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1 de nov. de 2011

NIETZSCHE - Culpa, Castigo e... Festa?

"Conhece-te a ti mesmo" - "Nada em excesso"
"Não prometa o que não sabe se poderá cumprir"

Das três mensagens no frontispício do Oráculo do deus da saúde e da harmonia, Apolo, foram encontrados somente fragmentos dessa última.

Dentre os temas tão caros à Psicologia, ao Direito e à História Contemporânea, por exemplo, na Segunda Dissertação de sua obra “A genealogia da moral”, o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) esmiuçará a origem da culpa e do castigo culminando numa festa.

O homem é um ser que promete e, pelo porte da promessa que julga estar apto em poder cumprir, se afirma, equipara e entrelaça seu ego à magnitude de sua capacidade em honrar o compromisso.

Mas também é um ser que se esquece. Justamente por ser dotado dessa capacidade (de esquecer) é que esse mesmo “esquecimento” se transmutará num poder ativo, numa força que educa e disciplina: a memória.

Segundo o autor, devemos procurar aqui a origem da responsabilidade. Prometer, se esquecer e ser assaltado pela memória leva-nos a ponderar: “Esta tarefa de educar e disciplinar um animal que possa fazer promessa pressupõe outra tarefa: a de fazer o homem determinado, uniforme, regular, e, por conseguinte, calculador.” 

Essa proeza coube à moral, num constante e longínquo trabalho, desde a aurora, até o presente de nossa existência: “unicamente, pela moralização dos costumes e pela camisa de força social, chegou o homem a ser realmente calculador.” Assim, pressentimos, prevemos, governamos, tornamo-nos senhores, responsáveis por nossos atos. Observe que essa responsabilidade culminará numa moralidade.

Independente, livre e soberano, o homem que pode prometer é um indivíduo de vontade própria: “possui em si próprio a consciência da liberdade e do poder, o sentimento de ter chegado à perfeição humana.”, aponta.

Por julgarmo-nos merecedores de crédito, não reconhecemos nem nos deixamos limitar pelas coisas que não podemos prometer, noutras palavras, não nos atemos ao imponderável e, seguimos ávidos: “(...) quanta confiança, temor e respeito inspirou o ‘merece (...)”. Julgamo-nos superiores aos demais, os de vontade menos potente.

Assim, o homem ‘livre’, “o senhor de uma vontade vasta e indomável, encontra nessa posse a sua escala de valores; fundado em si próprio, para julgar os outros, respeita ou despreza, e assim como venera os seus semelhantes, os fortes que [igualmente como ele] podem prometer (...)”.

Mas há os que são fortes e prometem como soberanos, somente depois de deliberar, refletir: “(...) que dão a sua palavra como tábua de mármore, que se sentem capaz de cumpri-la, a despeito de tudo, ainda a despeito do ‘destino’ (...)” e há também os fúteis, que prometem levianamente, sem serem verdadeiramente ‘donos’, pois incapazes de cumprir suas promessas.

O filósofo afirma que estar cônscio dessa liberdade rara, “e poder sobre si e o destino chegando às profundidades maiores de seu ser passou ao estado de instinto dominante (...)”. A esse instinto dominante, de: “Responder por si mesmo e responder com orgulho, dizer sim a si mesmo.”, Nietzsche identifica e nomeia ‘consciência’.

A primeva técnica de imprimir memória – mnemotécnica – é terrivelmente eficaz: “Imprime-se algo por meio de fogo para que fique na memória somente o que sempre dói.” É a memória, sobretudo quando choca, machuca, causando perda, a dor, que nos faz cumprir a promessa de não brincar com fogo, não flanar em ruas escuras, enfim, de estar atento aos perigos.

Onde há solenidade, gravidade, mistério e cores sombrias, diz ele, fica um vestígio de espanto, que noutro tempo presidia às transações, aos contratos, às promessas: “o passado, o longínquo, obscuro e cruel passado, ferve em nós quando nos pomos ‘graves’. Noutro tempo, quando o homem julgava necessário criar uma memória, uma recordação, não era sem suplício, sem martírios e sacrifícios cruentos; os mais espantosos holocaustos e os compromissos mais horríveis (como o sacrifício do primogênito), as mutilações mais repugnantes (como a castração), os rituais mais cruéis de todos os cultos religiosos (porque todas as religiões foram em última análise sistemas de crueldade), tudo isso tem a sua origem naquele instinto que descobriu na dor o auxílio mais poderoso da mnemotécnica.”

Certas ideias devem fixar-se indeléveis na memória, diz Nietzsche, a fim de hipnotizar para torná-las inesquecíveis: “o rigor das leis penais permite apreciar especialmente as dificuldades que ela [a memória] experimentou antes de se fazer senhora do esquecimento e para manter presentes na memória destes escravos das paixões e dos desejos algumas exigências primitivas da vida social.” 

Em Nietzsche, o conceito essencial da “culpa” tem sua origem na ideia material de “dívida”. Culpa é dívida; seja finita ou infinita – eterna, – como a que alicerça os dogmas judaico-cristãos.

Já o castigo, “enquanto represália, se desenvolveu independentemente de toda a hipótese de livre-arbítrio e de obrigação”. Somente depois é que o animal homem se humanizou e “começou a distinguir entre ideias muito mais primitivas, por exemplo, ‘de propósito’, ‘por descuido’, ‘por acaso’, ‘com discernimento’, e os seus contrários para pô-los em relação com a severidade do castigo.”

Sendo assim, se hoje temos a ideia de que “o criminoso merece o castigo porque teria podido proceder de outro modo” é devido a uma forma muito tardia e requintada do juízo e da indução, diz o alemão.

Em tempos cegos d‘Outrora, o castigo fora empregado com fúria: “(...) não castigavam o malfeitor porque o julgasse responsável pelo seu ato; nem sequer se admitia que só o culpado devesse ser castigado (...) mas esta cólera é mantida em certos limites e modificada no sentido de que todo o dano encontre de algum modo o seu equivalente, sendo susceptível de compensar-se ao menos por uma dor que sofra o autor do prejuízo.” O ultraje que o dano excita exige reparação.

A ideia de que prejuízo e dor são equivalentes, diz Nietzsche, é tirada das relações contratuais entre credores e devedores “que são tão antigas quanto os processos que, por sua vez, nos levam às formas primitivas da compra e venda, do câmbio, comércio e relações.”

Prometer instaura a memória, compromete: “O devedor, para inspirar confiança na sua promessa de pagamento, para dar uma garantia de sua seriedade, para gravar na sua própria consciência a necessidade de pagamento sob a forma de dever, da obrigação, compromete-se, em virtude de um contrato com o credor, a indenizá-lo, em caso de insolvência, com alguma coisa que ‘possui’ [seu corpo, sua mulher, filhos, sua liberdade, a vida e até seu direito ao sossego e à paz, no túmulo] (...).”

Nesta nefasta forma de compensação (ao invés de dinheiro, bens, etc.), “concedia-se ao credor certa satisfação e gozo à maneira de compensação e pagamento, a satisfação de exercer impunemente o seu poderio com respeito a um ser reduzido à impotência, o deleite ‘de faire le mal pour le plaisir de le faire’, a alegria de tiranizar, e este gozo é tanto mais intenso quanto mais baixa é na escala social a classe do credor, quanto mais humilde é a sua condição, porque então é-lhe mais saboroso o bocado.”

Desconfortável aos espíritos mais modernos, sensíveis, o alemão perturbador constata que “Pelo castigo do devedor, o credor participa do direito de senhor: finalmente chegou a sua vez de saborear uma sensação enobrecedora, de desprezar e maltratar o que esteja por baixo dele (...). A compensação consiste, pois, na promessa e no direito de ser cruel.”

Para Nietzsche, a origem dos conceitos morais de ‘culpa’, ‘consciência’, ‘dever’, ‘santidade do dever’, ‘dor’, encontram-se nessa esfera (da crueldade). A dor compensava as dívidas simplesmente porque “o fazer sofrer causava um prazer imenso à parte prejudicada, que recebia, em compensação além do desprazer do prejuízo, o extraordinário gozo de fazer cobrar – isto era uma verdadeira festa!”.

Por nossa tendência a assumirmo-nos como credores, parece mesmo ser de indisfarçável deleite, cobrar dívidas. É comum testemunharmos quem se disponha a fazê-lo por àqueles que se recusam.

Quanto à ideia de vingança, indagando: “Como é que o fazer sofrer pode ser uma satisfação?”, explica que essa é uma verdade repugnante, sobretudo aos animais domesticados (nós): “(...) até que ponto a crueldade era o gozo favorito da humanidade primitiva e entrava como ingrediente em quase todos os seus prazeres, e, por outro lado, quão inocente e cândida parecia esta necessidade de crueldade, esta ‘maldade desinteressada’.”



Revelando algo assaz abjeto, Nietzsche denuncia: “Ver sofrer, alegra; fazer sofrer alegra mais ainda.” E reconhece que há nisto uma frase dura, uma antiga verdade ‘humana, demasiado humana’.

O funesto espetáculo público, que foi a morte do ditador líbio Muamar Gaddafi corrobora-o: “Sem crueldade não há gozo, eis o que nos ensina a mais antiga e remota história do homem; o castigo é também uma festa.” Agora, de dimensões globais.

1 de out. de 2011

NIETZSCHE e o caráter constitutivo de nobreza


“O aristocrata atira para longe muitas imundices com um alçar de ombros que nos outros se gravaria profundamente.” Friedrich Nietzsche

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) é acusado por muitos – sobretudo os que não o leram ou não o compreenderam – de ser “destruidor da moral”, um “filho de satã”. No entanto, ele tributou a Cristo o reconhecimento de ter sido revolucionário, verdadeiro e único cristão.

Corajoso, Nietzsche teve a audácia de colocar a moral num tribunal, examinando as origens e as deturpações do não egoísmo, da compaixão (altruísmo, renúncia, abnegação), sabidamente possuidores de ‘valores em si’, além de questionar a supremacia do Bem sobre o mal, do Bom sobre o mau, na moral vigente em sua época.

Antes de prosseguirmos, uma ressalva: há o MAL, de malignidade, de perversidade mesmo e o MAU que traduz o imperfeito, de má qualidade, inferior, incapaz, sem talento, sem arte (que é o “mau” do mau pintor, do mau ator, do mau advogado, etc.), enfim, do ruim mesmo.

Nietzsche esmiuçará a origem do MAU contrário ao BOM, que é forjado pelos homens, através da linguagem, justamente onde explicitamos nossos valores morais.

Ele estudou uma antiquíssima religião persa, a Zoroastra, do profeta Zaratustra (de quem fará personagem seu, noutra de suas perturbadoras obras). O Zoroastrismo tem como divindade suprema Ahura-Mazda, um deus que abarca em si o bem e o mal. Arqueológico em seus estudos, Nietzsche sempre privilegiou os primórdios: o pré-socrático Heráclito e o tragediógrafo Sófocles inspiraram-lhe.

Convém esclarecer que Nietzsche não é de fácil compreensão: sua escrita não é linear, ele não é dicotômico (apolíneo x dionisíaco) como parece à primeira vista. Em seus textos, dá voltas e voltas, fala por aforismos: afirma, nega, volta a afirmar e a negar. E, se o adágio popular diz que “a verdade dói”, as suspeitas “verdades” que ele lança são, no mínimo, profundamente perturbadoras.

De uma tradicional família de pastores, de religiosos, o alemão foi também um filólogo (estudioso de línguas clássicas) contundente, apaixonado, que revolucionou os alicerces da metafísica socrático-platônica, da religião judaico-cristã e de cânones da História da Filosofia, tornando-se um dos maiores expoentes da filosofia dita “Contemporânea”.

Em “A genealogia da Moral”, Nietzsche confessa que desde os treze anos, na idade em que “Deus e os brinquedos da infância enchem o coração”, teria indagado: “Que origem teria propriamente os conceitos de bem e mal?”. E afirma que, assim que distinguiu o preconceito teológico do preconceito moral deixou de procurar a origem do mal no “além”, detendo-se aqui mesmo, entre os homens, na terra.

Logo depois, diz ter visto esse problema transformar-se neste outro: “De que modo inventou o homem estas apreciações de valor: o bem e o mal? E que valor tem em si mesmas? (...)”.

Para tanto, ele afirma ser necessário conhecer as condições e o meio ambiente em que nasceram, em que se desenvolveram e se deformaram, ou seja, na linguagem, ferramenta habilmente manejada pelos poderosos: “o pathos [estado emocional] da distinção e da distância, o sentimento geral, fundamental e constante de uma raça superior e dominadora, em oposição a uma raça inferior e baixa, determinou a origem da antítese entre ‘bom’ e ‘mau’.”

Foi a deformação dos valores que o intrigou: “a moral como consequência, como máscara, como hipocrisia, como enfermidade ou como equívoco, e também a moral como causa, remédio, estimulante, freio ou veneno”.

Isso porque, diz ele: “Este direito dos senhores de dar nomes vão tão longe que se pode considerar a própria origem da linguagem, como um ato de autoridade que emana dos que dominam. Disseram: ‘Isso é tal coisa’, vincularam a um objeto ou a um fato, tal ou qual vocábulo, e dessa forma tomaram posse dele. De maneira que primitivamente a palavra ‘bom’ não significava ação ‘altruísta’ como imaginam estes genealogistas da moral. Foi antes ao declinar as apreciações aristocráticas quando a antítese ‘egoísta’ e ‘desinteressada’ (altruísta) se apoderou da consciência humana – é para servir-me de minha linguagem instinto de rebanho que veio à tona.”

Com uma pedagogia própria, pioneira, Nietzsche penetrou nos recônditos da linguagem a fim de descobrir “como a besta humana de Darwin estende gentilmente a mão ao humilde efeminado da moral” e roga que àqueles “que estudam a alma ao microscópio, sejam criaturas generosas, valentes, magnânimas, e dignas, que saibam refrear o coração e sacrificar os seus desejos à verdade, a toda a verdade, ainda à verdade simples, repugnante, anticristã e imoral... porque tais verdades existem”.

Disse ter descoberto o método quando se perguntou: “Qual é, segundo a etimologia, o sentido da palavra ‘bom’ nas diversas línguas?”

“Ao princípio – dizem – as ações altruístas foram louvadas e reputadas boas por aqueles a quem eram úteis (...).” Mais tarde, “foi esquecida a origem deste louvor e chamaram-se boas as ações altruístas por costume adquirido da linguagem, como se fossem boas em si mesmas”.

Dessa primeira derivação, diz “encontramos nisto ‘utilidade’, ‘esquecimento’, ‘costume’, e, por fim, ‘erro’, e tudo para servir de base a uma escala de valor que até hoje parecia privilégio dos homens superiores (...)”. Ele discorda, pois nesse estágio, revelará que privilegia os fracos.

Diz ter descoberto que, em todas as línguas, esta palavra deriva de uma transformação de ideias: “descobri que, em toda a parte, a ideia de ‘distinção’, de ‘nobreza’, no sentido de ordem social, é a ideia do ‘bom’ no sentido de ‘distinto quanto à alma’, e a ideia de ‘nobre’ no sentido de ‘privilegiado quanto à alma’. E este desenvolvimento é sempre paralelo à transformação das noções ‘vulgar’, ‘plebeu’, ‘baixo’, finalmente na noção de ‘mau’.

Uma palavra, duas conotações! A palavra grega kairós, por exemplo: diferente da divindade Chronos, que também traduzimos por tempo, mas o cronológico, kairós é o tempo oportuno. Essa palavra foi cunhada no seio da necessidade do guerreiro saber o momento preciso para desferir o golpe certeiro na jugular do inimigo, garantindo assim sua sobrevivência.

No mesmo espírito afirmativo, primitivamente, a palavra “bom”, aptidão do forte também abarcava a conotação da ação julgada “boa” (útil, eficaz) em contraponto à ação “ruim” (inútil, ineficaz) e não à ação “má”, no sentido de maldade.

Desviando-se do significado primevo (“bom” em contraponto ao “ruim”) a ação ‘ruim’, confundiu-se com a má: “o juízo ‘bom’ não emana daqueles a quem se prodigalizou a ‘bondade’. Foram os mesmos ‘bons’, os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram ‘boas’ as suas ações (...) estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo quanto era baixo, mesquinho, vulgar, vilão.”

Através das palavras e raízes que significam ‘bom’, transparece o matiz principal pelo qual os ‘nobres’ se sentiam homens de uma classe superior e se glorificavam: “um traço típico de caráter determina o epíteto (...).”

Com o tempo, na maior parte dos casos, diz ele, os poderosos (os donos, os chefes) tomaram o nome da superioridade do seu poder, ou dos sinais exteriores desta superioridade (os ricos, os possuidores) como rótulo, deformando o teor original, pois o traço típico, o caráter distintivo da nobreza é o de ser verdadeiro: “Chamam-se, por exemplo, ‘os verídicos’; assim se designa a nobreza grega por boca do poeta megárico Theogonis.”

Nietzsche esclarece que “A palavra esdlos significa pela origem ‘alguém que é’, alguém que é real, que é verdadeiro; depois, por uma modificação subjetiva, o verdadeiro vem a ser o verídico: a esta fase de transformação da ideia vemos que a palavra que a expressa vem a ser a contrasenha da nobreza, e toma em absoluto o sentido de ‘nobre’ por oposição ao homem vulgar, ao homem que mente (...).” Quando a nobreza guerreira declina, aquela palavra vem a significar a nobreza da alma.

Na palavra kakós [mau daimon], como em deilos (que designa o plebeu em oposição ao agathos - Bom) está sublinhada a covardia, diz Nietzsche. Covarde é o que mente, é inábil e inútil: “A sua alma é turva, o seu espírito procura os recantos e os mistérios e portas ocultas; todo o culto o encanta; aí acha o seu mundo, a sua segurança, o seu descanso; sabe guardar o silêncio, não esquecer, esperar, fazer pequeno provisoriamente, humilhar-se.”

Tendo a regra transformado o conceito político num conceito psicológico, houve uma diferença entre ‘bom’ e ‘mau’ num sentido não de aptidão, mas de crueldade.

Dizer a verdade é tarefa assumida por afirmativos, fortes, corajosos, sadios, enfim, por nobres: “nós, os aristocratas, nós os bons, os formosos, os felizes.” Tinham o sentimento de serem plena e genuinamente felizes “e não tinham a necessidade de construir artificialmente a sua felicidade, comparando-se com os seus inimigos e enganando-se a si mesmo como faziam os rancorosos; na sua qualidade de homens completos, vigorosos e necessariamente ativos, não acertavam em separar [não separavam] a felicidade da ação – a ação, o lutar, o trabalho é incluído neles necessariamente na felicidade (...).”

Já a mentira é sempre acalentada pelos desprezíveis, fracos, aduladores e doentes que não têm do quê se orgulhar, embora a mentira acabe por transformar fraqueza em mérito: “A covardia, que está sempre à porta do fraco, toma aqui um nome muito sonoro e chama-se: ‘paciência’, chama-se talvez de virtude (...).”

E quanto à felicidade imaginada pelos “impotentes, os obstruídos, os de sentimentos hostis e venenosos (...)”, afirma que difere da felicidade dos nobres, pois “aparece sob a forma de estupefação, de sonho, de repouso, de paz, de sábado, de descanso do espírito, de estender dos ossos.”

Esses invejosos e ressentidos, devido à debilidade senil da vontade sacarão de uma ardilosidade peculiar para realizar uma transvaloração dos valores e impor a “sua” moral: a do pobre coitadinho: “Esta classe de homem na realidade necessita crer num ‘sujeito neutro’ dotado de livre-arbítrio; é um instinto de conservação pessoal, de afirmação de si mesmo porque toda mentira tende a justificar-se”.

Numa inversão de valores, caberá aos ‘bons’ se culparem e se arrependerem tornando-se seguidores de rebanho. Dizer que Nietzsche é polêmico, é redundância. Suas ideias são amedrontadoras: “a finalidade de toda a cultura é domesticar a besta humana.” Prossigamos, há muito a desvelar.

Para o meu pai, que sempre soube ser nobre.

1 de set. de 2011

As 5 Etapas do Movimento de Realização da Realidade - Parte II

Se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente."  Machado de Assis

1. Desvelar – 2. Revelar 3. Testemunhar – 4. Veracizar – 5. Autenticar


Versando sobre o que torna a realidade “real” (vide nosso artigo anterior http://lucienefelix.blogspot.com/2011/08/as-5-etapas-do-movimento-de-realizacao.html) constatamos que, fenomenologicamente, primeiro as coisas são expostas à luz, ou seja, desocultadas (desveladas); depois, faz-se necessário que sejam expressas (reveladas) através da linguagem.

Quando o homem fala, necessariamente, é com outro homem: “O alcance dessa fala é a confirmação da existência e da identidade não só de tudo aquilo com que alguém entra em contato ou desoculta, mas desse mesmo alguém.”, afirma Dulce Critelli. Saber e conhecer, isolada e solitariamente não é o que valida à realidade.

Seja lá o que for que tenha sido “constatado”, ou seja, desvelado e revelado (através da comunicação) deve necessariamente ser visto e ouvido pelos demais (testemunhado): um Advento!

Detenhamo-nos, agora, às três últimas etapas desse processo: Testemunhar – Veracizar – Autenticar.

O que dá lastro à existência real, do que descobrimos e expressamos é o testemunho dos outros (mesmo que discordem do que estamos afirmando). Sermos corroborados evita que sejamos tidos como loucos, dementes, “sem noção”.

Coexistimos! Juntos, desvelamos e revelamos o que algo é: “O outro com quem alguém fala sobre algo não é um mero receptor de uma mensagem, mas seu co-elaborador. Isto é, ele é elemento constituinte da possibilidade desse algo se mostrar.” 

Mas, sem testemunho, o que quer que tenha sido desvelado e revelado se perde, como se a manifestação nunca tivesse aparecido: “Mais, à medida que o compreendido por alguém é testemunhado pelos outros, esses outros não só consolidam a existência daquilo que alguém compreendeu, como também consolidam, ao mesmo tempo, a existência desse alguém que compreendeu algo e trouxe esse algo compreendido para o testemunho”.

Ao testemunhar, os outros participam da realização do ato da realidade: “O testemunho é composto por uma simultaneidade de olhares diversos”. O mero testemunho não implica, necessariamente, juízo de valor: “A abertura do testemunho é [apenas] um trazer algo ao mundo comum como pertencente a ele”.

Mas, além de contarmos com o testemunho dos outros, para que algo seja, de fato, “real”, também se faz necessário que seja referendado como verdadeiro pelo senso comum (não menosprezemo-lo!) por sua relevância pública (veracizado) e, por fim, autenticado, que é o que ocorre quando algo é efetivado em sua consistência através da vivência afetiva e singular dos indivíduos.

Critelli afirma que o que advém ao mundo, no trajeto de sua realização, anseia ser verdadeiro: “Coisa alguma é verdadeira em si mesma, mas veracizada mediante uma referência, um critério, algo que venha de fora dela mesma e a autorize a ser o que é e como é.” 

Até o presente, espíritos desencarnados, extraterrestres (mesmo que testemunhados por alguns – devido a não-permanência num horizonte temporal), jamais foram tidos como ‘reais’. Não passam pelo crivo do 4º passo, que é a veracização.

Um exemplo de veracização é a composição da água. Além do desocultamento (desvelamento) dos elementos (H2O) presentes na água é preciso “um critério comum (a toda uma sociedade e/ou civilização) que considere, no caso, a repetição e a constância dessa mesma composição” o que legitima esta definição.

Por falar em água, o mesmo se dá em relação às nossas sensações e emoções: “Aquilo que um indivíduo sente só chega a ser um sentimento (de medo, vergonha, felicidade, amor, raiva) quando confirmado como tal pelo testemunho de outros.”

No entanto, reconhecemos esses sentimentos como sendo ‘reais’ porque eles já foram demarcados como relevantes e, portanto, existentes (veracizados) do ponto de vista da esfera pública. De todos, ocultamos a inveja que por não ser distinta e nobre, constrange.

Paradoxalmente, algozes e reféns das ‘autoridades’, todos os nossos conceitos a respeito da vida, da convivência cotidiana, foram forjados em sua veracidade por meio de alguma relevância pública, numa esfera exterior, mais ampla: “A própria ciência moderna, para que fosse aceita como saber fidedigno em nossa civilização, dependeu da conquista de sua relevância pública.”

Estejamos cônscios: há uma trama política presente no movimento de veracização de algo. Nesse jogo, que garante as relações imediatas de força e poder, que dá suporte às diversas ideologias, os homens buscam convencerem-se mutuamente das verdades que atribuem às coisas: “Por vezes esse jogo subverte o modo mais plenamente humano de jogá-lo, que é através do discurso ou das palavras [sempre passíveis de manipulação com interesses escusos], e se estabelece por meio da força e da violência.”

Considerando verdade e realidade como sendo elementos indissociáveis, veracizar é submeter ao crivo do que pressupomos guardiã da ‘verdade’: a opinião pública. É o que faz com que algo prevaleça. Mas é do movimento, do vir-a-ser, a dinâmica de erigir. E o que parecia perene, perece.

Tomemos como exemplo, nossa atual concepção de ‘louco’. Honrado noutro momento da história, pois considerado totalmente tomado pelo divino, o louco já foi digno de respeito e reverência. 

Hoje, o senso comum veraciza o louco como doente mental, indigno de crédito: “Estas concepções tiveram e tem relevância pública e, através delas, as interações humanas e a organização social se estruturam desta ou daquela maneira.”

Tendo o senso comum, de relevância pública, conceituado e veracizado a loucura como sendo doença, a sociedade moderna: “institucionalizou tratamento e propulsionou toda uma sistemática em torno dela, desde laboratórios e centros especializados de estudos até a formação de profissionais, desenvolvimento de drogas, medicamentos, aparelhagens e instalações (como os hospícios), produção organizada e literatura específica, etc.”.

Oriundos de novos consensos de relevância pública há infindáveis e irrefreáveis desdobramentos de novas realidades (para os idosos, os deficientes, os homossexuais, os obesos, etc.).

A ratio, passível de ser manipulada pelo jogo de interesses daqueles que detém poder, aponta e respalda o que é (ou não) de relevância pública. Cria e justifica a necessidade de incluir ou banir o que quer que seja do convívio social: “(...) todo movimento de veracização de algo subsiste pela articulação dos jogos de poder. E aqui não nos referimos ao poder político ‘stricto sensu’, mas a todo jogo em que alguns indivíduos ou grupos que por eles se desvela, revela e testemunha. É um jogo de convencimento, ao qual pertencem, inclusive, todas as formas de competição.”

Obviamente, os meios de comunicação de massa estão a serviço da veracização. Algo tomado por ‘verdade’ pelo senso comum, torna-se ‘real’. E a realidade tangencia e conduz nada menos que o próprio destino da humanidade.

Sobre a autenticação, que é a última etapa no movimento de realização da realidade, convém esclarecer que, diferente do testemunho e da veracização, ela é obra do próprio indivíduo: “É através de cada homem que o que aparece tem sua mais plena alternativa de se tornar real. E de se tornar real para outros.”

A singularidade (pessoal e intransferível) é de vital importância para o conhecimento. Quem, por fim, valida ou não a existência de Deus, por exemplo, independente do que quer que tenha sido veracizado, é um indivíduo particular: “Daí que todas as coisas de que falamos, com que temos contato, de que ouvimos falar ou compreendemos só chegam a ser consistentes pela experiência individual. Experiência que não está embasada pelo raciocínio ou pelo entendimento intelectual, mas passa pelo crivo do sentir. Por isso dizemos que Deus só tem consistência pela fé de alguém.” A razão veraciza, mas quem autentica é a sensibilidade.

Para além de combustível do eterno embate entre Individual X Coletivo, o particular e o universal, onde um não resiste, sequer existe, sem o outro, para a fenomenologia, cabe ao Homem, por um breve e irrepetível instante, vivenciar a grandeza desse magnânimo estatuto divino: Ser o que É.

Em memória do distinto Dr. José Antônio Batistela*
(*) Vizinho, Dr. Batistela, faleceu em 22 de agosto, aos 72 anos, vítima de câncer no pulmão. Foi sepultado neste dia, às 16h30min. No mesmo horário, a porta de vidro temperado da ESDC estourou, algo que nunca havia acontecido antes, em todo o Edifício. Observamos que um cartaz, fixado em sua porta, informava: “Fechado por motivo de LUTO”. Este advento foi desvelado, revelado e testemunhado por três pessoas: eu, Profª Elaine Vessoni e D. Sueli Arrechi. Embora a sociedade ainda não veracize a presença de “Espíritos”, todas nós autenticamos a evidência deste inusitado e intrigante advento.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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