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1 de set de 2015

Da Amizade - Michel de Montaigne - Parte I


Amizade nutre-se de comunicação.” Montaigne

O humanista, filósofo, jurista e escritor francês Michel de Montaigne (1533/1592) foi pioneiro no gênero literário que denominamos “ensaio”. Ensaios, do francês “essais”, designa textos sobre algum tema que se desenvolve de forma mais livre e descompromissada, sem que seja necessário um método rigoroso do ponto de vista acadêmico, ou reivindique alguma conclusão final.



Dos “Ensaios” de Montaigne, trazemos uma reflexão sobre o capítulo intitulado “Da amizade”, onde, abalado pela perda de seu querido amigo Étienne de La Boétie (1530-1563), o autor discorre sobre esse tema tão precioso, pois como afirma seu compatriota François de La Rochefoucauld, “A amizade, depois da sabedoria, é a mais bela dádiva feita aos homens”.

De início, a fim de evitar frustrações em relação às expectativas, convém esclarecer que aquele famoso “amigo de fé, irmão, camarada”, enfim, amigo mesmo, de verdade, é algo raríssimo.

Embora consideremos ter “muitos amigos”, assim como nem todos são abençoados em – por exemplo –, nascer no seio de uma família amorosa e responsável, de ser agraciado com um matrimônio feliz ou de ter seus esforços profissionais devidamente reconhecidos e também recompensados, vivenciar a amizade verdadeira é uma dádiva.

Montaigne esclarece que o Ensaio redigido por La Boétie (Discurso da Servidão Voluntária, já tratado AQUI) foi o ponto de partida desta amizade durou o quanto Deus permitiu. Ressalta que são muitas as circunstâncias necessárias para que esse sentimento se edifique.

Afirma que a amizade assinala o ponto mais alto de perfeição na sociedade e que a natureza parece muito particularmente interessada em implantar em nós a necessidade dessas relações. Chama a atenção para o fato de que em geral, sentimentos ao qual damos o nome de amizade, quando nascidos da satisfação de nossos prazeres, das vantagens que usufruímos, ou de associações formadas em vista de interesses, são menos belos, menos generosos, pois essas tem outras causas, visa outros fins.



De fato, afeições ditadas pela natureza, pela sociedade, pela hospitalidade ou ainda ditadas pelas exigências dos sentidos, não atingem o ideal que implica numa verdadeira amizade.

Esse tipo tão distinto e peculiar de amizade à qual Montaigne se refere não há como existir nas relações entre pais e filhos porque entre esses é mais o sentimento de respeito que domina.

Amizade nutre-se de comunicação, insiste, e, convenhamos, não há como estabelecer-se comunicação nesse domínio (de vínculo filial) em virtude da grande diferença que existe, sob todos os pontos de vista: “e esse intercâmbio de ideias e emoções poderia por vezes chocar os deveres recíprocos que a natureza lhes impôs, pois, se todos os pensamentos íntimos dos pais se comunicassem aos filhos, ocorreriam entre eles familiaridades inconvenientes”.



Até porque, diz o filósofo, uma das primeiras obrigações da amizade é dar conselhos, formular censuras, o que temos que concordar que seria inapropriado dentro de tal relação.

Embora tanto ele quanto La Boétie tenham empregado o nome de “irmão” um ao outro, por considerar esse nome belo e digno da maior afeição, Montaigne salienta que entre irmãos de verdade, a comunidade de interesses, a partilha de bens, a (eventual) pobreza de um como consequência da riqueza do outro, destemperam consideravelmente essa união formal.

Diz-nos que é a correspondência dos gostos que engendra essas verdadeiras e perfeitas amizades e, naquelas que nos impõe a lei e as obrigações naturais (no ambiente estudantil, de trabalho ou nos encontros sociais e de lazer familiar, por exemplo), nossa vontade não se exerce livremente, elas não resultam de uma escolha e nada depende mais de nosso livre arbítrio que a amizade e a afeição.

Quanto à possibilidade de amizade com uma mulher, ressalta que essa afeição, embora seja proveniente de nossa escolha, não poderia comparar-se à amizade nem substituí-la: “pois somos também conhecidos da deusa que mistura um doce amargor às suas preocupações: ela é mais ativa, mais aguda, mais áspera; é uma chama temerária e volúvel, agitada e versátil; chama febril, sujeita a intermitências de temperatura e que só nos prende por uma parte de nós”, concluindo que o amor é, antes de mais nada, um desejo violento do que nos escapa.

O calor da amizade, diz, estende-se a todo o nosso ser, é geral e igual, temperada e serena, soberanamente suave e delicada, nada tendo de áspero nem de excessivo, cresce com o desejo que da amizade temos.

Pondera que a verdadeira amizade eleva-se, desenvolve-se e se amplia na frequentação, é de essência espiritual e a sua prática apura a alma. Distinguindo as inúmeras afeições passageiras, da verdadeira amizade, Montaigne nos enleva ao afirmar que essa última é cheia de nobreza, que mantém-se sempre nas regiões elevadas.

Ainda quanto à possibilidade de amizade entre um homem e uma mulher, ele pondera que, SE se pudesse formar com uma mulher, livre e voluntariamente, semelhante ligação, em que não apenas a alma provasse plena satisfação mas também o corpo encontrasse seu prazer, em que cada qual assim se entregasse por inteiro, a amizade seria mais perfeita e total; mas todas as escolas filosóficas da antiguidade concluíram ser isso impossível.

Montaigne condena a “philía” que chama de delírio inspirado pelo filho de Vênus (Eros), esse gênero de licenciosidade contra a natureza que era permitida entre os gregos, mas que nossos costumes reprovam com razão, pois não é pelo espírito que o adolescente, objeto dessa paixão, podia inspirá-lo –, pois ainda era jovem demais e em vias de desenvolvimento –, mas pelos atrativos do corpo.



Citando Cícero, ele diz que: “A amizade atinge sua irradiação total na maturidade da idade e do espírito”. A isso que chamamos comumente de amigo e de amizade não passam de ligações travadas ao sabor das oportunidades e dos interesses e por meio das quais nossas almas se entretêm. Pessoalmente, embora menos intensas, também as considero de natureza salutar.

Mas, referindo ao tipo de amizade que alicerçou com La Boétie, esclarece que nesse tipo, as almas se entrosam e se confundem em uma única alma. Em ligações dessa natureza, diz ele, intervém uma força inexplicável e fatal que não saberia definir: “Nós nos procurávamos antes de nos termos visto, pelo que ouvíamos um acerca do outro, e nascia em nós uma afeição fora de proporções (…), no que vejo como que um decreto da Providência”.



Para o filósofo, também não se põem em dúvida as intenções do verdadeiro amigo e que nenhuma das suas ações poderia nos ser apresentada sem que, de imediato, percebêssemos o motivo: “Nossas almas caminharam tão completamente unidas, tomadas uma por essa afeição que penetra e lê no fundo de nós mesmos, que não somente eu conhecia a sua [alma] como a minha, mas teria, nas questões de meu interesse pessoal, mais confiança nele do que em mim mesmo”.



Nas amizades comuns, alerta Montaigne, é necessário segurar as rédeas e caminhar com prudência; o nó da união não é de tal solidez que se deva confiar dele. Já entre amigos de verdade, os serviços e favores – elementos essenciais às outras amizades – não entram em conta, porque as vontades dos verdadeiros amigos são fundidas numa só.

Prossigamos com Michel de Montaigne, pois ainda precisamos ponderar, entre outras particularidades, sobre as questões relativas aos bens e ao dinheiro entre os verdadeiros amigos.

Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana da
Galleria Borghese, Roma

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