SE VOCÊ PENSAR, VAI DESCOBRIR QUE TEMOS MUITO A APRENDER.

luciene felix lamy EM ATO!

luciene felix lamy EM ATO!
Desfrute-o com vagar: há + de CEM artigos entre filosofia, literatura, mitologia, comédias e tragédias gregas (veja lista completa logo abaixo, para acessar clique sobre o título).

ELEITO UM DOS MELHORES BLOG'S NA WEB. Gratíssima por seu voto amigo(a)!
Mostrando postagens com marcador Destino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Destino. Mostrar todas as postagens

17 de abr. de 2020

COVID-19: O que há de novo sob o sol?


“Eles têm medo do amor porque o amor cria um mundo que eles não podem controlar". George Orwell.


Não é de hoje que, atônita, a humanidade é surpreendida por moléstias com mortandade em escalas aterrorizantes.

Mas, desde os tempos mais remotos, o que permanece igual e o que mudou na forma com a qual lidamos com essas tragédias?

Democrática, a palavra PANDEMIA reúne todos (pan) + povos (demos).

Na antiguidade, quando algo de nefasto assolava uma comunidade, buscava-se a redenção do “castigo divino” por meio da expiação (reparação) das faltas através do clamor e dos sacrifícios aos deuses.

Um dos exemplos deste “modus vivendi/modus operandi” está na a calamitosa situação de Tebas, trazida pelo mais “raiz” dos tragediógrafos, o monumental Sófocles, em 427 a.C.

Sim, buscar inteligir e barganhar com a metafísica é coisa muito antiga. E, paradoxalmente, atualíssima, como veremos adiante.

O povo, então, se empenhava em identificar e banir o miasma (mancha, mácula), expulsando a provável causa daquilo – melhor dizendo, de quem – os arruinava.

É desse contexto que surge a figura do bode expiatório, literalmente, um clássico.

Avançando mais um pouco até a Idade Média (1347), a Peste Negra (transmitida pelas pulgas dos ratos), também nominada Peste bubônica (as feridas formavam bulbos na pele) impiedosamente dizimou um terço da população europeia.

Nesta, elegeu-se por bode expiatório, dentre outros, os judeus. Na Pandemia que enfrentamos hoje, apressa-se em apontar os chineses e seus suspeitáveis hábitos alimentares.

No entanto, uma vez que alimentação requereria um texto à parte e, talvez, somente os sábios pitagóricos (vegetarianos) estivessem em posição de objetar com propriedade, prossigamos.

Desde os primórdios, evidenciando nossa vulnerabilidade diante da inevitável (a morte), o medo fortifica a Fé.

A fragilidade humana diante da Peste medieval, por significativo período, solidificou (talvez seja apropriado dizer “glorificou”) a Igreja. Mesmo que, no 5º ano de Peste, após obstinado apelo ao povo que confiassem em Deus, grande parte do clero tenha desertado, causando imensa revolta na população.

“Gatilho” elevado à máxima potência, a aterrorizante ameaça de morte nos torna mesmo reféns do acaso, da “vontade de Deus”.

Isso é ainda mais dramático, sobretudo, quando estamos cônscios de que nem mesmo uma portentosa e sólida posição social e/ou econômica, garante que a foice nos distinga dos demais.

Evidente, este fato corrobora o desespero com o qual recorremos à metafísica (Fé) em busca do alento que apazigue nossa alma e nos acene com sobrevivência.

A igreja, atacada pela ineficácia diante da Peste, mas já solidificada, passada a tormenta, prosseguiu e, detentora do calendário das feiras (comércio), também impulsionou a economia, promoveu o bem-estar social e patrocinou o Renascimento, tanto nas artes quanto nas ciências, essa última, com tolhedoras ressalvas.

Foi também a Peste medieva que inspirou o poeta florentino Dante Alighieri a escrever “A Divina Comédia: - "Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança.", imprimindo em nossa memória as terríveis e indeléveis imagens do inferno e dos demônios.

Mais adiante, ao final da primeira guerra mundial, fomos novamente assombrados pela Gripe espanhola (1918-1919), que também ceifou mais 50 milhões de vidas, dessa vez, em grande parte do mundo.

Novamente, testemunhamos um significativo avanço na higiene, medicina, enfim, nas Ciências e uma pujante revolução industrial.

O momento atual indica que a dinâmica de nossa relação com as misteriosas Pandemias não mudou muito.

Acompanhe: primeiro, tomados de assalto, incrédulos, ficamos aturdidos.

Na sequência, a obstinada busca, eleição e perseguição do(s) bode(s) expiatório(s), respaldados pela xenofobia, o fanatismo religioso e inúteis divergências políticas.

Em meio a uma Pandemia, como em nenhuma outra circunstância, exceto na guerra, o que dá no mesmo, pois Pandemia é uma guerra da humanidade contra um inimigo comum (invisível), as caóticas sementes da ignorância encontram solo fértil no ódio, o obscurantismo propaga-se com muito mais vigor em meio ao desespero.

Concomitantemente às manifestações xenófobas, ao fervor religioso e discordâncias políticas, advém o confinamento dos contaminados e o distanciamento pessoal, a fim de se resguardar do contágio.

Em seguida, pois, a Peste é apressada, o enterro dos mortos, cujos desfavorecidos, sem acesso sequer a saneamento básico, são sempre em maior número e, por fim, o imediato e vertiginoso salto – quantitativo e qualitativo – em termos de avanços das technai (Ciências), como já estamos testemunhando.

Longe de Tebas, da Peste bubônica e da Gripe espanhola, vivenciamos a Pandemia do Covid-19 do alto do globalizado e, em grande parte imbecilizado Século XXI, cuja população gira em torno de 7 bilhões de almas.

A diferença mais significativa no modo com o qual estamos lidando com a atual Pandemia de Coronavírus talvez esteja no fato de que, extensão de nossas mãos – escravizadas pelo que se passa no cérebro e o que sente no “cuore” –, celular e internet promovem uma nova e desenfreada revolução à La Gutenberg: a produção e propagação instantânea de todo tipo de informação.

Em meio a esse democrático dinamismo digital, com o caos a um clique, a ignorância se alastra com vigor.

Constatamos DESDE o patético fenômeno da “gourmetização da peste”, onde a turba chafurda com gosto na lama da vulgaridade, explicitando o que mais define a multidão, a saber, ausência de pudor, ATÉ a proliferação de uma inimaginável e portentosa rede de solidariedade, digna de nota e enaltecimento.

Obviamente, a bizarrice do "instagramworthy", o esdrúxulo das “lives” ocas permite entrever o quanto tantos estão abandonados ao próprio obscurantismo e de seus seguidores, que os aplaudem, endossando o grotesco, alçando-os ícones no qual se espelhar.

Neste sentido, exceto pela proliferação da estupidez em progressão geométrica, não há nada de novo sob o sol, pois a Peste que vivenciamos nos traz de volta à tragédia, literalmente, uma vez que a tragédia desempenha a si própria diante do público o que, como afirma Aristóteles, suscita terror e piedade.

Felizmente, para toda essa avalanche, há antídoto! Simples, eficaz, gratuito e ao alcance de todos nascidos de mulher: a liberdade e o poder de escolher!

Pois, todavia, reitero, não é somente o trágico império do mau gosto o que salta aos olhos nesta Pandemia pós-moderna; nem tudo é oportunismo e “self-marketing”.

Embora produções cinematográficas recentes, como “O poço” e “Parasitas” tenham nos permitido ponderar sobre o disparate nas condições de vida de bilhões de pessoas neste mundo, é o invisível, distópico e “disruptivo” Covid-19 que ousa rasgar de vez o véu da desumana e perversa desigualdade social, que sufoca e mata sem sujar as mãos.

Mudanças. Decerto, haverá mudanças, como as que já ocorreram nas Pandemias de outrora: na economia, em nossa relação com o consumo, na educação, na relação entre patrões e empregados, nos próprios empregos, no surgimento de novas profissões, nas Ciências, nas medicinas alternativas, e sobretudo na inimaginável celeridade dos avanços tecnológicos, por exemplo.

Mudanças! Até porque, urge minimizar a portentosa demanda por dignidade material e saúde psíquica de tantos seres humanos desafortunadamente desamparados.

Mudanças inacreditáveis, extraordinárias, como as que já estão, de fato, ocorrendo, vide a espetacular rede de solidariedade que têm viralizado e contagiado a tantas boas almas neste mundo.

Não porque ser solidário “pega bem”, fazer doações seja “modinha”, mas porque nossas semelhanças são mais significativas que nossas diferenças, sobretudo na morte, que é o que nos define (mortais, lembra-se?).

Rasa ou profunda, morosa ou veloz, tímida ou mais audaciosa, o fato é que a mudança oriunda da Pandemia do Covid-19 já começou: o “aplicativo” compaixão foi instalado com sucesso.

É por essa APOTEOSE (rumo ao “theós”) que ansiamos desde a aurora dos tempos. Não há mesmo nada de novo sob o céu.

Exceto, essa vontade contagiante de nos tornarmos mais humanos. E então, não seremos só tragédia, mas um verdadeiro ÉPICO!  \o/


Luciene Felix Lamy 
Profa. de Filosofia e Mitologia Greco-romana
WhatsApp (13) 98137-5711

24 de fev. de 2020

CRÍTICA FILME PARASITA - disparidade de moradias

Clicando sobre as imagens, elas ampliam.

Sem dúvida, PARASITA, o filme vencedor do Oscar 2020, dirigido pelo sul coreano Bong Joon-Ho, suscita inúmeros olhares, permitindo alguns recortes interessantes.

Há muitas críticas inteligentes referentes a película, sobretudo no que diz respeito a parte, digamos que, mais técnica: roteiro, direção, fotografia, elenco, etc.


Na presente análise, ponderamos o quanto o ambiente (espaço físico) das moradias influencia na psique, pois a discrepância das casas das duas famílias retratadas no filme é um dos vieses que mais chama a atenção.

Sábio, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche afirmou que para viver bem é preciso saber escolher onde morar, o que comer e com quem se relacionar. Sem dúvida, morar bem é fundamental, mas há quem não tenha opção de escolha.


Desde os primórdios, ainda no tempo das cavernas, após cumprir a função de garantir segurança e privacidade, a moradia evoluiu e se aprimorou cada vez mais, passando a proporcionar conforto e demarcar status social, balizado, sobretudo por localização, metragem, projeto arquitetônico e materiais de acabamento.


A residência talvez seja o mais explícito símbolo de posição numa estratificação social. E, se o que classificamos como sendo moradia de uma classe baixa é passível de divergência, o conceito de como é a habitação de pessoas de alto poder aquisitivo - independente do lugar no mundo - não deixa margem para muitas dúvidas.


Por nos trazer dois exemplos extremos – em termos socioeconômicos –, em PARASITA, a questão da moradia salta aos olhos. Aliás, diríamos que, mais que mero “pano de fundo”, ambas moradias são também protagonistas da trama.

Àquilo que o florentino Nicolau Maquiavel, considerado “Pai” da ciência política moderna, ponderou como sendo a Fortuna, quando evidenciada pelo CEP, não é – graças à Virtù – necessariamente, destino. Ainda mais se atentarmos ao democrático papel da Internet no mundo contemporâneo.


Astúcia e acesso à Internet. Em PARASITA, vemos como os membros da família desfavorecida utiliza desses expedientes – de forma nem sempre ética – para ascender socialmente. 

Graças ao Wi-Fi roubado, aprende-se a dobrar caixas de pizzas, arteterapia, falsificar certificados, mecanismo de direção de um carro Mercedes, etc.

Mas não é sobre a licitude ou não desses atos que versamos, em nosso horizonte está a questão da disparidade das moradias de ambas famílias, algo que, infelizmente, testemunhamos haver em praticamente todo o mundo.

Para compreender que essa diferença é antiga e, infelizmente, eterna, convido o leitor a apreciar o artigo que redigi sobre a teoria tríplice da Alma, onde Platão esclarece AQUI de forma absolutamente clara, lógica, coerente e lúcida porque é uma utopia almejar que sejamos todos iguais. Não, não somos. Jamais seremos. Mas talvez haja algo a ser feito. Prossigamos.

Atentemos ao fato de que, basicamente, o que caracteriza recursos (riqueza/poros) é o ter. Já a pobreza é a falta (penia, daí penúria). Como nos ensina Platão, n’ “O Banquete”, Eros, é fruto de ambos (poros e penia), une, amalgamando àquele que dispõe ao qual falta.


PARASITA expõe o modus vivendi, e, consequentemente, modus operandis evidenciando a relação de interdependência que há entre abastados e desafortunados, o que nos lembra o papel de Eros: um elo a unir o que têm ao qual falta.


Há todo um portentoso extrato social sem acesso à educação que se beneficia da aversão e/ou inépcia dos abastados aos serviços braçais, domésticos.

Esta é uma realidade evidente, sobretudo em países subdesenvolvidos e/ou em desenvolvimento como o nosso Brasil, onde os investimentos governamentais em educação são perfidamente negligenciados.


Em termos de moradia, o rico dispõe de segurança, privacidade, luz, espaço, beleza, ordem, limpeza e conforto. Já ao pobre, falta tudo isso e mais um pouco.

O quanto e até que ponto, o “TER” influência o que somos, o famoso “SER”?

Há uma cena no filme que deixa entrever a resposta, quando o pai da família pobre afirma: “Eles são ricos, mas são legais”, ao que a mulher corrige: “São legais porque são ricos”.

Trata-se de um círculo vicioso, que se retroalimenta. Esse mecanismo pode ser observado também na esfera da miséria, onde paira a angustiante atmosfera de limitações que, coroada pela imundice, eventualmente contribui para a eclosão da impaciência ou até mesmo da violência, além de ser porta larga para saídas ditas mais “fáceis”.


Enquanto que a moradia da família abastada é arquitetonicamente planejada, numa edificação que prioriza a luz, a amplitude dos espaços e o minimalismo, a moradia da família pobre é improvisada, escura, suja e com notório acúmulo de objetos.


Transitar em meio à beleza, a ordem e o frescor, influencia nossas emoções. Seja na casa, seja no corpo, todos nós nos sentimos muito melhor asseados e perfumados. Aliás, a questão do aroma também é basilar em PARASITA.

Causa um profundo (e, às vezes, indizível) mal-estar na psique viver inserido no caos, pois a desordem exterior suscita e também promove certa desordem interior.

Diferente da riqueza, quase sempre clean, iluminada e asséptica, a pobreza convive com indesejáveis insetos, maus odores, tralhas, enfim, inutilidades.


Cabe ressaltar que, ao menos em PARASITA, a união familiar é algo que salta aos olhos em ambas famílias, talvez até mais naquela desfavorecida. Ali são, um por todos e todos por um. 

Não há riqueza maior que contar com o esteio dessa coesão consanguínea. A cumplicidade que permeia toda a família é notória, convivem na pobreza, de ordem material, não de afeto.

Os ricos de hoje diferem dos de outrora (vide a época vitoriana), quando o minimalismo não era a diretriz, algo a se almejar.

Representando a atualidade, oportuna e apropriadamente, o chefe da casa da família abastada trabalha em área tecnológica. A nova elite é vanguardista e seu habitat explicita isso.

Em PARASITA, a mobília (exceto talvez, pelos quartos dos filhos) é composta do mínimo necessário, em contraponto à moradia dos desfavorecidos, visivelmente acumuladores, incluindo os fracassos em suas empreitadas profissionais.


Observamos também que, folgados e espaçosos, quando os pobres têm uma oportunidade de desfrutar do ambiente e das iguarias dos ricos, são bagunceiros, trazendo a anarquia já impressa na alma. E relutam a reconhecer e ajudar seus homóis (iguais).

A contemplação da beleza presente na natureza, como um jardim, são elementos concretos que nos envolvem numa aura benfazeja, impactando beneficamente a nossa vida como um todo.

Embora saibamos que residir numa ampla mansão minimalista não é condição sine-qua-non nem passaporte para a felicidade, é inegável que lutar para morar com dignidade deve ser um ideal almejado, e, claro, alcançado por todos nós.

Como no frontispício do deus grego da saúde e da harmonia, Apolo, no templo de Delfos, aqui também vale o “Nada em excesso”

A justa medida, o métron grego revela-se viável, algo a nos pautar.

Nem 8 nem 80: entre a exuberante residência dos Park e a humilhante moradia da família Kim, entre o preto e o branco, há toda uma gama de nuances perfeitamente dignas, aconchegantes e habitáveis. 

Como a nossa casa, por exemplo, de onde podemos planejar ações que exijam dos políticos - ELEITOS POR NÓS! -, que atentem ao bom uso dos recursos que entregamos sob suas responsabilidades, minimizando tais disparidades. 


Os inteligentes jovens acima merecem isso, todo nosso respeito, atenção e empenho.

Luciene Felix Lamy
Whats (13) 98137-5711




AQUI, o ANTES e o DEPOIS de uma moradia de uma família em Guaianases (Zona Leste de SP) que encontrei através do Facebook.

Abaixo, o prestimoso trabalho de Luciana e Siomara, duas amigas que se dedicam a organizar e deixar sua casa impecável. 



24 de set. de 2019

ABOUT o envelhecer...

Julie Andrews (1935) interpretando a deusa Tétis, mãe do herói Aquiles, no filme Tróia. 
CLIQUE SOBRE A IMAGEM PARA LER MELHOR.


Minha área é Filosofia que, em seus primórdios, entrelaça-se com a mitologia grega.

Quando me debrucei sobre “O Banquete (sobre o Amor)”, de Platão (AQUI), ressaltei: “não é um só”, objeta Pausânias (um dos convidados) que, cingindo a unidade do Amor, subdivide-o (não os excluindo) e hierarquiza-os imediatamente (sim, o lógos hierarquiza!):

Afrodite não é só uma, há a mais velha, Urânia (Celestial) e a Pandêmia (pan = todos e demos = povos). Nesta última [os homens], amam mais o corpo que a alma.

Inevitavelmente, a mais poderosa divindade, Afrodite Pandêmia (a popular, a vulgar) é vencida pelo tempo (Chronos/Saturno), seu temido, invencível e fiel inimigo, obviamente, perde seu poder: 

“Com efeito, ao mesmo tempo em que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava “alça ele o seu voo” (aqui é Platão citando o aedo/poeta Homero), sem respeito a muitas palavras e promessas feitas.

Bom é o amante do caráter, que é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante”.

Pausânias revela, então, duas formas da deusa do amor e da beleza: Afrodite Urânia, associada ao eterno, imortal e Afrodite Pandêmia ao transitório, mortal

Ambas são necessárias, embora sucumbir, dando ênfase à Pandêmia (corpórea, sensível, carnal), desvirtue a pólis (cidade).

Essa Paidéia (pedagogia) tinha no horizonte o desencadeamento da mais famosas das guerras, a de Tróia.

Postulando sobre a questão da velhice, especificamente no que tange às Afrodites na faixa dos 50+ (outrora mais pandêmias, hoje, infelizmente, nem sempre Urânias) a abrangência que essa questão suscita é vasta, pois há o viés filosófico, mitológico, biológico, psíquico (psicanalítico), econômico, cultural, estético, literário, antropológico, midiático, etc. Eis aqui, nosso breve recorte.

Mas, antes, uma piada:


Como não envelhecer? Esquece, pede outra coisa. Aceita que dói menos. Bem, na verdade vai doer de qualquer forma.

Envelhecer é vislumbrar o crepúsculo, é ir despedindo-se da vida. Daí o medo, a paúra em testemunhar a decrepitude do corpo. Mas nosso “canto do cisne”, único, pessoal, intransferível pode ser belíssimo!

Das sujeitas à alteração de Chronos (o deus do Tempo, na mitologia grega; Saturno, na romana), ou seja, TODAS NÓS, MORTAIS, a perda de PODER (cujo objeto simbólico é o “falo”) é causa das maiores angústias.

Psicanaliticamente falando, mulher no lugar da “falta” e homem no lugar da “potência” (dynamis).

Não é de hoje que o prêmio (poder) se dá através do homem (força, afirmação, virilidade), e o processo de envelhecimento exige um realocamento dessa fonte de poder

Atentar a esse mecanismo liberta de nos sentirmos reféns do índice de desejabilidade, nos elevando a outro patamar, ao não menos poderoso terreno da serenidade e da suprema sabedoria: ao de Afrodite Urânia.

Inegavelmente, somos todos escravos da beleza, tanto que, à revelia, o belo atrai, o belo catalisa, é magnético, é quem “manda” em nosso olhar. 

Seja o belo concreto de uma mulher, um cavalo ou uma panela (lembrando Sócrates) e/ou o belo de um ideal (que por métexis, participam a mulher, o cavalo e a panela), o belo de um sentimento ou de uma atitude.

O belo, sobretudo a beleza da juventude, traz em seu bojo, além da “promessa de felicidade” proustiana, o claro indício da capacidade natural (e sobrenatural!) de criar novas vidas, portanto, é notório o poder oriundo da potencial fertilidade feminina. Utilitaristas que somos, o que não gera é inerte.

No entanto, voltando ao Banquete, recordemos as palavras da sábia sacerdotisa Diotima da Mantinéia: há geração nos corpos e geração nas almas!

São diversos os arquétipos (comandos principiais que servem de modelo) primordiais: a Terra (Gaia), a Grande Mãe, a Sábia, a Desbravadora, a Sedutora, a Guardiã do fogo sagrado, etc.

O empoderamento feminino, seja por conta da beleza, da astúcia (ou de ambos) é antigo: Eva, Nefertiti, Helena, Cleópatra, as bíblicas Maria Madalena, Judite e Salomé, as estadistas Golda Meir, Margareth Thatcher e Ângela Merkel, além das mitológicas Afrodite (Vênus), Athena (Minerva) e Hera (Juno), soberana do Olimpo.

Enquanto viventes, estamos atreladas ao nosso corpo, mortal, sujeito à corrupção de Chronos (o Tempo devora tudo o que cria) e ele, o corpo, é também condição “sine qua non” para que nos manifestemos.

É dos argumentos a favor da aceitação (que pode ou não ser precedida por negação, raiva e barganha) dos efeitos da decrepitude neste corpo que ponderamos.

Pois bem, considerando que este corpo é veículo perecível e que após meio século de vida (tenho no horizonte a expectativa de vida em torno de 80 anos) os sinais de Geres (a velhice) vão se intensificando e se impondo, cabe a nós, fazendo uso da “ratio” (razão), ponderarmos sobre a ressignificação que a manifestação deste corpo – no tempo, no espaço – requer, que pode vir a ter.

Sim, analógicas e digitais, além de vivenciarmos o que foi "cair a ficha" nos orelhões das esquinas da vida, temos Instagram, um armário abarrotado, além dessas décadas "extra"! 

Talvez ainda não estejamos sabendo lidar muito bem com isso. "Nada em excesso", roga o frontispício do Oráculo do deus Apolo, em Delfos.

É mais comum uma jovem de trinta anos achar-se “velha” (coisas do 1º Regresso de Saturno) que uma senhora de 50+ aceitar interditos à sua faixa etária.


Ageless é o nome da nova onda que, se não estiver sob o escrutínio do bom senso revelará algo de forçosamente hipócrita ou fake.

Convém discernimento para separar o joio do trigo: ageless é grande conquista para o emprego de todo esse gás (Nietzsche denominou de “vontade de potência”) que ainda dispomos, para adotarmos o confortável (jamais desleixado) estilo normcore (código de vestir “normal”), atentar ao mindfulness e se reinventar desbravando novos mundos, na medida do possível.

Como todo e qualquer pharmakón, ageless é um bom paliativo (bora dropar essa onda!), uma vez que Thánatos não tem cura.

No mundo pós-moderno, nossas ações não se resumem mais às questões de cunho moral binário, no sentido “certo X errado”, mas de sentir se aquilo que Homero denominou os “phrenas” manifesta-se ou não em nosso íntimo; é um mundo favorável a nos tornarmos “patetikós”.

Sim, já vivenciamos o ápice do vigor de nossa juventude, de nossos vinte, trinta anos!

Corremos, focamos, nos dedicamos e cumprimos inúmeras tarefas, trabalhamos muito. Vivenciamos anseios, dúvidas, angústias, enfrentamos desafios, superamos provações.

Carregamos a árdua e imperativa tarefa de escolher – com mais ou menos liberdade – nosso destino em várias esferas da vida: do ponto de vista profissional e também amoroso, afetivo. Provavelmente até mais de uma vez.

Optamos por gerar ou não nossos filhos. Por cultivar ou não afetos, por priorizar ou não galgar elevadas posições, obter destaque na sociedade. 

Isso às quais coube tal escolha, pois sabemos que, infelizmente, a muitas mulheres a natureza biológica ou a limitação socioeconômica vetou tais liberdades.

Para nós, na faixa 50+, talvez as duas últimas décadas talvez tenham sido mesmo as de maior empenho de nossa parte pelo “Outro”, quando estivemos absortas, fazendo o que podíamos por nossa carreira e pela família, tanto a que originamos quanto àquela que nos originou.

Foram muitos os encontros e desencontros, todos edificando nosso caráter, nos jantares, nas festinhas, batizados, aniversários e ceias natalinas. Ah, os afetos alinhavados enquanto estávamos entretidas na criação de nossa prole. “Velhos tempos; belos dias! ”.

E fizemos! Meu Deus, como fizemos!

Mas eis que chega esse momento de reavaliação das principais ações, que nos ocupou e preocupou por décadas, essa faixa, a dos 50+ na qual nos flagramos prostradas diante de nós mesmas, inquirindo perplexas:

“Então, fiz, agi como conforme meu meio social, minha época, a cultura e os valores vigentes pautavam. Mas.... É só isso? Agora é afogar no mar do vazio, da opacidade, da ausência de desejos e, pior, coroando todas essas angustiantes indagações, velar a decrepitude do corpo, resignar-me? ”.

Toda essa avalanche de questionamentos (o que elenquei acima foi somente um exemplo dos que podem vir a surgir), acompanhados da sensação de inutilidade, é fruto do que realmente?

De não determos mais o poder de gerar?

Mas já geramos. Ou optamos por não gerar, antes mesmo que o aplicativo do interdito biológico (menopausa) se instalasse.

Da expectativa de levarmos a cabo (e bem) a tarefa de educar, preparando a prole para a vida?

Mas já os encaminhamos!

De não saber o que mais fazer? Ah, desejante homo-faber!

Bem, de praxe, equiparamos o Ser ao fazer. “O que você faz? ” Culturalmente é com a resposta a esta pergunta que definimos a nós mesmas e aos demais.

E sequer havia necessidade de algo reconhecidamente brilhante ou extraordinário para uma resposta legitimamente satisfatória, que nos definisse, bastava um simples “cuido da casa; zelo pela família, os filhos, o marido, o lar. ”

Há algo mais distinto e moralmente positivo do que responder assim, com toda honra e toda glória?

Eis que a guardiã do fogo dos antepassados, do lar, a deusa Héstia (Vesta, para os romanos) nos empodera, meninas!

Claro, muitas de nós conquistaram um papel de inegável destaque no seio social: Mãe de Família! Há título mais respeitoso?

Tão virtuoso que eclipsa até o de uma cientista que se dedique à cura do câncer, por exemplo. Para cada dez mães de família, uma cientista bastaria. O contrário, talvez não.

Porque, vamos combinar de falar a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, por conta do que o Pai da Psicanálise, Sigmund Freud denominou “desamparo estrutural”, a maternidade – apropriadamente – reivindica para si a maior glória do mundo. Sem [boas] Mães não há sequer seres humanos. Ponto.

No entanto, contudo, todavia, à medida em que o Tempo passa (Oh, Chronos impiedoso!), a capacidade (leia-se PODER) de gerar se extingue, os filhos gerados crescem, saem de casa, vão eles próprios buscar seus caminhos e, vem a angústia, a síndrome do “ninho vazio” (no vídeo abaixo o psicanalista Paulo Gaudêncio chama de "síndrome das mães desempregadas").

Também pode haver a cama vazia, o bolso vazio e, talvez, ainda mais danoso: a cabeça vazia.

Amor. Desejo. Voltemos ao início, à deusa da beleza e do amor, Afrodite (Vênus), a potestade com a qual iniciamos essa prosa.

Amar/desejar SEMPRE dá um sentido para a vida, um propósito para o viver.

Amar a si mesma. Amar aos filhos. Amar o que se faz. Quanto aos demais, compreender talvez já seja o suficiente.

Pois bem, compreender aos pais, aos irmãos, aos amigos, àqueles que – à revelia ou não – o acaso colocou em nosso caminho.

O filósofo grego pré-socrático Heráclito de Éfesos dizia: “O tempo é criança brincando, de criança o reinado.”. Entreter! Entretemo-nos e enriqueçamo-nos com as mundanidades que agradam aos nossos olhos, que edificam e enobrecem a nossa alma!

Temos Dante, Victor Hugo, Dostoievski, Shakespeare, Guimarães Rosa e Machado de Assis (temos as séries no NetFlix!); temos a beleza das flores e da decoração dos ambientes, os bons odores, as artes, as viagens, as amizades, a solidariedade, o curso de idioma, de danças de salão, as atividades tão prosaicas, cotidianas e por isso mesmo, tão salutares; as sofisticações gastronômicas, os carteados semanais, a caminhadinha diária.

Temos toda uma desfavorecida e, portanto, necessitada humanidade à nossa volta para olhar e fazer, homo faber!

Mas tal qual a birrenta imatura que se recusa a passar o bastão, o cedro, ansiando por uma irrealizável imortalidade, não nos enxergamos em todas as dimensões, pomos em relevo as rugas, a flacidez e o prateado dos cabelos. Nós mesmas nos limitamos a isso, míopes à grandiosidade do Cosmos, à Afrodite Urânia em nós.


É tão feio assim, envelhecer? Contemple a enfermeira polonesa Irena Sendler (imagem acima) e veja o quão bela – no corpo e na alma! – uma mulher bondosa e sábia pode ser.

Como boa e prática chronida que sou (Capricórnio), francamente, rebelar-se contra o invencível Chronos é pura perda de (e para o) tempo. Mire lá em cima, no alto, a plateia agora é outra, capisce?

Desfrutar profunda e serenamente o crepúsculo que já se avizinha, usufruir destas preciosas últimas décadas de vida (Oh, dádiva!) com lucidez, gratidão e sobretudo com ALTIVEZ é, sim, uma belíssima saída possível.

Saída. Foi o que escrevi, pois sairemos. Que seja de forma digna e honrada, como convém aos sábios. 


luciene felix lamy
Whats (13) 98137-5711




Acima, esclarecendo sobre "Afrodite Urânia e Pandêmia", do renascentista veneziano Tiziano Vecellio, na Galleria Borghese, em Roma. TURMAS ANUAIS, http://cursodemitologiaemroma.blogspot.com/


No vídeo abaixo, minha singela homenagem à Sabia que tive a honra de conhecer: a psicanalista Anna Verônica Mautner (1935-2019). Confira mais vídeos dela no YouTube. 





Related Posts with Thumbnails

ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!


Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br