SE VOCÊ PENSAR, VAI DESCOBRIR QUE TEMOS MUITO A APRENDER.

luciene felix lamy EM ATO!

luciene felix lamy EM ATO!
Desfrute-o com vagar: há + de CEM artigos entre filosofia, literatura, mitologia, comédias e tragédias gregas (veja lista completa logo abaixo, para acessar clique sobre o título).

ELEITO UM DOS MELHORES BLOG'S NA WEB. Gratíssima por seu voto amigo(a)!

1 de jun. de 2011

HAMARTÍA - O Exterminador do Futuro

"A nossa vida compõe-se de duas partes a privada e a exterior; nascem ambas à porta de nossa casa, uma, porém, se estende para dentro e a outra para fora." Aluísio Azevedo

A Sagrada Família – Murillo (Museo del Prado)

“A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família.” Léon Tolstoi
 
Recentemente, a mídia internacional trouxe à tona a notícia de duvidosos comportamentos de duas personalidades públicas: Dominique Strauss-Kahn, economista e agora ex-diretor do FMI e Arnold Schwarzenegger, ator e ex-governador da Califórnia, ambos casados e pais de quatro filhos.

Como vimos no artigo anterior (http://lucienefelix.blogspot.com/2011/05/kant-e-uma-filosofia-da-historia-para.html), tal qual a natureza, a razão também possui um télos (propósito) e este pode ser constatado através do crivo que ela mesma impõe às ações humanas: àquilo que fere a harmonia, o bom senso, à Justiça, como um corpo estranho ao juízo sensato, aos poucos (às vezes, milhares de anos) é excluído da norma.

O lógos marcha com vagar e, entre avanços e retrocessos, põe em relevo a correção moral, o decoro, a compostura, tributando valor à honradez e ao pudor.

No mundo globalizado, dispondo de nossas iluministas e humanistas atuais categorias mentais, não há como aceitar passivamente atitudes deploráveis e indignas, como se ainda fôssemos reféns de senhores feudais. A sociedade (opinião pública) aponta, denuncia, defende-se.


Até porque, indefensáveis, tanto na vida política quanto nas atividades corporativas, vilezas ético-morais têm sido punidas com renúncia (demissão voluntária ou sob coação), prisão, ostracismo, expulsão, banimento, desprezo.

Sucumbir às (ir) resistíveis paixões da carne em detrimento da ordem, invertendo valores tão caros à ratio, desde os tempos homéricos (Ilíada), ascende da mera insensatez à bestialidade. No âmbito político (público) e nos ambientes corporativos, por exemplo, a retaliação da sociedade é patente.

Arnold Schwarzenegger e Maria Shriver com seus filhos. Após 25 anos de união anunciam separação.
O ator e ex-governador confessou ter tido um filho com a empregada durante o casamento.

E quanto ao reparo à gravidade da vileza na esfera doméstica, privada?

Génos – além de raça, estirpe, família – é descendência, sendo também uma explicitação da natureza dos genitores. Comportamento desonroso no lar acarreta numa “hamartía”, palavra grega que designa a “marca” (falta) que um descendente traz de origem (http://lucienefelix.blogspot.com/2009/03/o-mito-de-tantalo.html).

Enquanto meras ‘marcas’, as hamartías constituem virtudes e vícios: dons culinários, aspirações intelectuais, espírito indômito, desbravador, inclinação aos vícios (do sexo, jogo ou drogas), ao otimismo, bom humor, às doenças físicas e psíquicas (como a depressão), tendência à procrastinação (preguiça), enfim, reconhecendo-os e cultivando-os ou repelindo-os, ora transmitimos talentos, ora suprimimos características constrangedoramente negativas.

Não há como prever o comportamento de um indivíduo (nem mesmo perscrutando a psyché ‘Alma’, como os psicanalistas: “me fale de seus pais”) ou mensurar a profundidade da desalentadora dor causada pelo ultraje que os familiares são obrigados a vivenciar. Há muito sabemos que origem não é, obrigatoriamente, destino e que cabe a cada um de nós a responsabilidade de interromper a transmissão hereditária de indisfarçáveis deficiências.

Desnorteadas, muitas “Marias” se vêem acometidas pela atér, cegueira que induz ao estado de desvario, depois à ação desvairada e por fim, à ruína. Arruinadas ficam também as vítimas indefesas.

Isso porque um lar não é um órgão como o FMI ou um país onde, tranquilamente, outro(a) economista ou candidato(a) substitui o execrável, com discurso persuasivo que induz a enxergarmos, no novo, talento e competência ainda maior.

Devastadoramente destrutiva na esfera privada da sacra célula familiar, onde prisão, ostracismo, renúncia e expulsão não resolvem o problema (e tampouco é possível aventar legítima substituição), ausência de ética, sorrateiramente, desampara inocentes.


Legar a “falta”, impondo uma irreversível hamartía aos indefesos, fomenta a exterminação do futuro. Nos agentes das desprezíveis ações, quando conscientes, instaura-se um dos mais terríveis e inarredáveis carrascos psíquicos: a culpa.


PS: Recomendo a leitura dos dois artigos apontados para melhor compreensão.


1 de mai. de 2011

KANT e uma Filosofia da História - Para onde caminha a humanidade?



"Quem não pensa e age para melhorar o mundo será atropelado pela História." jornalista Eliane Brum

Pensando sobre o homem em sociedade (antropologia política), Immanuel Kant publica “Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita” (1784), obra considerada pedra angular para a Filosofia da História.

Intrigado, o filósofo de Könisgberg intenta elucidar o que fomenta, de que forma e qual seria o télos (propósito, finalidade) da evolução da raça humana.

Sabemos que a natureza, da qual fazemos parte, nos impõe suas inegociáveis leis. Assim, das estações e das órbitas planetárias, da geração, crescimento, desejo de união, maturidade, decrepitude e morte, como os demais animais, também somos reféns.

Constatamos que a natureza detém um éthos (hábito, conduta, habitat) específico e que este éthos obedece a uma doutrina teleológica própria. E no homem, excetuando-se suas pulsões instintivas, enquanto ser racional a construir seu próprio éthos, há algum propósito oculto? Kant afirma que sim e que as ações do homem em sociedade registradas pela História revela esse propósito.

Sofisticadamente distintos dos animais, pois dotados da centelha que nos torna imortais enquanto gênero (ação racional), avançamos, legando conhecimentos: do afã de saciar a fome a gastrônomos; da necessidade de protegermo-nos, vestindo, criamos moda, do anseio por prazer, aprovação e conforto, desenvolvemos técnicas.

De fato, através de gerações e gerações, nosso cérebro é constantemente aperfeiçoado. Se nossa prole, ainda na mais tenra idade, identifica a água como sendo “H2O” e é capaz de compreender que, quando filtrada está livre de bactérias (mesmo que façam somente uma vaga ideia do que sejam bactérias), isso se deve a toda uma geração que a antecede.

Curiosamente, a História evidencia que muitos de nossos propósitos particulares coincidem com o da natureza.


Um exemplo é a união estável entre as pessoas: “a livre vontade dos homens tem tanta influência sobre os casamentos, os nascimentos que daí advém e a morte, eles não parecem estar submetidos a nenhuma regra (...). E, no entanto, (...) eles acontecem de acordo com leis naturais constantes (...)”.

Nossas atitudes manifestam nossa vontade livre, e esta ‘vontade livre’, embora imaginemos ser aleatória, é determinada por leis naturais universais. Não enxergamos isso observando a atitude de cada indivíduo em si (árvore), mas ao vislumbrarmos a sociedade (floresta) como um todo.

Essas “leis” são reveladas pela história que, por registrar, narrando insensatez e façanhas é capaz de descobrir e por em relevo – não àquilo que fazemos enquanto indivíduos – mas, àquilo que manifestamos enquanto seres políticos, sociais.

Em nossa conduta trazemos a marca da dualidade (animal + racional): nem procedemos somente por instinto, como os animais, “nem tampouco como razoáveis cidadãos do mundo”.

Construímos nossos éthos – não de forma linear – mas de modo inconstante, lento e penoso, num jogo de avanços e retrocessos. O que a ratio retém como comprovadamente bom ou útil à espécie, permanece, já o que ofende ultrajando a racionalidade, vai sendo, aos poucos, preterido até ser completamente excluído de nosso modus vivendi: “o fim último da espécie humana é alcançar a mais perfeita constituição política”, diz Kant.

São tantas as nossas incoerências que não há como pressupor propósito racional no homem individual, mas somente investigar e identificar uma finalidade na natureza racional humana, tomando suas ações como um fio de Ariadne para vislumbrar esse propósito. Cabe à história então, tomando um determinado plano e escopo da natureza como condutor, revelar os erros e os acertos de “criaturas que procedem sem um plano próprio”, como diz.

E qual é o dispositivo que desencadeia este propósito oculto nas “leis” da natureza, leis estas às quais (enquanto sociedade), em nosso desenvolvimento, realizamos mesmo que não estejamos cônscios?

Antagonismo. E explica: “Eu entendo aqui por antagonismo a insociável sociabilidade dos homens, ou seja, sua tendência a entrar em sociedade que está ligada a uma oposição geral que ameaça constantemente dissolver essa sociedade”.

Existir é existir com. E ponto com. O homem tem mesmo uma predisposição a associar-se e assim pode desenvolver melhor sua “humanidade”. Mas Kant ressalta que “ele também tem uma forte tendência a separar-se (isolar-se) porque encontra em si ao mesmo tempo uma qualidade insociável que o leva a querer conduzir tudo simplesmente em seu proveito, esperando oposição de todos os lados, do mesmo modo que sabe que está inclinado a, de sua parte, fazer oposição aos outros”.

Este componente intrínseco – luta de contrários, diria Heráclito –, ao qual Kant dá o nome de “oposição” é o que desafia e move o homem a sair da letargia, a superar sua tendência à preguiça, como ele mesmo diz, e partir para a conquista de seus objetivos, sempre movido pela busca de projeção, pela ânsia de dominação ou cobiça.

Tudo isso para (espantemo-nos, mas nem tanto) destacar-se entre os pares, para proporcionar a si próprio “uma posição entre companheiros que ele não atura, mas dos quais não pode prescindir”. É dessa forma que somos levados da rudeza à cultura, diz o autor da “Crítica da razão pura” e da “Metafísica dos costumes”. Nisto consiste propriamente o valor social do homem.

Do anseio por esta posição de destaque, virão os talentos, o bom gosto, o refinamento e, num “progressivo iluminar-se (Aufklärung), a fundação de um modo de pensar que pode transformar, com o tempo, as toscas disposições naturais para o discernimento moral [eis a razão exercendo seu mister] em princípios práticos determinados e assim finalmente transformar um acordo extorquido ‘patologicamente’ para uma sociedade em um todo moral”.

Topós do livre-arbítrio, este seria o modo de preencher o vazio da criação em vista de nosso propósito enquanto natureza racional. Queremos viver prazerosamente com toda comodidade, mas a natureza exige que nos lancemos ao trabalho até a fadiga para que, usando a inteligência, nos livremos desses últimos: “Agradeçamos, pois, à natureza a intratabilidade, a vaidade que produz a inveja competitiva, pelo sempre insatisfeito desejo de ter e também de dominar! Sem eles todas as excelentes disposições naturais da humanidade permaneceriam sem desenvolvimento, num sono eterno”.

Heraclitiano, embora reconheça que o homem quer a concórdia, Kant afirma que a natureza sabe mais o que é melhor para a espécie, ela quer a discórdia: “Os impulsos naturais que conduzem a isto, as fontes da insociabilidade e da oposição geral, de que advêm tantos males, mas que também impelem a uma tensão renovada das forças e a um maior desenvolvimento das disposições naturais, revelam também a disposição de um criador sábio, e não a mão de um espírito maligno que se tenha intrometido na magnífica obra do Criador ou a estragado por inveja”.

Resgatada a perfeita grandeza do Demiurgo, temos, aqui na terra, a natureza a nos exigir solução para o problema que Kant aponta como sendo o maior para a espécie humana: “alcançar uma sociedade civil que administre universalmente o direito”.

Embora a natureza pareça cega, não o é em seus caprichos com sua mais perfeita criação: a razão humana. Financialismo, Fukushima, Realengo, ditadores, corrupção, tráfico de armas, de órfãos haitianos para pedófilos, contra toda avalanche de miséria refugiada em anonimato e conluio, ergue-se a disposição racional – o éthos humano – que ruma, vagaroso e cambaleante, em direção a um mundo mais digno. Para nossos descendentes.

Dedicado à bela admiradora de Kant, Profª Drª Maria Garcia.


"... Volta os olhos para a Luz da Aurora!
Afasta para longe o véu do sono!
Não tenhas medo de um gesto atrevido,
Enquanto o vulgo hesita e se extravia!
Tudo conseguem os nobres espíritos
Que sabem compreender e decidir."

GOETHE, "Fausto" parte II, 1º Ato

1 de abr. de 2011

PARRESÍA - A Coragem de dizer a Verdade


“A coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras”. Aristóteles

‎"No dia 5 de junho, um jovem solitário e desarmado invade a Praça da Paz Celestial e anonimamente faz parar uma fileira de tanques de guerra. O fotógrafo Jeff Widener, da Associated Press, registrou o momento e a imagem ganhou os principais jornais do mundo. O rapaz, que ficou conhecido como "o rebelde desconhecido" ou "o homem dos tanques" foi eleito pela revista TIME como um das pessoas mais influentes do séc. XX. Sua identidade e seu paradeiro são desconhecidos até hoje".

Não são raras as ocasiões em que preferimos nos abster de dizer a verdade. Também não são infundadas as razões pelas quais optamos por proceder assim. De fato, se ousarmos manifestar o que pensamos, tornaremo-nos, no mínimo, indesejáveis e, se considerarmos que uma das excelências humanas está justamente na capacidade de convívio, no cultivo de aprazíveis relações, nada mais coerente.

Parresía é o termo em grego para designar a coragem de se dizer a verdade, expor tudo, de se falar com franqueza. O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), em sua obra “O governo de si e dos outros”, tratará desta antiqüíssima noção e seu uso político desde os primórdios da politéia (constituição) e da democracia na Grécia.

A palavra certa, proferida no momento adequado (kairós – tempo oportuno) pode denunciar injustiças, impor lucidez e também ferir. Metralhadora ou flecha certeira, dispará-las pode aniquilar moralmente um (a) poderoso (a). Eis a parresía.

Estar convicto é fundamental. Se tratar-se de mero atrevimento, levianamente irresponsável, o dano pode ser irreversível, sobretudo se houver platéia. Mesmo que se tente remediar, a ardilosidade de se ofender em público e se retratar em particular é expediente inaceitável.

A parresía é uma virtude e seu emprego pode se dar tanto na esfera pública quanto na privada. Algumas características lhe são peculiares: uma delas é a de que o destemido que confrontar o poder com a verdade esteja em condição subalterna a seu interlocutor. Não há parresía quando um pai repreende um filho, um professor contesta seu aluno ou o patrão adverte o funcionário.

Embora seja delicado sermos parrésicos na vida privada, pois há de se ter muita intimidade e confiança para que, sem magoar, sejamos autênticos, quando a verdade é proferida sem malícia, não se guarda rancores. Por isso, para nosso próprio bem, num verdadeiro amigo a parresía deve ser incentivada.

No entanto, mesmo que estejamos cônscios de que evitar o confronto, abstendo-se de uma corajosa franqueza implica numa fatura onde se discrimina hipocrisia, falsidade, fingimento e mentira, sobretudo no âmbito das relações familiares e de amizade, quem teria coragem de dizer assim, na lata, que o filho é um ingrato? Que, inconvenientes, os progenitores do cônjuge são insuportáveis? Que o cunhado é um inútil e a cunhada, a hypokrisía em pessoa? Você diria que, após a blefaroplastia*, sua amiga a faz lembrar Sartre?

Ser parresiasta (parrésico ou Parresiázesthai) não é ser irônico, crítico, persuadir ou desafiar proferindo ofensas e insultos gratuitos. Isso é mera opinião (dóxa), não necessariamente uma opinião verdadeira (dóxa alethés). E, salvo raras exceções – desde que a recusa não se dê por covardia ou tibieza –, tanta franqueza é até dispensável.

Na vida privada em desavença, território propício ao império de “futrica de comadres”, as conseqüências de dizer a verdade podem ser relativamente mensuráveis e, dependendo do caso, mesmo que desconfortável, o máximo que pode acontecer é o rompimento de relações comprovadamente desarmoniosas e inautênticas, algo capaz de revelar-se até benéfico à saúde psíquica.

Mais que uma recusa à mentira, à bajulação, peculiar na parresía é haver um alto preço a ser pago. Por isso, será no âmbito da vida profissional e cívica que optar por dizer a verdade pode acarretar implicações gravíssimas, de alcance imprevisível e inimaginável: retaliações, demissões, exílio e até mesmo a morte.

É no dizer público que a parresía é mais parresía. Foucault afirma que “as diferentes maneiras de dizer a verdade podem aparecer como formas” e analisa quatro delas: estratégia de demonstração, de persuasão, de ensino e de discussão.

Embora possa utilizar elementos de demonstração, a parresía não é uma maneira de demonstrar: “não é a demonstração nem a estrutura racional do discurso que vão definir a parresía”.

Quanto à retórica, diz ele: “a parresía como técnica, como procedimento, como maneira de dizer as coisas, pode e muitas vezes deve efetivamente utilizar os recursos da retórica (...) a parresía se define fundamentalmente, essencialmente e primeiramente como o dizer-a-verdade, enquanto a retórica é uma maneira, uma arte ou uma técnica de dispor os elementos do discurso a fim de persuadir.” Sem dúvida, a retórica não se ocupa com o fato do discurso ser ou não verdadeiro e isso é essencial à parresía.

Sobre ser uma maneira de ensinar, uma pedagogia, Foucault também refuta dizendo haver: “(...) toda uma brutalidade, toda uma violência, todo um lado abrupto da parresía, totalmente diferente do que pode ser um procedimento pedagógico. O parresiasta, aquele que diz a verdade dessa forma, pois bem, ele lança a verdade na cara daquele com quem dialoga ou a quem se dirige (...)”.

E complementa dizendo que “(...) quem diz a verdade lança a verdade na cara desse interlocutor de maneira tão cortante e tão definitiva, que o outro em frente não pode fazer mais que calar-se, ou sufocar de furor (...)”.

Seria a parresía uma maneira de discutir? Pertenceria à Erística? Éris é a deusa da discórdia (disputa, querela) e esse termo compreende “uma arte da controvérsia e do debate, desenvolvido principalmente pela Escola de Mégara (séc. V-IV)”. Não. O parresiasta não tem por télos (finalidade) discutir, mas dizer: “Há, de um lado, um dos interlocutores que diz a verdade, e que se preocupa, no fundo, com dizer a verdade o mais depressa, o mais alto, o mais claro possível; e depois, em face, o outro que não responde, ou que responde por outra coisa que não são discursos”.

Michel Foucault afirma que a parresía é uma certa maneira de se dizer a verdade, mas que esta maneira não pertence à erística (arte de discutir), nem à pedagogia (arte de ensinar), nem à retórica (arte da persuasão) nem tampouco a uma arte da demonstração: “Não a encontramos no que poderíamos chamar de estratégias discursivas”.

Pode-se servir da parresía para emitir lições, aforismos, réplicas, opiniões, juízos etc., mas o que mais a caracteriza, onde há verdadeiramente parresía, é quando não se fica impune ao pronunciá-la.

Ele diz crer que, se quisermos analisar a parresía, não devemos nos ater ao “lado da estrutura interna do discurso, nem do lado da finalidade que o discurso verdadeiro procura atingir o interlocutor, mas do lado do locutor, ou antes, do lado do risco que o dizer-a-verdade abre para o próprio interlocutor”.

Arriscado, proferir a verdade é encontrar a fúria: “é abrir para quem diz a verdade um certo espaço de risco, é abrir um perigo em que a própria existência do locutor vai estar em jogo.” De fato, é se expor pelo que o Homem mais preza: liberdade. Corajosos, Parresiázesthai estão dispostos a morrer por ela.

(*) Blefaroplastia – cirurgia plástica de pálpebras.
 
---*---
 
Exemplo recente de PARRESÍA: 

  Alexandre Schwartsman
O diálogo abaixo certamente contribuiu para torná-lo ex-Economista-Chefe do Banco Santander.

"Em palestra no seminário Cenários da Economia Brasileira e Mundial em 2011, o economista-chefe do Santander Brasil e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, chamou de “contabilidade criativa” a cessão onerosa de 5 bilhões de barris da União para a Petrobrás.
 
Ao ter a palavra no evento, o presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, defendeu o processo e disse que Schwartsman tinha chamado “indiretamente” o processo de contabilidade criativa.
 
- Não foi indireto não – retrucou Schwartsman, que ainda estava na mesa principal do evento, promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com o Valor.
 
- Porque é verdade – acrescentou Schwartsman.
 
Gabrielli voltou a responder ao economista, lembrando que a Petrobras recebeu R$ 132 bilhões pela capitalização e pagou R$ 74 bilhões pelos 5 bilhões de barris.
 
- Se isso não é caixa, eu não sei o que é caixa – questionou o executivo.
 
- Caixa é dinheiro, não é promessa – voltou a responder Schwartsman.
 
Irritado, Gabrielli voltou a questionar o economista do Santander.
 
- Não é promessa nenhuma. São fatos. Ele comprou ações por um determinado valor e recebeu dinheiro de outro – afirmou.
 
- Cadê o dinheiro? -, voltou a perguntar Schwartsman.
 
- Tá no Tesouro – afirmou Gabrielli.
 
-Só na cabeça dos contadores do Tesouro – encerrou o economista, recebendo os aplausos de parte da platéia.
 
Em sua apresentação, Schwartsman tinha criticado a política fiscal expansiva do governo e afirmado que “entra qualquer coisa” no cálculo do superávit primário e que “houve criatividade contábil” para fechar as contas.
 
O economista do Santander comentou ainda que o baixo nível de poupança do país não se deve ao elevado consumo das famílias, mas sim do governo. Ele disse não acreditar que vá ocorrer “tão cedo” uma redução dos gastos do governo.
 
- Esperaria por isso sentado e em uma posição bem confortável.
 
Na sua avaliação, o superávit primário foi, na realidade, de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos dos bens e serviços produzidos no país). Cálculos de outros economistas renomados sugerem, citou Schwartsman, algo entre 0,5% e 1%.
 
O ex-diretor do BC disse que o corte de R$ 50 bilhões anunciado pelo governo deveria ter sido maior, entre R$ 85 bilhões e R$ 100 bilhões.
 
Segundo os dados oficiais do governo, o país fez uma economia de R$ 101,696 bilhões, ou 2,78% do PIB em 2010. Como a meta era chegar a no mínimo 3,1% do PIB, o governo teve de descontar parte dos investimentos feitos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – R$ 11,7 bilhões (0,32% do PIB) – para fazer a conta fechar, como aconteceu em 2009. Nessa conta, entrou uma receita extra de R$ 32 bilhões da capitalização da Petrobras.
 
Schwartsman saiu do seminário antes do seu encerramento e com isso não chegou a falar novamente com Gabrielli depois da troca de farpas."


Quando uma imagem vale mais que mil palavras:

Related Posts with Thumbnails

ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!


Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br