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1 de mar. de 2011

A AMIZADE - em Aristóteles e em tempos de Internet

Daniel Silva Bernardes e Sofia Felix Lamy – Foto: Luciene Felix - 2007

“Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.” Pitágoras
"Todas as grandezas desse mundo não valem um bom amigo". Voltaire.
"Os maus só têm cúmplices; os libertinos têm sócios de devastidão; o comum dos homens ociosos têm relações. Os homens virtuosos têm amigos." Voltaire
 
Tão antigo quanto o homem, o sentimento de amizade é uma das experiências mais nobilitantes, gratificantes e prazerosas que podemos desfrutar. Embora, ao longo da vida, amealhemos muitos amigos (de infância, faculdade, de balada, no trabalho, de condomínio, na academia, no jogo, na web etc.), uma amizade sincera e verdadeira, assim como o Amor, requer confiança, intimidade e constância que não coaduna com quantidade.

Se antes, diante da lembrança de um amigo, podíamos precisar até a gradação de importância em nossas vidas (foi excepcional ou razoavelmente meu amigo em tal época), nos atuais tempos virtuais (sites, blogs, redes sociais, sms, etc.) o conceito de amizade revela-se amplamente dilatado. Mas...

O que é um amigo? Como se inicia uma amizade? O que buscamos e o que as amizades nos proporcionam? O que é necessário à manutenção da amizade? Com quantos amigos fiéis podemos contar [e igualmente, podem contar conosco]? O que possibilita a amizade entre pessoas aparentemente desiguais [em poder, riqueza ou erudição]? Quando convém romper uma amizade?

Nos Livros VIII e IX de “Ética a Nicômacos”, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) se deteve a essas questões. A amizade, diz o estagirita, além de ser um sentimento extremamente necessário à vida é também uma forma de excelência moral.

De fato, ninguém deseja viver sem amigos e os ricos, importantes e poderosos são os que mais precisam: “(...) de que serve a prosperidade sem a oportunidade de fazer benefícios (...) aos amigos?”.

Ele afirma que uma disposição amistosa é a mais autêntica forma de justiça, chamando a atenção para o fato de que “quando as pessoas são amigas não tem necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade”. De fato, quantos litígios não seriam evitados: havendo amizade, não haveria alienação parental, por exemplo.

Um espelho que ajuda a tornarmo-nos melhores: “Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolver em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos.” dizia Sócrates.

Dentre as dádivas de se ter amigos, Aristóteles cita a proteção na pobreza e noutros infortúnios, no quanto orienta os jovens a evitar os erros e ampara aos idosos, ressaltando que com amigos bons, pensamos e agimos melhor.

Amigo é semelhante, outro “eu” e uma amizade tem início com a manifestação de uma boa intenção natural diante de pessoas que nunca vimos, mas que julgamos boas ou prestativas. Havendo reciprocidade, estarão estabelecidos os pressupostos de uma amizade.

Ele argumenta que somente a amizade segundo a virtude é perfeita e que, por não existir somente um único tipo de amizade, pessoas más também podem ser “amigas” (apropriadamente, entre aspas). De outras pessoas más, de pessoas boas e até mesmo daquelas que não são nem uma coisa nem outra.

O “Pai da lógica” explica que dentre as coisas que merecem ser amadas estão “o que é bom, ou agradável, ou útil”.

Analogamente, afirma que uma afeição recíproca pode basear-se numa ou todas essas três qualidades: amor, prazer e interesse. Sendo assim, as pessoas amam o que parece bom, agradável ou, no caso do mero interesse, o útil.

Assim como um Amor, puro, sincero e verdadeiro, pode ter início por simples prazer e evoluir para uma plenitude mais intensa e profunda, o sentimento de amizade também pode começar de um jeito e evoluir para outro. Sentimentos se alteraram ao longo da convivência.

Útil é aquilo do que resulta n’algum bem ou prazer e, embora somente o bom e o agradável mereçam ser amados como fins [em si mesmo], são devido ao “útil” e ao “prazeroso” que nosso círculo de amizades se torna cada vez maior (a web promove essa elástica expansividade).

Denominamos “amigos” meros conhecidos, amigos de amigos e até simpáticos desconhecidos que interagem conosco na Internet. Com todo o demos (povo) conectado, nada mais democrático!

Nas amizades por prazer, não é pelo bom caráter que gostamos das pessoas espirituosas – sequer as conhecemos tanto – mas porque são afáveis, acolhedoras, aprazíveis: “as pessoas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que amam, mas porque ela é útil ou agradável.”

O certo é que hoje fazemos amizades num clique. Mas amizades desse tipo são apenas “acidentais”: “um desejo de amizade pode manifestar-se instantaneamente, mas a amizade não pode”, diz o estagirita.

Tais ‘amizades’ se desfazem facilmente, pois se as pessoas não permanecem o tempo todo como no início (úteis para os interesseiros ou agradáveis para os que buscam prazer), a amizade arrefece, esfria e por fim, acaba porque a utilidade não é uma qualidade permanente. Como dissemos acima, prazeres e interesses mudam.

Amizades por interesse cessam tão logo o proveito acabe. Não havia estima sincera, mas empenho em se aproveitar: “as pessoas que amam as outras por interesse amam por causa do que é bom para si mesmas” diz Aristóteles.

Cultivar amizades exclusivamente por interesse é para pessoas mercenárias, narcisistas e egoístas, que só visam extrair proveito próprio.

Devido à possibilidade de se desfrutar prazeres e interesses comuns é que pode haver amizade entre pessoas dessemelhantes, inclusive más: “(...) pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenha algum proveito recíproco” alerta. Digite “Muammar Khadafi (ou Gaddafi)” no Google Imagens e surpreenda-se com amizades inimagináveis. Ou não, como diria Caetano.

Amizades por interesse (tão ordinárias entre chefes de Estado e tão corriqueiras entre arrivistas e alpinistas sociais) e por prazer (tão comum entre os jovens e os volúveis) podem ser muitas, pois são igualmente inúmeras as pessoas agradáveis e/ou úteis: “e os benefícios que elas propiciam podem ser fruídos dentro de pouco tempo”. Observamos que pessoas inescrupulosas sabem ser agradabilíssimas quando lhes convém.

Ele chama a atenção para o fato de que, mais reticentes, as pessoas idosas priorizam o útil em detrimento do agradável ou prazeroso. E por sequer se acharem mutuamente agradáveis, preferem os que gozam de vigor e plenitude da qual possam tirar algum proveito.

Já nos mais jovens, o prazer está entre os maiores motivos de amizades, pois “vivem sob a influência das emoções e perseguem acima de tudo o que lhes é agradável e o que está presente”. São amorosos, mas também inconstantes, se tornam e deixam de serem amigos rapidamente, no mesmo dia até.

Sentir prazer na “com-vivência” é uma das características mais marcantes duma amizade. Além de agirem de modo parecido, pessoas boas também são reciprocamente úteis, agradáveis e prazerosas, ou seja, reúnem em si todas as qualidades que os amigos devem ter. Não necessariamente excludentes, bondade, dom de agradar e certa utilidade quando “se manifesta com vistas a objetivos nobilitantes” também se fazem presentes nas amizades deste naipe.

Amizades entre semelhantes em termos de excelência moral, entre aqueles que admiram a virtude e o comportamento ético um do outro, resistem à distância, ao tempo, às fofocas e calúnias: “não é fácil dar crédito ao que diz qualquer um acerca de uma pessoa que foi posta à prova durante muito tempo”. Essas amizades perduram. Porque bom caráter é algo duradouro.

Reza a lenda, que Sócrates ao ser indagado sobre o que Glaucon falava dele, perguntou ao interlocutor: Você já passou o que me vai falar pela peneira da verdade? Já passou pela peneira da bondade? Já passou pela peneira da utilidade? E com a sabedoria que atravessa séculos disse: “Se você não sabe se é verdade, bom ou útil... então, não somente peço que não me conte, mas imploro que esqueça!”. Um virtuoso jamais propaga maledicências.

Assim como não há como amar intensa e apaixonadamente várias pessoas ao mesmo tempo, não há como ser amigo íntimo de muitos: “ambas as partes devem adquirir experiência recíproca e tornar-se íntimas, e isto é muito difícil”, diz Aristóteles.

Nas amizades fundadas no amor e na admiração mútua, amigos rejubilam-se pelo sucesso do outro, vivenciam a alegria como se fosse própria (inexistente em português, a palavra grega para esse nobilitante sentimento é synkhairía - antônimo de inveja).

Nos entristecemos, nos sentimos abandonados e frustrados quando os “amigos” desdenham nossas vitórias. O sucesso de um semelhante só incomoda aos de espírito mesquinho.

Sabemos que somente os verdadeiros amigos se comprazem, se deleitam por nossas alegrias e são solidários diante de nossos fracassos.

Além de confirmar quem são os verdadeiros amigos, o sucesso é também uma forma de atrair interesseiros e angariar invejosos inimigos. Para ilustrar, relembro uma narrativa já postada (vide neste Blog "Os Sete Pecados Capitais"). Na Hélade, precisamente em Atenas, periodicamente os cidadãos eram chamados a, secretamente, escrever o nome de uma pessoa que gostariam que fosse expulsa da cidade num caco de cerâmica chamado “ostrakon”.

Se determinado indivíduo tivesse seu nome registrado muitas vezes, ele era simplesmente expulso da cidade. O período de ostracismo durava cerca de dez anos. Para quem se recusasse a pena era a morte.

Certa vez, um nobilíssimo e muito distinto cidadão ao flagrar seu nome sendo escrito indagou: “O que ele fez para que escrevas seu nome”? – o outro cidadão respondeu: “Nada. É que não suporto mais ouvir falarem tão bem dele”.

Fiéis e verdadeiros amigos indignam-se, manifestam-se e protestam com veemência quando testemunham um virtuoso amigo sendo alvo de injustiça. Sem titubear, defendem-no com vigor.

Indivíduos de tal alma são poucos e é natural que uma amizade assim seja rara. Requer tempo e intimidade para que se possa demonstrar que são dignas da amizade, para conquistar “o sentimento de que uma nunca fará mal à outra”, isto é, confiança!

Pessoas de mau caráter, amarguradas, maledicentes, ressentidas e indelicadas não parecem propensas a amizades e é provável que se ressintam da falta de verdadeiros amigos: “(...) ninguém pode passar seus dias com pessoas cuja companhia é constrangedora ou não é agradável, já que a natureza parece evitar mais que tudo o penoso e buscar o agradável”, diz o Filósofo.

Sendo assim, deve-se romper uma amizade quando uma das partes se distancia excessivamente da outra, até porque, se o acaso, “o destino decide quem vamos encontrar na vida. As atitudes decidem quem fica”.

Democrática par excellence, amizade verdadeira dá-se entre os que se assemelham e, pressupondo igualdade em termos de virtudes éticas, por mais díspares que possam parecer é acalentada entre ricos e pobres, eruditos e ignorantes, jovens e idosos, corinthianos, são paulinos, palmeirenses e santistas.

Somente os iguais em excelência moral compartilham de uma amizade perfeita. Basta, parafraseando Kant: O céu estrelado sobre nós, a Lei moral dentro de nós e, no caso das amizades virtuais, um teclado diante de nós.


Reais ou virtuais dedico estas linhas a todos meus virtuosos amigos,
desejando-lhes que os deuses os protejam e que os abençoem sempre.

3 de jan. de 2011

Retórica e Ética - Sócrates x Górgias


“(...) se todos tivessem memória sobre os acontecimentos do passado, o conhecimento do presente, e a vidência do futuro, o poder do discurso não seria tão relevante”. Górgias


O brilhante e respeitável cidadão Górgias de Leontinos (485-375 a.C.) é considerado por Platão, criador e personificação da arte da retórica. Eminente sofista (sábio), insistia em ser chamado apenas de retórico. Certamente o mais hábil Mestre nessa "arte", vide seu famoso "Elogio a Helena".

Rhetor é o que profere e quem fala age, é sujeito de ação. Segundo Werner Jaeger (Paidéia – a Formação do Homem Grego), é o nome para designar o estadista que num regime democrático precisa, sobretudo, ser orador. E na Grécia de sua época, praticamente sinônimo, ser cidadão era exercer a política.

No discurso sobre a arte da retórica intitulado “Górgias”, Sócrates dialogará com este oponente de peso, seu pupilo Polo e o Estadista Calicles.

Dentre sérios apontamentos, lamentará que não se ensine a virtude (a Ética – Ethos = hábito, daí habitat) política “por não existirem especialistas dela que fizessem profissão do seu conhecimento” e explica porque o Estado deve ser governado por um educador moral.

Certamente, o sujeito que age (que fala e tem o poder de persuadir e decidir por muitos), deveria perseguir ilibada conduta moral, que é a ética na vida privada. Caráter conferia valor, por isso as imagens cunhadas das moedas atenienses. E moral se trazia de casa: note-se que a palavra "moral" em grego é escrita apenas acrescentando-se a letra "h" (eta) antes de casa (oikós).

Sócrates começa desvendando a essência da retórica: “é a capacidade de sugerir aos ouvintes uma mera aparência de certeza e de sugestionar a massa ignorante, com o encanto daquela aparência sedutora, em vez de convencê-la pela verdade”.

Górgias diz que é “uma prova da grandeza da sua arte que ela erga a simples força da palavra à posição de instância decisiva no mais importante de todos os campos da vida, o da política”. Mas disso não temos dúvida.

O discurso adequado confere poder a quem o profere. O poder, sobretudo nos domínios político-econômicos é o objeto desta arte. E Sócrates anseia por fazer ver o perigo do abuso deste poder.

Ligeiros, seus oponentes indagam: se um atleta usar sua força física para estrangular pai e mãe, quem poderá culpar seu treinador? Pressupomos que tanto mestres (treinadores) quanto discípulos (atletas) saibam o que é bom e justo.

Para a retórica são indiferentes as questões morais, daí sua má fama. Um Rhetor do calibre de um Górgias é capaz de (não diria inocentar) justificar até um monstro como Roger Abdelmassih, confirme como maneja com maestria esse seu "brinquedo" (o brincar tem significativa conotação no mundo antigo) em  "Elogio a Helena".

A máscara cai quando a retórica se arvora a instrumento de techné (habilidade, saber, aptidão, prática, especialidade, técnica) como "arte". A isso Sócrates refuta, pois a verdadeira techné, como sendo "arte" implica Areté (excelência).

O estadista Calicles declara o direito do mais forte como moral suprema, afinal, assim é a natureza. E esses antigos "ouviam" a "lei" da natureza. Metafísico, Sócrates apresenta a retórica política como “a imagem ilusória de uma verdadeira [techné] arte, que por sua vez faz parte da verdadeira arte do Estado”.

Ele diz que a vida do Homem divide-se em vida da alma e vida do corpo e cada uma dessas instâncias requer uma arte (techné) a velar por elas. O cuidado da alma cabe ao Estado (pólis/política) e o cuidado do corpo cabe à ginástica.

Obviamente pode haver a alma sadia e a doente; E pode existir também o corpo, saudável ou enfermo.

O ramo da política que vela pela alma sã é a legislação: “enquanto a alma enferma reclama os cuidados da administração prática da justiça”, vide as penas judiciais.

Igualmente, da manutenção do corpo apto, se encarrega a ginástica e a cuidar do corpo doente, está a Medicina.

Sócrates afirma que estas quatro artes [legislação, justiça, ginástica e Medicina] encaminham-se para a consecução do melhor e para a conservação da alma e do corpo.

A cada uma dessas variantes, ele faz corresponder quatro imagens ilusórias a embotar o Homem:

1) à legislação, a sofística;
2) à justiça, a retórica;
3) à ginástica, à “arte” da perfumaria (cirurgias plásticas, botox, etc.) e,
4) à Medicina, a “arte” culinária (chás e canjas de galinha?)

Estas variantes, segundo ele, não tem como télos (objetivo, propósito) a consecução do melhor no Homem, mas aspiram somente a lhe agradar. Está demarcado o lugar da retórica: para a alma humana é o equivalente à arte culinária para o corpo, não constitui verdadeira techné.

Toda techné tende para o melhor, indicando a sua relação em ordem a um valor e, em última instância, ao mais alto de todos os valores: o Bem.

A arte da retórica é de grande influência na política porque: “A ânsia de poder é uma tendência enraizada fundo demais na natureza humana. Mas, se o poder é uma coisa grande, terá de se reconhecer que a força que nos ajuda a obtê-lo tem suma importância também”.

No estado de natureza, o Homem obtém o poder pela força. É a lei do mais forte a subjugar o mais fraco. Héracles (Hércules) se apropria dos bois de Gerião: “os bens dos fracos são por natureza presa do forte”.

No Estado governado pelos mestres da retórica, fortes são aqueles cujo discurso comove e convence. Se não forem éticos, deixar-se-ão pautar pelo mesmíssimo princípio que rege o enlameado em estado de natureza: injustamente (do ponto de vista lógico), vence o mais forte.

Será tido como ‘natural’ que, com o aval do Estado (políticos), as manobras econômicas, com suas vantagens sedutoras, ocultando perigos, escravizem injustamente a grande massa de geriões.

A arte da persuasão como instrumento da vontade de poder, movida pela cobiça e falta de escrúpulos só pode ser enfrentada por uma Paidéia (educação) acalentada no seio do próprio Estado. Sócrates opõe a filosofia da educação à filosofia da força.

Enxergava nessa Paidéia o critério da felicidade humana, contida na kalokagathia (amor belo) do justo.

O conceito que Calicles tem da natureza do Homem, e que serve à sua teoria do direito do mais forte, baseia-se na rasa equiparação do bom ao que é agradável e dá prazer.

Há o que é justo no sentido da natureza e o que é justo segundo a lei. E o que é justo na natureza coincide com o que proporciona prazer.

Deturpada a legislação, o mais forte agora é o retórico, devendo, portanto, dominar: “O problema é saber se também o homem que nasceu para dominar deverá dominar a si próprio”. Eis a fonte da luz de onde emana a força do brilho do laureado.

Assim como o corpo tem seu cosmos (ordem) que é a saúde, também na alma existe uma ordem: “denominamos lei e baseiam-se na justiça, no domínio de si próprios e no que chamamos virtudes”. A Alma ordena que se persiga a “Lei”.

Certamente, isso não compete, tampouco acomete a muitos. Os justos trazem a marca dos bons hábitos que se traduz por um bom habitat (Éthos).

O Estado deve diferenciar-se da massa hedonista, pois para esta “o bom coincide com o que é agradável aos sentidos”. E qual seria a conduta humana que a multidão adotaria se, em seu conceito, o melhor tipo de vida é a agradável e prazerosa?

Dialético, Sócrates exige que as sensações de prazer sejam divididas em boas e más: o bom não é igual ao agradável [é bom adquirir uma formação, mas nem sempre é agradável locomover-se diariamente, por anos a fio e cumprir as tarefas inerentes ao curso] nem o mau ao desagradável”. De fato, cabular aulas, por exemplo, é um mal muitas vezes prazeroso.

O conceito de opção da vontade e do objetivo final da vontade se apresentará como sendo o Bem. Luta-se contra a apaideusia, que é a ignorância quanto aos bens supremos da vida, aponta Jaeger.

Eis a verdadeira magnitude do Ethos moral de Sócrates, ele “rasga completamente o véu que cobre o abismo cavado entre ele e o hedonismo”.

A grandeza de um estadista não deve estar em satisfazer seus próprios apetites e os da massa, mas em “infundir às suas obras um determinado eidos (forma) tão perfeito quanto possível”, analisa Werner Jaeger.

A justa medida, a moderação, a harmonia (sophrosyne) se faz presente em todas as virtudes e a alma refletida e disciplinada é a alma boa.

Segundo o estudioso, a palavra grega “bom” (agatós) abarca o sentido ético (toda ética é estética e política, diz Platão) e é o adjetivo correspondente ao substantivo Areté, designando toda a classe de virtude ou excelência.

Se compreendermos excelência em sentido grego, algo como ser o melhor possível naquilo que se é, imagine o que seria a excelência em ética, senão o Bem, o Belo e o Justo? Bondade, Beleza e Justiça.

Justiça, afirma Sócrates, é a harmonia que faz corresponder a virtude humana à virtude cívica. Quando se divorciam, o Estado se degenera, torna-se indigno de sua autoridade.

Enquanto não atentarmos a isso, os que não buscam excelência em ética e ignoram os bens supremos da vida [opção e objetivo final da vontade corrompida], quando fortes [e a arte da retórica fortifica] continuarão a deter o poder político-econômico. Apropriar-se-ão e gerirão como bem entendem os parcos e árduos bens de Gerião.

Saiba mais sobre como desenvolver a arte da retórica (mas seja ético!) num capítulo especialmente dedicado a isso em:



Tomás de Aquino ensinava que o amor propicia maior grau de união com o objeto amado do que a razão com o objeto conhecido. Em virtude disso, que somos mais capazes de conhecer quando amamos, pois a intimidade revela o que nossa razão é incapaz de perceber.

Dessa forma, dedico esse trabalho às pessoas que cotidianamente revelam novas realidades para meu ser: minha amada esposa Luciene, meus amados filhos Sofia e Théo.
Obrigado,
Marcelo Lamy

Na Livraria Cultura, Saraiva e na própria editora Elsevier: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22353994&sid=662497141121117126095841960&k5=63C6EA2&uid=

1 de dez. de 2010

O que é dialética?


"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê." Platão

Do nascimento ao último suspiro, pautada por ininterrupta atividade cerebral, toda nossa vida é diálogo, ou seja, se dá através do embate de lógos.

Havendo ou não interlocutor, mesmo emudecidos, a sós, pensando "com nossos botões”, nos valemos de operações mentais constantes, das mais simples às mais sofisticadas para, com lógica, apanhar, separar, escolher, distinguir e classificar o que nos chega através dos sentidos e que brota de nossa ratio.

Cotidianamente recorremos à dialógica (via de duplo lógos: é; não é. sim; não. talvez, etc.), seja para optar por um meio de transporte, eleger (ou recusar) um afeto, buscar a mais adequada moradia, obter um título ou cargo profissional, escolher a gravata ou, mais prosaico ainda, ao preferir entre açúcar ou adoçante. Podendo também, desprezando a ambos, tomá-lo "puro".

A dialética, no entanto, não recai apenas sobre problemas lógico-cotidianos, mas também sobre os epistemológicos (teoria do conhecimento), bem como sobre os metafísicos (ontologia – ciência do ser enquanto ser) e isso não é de pouca monta, em Filosofia torna-a pedra angular.

Dialética é movimento do lógos a respeito de algo. A dificuldade de se conceituar com precisão esta palavra deve-se ao caráter polissêmico do vocábulo, ou seja, dialética abarca mais de um significado. Armand Cuvillier salienta que: “(...) esse termo se tornou tão equívoco que é necessário precisar sempre em que sentido se está a empregá-lo”. Academicamente é "método". E o que é um método?

A palavra grega hodós significa caminho (daí rodovia, rodoviária, rodoanel etc.) e metà significa acima, além (da phýsis, natureza). Método, então, acaba por significar (met+hodós = caminho superior, correto) “percurso feito obedecendo a regras e normas intelectuais”. Assim, dialética pode ser conceituada genericamente como “um” método para se alcançar algo superior.

Dentre os primevos dialektikós citamos: Parmênides, Zenão, Heráclito, Sócrates, Platão, os sofistas (Górgias, Trasímaco, Protágoras, cujo método dialético é melhor esclarecido no link abaixo) e Plotino, cuja dialética prenunciará a moderna hegeliana.

Para Aristóteles, o pré-socrático Zenão de Eléia (cerca de 460 a.C.) é o criador da dialética. Mas ele não a utilizava para descobrir a verdade ou provar algo, usava-a simplesmente para refutar e triunfar sobre seus adversários, apontando as falsidades.

O método dialético socrático, por sua vez, subdivide-se em duas partes: a destrutiva ironia (pergunta), que revela a ignorância do interlocutor e a construtiva maiêutica (parto) que “dá à luz” ideias novas. Assim, irônico e maiêutico, Sócrates destrói, reconstrói; destrói, reconstrói sucessivamente, chegando muitas vezes a uma aporia (a=negação + poros=saída).

Como exemplo de uma aporia, Sócrates indagaria a um transeunte: “O que é a beleza?”. E este, hoje, talvez respondesse: “Ah, a beleza... não sei dizer, mas Gisele Bündchen é bela”. E ele prosseguiria: Um cavalo também pode ser belo?”. E o interlocutor apressado: “Claro que sim”. E o Filósofo com insistência: “E uma panela, uma panela também pode ser bela?”. E seu conhecido já impaciente: “Sim, pode haver também a bela panela”. Sócrates então pergunta: “E o que há em comum entre Gisele, um cavalo e uma panela?”. Desconcertante, assim era Sócrates.

Mas, se com a dialética (dialektiké), Zenão revelava a falsidade do discurso e Sócrates chegava a uma aporia, seu discípulo Platão (427 a.C. – 347 a.C.) vai além de uma técnica discursiva, intentando nada mais, nada menos que descobrir a verdade.

Aperfeiçoando a maiêutica, ele desenvolverá seu método dialético ascendente, que possibilitará alcançar a verdade e o Bem. Platão iniciaria a marcha do lógos rumo à verdade buscando sucessivas intuições do pensamento, contrapondo teses e antíteses, afirmações e negações até se aproximar o máximo possível da essência (ousía) do que persegue.

No mito da caverna (vide artigo já postado neste Blog), por exemplo, Platão insiste que devemos resistir às percepções sensíveis (dos sentidos), pois são as ideias puras e inteligíveis que, invariáveis, permanecem sendo, mesmo diante da mutabilidade dos fenômenos particulares.

Assim, no exemplo acima, confirma que o que há em comum nos seres de nosso mundo sensível (Gisele, certo cavalo e determinada panela) é a presença de uma arché (arquiterura, comando principial) de harmonia, equilíbrio, proporção, simetria, eqüidade.

Estes elementos presentificam a ideia, o Ideal da beleza em si. Perecíveis, Giseles, cavalos e panelas passam. Platão busca o Belo eterno, não o contingente. Sua dialética torna-se ferramenta de ascensão à verdade, à beleza, à justiça e ao Bem.

Com a dialética, diz Werner Jaeger “(...) o homem se liberta, pela primeira vez, das amarras do conhecimento sensível, das aparências sensíveis das coisas e descobre na inteligência o órgão para chegar à compreensão da totalidade do ser”.

Mas a dialética não é somente um modelo normativo. É retórico e também ideológico. E chegará a ser um "sistema", como veremos oportunamente.

Sendo o lógos uma ferramenta altamente capaz de advogar contra ou a favor de quem e do que quer que seja, convém versarmos quanto à origem da dialektiké techné (arte da dialética) e sua expansão.

De berço aristocrático, – pois quem detinha a palavra na Ágora (praça pública) eram os aristóis (os bem-nascidos, mais bem educados), – a arte da dialética é um produto social humano, de genealogia elitista.

Até então, estavam excluídos os iletrados (analfabetos), os escravos, os estrangeiros (metecos), as mulheres, as crianças e os incapazes (idiotas), aos quais era vedada participação na vida pública.

Com a ascenção dos metecos (estrangeiros, geralmente comerciantes) que devido à nova dynamis (potência) dos oikósnomós (economia, que é a norma, a lei do lar, da pólis), promoveram a figura do sophistès (sábios), foi desenvolvida e aprimorada a techné (arte), criando a arte da retórica, do bem dizer.

Assim advém a pólis: da necessidade de se organizar as regras de aquisição e administração das riquezas (economia) que surge e alcança pujança com a presença e o poder dos mercadores (metecos/estrangeiros), reflexo da própria vida em comunidade, que se expande e consome.

De fato, em comum, compartilhamos e negociamos recursos (naturais, tecnológicos, humanos, etc.) e carências. Além de valores, nascedouro da Justiça. A política pública advém da organização econômica que reflete anseios e normas privadas.

Conforme o método “palavra filosófico-científica por excelência”, a dialética incorporará caráter mais ou menos ideológico, em conformidade com os interesses daqueles que desfrutam ou intentam desfrutar do kratós (poder) político, na pólis.

Seja um método para apontar falsidades, desaguar em aporias, descortinar verdades, convencer e encantar (retórica), demonstrar ideias estruturantes ou mesmo desenvolver perguntas científicas, a dialética constitui um dos instrumentais mais elaborados para a evolução ininterrupta do pensamento. Fascinante.

Fundamental a todos àqueles que, em socorro dos injustiçados, zelam pela justiça, foi também graças a ela, à dialética, que instantaneamente, você decidiu que leria este texto.

Saiba mais:


Marcelo Lamy em “Metodologia da Pesquisa Jurídica: Técnicas de Investigação, Argumentação e Redação” – Ed. Elsevier (2011).


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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br