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1 de jan de 2018

O que é o niilismo?


“A caveira não abandona jamais a máscara de olhos fixos; a vida nada mais é que uma indumentária com chocalhos que o Nada veste para soar, antes de arrancá-la fora. Que é o Todo? Nada mais que o Nada. ” Teólogo e filósofo escolástico medieval Boaventura (1221-1274)

Para esclarecer, de forma clara e inequívoca, o que é o niilismo, bastava enviar à redação do jornal o título acima e mais nada. Uma folha totalmente em branco, sem absolutamente nada. Inquietante, não?

Não é de modo menos dramático que o filósofo italiano Franco Volpi (1952) inicia sua obra “O niilismo” (Edições Loyola): “É de incerteza e precariedade a situação do homem contemporâneo. (...). Rompidos a estabilidade dos valores e os conceitos tradicionais, torna-se difícil prosseguir o caminho. ”

A reflexão filosófica, diz ele, procurou diagnosticar essa situação, pela análise dos males que afligem o homem de hoje e dos perigos que o ameaçam, chegando a identificar como causa essencial do fenômeno o “niilismo”. 

Mas o que é o niilismo?

A palavra em si aparece entre o fim do século XVIII e início do XIX, mas tornou-se tema comum de discussão no século XX, quando o niilismo assoma como problema, com toda a virulência e amplidão.

Exprimindo esforços artísticos, literários e filosóficos voltados para a experimentação do “poder do negativo” e para a vivência de suas consequências, o niilismo trouxe à luz o profundo mal-estar que abre como uma rachadura a auto compreensão de nosso tempo, afirma Volpi.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) via no niilismo “o mais perturbador de todos os hóspedes”: um visitante funesto perambulando por todos os cômodos da casa, sem que se pudesse expulsá-lo porta afora. Mas que é, afinal, o niilismo?

Nietzsche, o primeiro grande profeta e teórico do niilismo respondeu que lhe falta a finalidade (télos). Carece de resposta à pergunta “para quê? ”. 

Que significa o niilismo? Que os valores supremos se depreciaram (confira o artigo anterior, dezembro de 2017), que não há mais a que se agarrar: “Ó pai, ó pai, onde está teu seio infinito, para que eu possa nele descansar? ” (Jean Paul Sartre, 1977).

O niilismo constitui, assim, uma situação de desnorteamento provocado pela falta de referências tradicionais, ou seja, dos valores e ideais que representavam uma resposta aos porquês e, como tais, iluminavam a caminhada humana, esclarece Volpi.

Observando a dinâmica que desencadeia o esvaziamento dos valores supremos e suscita a irrupção do niilismo, Nietzsche afirma: “O homem moderno acredita experimentalmente ora num ora noutro valor, para depois esquecê-lo. Cresce sempre mais o círculo dos valores superados e esquecidos. Percebe-se sempre mais o vazio e a pobreza de valores."

E prossegue: "É um movimento incessante, apesar de todas as grandes tentativas para detê-lo. No máximo, o homem ousa uma crítica genérica dos valores. Reconhece sua origem. Conhece demais para não crer mais em valor algum. Esse é o pathós, o novo frêmito.... Essa é a história dos dois próximos séculos...”.

A profecia de Nietzsche confirmou-se: a onipresença multiforme do niilismo torna-o tão visível que, paradoxalmente, fica difícil apreendê-lo numa definição clara e unívoca.

Segundo Franco Volpi, não há consenso em seu diagnóstico nem na anamnese de suas patologias e do mal-estar cultural que representa: “Até os estudos históricos sobre a gênese do termo acabaram por mostrar como tem sido complexa e variada a manifestação desse fenômeno. ”

Etimologicamente, o niilismo – do latim nihil (nada) – é o pensamento obcecado pelo nada.

O sofista Górgias (485 a.C.) talvez seja primeiro niilista da história ocidental, pelo terrível raciocínio que nos legou: nada existe; se alguma coisa existisse, não a poderíamos conhecer; e, se a conhecêssemos, não seria comunicável.

O filósofo medieval Fredegiso di Tours (falecido em 824 d.C.) em “Da substantia nihili et tenebrarum”, numa atitude filosófica escandalosa para a época, pretendeu provar que o nada se impõe com sua presença e possui, portanto, algum ser, alguma substancialidade.

E o frade dominicano alemão, Mestre Eckhart (1260-1328) numa estonteante annihilatio, declara que Deus e o nada, “o anjo, a mosca e a alma” são a mesma coisa.

Leonardo da Vinci (1452-1519), anotou em seu Codex Atlanticus: “Entre as grandes coisas que estão abaixo de nós, o ser do nada é imensamente grande”

E Leibniz (1646-1716), com a célebre pergunta: "Por que há algo mais do que nada?", e sua inquietante resposta: "Porque nada é mais simples e fácil do que algo." Seria o nada, mais do que o fim para o qual caminhamos, paradoxalmente, também premissa?

Como uma sombra permanente, o nada sempre acompanhou e preocupou a reflexão filosófica, tal qual Mefistófeles em relação a Fausto, na obra magistral de Goethe (1749-1832): “O espírito que sempre nega” insinua-se no âmago da mente humana, fortalecendo-se com a razão da negatividade já proclamada por Anaximandro (610-545 a.C.): “... Pois tudo quanto nasceu merece ser aniquilado; portanto, era melhor nada ter nascido. ”.

Volpi chama a atenção para o fato de que nem pode a filosofia prescindir do nada, se é verdade que, para resguardar sua missão, a saber, a busca do Ser como Ser, deve ela distinguir este último [o Ser] de seu oposto essencial, o Nada.

Eis porque o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) chegou à seguinte conclusão drástica: “O ponto de comparação mais difícil, mas também menos enganador, para avaliar a autenticidade e o vigor de um filósofo é ver se ele capta, logo e radicalmente, no ser do ente, a proximidade do nada. Quem não viver essa experiência ficará, de modo definitivo e sem esperança, fora da filosofia. ”

A respeito do niilismo, Franco Volpi sustenta a mesma convicção válida para todos os verdadeiros problemas filosóficos: eles não têm solução, mas história.

Na reconstrução histórica do niilismo, é opinião comum que Dostoievski (1821-1881) em caráter literário [sem esquecer Turgueniev (1818-1883)] e Nietzsche, sob o viés mais filosófico, são os dois fundadores e os principais teóricos do niilismo.


Bem, o ano acaba de começar, absolutamente novo, em branco. Especificamente sobre esse “nada” que ainda é 2018, há o que se pensar, o que se fazer. E muito. 

Prossigamos, amigos, afinal, o “eco do ossário” ainda não bradou pela última vez.

Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana
lucienefelix.blogspot.com - Instagram: lufelixlamy
WhatsApp (13) 98137-5711

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