Sartre. Tradução: Alcione Araújo e Pedro Hussak. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007.


Luciene Felix Lamy  - Email: mitologia@esdc.om.br

1 de jun de 2017

O mito de Filêmon & Báucis

 
“Os deuses olham pelas pessoas boas, e quem nutre será nutrido. ” Ovídio

Atemporal, a “Paidéia” (pedagogia) presente nos mitos norteia e promove ações justas, indicando comportamentos virtuosos. Neste “mês dos namorados”, trazemos o romântico relato do casal de idosos Filêmon e Báucis, exponenciais da importância de se receber bem o “kxenós” (estrangeiro) e de como os deuses recompensam os humildes e piedosos.

Um carvalho cresce ao lado de uma tília nas colinas da Frígia ”, assim o poeta romano, Ovídio (cerca de 43 a.C.) inicia sua narrativa, mas enriquecemos esse precioso mito com as versões de Edith Hamilton, Paul Commelin e Thomas Bulfinch.


Eis que, de vez em quando, Zeus (Júpiter) disfarçava-se e, em companhia do leve, comunicativo e divertido mensageiro dos deuses, Hermes (Mercúrio), descia à terra a fim de testar a índole hospitaleira dos mortais.

Esse atributo – a hospitalidade – era especialmente caro ao soberano do Olimpo, pois, sendo ele mesmo um estrangeiro (kxenós), estavam sob sua proteção todos os vulneráveis que necessitam de abrigo em outras terras (importante: não confundir com perversos terroristas dos tempos atuais, que pagam acolhida com tragédia e dor).

Chegando à Frígia como se fossem viajantes que sucumbem ao cansaço, os deuses bateram de porta em porta, tanto nas casas mais abastadas quanto nas mais simples, rogando por alimento e algum lugar para repousar. No entanto, os habitantes inóspitos não quiseram levantar-se para recebe-los, todos se recusavam a dar-lhes guarida.

Frustrados e exaustos com tantas negativas, chegaram a uma humilde cabana, coberta de palha e, mais uma vez, bateram na porta. Surpreendentemente, ela se abriu, e de dentro surgiu uma voz muito agradável, convidando-os a entrar.

Espantados, os deuses repararam que, apesar de simples, o interior do casebre estava muito bem limpinho e arrumado. Apareceu então, um casal de velhinhos, em cuja expressão fisionômica transparecia benevolência.


Diligentes, eles deram logo as boas-vindas, não medindo esforços para que os visitantes se sentissem “em casa”. Muito atencioso, o marido, Filêmon tratou de trazer logo um banquinho para perto da lareira, enquanto sua caridosa mulher, Báucis, corria para buscar uma manta, enquanto ia contando que ela e Filêmon haviam se conhecido ainda muito jovens, que viviam naquele modesto lar desde o casamento e que sempre foram felizes: “Somos pobres, mas a pobreza não é uma coisa assim tão má quando não se tem grandes ambições, e uma boa disposição de espírito também ajuda muito. ”.

Modestos, de fato, Filêmon e Báucis não tinham vergonha de sua pobreza e para não a sentirem moderavam seus desejos, no que eram ajudados por suas boas disposições.


Do casal emanava toda tranquilidade, aquela paz e sossego que somente nos verdadeiramente satisfeitos é notória. Alegre, Báucis abanou os tições da lareira, apressando-se a pendurar logo uma panela de cobre com água, enquanto Filêmon voltava do quintal com um belo repolho. Cortaram um bom pedaço da carne de porco já defumada e apressaram-se a preparar o jantar para os hóspedes.

Zeus e Hermes observavam o quanto a generosidade e o bom coração supriam a fortuna desses anfitriões. Frágeis e ligeiras, as mãos pintadinhas e trêmulas de Báucis colocavam a mesa que, bamba, com uma das pernas mais curta, foi logo ajeitada com um caco para nivelar. 

E disponibilizaram tudo o que tinham: azeitonas, rabanetes, endívias, queijos, ovos, convidando-os logo a tomarem assento nos tamboretes para saciar a fome.

Filêmon trouxe uma jarra de vinho, que nem era de nenhuma vindima especial e, assim que o cozido ficou pronto, exalando um convidativo aroma pela casa, ele se sentiu muito orgulhoso em poder acrescentar esse luxo à ceia, cuidando de encher novamente as taças logo que as percebia esvaziar.

Os dois velhinhos estavam tão encantados em receber os estranhos que demorou a se darem conta de que algo muito estranho estava a acontecer: a despeito de quantas taças já tivesse sido bebida, a jarra de vinho nunca se esvaziava!

Estupefatos diante dessa constatação, entreolharam-se amedrontados, abaixaram a cabeça e, cerrando os olhos, começaram a rezar em silêncio. Em seguida, com a voz embargada, rogaram aos hóspedes celestes que os perdoassem pela frugalidade da ceia ofertada. 

Foi quando Filêmon lembrou-se: “Temos um ganso! Um ganso de estimação. Tenham a bondade de esperar, pois vamos prepará-lo e servi-lo em seguida. ”.

Depois de muitas tentativas – em vão – de agarrar o ganso que se refugiou entre as pernas dos deuses, Zeus os interrompe dizendo ser desnecessário tal sacrifício. E, confirmando que hospedaram deuses, teriam uma merecida recompensa, mas que puniria os que tinham negado guarida, desprezando os vulneráveis estrangeiros.

Os deuses decidem inundar tudo ao redor, poupando somente a cabana do casal de idosos, que testemunharam ela ser transformada num majestoso templo, todo em mármore e ouro.


Ao indagar a Filêmon e Báucis o que mais desejavam, ouviu: “Permiti que nos tornemos vossos sacerdotes, e que passemos a tomar conta deste vosso templo – e, já que vivemos tanto tempo juntos, não deixeis que nenhum de nós sobreviva ao outro, concedendo-nos a graça de morrermos juntos. ”

Comovido com o que ouviu, Zeus os atendeu. E, certo dia, quando enfim, chegaram à mais avançada velhice, enquanto rememoravam o passado, perceberam que folhas começavam a brotar, enquanto seus corpos iam se transformando em árvore. 

Em paz, por terem desfrutado de uma longa vida de amor e concórdia, conformados e felizes com destino com o qual foram agraciados e desejando que a mesma e única hora os levasse desta vida, ao mesmo tempo, disseram um ao outro: “Adeus, meu grande amor. ”

Pronunciadas essas palavras, entrelaçados, transformaram-se em árvores: ele, como um soberbo carvalho, e ela, uma magnífica tília. De todas as partes do mundo, chegam pessoas para admirar e honrar esse apaixonado casal.

Para Johannes e Camilla.





EM JUNHO - Na Pinacoteca Benedicto Calixto (Santos, SP):

Dia 14/6 - Curso de Mitologia reco-romana - das 17 às 19h 
Dia 21/6 - Encontros de Filosofia (Sartre) - das 17 às 18h
Dia 28/6 - Oficina "Minha Biografia" - das 17 às 18h.

Mais informações, AQUI.

Em SETEMBRO - Na Itália...


Clicando sobre as imagens, elas ampliam.


2 de mai de 2017

Schopenhauer - De como viver é sofrer (Parte II)

"Entre os males de uma instituição penal também se conta a sociedade que encontramos ali." Arthur Schopenhauer 

Prosseguindo com o pensamento e as ideias de Arthur Schopenhauer (confira a Parte I - AQUI), constatamos que sim, os animais se satisfazem muito mais do que nós com a simples existência, que encerra menos sofrimento, mas também menos alegrias. 

Isso porque – como ele esclarece –, o animal permanece livre das aflições, dos tormentos e das preocupações, no entanto, por dispensar a esperança, não participa da antecipação de um futuro alegre que se dá por meio dos pensamentos imaginativos, fonte de tantas alegrias e prazeres para nós: “(…) a consciência humana possui um campo de visibilidade que abrange a totalidade da vida, e mesmo vai além”.

Segundo Schopenhauer, é a capacidade cognitiva superior que faz nossa vida mais sofrida do que a dos animais, de modo que podemos remeter isso [a capacidade cognitiva superior] a uma lei mais geral e alcançar assim uma visão muito mais ampla. Que visão será essa?

Conhecimento em si mesmo, afirma, é sempre indolor. Sofremos mesmo é quando a satisfação de nossa vontade está obstruída e temos consciência disso: “Que a dor espiritual seja condicionada pelo conhecimento, compreende-se por si, e que cresce conforme o grau [de conhecimento] do mesmo, pode ser facilmente verificado (…).


O filósofo diz que na infância, por exemplo, nos situamos frente ao curso do futuro de nossa vida, numa expectativa alegre do por vir, que é uma sorte não sabermos o que virá e que, condenados à vida ainda não ouvimos o conteúdo de nossa sentença e que, ainda assim, todos nós desejamos atingir uma idade avançada.



Para Schopenhauer, o mundo constitui o inferno e nós formamos em parte os atormentados, e noutra, os demônios. Antecipando-se aos que possam vir a criticá-lo, defende-se: “Agora terei de ouvir novamente que minha filosofia é desesperada somente porque me expresso conforme a verdade, mas as pessoas querem que se lhes diga que o Senhor Deus tenha feito tudo do melhor modo. Dirijam-se à igreja, e deixem em paz os filósofos.”

Miserável, imperfeito, assim é o mundo e o mais perfeito de seus fenômenos, o homem: “(…) qual crianças de pais displicentes, já viemos ao mundo dotados de culpa, e que só porque continuamente devemos expiar esta culpa, nossa existência se torna tão miserável e tem como fim a morte.”

Nada é mais certo, diz Schopenhauer, do que, em palavras gerais, o homem ser o mais grave pecado do mundo que provoca o múltiplo e imenso sofrimento do mundo; insistindo que não se indica aqui a conexão físico-empírica, mas a metafísica.

Conforme esse ponto de vista, assegura que apenas a história do pecado original – única verdade metafísica – o reconcilia com o Antigo Testamento: “Pois a nada mais nossa existência se assemelha tão perfeitamente, como à sequência de um passo em falso e de um desejo condenável.”

Para que não nos enganemos, convém que tenhamos em mente que nada se presta melhor como bússola para uma boa orientação na vida do que cultivarmos o hábito de considerar este mundo como local de penitência, e portanto também como uma espécie de instituição penal: “(…) a penal colony, uma ergastérion, como já a denominara os mais antigos filósofos e entre os anciães cristãos, Orígenes [que] o afirmava com ousadia digna de louvor, concepção esta que também encontra sua justificativa teórica e objetiva não somente em minha filosofia, mas na sabedoria de todas as épocas, ou seja, no bramanismo, no budismo, em Empédocles e Pitágoras; como também em Cícero: 'Nascemos para expiar as penas de alguns crimes contraídos na vida anterior'.”

Considerando do maior vigor a expressão de Vanini, Schopenhauer o cita: “O homem está repleto de tantas e tão grandes misérias que, se não fosse incompatível com a religião cristã, ousaria dizer: se existem demônios, eles próprios expiam as penas do crime, transmigrando para os corpos dos homens”.

O fato é que, para Schopenhauer, mesmo no cristianismo genuíno e bem compreendido, nossa existência é concebida como consequência de uma culpa, um passo em falso, diz ele.

Sendo assim, assumido o hábito – o de se considerar este mundo como local de penitência – disporemos de nossas expectativas de vida de modo a se adequarem à realidade dos fatos e encararemos as contrariedades, os sofrimentos, os tormentos e as necessidades não mais como algo inesperado e contrário à regra, porém inteiramente em ordem, muito cientes de que aqui, cada um é punido por sua existência, e cada qual a seu modo.



Mas, como se sentirá o homem bom, a bela alma, num mundo tão hostil? Schopenhauer diz que se sentirá como um nobre prisioneiro político, nas galeras, entre criminosos comuns e que procurará se isolar: “E de um modo geral a referida concepção nos habilitará a contemplar as assim denominadas imperfeições, a constituição moralmente, intelectualmente e portanto, também fisionomicamente indigna na maioria das pessoas, sem estranheza e muito menos indignação: pois sempre teremos à mente o lugar como um ser que existe apenas em consequência de sua culpabilidade, cuja vida é a expiação do pecado de seu nascimento.”

Para ele, o que o cristianismo denomina – a natureza pecaminosa do homem – constitui o fundamento dos seres, que encontramos neste mundo como nossos semelhantes. 

Em consequência da constituição deste mundo, acrescenta, se encontram principalmente e mais ou menos em um estado de sofrimento e de insatisfação, inadequado para nos tornarem mais participantes e cordiais, e por fim, que nosso intelecto, na maioria dos casos, é tal que serve mal e mal aos desígnios de nossa vontade.

É por essas diretrizes que devemos orientar nossas expectativas quanto à sociedade neste mundo. E quem adota este ponto de vista, poderia considerar o impulso à sociabilidade uma inclinação condenável, pondera.

Ainda assim, para Schopenhauer, a convicção de que o mundo, e portanto também o homem é algo que propriamente não deveria ser, é adequada a nos prover de tolerância uns em relação aos outros; pois: “O que há de se esperar de seres sob tais predicamentos?”, indaga.

Irônico, diz que o tratamento apropriado entre os homens, em lugar de Senhor, Monsieur, Sir, etc., deveria ser “companheiro de infortúnio, soci malorum, compagnon de misères, my fellow-sufferer” e que, por mais estranho que possa parecer, lança sobre o outro a luz apropriada e recorda o necessário, a tolerância, paciência, piedade, amor ao próximo, indispensável a todos, e portanto, de que todos são devedores.

O caráter das coisas deste mundo, precisamente do mundo humano, afirma o filósofo do “pessimismo”, não é tanto, como se afirma com frequência, imperfeição, mas distorção, no que se refere ao moral, ao intelectual, ao físico, a tudo.

E a desculpa para tantos vícios: “(…) isto é natural ao homem” não basta, pois na verdade deveria ser: “justamente por ser perverso, é natural, e justamente porque é natural, é perverso”, compreensível se à luz da doutrina do pecado original, fundamento que nos constitui. Trata-se de uma constituição básica má, tanto que ninguém suporta ser observado atentamente, provoca o filósofo.

Partindo dos pressupostos acima, o que esperar dos seres humanos? Talvez julguemos nossos semelhantes com mais tolerância. E não nos espantaremos se os demônios que estão em nosso interior, vez ou outra, despertem e surjam nos outros. Pois, saberemos apreciar melhor o bem que, apesar de tudo, se instalou em nós, seja por conta de nosso intelecto ou por alguma outra coisa.

Justamente pela vida constituir um estado de necessidade e de miséria, em que cada um precisa lutar e disputar por sua existência, nem sempre assumimos a expressão mais cordial, salienta. Se o homem fosse aquilo por que pretendem fazer dele todas as religiões e filosofias otimistas – a obra ou até mesmo a encarnação de um deus – quão diferente seria o relacionamento de cada pessoa conosco.

Devemos ser tolerantes com a estupidez, falhas e vícios humanos, pois o que temos diante de nós é somente nossa própria estupidez, falhas e vícios: “trata-se de erros da humanidade, a que pertencemos, possuindo também todas as falhas, mesmo aquelas sobre as quais nos indignamos, mesmo que agora não se manifestam em nós, pois não se encontram à superfície, repousam no fundo, mas se apresentarão à primeira oportunidade.

Reconhece que a diferença das individualidades é inavaliavelmente grande e que por isso em uma pessoa se ressalta um determinado tipo de maldade, noutra, revelar-se-á algum outro tipo, de outro modo, pois não se pode negar que varia-se o grau de adesão àquilo que verdadeira e antecipadamente somos: antecipadamente condenados, miseráveis pecadores.


     Programação de JUNHO, clique acima, em "Cursos & Palestras".

1 de abr de 2017

Schopenhauer - De como viver é sofrer (Parte I)



O consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós.” Arthur Schopenhauer


Em seus escritos “Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo”, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) afirma que o sentido mais próximo e imediato de nossas vidas é a dor e o sofrimento, que – sem sentido e puramente acidental – é originária da necessidade essencial à vida.

Ele diz que tudo o que é desagradável e dolorido salta à vista. E isso porque somos dotados de uma espécie de aplicativo que detecta os aborrecimentos muito mais que os prazeres: “Nós não sentimos a saúde do nosso corpo, mas apenas o pequeno local onde o sapato nos aperta (...)”.

Geralmente, não temos por hábito reconhecermos que as coisas vão muito bem, obrigado, mas insistimos no que ainda falta, por mais insignificante que seja, se comparado com o todo. É nisto que se baseia o que Schopenhauer chama de “negatividade do bem-estar e da felicidade” em oposição à “positividade da dor”. Em noventa e nove elogios, uma única crítica é o que destacamos, pois, via de regra, consideramos as alegrias abaixo e as dores, bem acima de nossa expectativa.

Ponderando sobre a negatividade do bem-estar e a positividade da dor, o filósofo salienta que “(…) a maioria dos sistemas metafísicos declaram o mal como algo negativo; enquanto é justamente positivo, o que em si mesmo se torna sensível; pelo contrário o bem, toda felicidade e satisfação, constitui o negativo, ou seja, a simples supressão do desejo e a eliminação de um tormento”.

Schopenhauer nos chama a atenção para o fato de que viver não é fácil: “Parecemos carneiros a brincar na relva, enquanto o açougueiro já está a escolher um ou outro com os olhos, pois em nossos bons tempos não sabemos que infelicidade, justamente agora, o destino nos prepara (..)”. De fato, doença, desemprego, empobrecimento, loucura, traição, abandono e morte, estão mesmo sempre à espreita.

A história comprova que os povos vivem em guerra e que, exceção, a paz é momentânea, passageira. Assim se dá com os indivíduos, sempre em luta constante: “Também contribui para o tormento de nossa existência, o impelir do tempo, impedindo-nos de tomar fôlego, perseguindo todos qual algoz de açoite.”.

No entanto, diz ele, se a pressão da necessidade, dificuldade, contrariedade e frustração das pretensões fossem afastadas da vida dos homens, sua petulância cresceria: “Cada um necessita sempre de um certo quantum de preocupação, ou dor, ou necessidade, como o navio de lastro para navegar de modo ereto e firme.”.

Realmente, trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sina da maioria das pessoas, porém –, ele indaga – se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo?

O filósofo imagina uma situação onde todas as vontades fossem satisfeitas (aves revoassem já assadas, brinca ele) e diz que isso não serviria de palco à espécie humana.

Sendo assim, “Em consequência da relembrada negatividade [no sentido de não se destacar] do bem-estar e do prazer, em contraste com a positividade [no sentido de se fazer notar] da dor, a felicidade de um determinado curso de vida não se estima segundo suas alegrias e prazeres, porém pela ausência dos sofrimentos, como sendo o positivo.”.

Considerando que a sorte dos animais parece ser mais suportável que a do homem, Schopenhauer parte para análise de ambas.

Por mais variadas que sejam as formas sob as quais a felicidade e a infelicidade do homem se apresentam e o estimulam à perseguição ou à fuga, a base material de tudo isto forma o prazer OU a dor corporal: “Esta base [material] é muito reduzida: constitui saúde, alimentos, proteção do frio e da umidade e satisfação sexual. OU então, a carência dessas coisas.”.

Sendo assim, quanto a prazeres físicos reais, o homem não possui mais necessidade do que o animal. A não ser quando seu sistema nervoso de potência superior amplia as sensações de prazer e/ou de dor: “Mas quão mais poderosas são as afecções nele [no homem] excitadas, comparadas às dos animais! Com que profundidade e intensidade superior é mobilizada sua sensibilidade! Para, por fim, atingir apenas um resultado idêntico: saúde, alimento, proteção, etc.”.

Nossas sensibilidades são mais profundas e intensas que as dos animais porque pensamos! E pensar (no passado, no ausente, no futuro) faz surgir, ou seja, dá existência a preocupação, temor, esperança e esses sentimentos atuam sobre nós com muito mais intensidade do que na simples realidade presente – seja prazerosa ou de sofrimento – na vida dos animais.

Ao animal falta a reflexão (memória, que resgata passado e previsão, que delineia futuro), que é o condensador das alegrias e dos sofrimentos. O animal vive o presente, daí a invejável despreocupação e tranquilidade dos animais, observa o autor.

Mediante a reflexão e o que a ela se prende, desenvolve-se no homem, à partir daqueles elementos do prazer e do sofrimento, um acréscimo da sensação de sua felicidade e infelicidade, que pode conduzir ao encantamento momentâneo ou à angústia mais profunda.

Se observarmos mais de perto, o curso do processo é o seguinte: nossas necessidades, originalmente supridas com apenas um pouco mais de dificuldades do que as dos animais, nós mesmos as ampliamos propositalmente, para assim aumentarmos nosso prazer, donde então, perseguimos as iguarias gastronômicas, o luxo nas vestes, bebidas alcoólicas, tabaco e tudo o mais.

Também por conta de sermos dotados da capacidade de refletir se acrescenta uma fonte a jorrar unicamente para nós, de prazer e, portanto também de sofrimentos que exige atenção desmesurada que é a ambição e o sentimento de honra E também a vergonha, o pudor.

Desses sentimentos surge a importância da nossa opinião sobre a opinião dos outros a nosso respeito [e pensar que nem havia a “régua” das redes sociais!”]: “Esta [opinião dos outros] torna-se, em figuras mil e frequentemente estranhas o fim de quase todas as suas pretensões além do prazer físico ou da dor.”.

Schopenhauer observa: “Embora possua a mais do que os animais ainda os prazeres intelectuais, a permitirem muitas graduações, da brincadeira mais ingênua, ou da conversação, até as realizações espirituais mais elevadas, em contrapartida, do lado dos sofrimentos, se situa o tédio (…), que no homem se configura em verdadeiro algoz, como se vê particularmente naquela multidão lastimável dos que constantemente se preocuparam somente em preencher seu bolso, mas nunca sua cabeça, e aos quais justamente sua abastança se transforma em castigo, ao entregá-los às mãos do tédio mortificante (…), pois, seguramente a necessidade e o tédio formam os dois polos da vida humana.”.

Além disso, diz ele, no homem se associa à satisfação sexual uma escolha obstinada, própria unicamente à ele, que (...) se constitui em fonte de longos sofrimentos e alegrias passageiras.

É admirável como mediante a adição do pensamento, de que carecem os animais, sobre a mesma estreita base [material] dos sofrimentos e das alegrias, de posse comum com o animal, se ergue o edifício tão alto e extenso da felicidade e da infelicidade humana, em relação a que sua disposição emocional está entregue a afecções, paixões e abalos tão intensos, que o cunho dos mesmos se torna legível em traços permanentes sobre seu rosto [traços fisionômicos]; enquanto no que é final e real, trata-se das mesmas coisas que também o animal logra [tem êxito], sobretudo com um dispêndio incomparavelmente menor de afecções e tormentos, afirma o filósofo.

Sob um viés realista, Schopenhauer aponta que “Em consequência de tudo isto, cresce muito mais no homem a medida da dor do que a do prazer, e se incrementa ainda de modo especial por ele saber efetivamente da morte, pois enquanto o animal foge dela [da morte] por instinto, sem propriamente conhecê-la, sem jamais verdadeiramente encará-la, como faz o homem, sempre tendo à sua frente este prospecto.” e isso, sem dúvida, não é de pouca monta. Prossigamos!


6 de mar de 2017

Curso de Mitologia Grega e Romana

PINACOTECA BENEDICTO CALIXTO





MÓDULO BÁSICO: 15 | MARÇO | DAS 15 ÀS 17H
MÓDULO II:          29 | MARÇO | DAS 15 ÀS 17H



Pinacoteca Benedicto Calixto pelo fotógrafo Nilo Piccoli.

O POINT + "CULT" DE SANTOS!
 




Confira, abaixo, alguns trechos de nosso Curso de Mitologia:


Matrículas: na secretaria da Pinacoteca ou através do e-mail: mitologia@esdc.com.br

 

1 de mar de 2017

Caim e Abel - O relato de como, já na 1ª família, "deu ruim"


Adão, Eva, Caim e Abel, por Francesco Bacchiacca.


  Todos aqueles que conseguem um objetivo são invejados por aqueles que não o alcançaram ou falharam.” Aristóteles

Nada revela mais sobre nossa psique que os arquétipos mitológicos, sejam eles judaico-cristãos ou pagãos. Para compreendermos o que origina o ressentimento por Abel, desencadeado em Caim, perscrutemos a relação de Deus para com estes primeiros irmãos.

Os que assemelham-se a nós, um irmão, uma irmã, são sempre um “outro”, espelho e “régua” com o qual nos autoavaliamos. E, sabemos que o “medir-se” pode vir a suscitar admiração ou despertar inveja.

Eva, Caim e Abel por John-William Bouguereau.

O relato bíblico de Caim e Abel culmina num dos pecados à espreita daqueles que, de alguma forma, se sentem injustiçados pelos pais, os amigos, o chefe ou até mesmo pelo Juiz do céu e da terra: Deus.

Segundo a narrativa em Gênesis, no Antigo Testamento, Adão conheceu Eva, sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Caim, e disse: “Gerei um homem com o auxílio do Senhor”. A seguir, deu também à luz Abel, irmão de Caim. Abel foi pastor; e Caim, lavrador.

Logo no início, Eva reconhece o auxílio de Deus na geração de Caim. A seguir, nasce Abel. Do ponto de vista histórico, talvez tenha havido conflito hierárquico quanto às atividades de apascentar rebanhos e cultivar a terra, no entanto, ambas as técnicas são importantes à subsistência.

Ao fim de algum tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta de frutos da terra. Por seu lado, Abel ofereceu primogênitos do seu rebanho e as gorduras deles.

Nas culturas antigas, o re-ligare, a religião, estava intrinsecamente atrelada à manifestação de gratidão por tudo o que o divino (metafísica), através da terra (física) nos concedia.

O senhor olhou favoravelmente para Abel e para sua oferta, mas não olhou para Caim nem para sua oferta.

Há distinção – clara! – da parte do 'Pai”, tanto sobre a oferta em si quanto ao filho que a faz. Talvez houvesse em Abel algo que agradara ao Criador: humildade. O coração de Abel é puro, Deus sabe e o corresponde.

O desafio à Caim é reconhecer e aceitar essa deferência ao seu irmão. Sendo evidente que sempre haverá quem receba maior distinção que nós, estaria na reação ao favoritismo divino (provação empreendida por Àquele que nos criou e ao qual estamos submetidos) o teste da opção pela resignação ou pela revolta, tal qual ocorrera com o primeiro anjo caído, Lúcifer?

Lúcifer, por Alexandre Carbanel.

Caim ficou muito irritado e o rosto transtornou-se-lhe. O senhor disse a Caim: “Por que estás zangado e o teu rosto está abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo”.

No momento em que testemunha o olhar favorável às dádivas de Abel, Caim começa a invejá-lo, pois como atesta a psicanalista Melanie Klein: “A inveja sofre ao ver o outro possuir o que ela quer para si”. Sentindo-se preterido, Caim fica irritado e, uma vez que “a destrutividade da inveja recai sobre quem a sente”, a fisionomia o denuncia.

Embora onisciente, Deus pergunta-lhe o por quê de estar abatido e o orienta sobre o fato de que SE AGIR BEM, voltará a erguer o rosto, numa clara alusão ao (re)encontro Dele, que está nas alturas.

Afirma a existência do pecado, que se inclina à Caim e sobre o dever de dominá-lo. O mal espreita o vaidoso que, em seu orgulho, exige equidade, imparcialidade: “A inveja é uma paixão relacionada à busca de uma idealizada igualdade entre os homens”, afirma Klein.

Seria essa exigência de igualdade lícita e democrática se houvesse paridade nos sentimentos e nas ações de todos, o que sabemos ser implausível.

Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: “Vamos ao campo”. Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e matou-o.

Caim e Abel, por Pietro Novelli (1603-1647).

Mesmo tendo sido alertado sobre a necessidade de dominar a tentação para proceder mal, Caim sucumbe, e consuma na prática o que já fizera em pensamento: mata seu irmão.

O Senhor disse a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” Caim respondeu: “Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?” O Senhor replicou: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim. De futuro, serás maldito sobre a terra que abriu a sua boca para beber da tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, negar-te-á as suas riquezas. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra.”

Caim amaldiçoado por João Maximiano Mafra (1851).

Deus pergunta por Abel. O assassino – e aqui, desde que os homens caminham sobre a terra – não há nenhuma novidade – nega saber dele. “A voz do sangue” é ouvida por Deus.

Pelo crime perpetrado contra seu irmão, Caim é amaldiçoado, obstada fica sua prosperidade (eis a miséria atrelada ao castigo). É condenado a vagabundear vivenciando a aflição de ser fugitivo, sem paz.

Caim disse ao Senhor: “O meu castigo é excessivamente grande para ser suportado. Expulsas-me hoje desta terra: obrigado a ocultar-me longe da Tua face, terei de andar fugitivo e vagabundo pela terra, e o primeiro a encontrar-me matar-me-á”.

Caim reconhece o quão pesada é a pena a cumprir. Sente-se obrigado a ocultar-se, longe da face de Deus que, luminosa, não é contemplada pelo pecador. Também presume vir a ser vítima do mesmo crime que perpetrou.

Louis-Ernest Barrias (1841-1905). "Les Premières funérailles", 1883. Musée des Beaux-Arts de la Ville de Paris, Petit Palais.

 O Senhor respondeu: “Não, se alguém matar Caim será castigado sete vezes mais”. E o senhor marcou-o com um sinal, a fim de nunca ser morto por quem o viesse a encontrar. Caim afastou-se da presença do Senhor e foi residir na região de Nod, ao oriente do Éden.

O relato encerra-se com a misericórdia divina, pois Caim foi marcado com um sinal que poupará sua vida.

O sinal de Deus sobre Caim tem sido apropriado e perversamente distorcido por muitos que arrogam para si uma suposta superioridade sobre os demais, ousando perpetrar e justificar a barbárie. O sinal não está nos judeus, como outrora aventou Santo Agostinho, tampouco nos negros, como simpatizam os racistas. Indelével no precursor de toda humanidade é a culpa, fruto de nossa dívida eterna para com o Criador.

Não sejamos coniventes com o fomento do MAL que –, valendo-se de nossa inerente vaidade (se não o fôssemos, não invejaríamos) – mesmo ardiloso e sorrateiro, não deixa de ser perscrutável.

Precipuamente inclinados ao pecado, permitir que a inveja faça morada em nossos corações, não consuma – necessariamente –, homicídios, mas formas rasteiras de agressão ao invejado, tais como fofoca e discórdia, provocando intrigas.

Agindo assim, com a culpa de saber-se invejoso, instaura-se o desassossego. Ao decidirmos proceder bem, não nos inquietando pelas benesses recebidas pelos demais, erguemos com altivez nosso rosto ao Eterno. E, mesmo que não crentes em nenhuma religião, às estrelas, ao sol… à LUZ!


Imagem de Duccio di Buoninsegna (1308-1311).

Na quarta-feira de cinzas, inicia-se a Quaresma. Com a Fé em Cristo, vençamos o Mal, que nos afeta ainda mais quando recai sobre nossos ascendentes e descendentes. 
Exorcismo de São Bento: "Crux Sacra Sihi mihi lux; non draco sihi mihi dux; vade retro satana!; nunquan suad mihi vana; sunt mala quae libas; ipse venena bibas".
Tradução: "A Cruz sagrada seja a minha Luz. Não seja o Dragão meu guia. Retira-te Satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mal o que tu me ofereces. Bebe tu mesmo do teu veneno!". 


A QUEM INTERESSAR:
Dias 15 e 22 de Março, às 15h, na Pinacoteca Benedicto Calixto (Santos, SP), Curso de Mitologia Greco-romana (Módulo Básico e Módulo II) - Preço: R$ 100,00 - Inscrições: secretaria da Pinacoteca. Clique AQUI.
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ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!

Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br