SE VOCÊ PENSAR, VAI DESCOBRIR QUE TEMOS MUITO A APRENDER.

luciene felix lamy EM ATO!

luciene felix lamy EM ATO!
Desfrute-o com vagar: há + de CEM artigos entre filosofia, literatura, mitologia, comédias e tragédias gregas (veja lista completa logo abaixo, para acessar clique sobre o título).

ELEITO UM DOS MELHORES BLOG'S NA WEB. Gratíssima por seu voto amigo(a)!

1 de out. de 2011

NIETZSCHE e o caráter constitutivo de nobreza


“O aristocrata atira para longe muitas imundices com um alçar de ombros que nos outros se gravaria profundamente.” Friedrich Nietzsche

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) é acusado por muitos – sobretudo os que não o leram ou não o compreenderam – de ser “destruidor da moral”, um “filho de satã”. No entanto, ele tributou a Cristo o reconhecimento de ter sido revolucionário, verdadeiro e único cristão.

Corajoso, Nietzsche teve a audácia de colocar a moral num tribunal, examinando as origens e as deturpações do não egoísmo, da compaixão (altruísmo, renúncia, abnegação), sabidamente possuidores de ‘valores em si’, além de questionar a supremacia do Bem sobre o mal, do Bom sobre o mau, na moral vigente em sua época.

Antes de prosseguirmos, uma ressalva: há o MAL, de malignidade, de perversidade mesmo e o MAU que traduz o imperfeito, de má qualidade, inferior, incapaz, sem talento, sem arte (que é o “mau” do mau pintor, do mau ator, do mau advogado, etc.), enfim, do ruim mesmo.

Nietzsche esmiuçará a origem do MAU contrário ao BOM, que é forjado pelos homens, através da linguagem, justamente onde explicitamos nossos valores morais.

Ele estudou uma antiquíssima religião persa, a Zoroastra, do profeta Zaratustra (de quem fará personagem seu, noutra de suas perturbadoras obras). O Zoroastrismo tem como divindade suprema Ahura-Mazda, um deus que abarca em si o bem e o mal. Arqueológico em seus estudos, Nietzsche sempre privilegiou os primórdios: o pré-socrático Heráclito e o tragediógrafo Sófocles inspiraram-lhe.

Convém esclarecer que Nietzsche não é de fácil compreensão: sua escrita não é linear, ele não é dicotômico (apolíneo x dionisíaco) como parece à primeira vista. Em seus textos, dá voltas e voltas, fala por aforismos: afirma, nega, volta a afirmar e a negar. E, se o adágio popular diz que “a verdade dói”, as suspeitas “verdades” que ele lança são, no mínimo, profundamente perturbadoras.

De uma tradicional família de pastores, de religiosos, o alemão foi também um filólogo (estudioso de línguas clássicas) contundente, apaixonado, que revolucionou os alicerces da metafísica socrático-platônica, da religião judaico-cristã e de cânones da História da Filosofia, tornando-se um dos maiores expoentes da filosofia dita “Contemporânea”.

Em “A genealogia da Moral”, Nietzsche confessa que desde os treze anos, na idade em que “Deus e os brinquedos da infância enchem o coração”, teria indagado: “Que origem teria propriamente os conceitos de bem e mal?”. E afirma que, assim que distinguiu o preconceito teológico do preconceito moral deixou de procurar a origem do mal no “além”, detendo-se aqui mesmo, entre os homens, na terra.

Logo depois, diz ter visto esse problema transformar-se neste outro: “De que modo inventou o homem estas apreciações de valor: o bem e o mal? E que valor tem em si mesmas? (...)”.

Para tanto, ele afirma ser necessário conhecer as condições e o meio ambiente em que nasceram, em que se desenvolveram e se deformaram, ou seja, na linguagem, ferramenta habilmente manejada pelos poderosos: “o pathos [estado emocional] da distinção e da distância, o sentimento geral, fundamental e constante de uma raça superior e dominadora, em oposição a uma raça inferior e baixa, determinou a origem da antítese entre ‘bom’ e ‘mau’.”

Foi a deformação dos valores que o intrigou: “a moral como consequência, como máscara, como hipocrisia, como enfermidade ou como equívoco, e também a moral como causa, remédio, estimulante, freio ou veneno”.

Isso porque, diz ele: “Este direito dos senhores de dar nomes vão tão longe que se pode considerar a própria origem da linguagem, como um ato de autoridade que emana dos que dominam. Disseram: ‘Isso é tal coisa’, vincularam a um objeto ou a um fato, tal ou qual vocábulo, e dessa forma tomaram posse dele. De maneira que primitivamente a palavra ‘bom’ não significava ação ‘altruísta’ como imaginam estes genealogistas da moral. Foi antes ao declinar as apreciações aristocráticas quando a antítese ‘egoísta’ e ‘desinteressada’ (altruísta) se apoderou da consciência humana – é para servir-me de minha linguagem instinto de rebanho que veio à tona.”

Com uma pedagogia própria, pioneira, Nietzsche penetrou nos recônditos da linguagem a fim de descobrir “como a besta humana de Darwin estende gentilmente a mão ao humilde efeminado da moral” e roga que àqueles “que estudam a alma ao microscópio, sejam criaturas generosas, valentes, magnânimas, e dignas, que saibam refrear o coração e sacrificar os seus desejos à verdade, a toda a verdade, ainda à verdade simples, repugnante, anticristã e imoral... porque tais verdades existem”.

Disse ter descoberto o método quando se perguntou: “Qual é, segundo a etimologia, o sentido da palavra ‘bom’ nas diversas línguas?”

“Ao princípio – dizem – as ações altruístas foram louvadas e reputadas boas por aqueles a quem eram úteis (...).” Mais tarde, “foi esquecida a origem deste louvor e chamaram-se boas as ações altruístas por costume adquirido da linguagem, como se fossem boas em si mesmas”.

Dessa primeira derivação, diz “encontramos nisto ‘utilidade’, ‘esquecimento’, ‘costume’, e, por fim, ‘erro’, e tudo para servir de base a uma escala de valor que até hoje parecia privilégio dos homens superiores (...)”. Ele discorda, pois nesse estágio, revelará que privilegia os fracos.

Diz ter descoberto que, em todas as línguas, esta palavra deriva de uma transformação de ideias: “descobri que, em toda a parte, a ideia de ‘distinção’, de ‘nobreza’, no sentido de ordem social, é a ideia do ‘bom’ no sentido de ‘distinto quanto à alma’, e a ideia de ‘nobre’ no sentido de ‘privilegiado quanto à alma’. E este desenvolvimento é sempre paralelo à transformação das noções ‘vulgar’, ‘plebeu’, ‘baixo’, finalmente na noção de ‘mau’.

Uma palavra, duas conotações! A palavra grega kairós, por exemplo: diferente da divindade Chronos, que também traduzimos por tempo, mas o cronológico, kairós é o tempo oportuno. Essa palavra foi cunhada no seio da necessidade do guerreiro saber o momento preciso para desferir o golpe certeiro na jugular do inimigo, garantindo assim sua sobrevivência.

No mesmo espírito afirmativo, primitivamente, a palavra “bom”, aptidão do forte também abarcava a conotação da ação julgada “boa” (útil, eficaz) em contraponto à ação “ruim” (inútil, ineficaz) e não à ação “má”, no sentido de maldade.

Desviando-se do significado primevo (“bom” em contraponto ao “ruim”) a ação ‘ruim’, confundiu-se com a má: “o juízo ‘bom’ não emana daqueles a quem se prodigalizou a ‘bondade’. Foram os mesmos ‘bons’, os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram ‘boas’ as suas ações (...) estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo quanto era baixo, mesquinho, vulgar, vilão.”

Através das palavras e raízes que significam ‘bom’, transparece o matiz principal pelo qual os ‘nobres’ se sentiam homens de uma classe superior e se glorificavam: “um traço típico de caráter determina o epíteto (...).”

Com o tempo, na maior parte dos casos, diz ele, os poderosos (os donos, os chefes) tomaram o nome da superioridade do seu poder, ou dos sinais exteriores desta superioridade (os ricos, os possuidores) como rótulo, deformando o teor original, pois o traço típico, o caráter distintivo da nobreza é o de ser verdadeiro: “Chamam-se, por exemplo, ‘os verídicos’; assim se designa a nobreza grega por boca do poeta megárico Theogonis.”

Nietzsche esclarece que “A palavra esdlos significa pela origem ‘alguém que é’, alguém que é real, que é verdadeiro; depois, por uma modificação subjetiva, o verdadeiro vem a ser o verídico: a esta fase de transformação da ideia vemos que a palavra que a expressa vem a ser a contrasenha da nobreza, e toma em absoluto o sentido de ‘nobre’ por oposição ao homem vulgar, ao homem que mente (...).” Quando a nobreza guerreira declina, aquela palavra vem a significar a nobreza da alma.

Na palavra kakós [mau daimon], como em deilos (que designa o plebeu em oposição ao agathos - Bom) está sublinhada a covardia, diz Nietzsche. Covarde é o que mente, é inábil e inútil: “A sua alma é turva, o seu espírito procura os recantos e os mistérios e portas ocultas; todo o culto o encanta; aí acha o seu mundo, a sua segurança, o seu descanso; sabe guardar o silêncio, não esquecer, esperar, fazer pequeno provisoriamente, humilhar-se.”

Tendo a regra transformado o conceito político num conceito psicológico, houve uma diferença entre ‘bom’ e ‘mau’ num sentido não de aptidão, mas de crueldade.

Dizer a verdade é tarefa assumida por afirmativos, fortes, corajosos, sadios, enfim, por nobres: “nós, os aristocratas, nós os bons, os formosos, os felizes.” Tinham o sentimento de serem plena e genuinamente felizes “e não tinham a necessidade de construir artificialmente a sua felicidade, comparando-se com os seus inimigos e enganando-se a si mesmo como faziam os rancorosos; na sua qualidade de homens completos, vigorosos e necessariamente ativos, não acertavam em separar [não separavam] a felicidade da ação – a ação, o lutar, o trabalho é incluído neles necessariamente na felicidade (...).”

Já a mentira é sempre acalentada pelos desprezíveis, fracos, aduladores e doentes que não têm do quê se orgulhar, embora a mentira acabe por transformar fraqueza em mérito: “A covardia, que está sempre à porta do fraco, toma aqui um nome muito sonoro e chama-se: ‘paciência’, chama-se talvez de virtude (...).”

E quanto à felicidade imaginada pelos “impotentes, os obstruídos, os de sentimentos hostis e venenosos (...)”, afirma que difere da felicidade dos nobres, pois “aparece sob a forma de estupefação, de sonho, de repouso, de paz, de sábado, de descanso do espírito, de estender dos ossos.”

Esses invejosos e ressentidos, devido à debilidade senil da vontade sacarão de uma ardilosidade peculiar para realizar uma transvaloração dos valores e impor a “sua” moral: a do pobre coitadinho: “Esta classe de homem na realidade necessita crer num ‘sujeito neutro’ dotado de livre-arbítrio; é um instinto de conservação pessoal, de afirmação de si mesmo porque toda mentira tende a justificar-se”.

Numa inversão de valores, caberá aos ‘bons’ se culparem e se arrependerem tornando-se seguidores de rebanho. Dizer que Nietzsche é polêmico, é redundância. Suas ideias são amedrontadoras: “a finalidade de toda a cultura é domesticar a besta humana.” Prossigamos, há muito a desvelar.

Para o meu pai, que sempre soube ser nobre.

1 de set. de 2011

As 5 Etapas do Movimento de Realização da Realidade - Parte II

Se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente."  Machado de Assis

1. Desvelar – 2. Revelar 3. Testemunhar – 4. Veracizar – 5. Autenticar


Versando sobre o que torna a realidade “real” (vide nosso artigo anterior http://lucienefelix.blogspot.com/2011/08/as-5-etapas-do-movimento-de-realizacao.html) constatamos que, fenomenologicamente, primeiro as coisas são expostas à luz, ou seja, desocultadas (desveladas); depois, faz-se necessário que sejam expressas (reveladas) através da linguagem.

Quando o homem fala, necessariamente, é com outro homem: “O alcance dessa fala é a confirmação da existência e da identidade não só de tudo aquilo com que alguém entra em contato ou desoculta, mas desse mesmo alguém.”, afirma Dulce Critelli. Saber e conhecer, isolada e solitariamente não é o que valida à realidade.

Seja lá o que for que tenha sido “constatado”, ou seja, desvelado e revelado (através da comunicação) deve necessariamente ser visto e ouvido pelos demais (testemunhado): um Advento!

Detenhamo-nos, agora, às três últimas etapas desse processo: Testemunhar – Veracizar – Autenticar.

O que dá lastro à existência real, do que descobrimos e expressamos é o testemunho dos outros (mesmo que discordem do que estamos afirmando). Sermos corroborados evita que sejamos tidos como loucos, dementes, “sem noção”.

Coexistimos! Juntos, desvelamos e revelamos o que algo é: “O outro com quem alguém fala sobre algo não é um mero receptor de uma mensagem, mas seu co-elaborador. Isto é, ele é elemento constituinte da possibilidade desse algo se mostrar.” 

Mas, sem testemunho, o que quer que tenha sido desvelado e revelado se perde, como se a manifestação nunca tivesse aparecido: “Mais, à medida que o compreendido por alguém é testemunhado pelos outros, esses outros não só consolidam a existência daquilo que alguém compreendeu, como também consolidam, ao mesmo tempo, a existência desse alguém que compreendeu algo e trouxe esse algo compreendido para o testemunho”.

Ao testemunhar, os outros participam da realização do ato da realidade: “O testemunho é composto por uma simultaneidade de olhares diversos”. O mero testemunho não implica, necessariamente, juízo de valor: “A abertura do testemunho é [apenas] um trazer algo ao mundo comum como pertencente a ele”.

Mas, além de contarmos com o testemunho dos outros, para que algo seja, de fato, “real”, também se faz necessário que seja referendado como verdadeiro pelo senso comum (não menosprezemo-lo!) por sua relevância pública (veracizado) e, por fim, autenticado, que é o que ocorre quando algo é efetivado em sua consistência através da vivência afetiva e singular dos indivíduos.

Critelli afirma que o que advém ao mundo, no trajeto de sua realização, anseia ser verdadeiro: “Coisa alguma é verdadeira em si mesma, mas veracizada mediante uma referência, um critério, algo que venha de fora dela mesma e a autorize a ser o que é e como é.” 

Até o presente, espíritos desencarnados, extraterrestres (mesmo que testemunhados por alguns – devido a não-permanência num horizonte temporal), jamais foram tidos como ‘reais’. Não passam pelo crivo do 4º passo, que é a veracização.

Um exemplo de veracização é a composição da água. Além do desocultamento (desvelamento) dos elementos (H2O) presentes na água é preciso “um critério comum (a toda uma sociedade e/ou civilização) que considere, no caso, a repetição e a constância dessa mesma composição” o que legitima esta definição.

Por falar em água, o mesmo se dá em relação às nossas sensações e emoções: “Aquilo que um indivíduo sente só chega a ser um sentimento (de medo, vergonha, felicidade, amor, raiva) quando confirmado como tal pelo testemunho de outros.”

No entanto, reconhecemos esses sentimentos como sendo ‘reais’ porque eles já foram demarcados como relevantes e, portanto, existentes (veracizados) do ponto de vista da esfera pública. De todos, ocultamos a inveja que por não ser distinta e nobre, constrange.

Paradoxalmente, algozes e reféns das ‘autoridades’, todos os nossos conceitos a respeito da vida, da convivência cotidiana, foram forjados em sua veracidade por meio de alguma relevância pública, numa esfera exterior, mais ampla: “A própria ciência moderna, para que fosse aceita como saber fidedigno em nossa civilização, dependeu da conquista de sua relevância pública.”

Estejamos cônscios: há uma trama política presente no movimento de veracização de algo. Nesse jogo, que garante as relações imediatas de força e poder, que dá suporte às diversas ideologias, os homens buscam convencerem-se mutuamente das verdades que atribuem às coisas: “Por vezes esse jogo subverte o modo mais plenamente humano de jogá-lo, que é através do discurso ou das palavras [sempre passíveis de manipulação com interesses escusos], e se estabelece por meio da força e da violência.”

Considerando verdade e realidade como sendo elementos indissociáveis, veracizar é submeter ao crivo do que pressupomos guardiã da ‘verdade’: a opinião pública. É o que faz com que algo prevaleça. Mas é do movimento, do vir-a-ser, a dinâmica de erigir. E o que parecia perene, perece.

Tomemos como exemplo, nossa atual concepção de ‘louco’. Honrado noutro momento da história, pois considerado totalmente tomado pelo divino, o louco já foi digno de respeito e reverência. 

Hoje, o senso comum veraciza o louco como doente mental, indigno de crédito: “Estas concepções tiveram e tem relevância pública e, através delas, as interações humanas e a organização social se estruturam desta ou daquela maneira.”

Tendo o senso comum, de relevância pública, conceituado e veracizado a loucura como sendo doença, a sociedade moderna: “institucionalizou tratamento e propulsionou toda uma sistemática em torno dela, desde laboratórios e centros especializados de estudos até a formação de profissionais, desenvolvimento de drogas, medicamentos, aparelhagens e instalações (como os hospícios), produção organizada e literatura específica, etc.”.

Oriundos de novos consensos de relevância pública há infindáveis e irrefreáveis desdobramentos de novas realidades (para os idosos, os deficientes, os homossexuais, os obesos, etc.).

A ratio, passível de ser manipulada pelo jogo de interesses daqueles que detém poder, aponta e respalda o que é (ou não) de relevância pública. Cria e justifica a necessidade de incluir ou banir o que quer que seja do convívio social: “(...) todo movimento de veracização de algo subsiste pela articulação dos jogos de poder. E aqui não nos referimos ao poder político ‘stricto sensu’, mas a todo jogo em que alguns indivíduos ou grupos que por eles se desvela, revela e testemunha. É um jogo de convencimento, ao qual pertencem, inclusive, todas as formas de competição.”

Obviamente, os meios de comunicação de massa estão a serviço da veracização. Algo tomado por ‘verdade’ pelo senso comum, torna-se ‘real’. E a realidade tangencia e conduz nada menos que o próprio destino da humanidade.

Sobre a autenticação, que é a última etapa no movimento de realização da realidade, convém esclarecer que, diferente do testemunho e da veracização, ela é obra do próprio indivíduo: “É através de cada homem que o que aparece tem sua mais plena alternativa de se tornar real. E de se tornar real para outros.”

A singularidade (pessoal e intransferível) é de vital importância para o conhecimento. Quem, por fim, valida ou não a existência de Deus, por exemplo, independente do que quer que tenha sido veracizado, é um indivíduo particular: “Daí que todas as coisas de que falamos, com que temos contato, de que ouvimos falar ou compreendemos só chegam a ser consistentes pela experiência individual. Experiência que não está embasada pelo raciocínio ou pelo entendimento intelectual, mas passa pelo crivo do sentir. Por isso dizemos que Deus só tem consistência pela fé de alguém.” A razão veraciza, mas quem autentica é a sensibilidade.

Para além de combustível do eterno embate entre Individual X Coletivo, o particular e o universal, onde um não resiste, sequer existe, sem o outro, para a fenomenologia, cabe ao Homem, por um breve e irrepetível instante, vivenciar a grandeza desse magnânimo estatuto divino: Ser o que É.

Em memória do distinto Dr. José Antônio Batistela*
(*) Vizinho, Dr. Batistela, faleceu em 22 de agosto, aos 72 anos, vítima de câncer no pulmão. Foi sepultado neste dia, às 16h30min. No mesmo horário, a porta de vidro temperado da ESDC estourou, algo que nunca havia acontecido antes, em todo o Edifício. Observamos que um cartaz, fixado em sua porta, informava: “Fechado por motivo de LUTO”. Este advento foi desvelado, revelado e testemunhado por três pessoas: eu, Profª Elaine Vessoni e D. Sueli Arrechi. Embora a sociedade ainda não veracize a presença de “Espíritos”, todas nós autenticamos a evidência deste inusitado e intrigante advento.

1 de ago. de 2011

As 5 Etapas do Movimento de Realização da Realidade - Parte I


“A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras.
Elas são nossa única realidade ou, pelo menos,
o único testemunho de nossa realidade". Octavio Paz

O que torna a realidade ‘real’? Em sua obra “Analítica do Sentido – Uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica”, Dulce Critelli, profunda estudiosa do filósofo existencialista Martin Heidegger (vide artigo abaixo, publicado em nosso Blog: http://www.lucienefelix.blogspot.com ), nos esclarece sobre a realidade e seu movimento de realização.

De acordo com esta corrente filosófica, a condição sine qua non para que algo seja percebido, ou seja ‘exista’, é a luz (do grego, phós). Luz, tanto do ser e dos seres que são e se dão a perceber, quanto do olhar humano “que se institui como sua clareira”, seu lugar de aparição.

Mas, embora seja o indivíduo quem vê, seu olhar não é individual. Existimos com os demais, ou seja, compartilhamos uma coexistência e esse ser-no-mundo com os outros, além de fundamentar e possibilitar o conhecimento é igualmente, fundamento para o aparecimento dos entes: “O olhar do homem é constituído por sua coexistência, que, como tal, é fundamento do movimento de fenomenização dos entes e do fenômeno.”, afirma Critelli.

Como não somos sós, é a coexistência que fundamenta o movimento fenomênico do mostrar-se/ocultar-se dos entes em seu ser, o ‘acontecimento’: “Pois é desde o que acontece que a possibilidade ontológica pode ser compreendida como possibilidade e, portanto, como fundamento desse acontecimento”, diz a autora.

Dessa forma, por estarmos concretamente no mundo com os outros, situados geográfica e historicamente (datados no tempo), instaura-se nosso duplo caráter, que é o de ser “o lugar, ou a clareira onde o ente pode manifestar-se para um olhar e, ao mesmo tempo, ser o olhar, ou a iluminação que provê esta mesma manifestação”.

Para que algo ‘apareça’ é necessário que tenha como origem a iluminação daquele que percebe, recolhe, apanha, e que esse apanhado seja compartilhado numa coexistência, cuja função é justamente permitir este mostrar-se fenomênico.

Em termos de realidade, é sendo um ser-no-mundo com os outros que o fenômeno É. Quando o ente aparece, ele já foi forjado como real. As coisas não se mostram primeiro para somente depois serem convertidas em realidade: “(...) a própria percepção de algo pressupõe que esse algo tenha sido o resultante de um movimento de realização”.

Chamamos a atenção para o fato de que esse movimento de realização, que é o que permite a aparição dos entes, “cujo fundamento e desdobramento são atemporais, existenciais e não meramente metodológicos” difere da compreensão metafísica.

Enquanto para a metafísica há o Ser (inapreensível), para a fenomenologia, isso não é absolutamente definitivo: muito do que não se abarcava antes, hoje é perfeitamente compreensível; do mesmo modo, há muito por ser revelado. Assim, metafísica e fenomenologia existencialista, diferem sobre a interpretação do que seja o real, a realidade.

Fenomenologicamente, o que torna os seres reais é:

1) Quando desocultado por alguém: desvelamento,
2) Ser acolhido e expresso através de uma linguagem: revelação,
3) Quando visto e ouvido por outros: testemunho,
4) Quando o testemunhado é referendado como verdadeiro por sua relevância pública: veracização e,
5) Uma vez publicamente veracizado, algo é efetivado em sua consistência através da vivência afetiva e singular dos indivíduos: autenticação.

Em virtude de limite, por ora, discorreremos sobre as duas primeiras etapas, ou seja, até o momento em que a existência de OVNI's e fantasmas (ou almas d’outro mundo) é possível: desvelamento (desocultamento) e revelação (palavra).

Desvelamento: enquanto as coisas não forem expostas à luz e desveladas (retirado o véu) por alguém, permanecem no reino do nada, ocultas. Mas o que for trazido à luz não permanece, necessariamente, desvelado para sempre, tampouco do mesmo modo.

Um exemplo dessa mutabilidade é a crença que os antigos gregos tinham de que a natureza era presidida por divindades. A ‘desocultação’ (desvelamento) dessas forças vitais se alteraram ao longo de nossa existência: “É toda uma trama de organização social, histórica, coexistencial que se estabelece a partir de cada uma dessas perspectivas.” Outrora deuses, ora arquétipos (junguiano), ora razão, etc., antes, pertenciam ao reino do nada e ansiavam pelo desvelamento.

Para o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), essas forças vitais abrangem todas as ações históricas (ele denomina de “Razão Absoluta”), nem míticas tampouco religiosas, mas algo “determinante, quase fatal, – irreprimível.” Universais e com poder de engendramento, nos movem, mesmo que não tenhamos consciência ou controle sobre elas: “(...) transcendem nossa mera vontade, posição, nosso saber e controle objetivo das situações.” É uma possibilidade.

Para a fenomenologia existencialista, o ente também se mostra quando volta para o escuro, para o reino do nada e fica encoberto. Também pode ser ignorado, esquecido, desentendido (compreendido e, depois, desaprendido) e até, por distração, ocultado.

O aparecimento das facetas ocultas dos entes se dá à luz do tempo do existir e não necessariamente do esforço racional e cognitivo: “A volta para o velamento que constitui o mostrar-se dos entes, o encobrimento de suas facetas, não é nada negativo, mas essencial.” Velar, esquecer, torna a existência mais suportável.

As coisas não se revelam no total de suas possibilidades, mas totalmente em uma de suas possibilidades: “Este movimento é existencial, temporal.” E o que aparece precisa de alguma duração para que possa chegar à realização: “A chance de conservação da faceta ou da possibilidade desvelada da coisa está dada pela linguagem.”

É a linguagem. Sendo assim, será NA e PELA palavra que o que foi desvelado dos entes poderá ser exposto. Daí, adentramos à 2ª etapa desse ciclo de movimento de realização da realidade:

Revelação: Confirmamos e conservamos a manifestação do que aparece através da fala: “A palavra é o duplo do ser”, diz o filósofo Merleau-Ponty. “A linguagem é a casa do ser”, afirma Heidegger.

A condição para que algo exista é poder ser apresentado pela linguagem. As coisas são através da fala. Do que não se fala sequer se cogita a existência. Mesmo que exista, não sendo verbalizado, não é satisfatoriamente revelado.

Nos relatos míticos, temos a união entre o criador e a criação por meio das palavras: “Através do falar, na existência humana, é que o ser das coisas pode ser veiculado. (...) Essa é a função dos argumentos, das teorias: a reunião dos significados das coisas, a fim de exibi-las em seu sentido, em seus nexos e possibilidades ininterruptas de aparecimento.”

Registrar conserva: “O desocultado precisa ser expresso em alguma linguagem para chegar a mais primária forma de aparecimento e manifestação.” Desvelar é comunicar, tornando comum. E é na linguagem que o significado das coisas pode ser trazido à tona.

O portentoso estatuto da palavra deve-se ao fato dela acolher, guardar, conservar e expor o ser que, fora delas, “podem estar por ai, mas não são o que são e como são.” A comunicação é fundamental para a revelação, para tornar os homens ‘humanizados’ e para possibilitar o terceiro momento no movimento de realização, que é o testemunhar.

Sem testemunho, o que foi desvelado e revelado se esvai, dissolve-se, dissipa-se, não se sustenta. Para a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), o principal atributo do mundo é o fato de ele ser percebido em comum por todos nós.

Testemunhar, veracizar e autenticar são temas de nosso próximo encontro.

* Confira aqui como os bastidores da política e da economia internacional são desvelados, revelados e testemunhados: http://blogdoklebers.blogspot.com/


Dia 25 de agosto (5ª feira) - Tema: "Os 7 Pecados Capitais".
Pré-requisito: leitura prévia deste artigo (vide no final do Blog).

ATENÇÃO:

Em virtude da Palestra a ser proferida pelo Prof. dr. Alberto Bernabé, da Universidade Complutense de Madrid, um dos maiores estudiosos, hoje, do orfismo, virá a São Paulo para fazer conferências sobre o assunto, inclusive com as novidades que surgiram em novas tablitas encontradas nas últimas décadas em escavações, transferimos a data de nosso Café filosófico para o dia 25 de agosto, no mesmo horário.

Dia 18 (próx. 5ª feira), às 15 e às 19h: “La filosofía como iniciación órfica
Local: PUC-SP - Auditório, ao lado da Biblioteca do prédio novo.
Related Posts with Thumbnails

ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!


Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br