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1 de set. de 2011

As 5 Etapas do Movimento de Realização da Realidade - Parte II

Se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente."  Machado de Assis

1. Desvelar – 2. Revelar – 3. Testemunhar – 4. Veracizar – 5. Autenticar


Versando sobre o que torna a realidade “real” (vide nosso artigo anterior http://lucienefelix.blogspot.com/2011/08/as-5-etapas-do-movimento-de-realizacao.html) constatamos que, fenomenologicamente, primeiro as coisas são expostas à luz, ou seja, desocultadas (desveladas); depois, faz-se necessário que sejam expressas (reveladas) através da linguagem.

Quando o homem fala, necessariamente, é com outro homem: “O alcance dessa fala é a confirmação da existência e da identidade não só de tudo aquilo com que alguém entra em contato ou desoculta, mas desse mesmo alguém.”, afirma Dulce Critelli. Saber e conhecer, isolada e solitariamente não é o que valida à realidade.

Seja lá o que for que tenha sido “constatado”, ou seja, desvelado e revelado (através da comunicação) deve necessariamente ser visto e ouvido pelos demais (testemunhado): um Advento!

Detenhamo-nos, agora, às três últimas etapas desse processo: Testemunhar – Veracizar – Autenticar.

O que dá lastro à existência real, do que descobrimos e expressamos é o testemunho dos outros (mesmo que discordem do que estamos afirmando). Sermos corroborados evita que sejamos tidos como loucos, dementes, “sem noção”.

Coexistimos! Juntos, desvelamos e revelamos o que algo é: “O outro com quem alguém fala sobre algo não é um mero receptor de uma mensagem, mas seu co-elaborador. Isto é, ele é elemento constituinte da possibilidade desse algo se mostrar.” 

Mas, sem testemunho, o que quer que tenha sido desvelado e revelado se perde, como se a manifestação nunca tivesse aparecido: “Mais, à medida que o compreendido por alguém é testemunhado pelos outros, esses outros não só consolidam a existência daquilo que alguém compreendeu, como também consolidam, ao mesmo tempo, a existência desse alguém que compreendeu algo e trouxe esse algo compreendido para o testemunho”.

Ao testemunhar, os outros participam da realização do ato da realidade: “O testemunho é composto por uma simultaneidade de olhares diversos”. O mero testemunho não implica, necessariamente, juízo de valor: “A abertura do testemunho é [apenas] um trazer algo ao mundo comum como pertencente a ele”.

Mas, além de contarmos com o testemunho dos outros, para que algo seja, de fato, “real”, também se faz necessário que seja referendado como verdadeiro pelo senso comum (não menosprezemo-lo!) por sua relevância pública (veracizado) e, por fim, autenticado, que é o que ocorre quando algo é efetivado em sua consistência através da vivência afetiva e singular dos indivíduos.

Critelli afirma que o que advém ao mundo, no trajeto de sua realização, anseia ser verdadeiro: “Coisa alguma é verdadeira em si mesma, mas veracizada mediante uma referência, um critério, algo que venha de fora dela mesma e a autorize a ser o que é e como é.” 

Até o presente, espíritos desencarnados, extraterrestres (mesmo que testemunhados por alguns – devido a não-permanência num horizonte temporal), jamais foram tidos como ‘reais’. Não passam pelo crivo do 4º passo, que é a veracização.

Um exemplo de veracização é a composição da água. Além do desocultamento (desvelamento) dos elementos (H2O) presentes na água é preciso “um critério comum (a toda uma sociedade e/ou civilização) que considere, no caso, a repetição e a constância dessa mesma composição” o que legitima esta definição.

Por falar em água, o mesmo se dá em relação às nossas sensações e emoções: “Aquilo que um indivíduo sente só chega a ser um sentimento (de medo, vergonha, felicidade, amor, raiva) quando confirmado como tal pelo testemunho de outros.”

No entanto, reconhecemos esses sentimentos como sendo ‘reais’ porque eles já foram demarcados como relevantes e, portanto, existentes (veracizados) do ponto de vista da esfera pública. De todos, ocultamos a inveja que por não ser distinta e nobre, constrange.

Paradoxalmente, algozes e reféns das ‘autoridades’, todos os nossos conceitos a respeito da vida, da convivência cotidiana, foram forjados em sua veracidade por meio de alguma relevância pública, numa esfera exterior, mais ampla: “A própria ciência moderna, para que fosse aceita como saber fidedigno em nossa civilização, dependeu da conquista de sua relevância pública.”

Estejamos cônscios: há uma trama política presente no movimento de veracização de algo. Nesse jogo, que garante as relações imediatas de força e poder, que dá suporte às diversas ideologias, os homens buscam convencerem-se mutuamente das verdades que atribuem às coisas: “Por vezes esse jogo subverte o modo mais plenamente humano de jogá-lo, que é através do discurso ou das palavras [sempre passíveis de manipulação com interesses escusos], e se estabelece por meio da força e da violência.”

Considerando verdade e realidade como sendo elementos indissociáveis, veracizar é submeter ao crivo do que pressupomos guardiã da ‘verdade’: a opinião pública. É o que faz com que algo prevaleça. Mas é do movimento, do vir-a-ser, a dinâmica de erigir. E o que parecia perene, perece.

Tomemos como exemplo, nossa atual concepção de ‘louco’. Honrado noutro momento da história, pois considerado totalmente tomado pelo divino, o louco já foi digno de respeito e reverência. 

Hoje, o senso comum veraciza o louco como doente mental, indigno de crédito: “Estas concepções tiveram e tem relevância pública e, através delas, as interações humanas e a organização social se estruturam desta ou daquela maneira.”

Tendo o senso comum, de relevância pública, conceituado e veracizado a loucura como sendo doença, a sociedade moderna: “institucionalizou tratamento e propulsionou toda uma sistemática em torno dela, desde laboratórios e centros especializados de estudos até a formação de profissionais, desenvolvimento de drogas, medicamentos, aparelhagens e instalações (como os hospícios), produção organizada e literatura específica, etc.”.

Oriundos de novos consensos de relevância pública há infindáveis e irrefreáveis desdobramentos de novas realidades (para os idosos, os deficientes, os homossexuais, os obesos, etc.).

A ratio, passível de ser manipulada pelo jogo de interesses daqueles que detém poder, aponta e respalda o que é (ou não) de relevância pública. Cria e justifica a necessidade de incluir ou banir o que quer que seja do convívio social: “(...) todo movimento de veracização de algo subsiste pela articulação dos jogos de poder. E aqui não nos referimos ao poder político ‘stricto sensu’, mas a todo jogo em que alguns indivíduos ou grupos que por eles se desvela, revela e testemunha. É um jogo de convencimento, ao qual pertencem, inclusive, todas as formas de competição.”

Obviamente, os meios de comunicação de massa estão a serviço da veracização. Algo tomado por ‘verdade’ pelo senso comum, torna-se ‘real’. E a realidade tangencia e conduz nada menos que o próprio destino da humanidade.

Sobre a autenticação, que é a última etapa no movimento de realização da realidade, convém esclarecer que, diferente do testemunho e da veracização, ela é obra do próprio indivíduo: “É através de cada homem que o que aparece tem sua mais plena alternativa de se tornar real. E de se tornar real para outros.”

A singularidade (pessoal e intransferível) é de vital importância para o conhecimento. Quem, por fim, valida ou não a existência de Deus, por exemplo, independente do que quer que tenha sido veracizado, é um indivíduo particular: “Daí que todas as coisas de que falamos, com que temos contato, de que ouvimos falar ou compreendemos só chegam a ser consistentes pela experiência individual. Experiência que não está embasada pelo raciocínio ou pelo entendimento intelectual, mas passa pelo crivo do sentir. Por isso dizemos que Deus só tem consistência pela fé de alguém.” A razão veraciza, mas quem autentica é a sensibilidade.

Para além de combustível do eterno embate entre Individual X Coletivo, o particular e o universal, onde um não resiste, sequer existe, sem o outro, para a fenomenologia, cabe ao Homem, por um breve e irrepetível instante, vivenciar a grandeza desse magnânimo estatuto divino: Ser o que É.

Em memória do distinto Dr. José Antônio Batistela*
(*) Vizinho, Dr. Batistela, faleceu em 22 de agosto, aos 72 anos, vítima de câncer no pulmão. Foi sepultado neste dia, às 16h30min. No mesmo horário, a porta de vidro temperado da ESDC estourou, algo que nunca havia acontecido antes, em todo o Edifício. Observamos que um cartaz, fixado em sua porta, informava: “Fechado por motivo de LUTO”. Este advento foi desvelado, revelado e testemunhado por três pessoas: eu, Profª Elaine Vessoni e D. Sueli Arrechi. Embora a sociedade ainda não veracize a presença de “Espíritos”, todas nós autenticamos a evidência deste inusitado e intrigante advento.

1 de ago. de 2011

As 5 Etapas do Movimento de Realização da Realidade - Parte I


“A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras.
Elas são nossa única realidade ou, pelo menos,
o único testemunho de nossa realidade". Octavio Paz

O que torna a realidade ‘real’? Em sua obra “Analítica do Sentido – Uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica”, Dulce Critelli, profunda estudiosa do filósofo existencialista Martin Heidegger (vide artigo abaixo, publicado em nosso Blog: http://www.lucienefelix.blogspot.com ), nos esclarece sobre a realidade e seu movimento de realização.

De acordo com esta corrente filosófica, a condição sine qua non para que algo seja percebido, ou seja ‘exista’, é a luz (do grego, phós). Luz, tanto do ser e dos seres que são e se dão a perceber, quanto do olhar humano “que se institui como sua clareira”, seu lugar de aparição.

Mas, embora seja o indivíduo quem vê, seu olhar não é individual. Existimos com os demais, ou seja, compartilhamos uma coexistência e esse ser-no-mundo com os outros, além de fundamentar e possibilitar o conhecimento é igualmente, fundamento para o aparecimento dos entes: “O olhar do homem é constituído por sua coexistência, que, como tal, é fundamento do movimento de fenomenização dos entes e do fenômeno.”, afirma Critelli.

Como não somos sós, é a coexistência que fundamenta o movimento fenomênico do mostrar-se/ocultar-se dos entes em seu ser, o ‘acontecimento’: “Pois é desde o que acontece que a possibilidade ontológica pode ser compreendida como possibilidade e, portanto, como fundamento desse acontecimento”, diz a autora.

Dessa forma, por estarmos concretamente no mundo com os outros, situados geográfica e historicamente (datados no tempo), instaura-se nosso duplo caráter, que é o de ser “o lugar, ou a clareira onde o ente pode manifestar-se para um olhar e, ao mesmo tempo, ser o olhar, ou a iluminação que provê esta mesma manifestação”.

Para que algo ‘apareça’ é necessário que tenha como origem a iluminação daquele que percebe, recolhe, apanha, e que esse apanhado seja compartilhado numa coexistência, cuja função é justamente permitir este mostrar-se fenomênico.

Em termos de realidade, é sendo um ser-no-mundo com os outros que o fenômeno É. Quando o ente aparece, ele já foi forjado como real. As coisas não se mostram primeiro para somente depois serem convertidas em realidade: “(...) a própria percepção de algo pressupõe que esse algo tenha sido o resultante de um movimento de realização”.

Chamamos a atenção para o fato de que esse movimento de realização, que é o que permite a aparição dos entes, “cujo fundamento e desdobramento são atemporais, existenciais e não meramente metodológicos” difere da compreensão metafísica.

Enquanto para a metafísica há o Ser (inapreensível), para a fenomenologia, isso não é absolutamente definitivo: muito do que não se abarcava antes, hoje é perfeitamente compreensível; do mesmo modo, há muito por ser revelado. Assim, metafísica e fenomenologia existencialista, diferem sobre a interpretação do que seja o real, a realidade.

Fenomenologicamente, o que torna os seres reais é:

1) Quando desocultado por alguém: desvelamento,
2) Ser acolhido e expresso através de uma linguagem: revelação,
3) Quando visto e ouvido por outros: testemunho,
4) Quando o testemunhado é referendado como verdadeiro por sua relevância pública: veracização e,
5) Uma vez publicamente veracizado, algo é efetivado em sua consistência através da vivência afetiva e singular dos indivíduos: autenticação.

Em virtude de limite, por ora, discorreremos sobre as duas primeiras etapas, ou seja, até o momento em que a existência de OVNI's e fantasmas (ou almas d’outro mundo) é possível: desvelamento (desocultamento) e revelação (palavra).

Desvelamento: enquanto as coisas não forem expostas à luz e desveladas (retirado o véu) por alguém, permanecem no reino do nada, ocultas. Mas o que for trazido à luz não permanece, necessariamente, desvelado para sempre, tampouco do mesmo modo.

Um exemplo dessa mutabilidade é a crença que os antigos gregos tinham de que a natureza era presidida por divindades. A ‘desocultação’ (desvelamento) dessas forças vitais se alteraram ao longo de nossa existência: “É toda uma trama de organização social, histórica, coexistencial que se estabelece a partir de cada uma dessas perspectivas.” Outrora deuses, ora arquétipos (junguiano), ora razão, etc., antes, pertenciam ao reino do nada e ansiavam pelo desvelamento.

Para o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), essas forças vitais abrangem todas as ações históricas (ele denomina de “Razão Absoluta”), nem míticas tampouco religiosas, mas algo “determinante, quase fatal, – irreprimível.” Universais e com poder de engendramento, nos movem, mesmo que não tenhamos consciência ou controle sobre elas: “(...) transcendem nossa mera vontade, posição, nosso saber e controle objetivo das situações.” É uma possibilidade.

Para a fenomenologia existencialista, o ente também se mostra quando volta para o escuro, para o reino do nada e fica encoberto. Também pode ser ignorado, esquecido, desentendido (compreendido e, depois, desaprendido) e até, por distração, ocultado.

O aparecimento das facetas ocultas dos entes se dá à luz do tempo do existir e não necessariamente do esforço racional e cognitivo: “A volta para o velamento que constitui o mostrar-se dos entes, o encobrimento de suas facetas, não é nada negativo, mas essencial.” Velar, esquecer, torna a existência mais suportável.

As coisas não se revelam no total de suas possibilidades, mas totalmente em uma de suas possibilidades: “Este movimento é existencial, temporal.” E o que aparece precisa de alguma duração para que possa chegar à realização: “A chance de conservação da faceta ou da possibilidade desvelada da coisa está dada pela linguagem.”

É a linguagem. Sendo assim, será NA e PELA palavra que o que foi desvelado dos entes poderá ser exposto. Daí, adentramos à 2ª etapa desse ciclo de movimento de realização da realidade:

Revelação: Confirmamos e conservamos a manifestação do que aparece através da fala: “A palavra é o duplo do ser”, diz o filósofo Merleau-Ponty. “A linguagem é a casa do ser”, afirma Heidegger.

A condição para que algo exista é poder ser apresentado pela linguagem. As coisas são através da fala. Do que não se fala sequer se cogita a existência. Mesmo que exista, não sendo verbalizado, não é satisfatoriamente revelado.

Nos relatos míticos, temos a união entre o criador e a criação por meio das palavras: “Através do falar, na existência humana, é que o ser das coisas pode ser veiculado. (...) Essa é a função dos argumentos, das teorias: a reunião dos significados das coisas, a fim de exibi-las em seu sentido, em seus nexos e possibilidades ininterruptas de aparecimento.”

Registrar conserva: “O desocultado precisa ser expresso em alguma linguagem para chegar a mais primária forma de aparecimento e manifestação.” Desvelar é comunicar, tornando comum. E é na linguagem que o significado das coisas pode ser trazido à tona.

O portentoso estatuto da palavra deve-se ao fato dela acolher, guardar, conservar e expor o ser que, fora delas, “podem estar por ai, mas não são o que são e como são.” A comunicação é fundamental para a revelação, para tornar os homens ‘humanizados’ e para possibilitar o terceiro momento no movimento de realização, que é o testemunhar.

Sem testemunho, o que foi desvelado e revelado se esvai, dissolve-se, dissipa-se, não se sustenta. Para a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), o principal atributo do mundo é o fato de ele ser percebido em comum por todos nós.

Testemunhar, veracizar e autenticar são temas de nosso próximo encontro.

* Confira aqui como os bastidores da política e da economia internacional são desvelados, revelados e testemunhados: http://blogdoklebers.blogspot.com/


Dia 25 de agosto (5ª feira) - Tema: "Os 7 Pecados Capitais".
Pré-requisito: leitura prévia deste artigo (vide no final do Blog).

ATENÇÃO:

Em virtude da Palestra a ser proferida pelo Prof. dr. Alberto Bernabé, da Universidade Complutense de Madrid, um dos maiores estudiosos, hoje, do orfismo, virá a São Paulo para fazer conferências sobre o assunto, inclusive com as novidades que surgiram em novas tablitas encontradas nas últimas décadas em escavações, transferimos a data de nosso Café filosófico para o dia 25 de agosto, no mesmo horário.

Dia 18 (próx. 5ª feira), às 15 e às 19h: “La filosofía como iniciación órfica”
Local: PUC-SP - Auditório, ao lado da Biblioteca do prédio novo.

1 de jul. de 2011

HEIDEGGER e uma Filosofia da Existência


“A existência precede a essência” Martin Heidegger (1889-1976)
“A existência precede e governa a essência” Jean-Paul Sartre (1905-1980)


Por mais de dois milênios, órfãos e perplexos, prostamo-nos à soleira da porta da Metafísica (me ta tá physica, do grego, o que está além, acima da physica), mendigando conhecer sobre o Ser, o mundo e a vida, presumindo-os existentes (reais) independentes da presença desse angustiado desejoso de saber.

Desde Platão e Aristóteles, a concepção que temos dos, aparentemente intransponíveis, mistérios da vida (vide as big questions: quem somos, de onde viemos e para onde vamos?) é de inacessíveis ao intelecto.

Para muitos, a impenetrabilidade de uma única, eterna e imutável “Verdade” revela-se reconfortante. Mas esta, reivindicando para si “inquestionabilidade”, torna-se dogmática.

Ousando discutir o quão única e absoluta a metafísica não é, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), em sua obra “Ser e Tempo”, desconstrói o arcabouço do saber metafísico e erige uma nova ontologia (ciência do Ser enquanto Ser), inaugurando uma via de conhecimento fundada numa episteme (ciência da Teoria do Conhecimento) fenomenológica.

Epistemologicamente (ramo da Filosofia que se debruça sobre a questão do conhecimento), por milênios, permanecemos enredados na crença e na busca de uma única via de acesso ao Ser dos entes e à sua Verdade: inteligíveis, mas indizíveis.

E do Ser, que É, desde Parmênides, emudecido [“Eu sou o que sou”, disse Deus a Moisés], só se podia pensar, sendo o “Pensar”, limitado pela incapacidade de “dizer”, confinamo-lo.

Apenas das coisas que são, dos entes que se dão a conhecer, via lógos, através da linguagem, afirmamos isso ou aquilo. Mas, mesmo antes de indagar o que é, somos! Ser, existir é condição humana ontológica (fundante): 1º somos, existimos, depois pensamos “o que”, ou melhor, buscamos QUEM somos.

Imbuídos de desvendar que critérios adotar para que, nesse mundo inóspito e incerto, a perspectiva de alguma segurança nos fosse acenada, estabelecemos que somente a precisão metodológica do conceito (representação) garantiria ao conhecimento humano sua imutabilidade, unicidade e absolutidade. Eis a metafísica legada pela tradição.

Confortou-nos do incômodo que é o inefável, intangível, impalpável, invisível e indizível (metafísica) o “Demiurgo” (Platão), conceituado/representado, como sendo uno, eterno e incorruptível (Ideia, lugar da manifestação da Verdade de tudo o que é), o Movente Imóvel (Aristóteles), que estabelece que pertence ao intelecto esta função do conhecimento e, também o “Pai” do racionalismo, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), que modulou este intelecto “cujo único procedimento aceitável é o do cálculo e do controle lógico-científico da realidade (...)”.

Descartes persegue e encontra o porto seguro para o Pensar, de fora, exterior e à distância, para assim, poder olhar e examinar o mundo, a existência e tudo o que dela faz parte: “Um ponto fora do mundo que ‘ex-tranhe’ o homem de suas situações de vivência, de suas sensações e sentimentos”, numa palavra, da realidade em que se circunscreve.

Retirado do homem as condições básicas e elementares de sua humanidade, instala-se o Cogito, ergo sum (Penso, logo existo): “um poder humano, embora sem humanidade, equívoco quanto à sua soberania e sua independência em relação às condições ontológicas plenas do homem”. Mas o contexto fundamental, ontológico do Ser não é somente o Pensar, é também Existir.

Sob a égide do cogito, o ocidente moderno aceitou esta via como a única perspectiva adequada, viável e válida para a aproximação entre homem e mundo e o que este poderia vir a saber, inclusive, dele mesmo.

Ao longo da história da episteme ocidental, na busca por um alicerce, o homem “baseou-se na dúvida de si mesmo, lançando para fora de si (de sua ontologia, das condições nas quais a vida lhe é dada) a possibilidade de qualquer domínio da realidade, inclusive de suas ideias.”

Para o “Pensar Metafísico”, a validade de um conhecimento é assegurada pela construção de conceitos dentro de parâmetros lógicos. Obviamente, isso nos priva da intimidade que possa haver entre nós e o mundo, ou seja, da experiência que possa advir da fruição de estar no mundo.

Segundo afirma Dulce Critelli, em sua obra “Analítica do Sentido – Uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica”: “A dificuldade da episteme metafísica em aceitar a relatividade da perspectiva e da verdade, levando-a a negá-las, está já na origem mesma de seu nascimento: a perplexidade diante da aparição, da mutabilidade e da degeneração dos entes sensíveis (Platão); e a insegurança emergente diante da descoberta dos sofistas de que, sendo o ser dos entes inefável, as coisas são o que se “bem” diz que elas são (oratória).”

Negar a relatividade da perspectiva da verdade é justamente o que constitui a episteme metafísica. Para a fenomenologia, a insegurança dessa relatividade é própria, inerente ao existir (ser): “A existência precede a essência”, diz o Existencialismo.

Chamamos a atenção para o fato de que, instrumentalizada dessa forma, a ratio (reconhecidamente planejada e estruturada) nos fornece UMA das alternativas de conhecimento, de aproximação do real, da realidade: “A insegurança ou a fluidez do aparecer dos entes e das possibilidades de apreender e expressar seu ser não são, por si sós, indicativas da falsidade de uma perspectiva, nem da irrealidade de um ente qualquer. Também não indica, como queriam os sofistas, a inefabilidade dos entes”.

A dificuldade que temos de apreendermos a aparição dos entes em sua totalidade se deve justamente aos modos constitutivos e originários do mostrar-se dos entes e do pensar, que são igualmente inseguros e fluídos.

Ao pretender superar a instabilidade do ser e dos seres que são, a metafísica alicerça a possibilidade de conhecimento sobre a segurança da precisão metodológica do conceito, como se com a razão (Cogito, lógos, ratio), com uma forma ‘lógica do Ser’, a permanência estivesse assegurada. E está, desde que limitadoramente, sob este prisma.

Reiterando, a fenomenologia existencial instaura possibilidades de conhecer nos angustiantes modos infindáveis de se Ser: “Enquanto a metafísica reconhece a possibilidade do conhecimento fundada na relação entre o sujeito epistêmico [cognoscente] E seu objeto [cognoscível], tomando-a como resultante de uma produção humana – a representação –, a fenomenologia funda tal possibilidade na própria ontologia [modo de ser] do homem, pois ela é uma das condições em que a vida nos é dada.”

Para Heidegger, a relatividade dos entes é a condição de manifestação deles mesmos, diz respeito à provisoriedade aos quais estão sujeitos, uma vez que tudo o que é vem a ser e permanece sendo “no horizonte do tempo e NÃO do intelecto, e em seu incessante movimento de mostrar-se e ocultar-se.” Para o existencialista, o que está oculto é o nada, sendo o homem o sujeito epistemológico, ele cria a realidade, dizendo melhor, a descobre.

Veja neste Blog, artigo sobre "Descartes e o Discurso do Método".

1 de jun. de 2011

HAMARTÍA - O Exterminador do Futuro

"A nossa vida compõe-se de duas partes a privada e a exterior; nascem ambas à porta de nossa casa, uma, porém, se estende para dentro e a outra para fora." Aluísio Azevedo

A Sagrada Família – Murillo (Museo del Prado)

“A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família.” Léon Tolstoi
 
Recentemente, a mídia internacional trouxe à tona a notícia de duvidosos comportamentos de duas personalidades públicas: Dominique Strauss-Kahn, economista e agora ex-diretor do FMI e Arnold Schwarzenegger, ator e ex-governador da Califórnia, ambos casados e pais de quatro filhos.

Como vimos no artigo anterior (http://lucienefelix.blogspot.com/2011/05/kant-e-uma-filosofia-da-historia-para.html), tal qual a natureza, a razão também possui um télos (propósito) e este pode ser constatado através do crivo que ela mesma impõe às ações humanas: àquilo que fere a harmonia, o bom senso, à Justiça, como um corpo estranho ao juízo sensato, aos poucos (às vezes, milhares de anos) é excluído da norma.

O lógos marcha com vagar e, entre avanços e retrocessos, põe em relevo a correção moral, o decoro, a compostura, tributando valor à honradez e ao pudor.

No mundo globalizado, dispondo de nossas iluministas e humanistas atuais categorias mentais, não há como aceitar passivamente atitudes deploráveis e indignas, como se ainda fôssemos reféns de senhores feudais. A sociedade (opinião pública) aponta, denuncia, defende-se.


Até porque, indefensáveis, tanto na vida política quanto nas atividades corporativas, vilezas ético-morais têm sido punidas com renúncia (demissão voluntária ou sob coação), prisão, ostracismo, expulsão, banimento, desprezo.

Sucumbir às (ir) resistíveis paixões da carne em detrimento da ordem, invertendo valores tão caros à ratio, desde os tempos homéricos (Ilíada), ascende da mera insensatez à bestialidade. No âmbito político (público) e nos ambientes corporativos, por exemplo, a retaliação da sociedade é patente.

Arnold Schwarzenegger e Maria Shriver com seus filhos. Após 25 anos de união anunciam separação.
O ator e ex-governador confessou ter tido um filho com a empregada durante o casamento.

E quanto ao reparo à gravidade da vileza na esfera doméstica, privada?

Génos – além de raça, estirpe, família – é descendência, sendo também uma explicitação da natureza dos genitores. Comportamento desonroso no lar acarreta numa “hamartía”, palavra grega que designa a “marca” (falta) que um descendente traz de origem (http://lucienefelix.blogspot.com/2009/03/o-mito-de-tantalo.html).

Enquanto meras ‘marcas’, as hamartías constituem virtudes e vícios: dons culinários, aspirações intelectuais, espírito indômito, desbravador, inclinação aos vícios (do sexo, jogo ou drogas), ao otimismo, bom humor, às doenças físicas e psíquicas (como a depressão), tendência à procrastinação (preguiça), enfim, reconhecendo-os e cultivando-os ou repelindo-os, ora transmitimos talentos, ora suprimimos características constrangedoramente negativas.

Não há como prever o comportamento de um indivíduo (nem mesmo perscrutando a psyché ‘Alma’, como os psicanalistas: “me fale de seus pais”) ou mensurar a profundidade da desalentadora dor causada pelo ultraje que os familiares são obrigados a vivenciar. Há muito sabemos que origem não é, obrigatoriamente, destino e que cabe a cada um de nós a responsabilidade de interromper a transmissão hereditária de indisfarçáveis deficiências.

Desnorteadas, muitas “Marias” se vêem acometidas pela atér, cegueira que induz ao estado de desvario, depois à ação desvairada e por fim, à ruína. Arruinadas ficam também as vítimas indefesas.

Isso porque um lar não é um órgão como o FMI ou um país onde, tranquilamente, outro(a) economista ou candidato(a) substitui o execrável, com discurso persuasivo que induz a enxergarmos, no novo, talento e competência ainda maior.

Devastadoramente destrutiva na esfera privada da sacra célula familiar, onde prisão, ostracismo, renúncia e expulsão não resolvem o problema (e tampouco é possível aventar legítima substituição), ausência de ética, sorrateiramente, desampara inocentes.


Legar a “falta”, impondo uma irreversível hamartía aos indefesos, fomenta a exterminação do futuro. Nos agentes das desprezíveis ações, quando conscientes, instaura-se um dos mais terríveis e inarredáveis carrascos psíquicos: a culpa.


PS: Recomendo a leitura dos dois artigos apontados para melhor compreensão.


1 de mar. de 2011

A AMIZADE - em Aristóteles e em tempos de Internet

Daniel Silva Bernardes e Sofia Felix Lamy – Foto: Luciene Felix - 2007

“Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.” Pitágoras
"Todas as grandezas desse mundo não valem um bom amigo". Voltaire.
"Os maus só têm cúmplices; os libertinos têm sócios de devastidão; o comum dos homens ociosos têm relações. Os homens virtuosos têm amigos." Voltaire
 
Tão antigo quanto o homem, o sentimento de amizade é uma das experiências mais nobilitantes, gratificantes e prazerosas que podemos desfrutar. Embora, ao longo da vida, amealhemos muitos amigos (de infância, faculdade, de balada, no trabalho, de condomínio, na academia, no jogo, na web etc.), uma amizade sincera e verdadeira, assim como o Amor, requer confiança, intimidade e constância que não coaduna com quantidade.

Se antes, diante da lembrança de um amigo, podíamos precisar até a gradação de importância em nossas vidas (foi excepcional ou razoavelmente meu amigo em tal época), nos atuais tempos virtuais (sites, blogs, redes sociais, sms, etc.) o conceito de amizade revela-se amplamente dilatado. Mas...

O que é um amigo? Como se inicia uma amizade? O que buscamos e o que as amizades nos proporcionam? O que é necessário à manutenção da amizade? Com quantos amigos fiéis podemos contar [e igualmente, podem contar conosco]? O que possibilita a amizade entre pessoas aparentemente desiguais [em poder, riqueza ou erudição]? Quando convém romper uma amizade?

Nos Livros VIII e IX de “Ética a Nicômacos”, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) se deteve a essas questões. A amizade, diz o estagirita, além de ser um sentimento extremamente necessário à vida é também uma forma de excelência moral.

De fato, ninguém deseja viver sem amigos e os ricos, importantes e poderosos são os que mais precisam: “(...) de que serve a prosperidade sem a oportunidade de fazer benefícios (...) aos amigos?”.

Ele afirma que uma disposição amistosa é a mais autêntica forma de justiça, chamando a atenção para o fato de que “quando as pessoas são amigas não tem necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade”. De fato, quantos litígios não seriam evitados: havendo amizade, não haveria alienação parental, por exemplo.

Um espelho que ajuda a tornarmo-nos melhores: “Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolver em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos.” dizia Sócrates.

Dentre as dádivas de se ter amigos, Aristóteles cita a proteção na pobreza e noutros infortúnios, no quanto orienta os jovens a evitar os erros e ampara aos idosos, ressaltando que com amigos bons, pensamos e agimos melhor.

Amigo é semelhante, outro “eu” e uma amizade tem início com a manifestação de uma boa intenção natural diante de pessoas que nunca vimos, mas que julgamos boas ou prestativas. Havendo reciprocidade, estarão estabelecidos os pressupostos de uma amizade.

Ele argumenta que somente a amizade segundo a virtude é perfeita e que, por não existir somente um único tipo de amizade, pessoas más também podem ser “amigas” (apropriadamente, entre aspas). De outras pessoas más, de pessoas boas e até mesmo daquelas que não são nem uma coisa nem outra.

O “Pai da lógica” explica que dentre as coisas que merecem ser amadas estão “o que é bom, ou agradável, ou útil”.

Analogamente, afirma que uma afeição recíproca pode basear-se numa ou todas essas três qualidades: amor, prazer e interesse. Sendo assim, as pessoas amam o que parece bom, agradável ou, no caso do mero interesse, o útil.

Assim como um Amor, puro, sincero e verdadeiro, pode ter início por simples prazer e evoluir para uma plenitude mais intensa e profunda, o sentimento de amizade também pode começar de um jeito e evoluir para outro. Sentimentos se alteraram ao longo da convivência.

Útil é aquilo do que resulta n’algum bem ou prazer e, embora somente o bom e o agradável mereçam ser amados como fins [em si mesmo], são devido ao “útil” e ao “prazeroso” que nosso círculo de amizades se torna cada vez maior (a web promove essa elástica expansividade).

Denominamos “amigos” meros conhecidos, amigos de amigos e até simpáticos desconhecidos que interagem conosco na Internet. Com todo o demos (povo) conectado, nada mais democrático!

Nas amizades por prazer, não é pelo bom caráter que gostamos das pessoas espirituosas – sequer as conhecemos tanto – mas porque são afáveis, acolhedoras, aprazíveis: “as pessoas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que amam, mas porque ela é útil ou agradável.”

O certo é que hoje fazemos amizades num clique. Mas amizades desse tipo são apenas “acidentais”: “um desejo de amizade pode manifestar-se instantaneamente, mas a amizade não pode”, diz o estagirita.

Tais ‘amizades’ se desfazem facilmente, pois se as pessoas não permanecem o tempo todo como no início (úteis para os interesseiros ou agradáveis para os que buscam prazer), a amizade arrefece, esfria e por fim, acaba porque a utilidade não é uma qualidade permanente. Como dissemos acima, prazeres e interesses mudam.

Amizades por interesse cessam tão logo o proveito acabe. Não havia estima sincera, mas empenho em se aproveitar: “as pessoas que amam as outras por interesse amam por causa do que é bom para si mesmas” diz Aristóteles.

Cultivar amizades exclusivamente por interesse é para pessoas mercenárias, narcisistas e egoístas, que só visam extrair proveito próprio.

Devido à possibilidade de se desfrutar prazeres e interesses comuns é que pode haver amizade entre pessoas dessemelhantes, inclusive más: “(...) pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenha algum proveito recíproco” alerta. Digite “Muammar Khadafi (ou Gaddafi)” no Google Imagens e surpreenda-se com amizades inimagináveis. Ou não, como diria Caetano.

Amizades por interesse (tão ordinárias entre chefes de Estado e tão corriqueiras entre arrivistas e alpinistas sociais) e por prazer (tão comum entre os jovens e os volúveis) podem ser muitas, pois são igualmente inúmeras as pessoas agradáveis e/ou úteis: “e os benefícios que elas propiciam podem ser fruídos dentro de pouco tempo”. Observamos que pessoas inescrupulosas sabem ser agradabilíssimas quando lhes convém.

Ele chama a atenção para o fato de que, mais reticentes, as pessoas idosas priorizam o útil em detrimento do agradável ou prazeroso. E por sequer se acharem mutuamente agradáveis, preferem os que gozam de vigor e plenitude da qual possam tirar algum proveito.

Já nos mais jovens, o prazer está entre os maiores motivos de amizades, pois “vivem sob a influência das emoções e perseguem acima de tudo o que lhes é agradável e o que está presente”. São amorosos, mas também inconstantes, se tornam e deixam de serem amigos rapidamente, no mesmo dia até.

Sentir prazer na “com-vivência” é uma das características mais marcantes duma amizade. Além de agirem de modo parecido, pessoas boas também são reciprocamente úteis, agradáveis e prazerosas, ou seja, reúnem em si todas as qualidades que os amigos devem ter. Não necessariamente excludentes, bondade, dom de agradar e certa utilidade quando “se manifesta com vistas a objetivos nobilitantes” também se fazem presentes nas amizades deste naipe.

Amizades entre semelhantes em termos de excelência moral, entre aqueles que admiram a virtude e o comportamento ético um do outro, resistem à distância, ao tempo, às fofocas e calúnias: “não é fácil dar crédito ao que diz qualquer um acerca de uma pessoa que foi posta à prova durante muito tempo”. Essas amizades perduram. Porque bom caráter é algo duradouro.

Reza a lenda, que Sócrates ao ser indagado sobre o que Glaucon falava dele, perguntou ao interlocutor: Você já passou o que me vai falar pela peneira da verdade? Já passou pela peneira da bondade? Já passou pela peneira da utilidade? E com a sabedoria que atravessa séculos disse: “Se você não sabe se é verdade, bom ou útil... então, não somente peço que não me conte, mas imploro que esqueça!”. Um virtuoso jamais propaga maledicências.

Assim como não há como amar intensa e apaixonadamente várias pessoas ao mesmo tempo, não há como ser amigo íntimo de muitos: “ambas as partes devem adquirir experiência recíproca e tornar-se íntimas, e isto é muito difícil”, diz Aristóteles.

Nas amizades fundadas no amor e na admiração mútua, amigos rejubilam-se pelo sucesso do outro, vivenciam a alegria como se fosse própria (inexistente em português, a palavra grega para esse nobilitante sentimento é synkhairía - antônimo de inveja).

Nos entristecemos, nos sentimos abandonados e frustrados quando os “amigos” desdenham nossas vitórias. O sucesso de um semelhante só incomoda aos de espírito mesquinho.

Sabemos que somente os verdadeiros amigos se comprazem, se deleitam por nossas alegrias e são solidários diante de nossos fracassos.

Além de confirmar quem são os verdadeiros amigos, o sucesso é também uma forma de atrair interesseiros e angariar invejosos inimigos. Para ilustrar, relembro uma narrativa já postada (vide neste Blog "Os Sete Pecados Capitais"). Na Hélade, precisamente em Atenas, periodicamente os cidadãos eram chamados a, secretamente, escrever o nome de uma pessoa que gostariam que fosse expulsa da cidade num caco de cerâmica chamado “ostrakon”.

Se determinado indivíduo tivesse seu nome registrado muitas vezes, ele era simplesmente expulso da cidade. O período de ostracismo durava cerca de dez anos. Para quem se recusasse a pena era a morte.

Certa vez, um nobilíssimo e muito distinto cidadão ao flagrar seu nome sendo escrito indagou: “O que ele fez para que escrevas seu nome”? – o outro cidadão respondeu: “Nada. É que não suporto mais ouvir falarem tão bem dele”.

Fiéis e verdadeiros amigos indignam-se, manifestam-se e protestam com veemência quando testemunham um virtuoso amigo sendo alvo de injustiça. Sem titubear, defendem-no com vigor.

Indivíduos de tal alma são poucos e é natural que uma amizade assim seja rara. Requer tempo e intimidade para que se possa demonstrar que são dignas da amizade, para conquistar “o sentimento de que uma nunca fará mal à outra”, isto é, confiança!

Pessoas de mau caráter, amarguradas, maledicentes, ressentidas e indelicadas não parecem propensas a amizades e é provável que se ressintam da falta de verdadeiros amigos: “(...) ninguém pode passar seus dias com pessoas cuja companhia é constrangedora ou não é agradável, já que a natureza parece evitar mais que tudo o penoso e buscar o agradável”, diz o Filósofo.

Sendo assim, deve-se romper uma amizade quando uma das partes se distancia excessivamente da outra, até porque, se o acaso, “o destino decide quem vamos encontrar na vida. As atitudes decidem quem fica”.

Democrática par excellence, amizade verdadeira dá-se entre os que se assemelham e, pressupondo igualdade em termos de virtudes éticas, por mais díspares que possam parecer é acalentada entre ricos e pobres, eruditos e ignorantes, jovens e idosos, corinthianos, são paulinos, palmeirenses e santistas.

Somente os iguais em excelência moral compartilham de uma amizade perfeita. Basta, parafraseando Kant: O céu estrelado sobre nós, a Lei moral dentro de nós e, no caso das amizades virtuais, um teclado diante de nós.


Reais ou virtuais dedico estas linhas a todos meus virtuosos amigos,
desejando-lhes que os deuses os protejam e que os abençoem sempre.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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