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luciene felix lamy EM ATO!

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24 de set. de 2019

ABOUT o envelhecer...

Julie Andrews (1935) interpretando a deusa Tétis, mãe do herói Aquiles, no filme Tróia. 
CLIQUE SOBRE A IMAGEM PARA LER MELHOR.


Minha área é Filosofia que, em seus primórdios, entrelaça-se com a mitologia grega.

Quando me debrucei sobre “O Banquete (sobre o Amor)”, de Platão (AQUI), ressaltei: “não é um só”, objeta Pausânias (um dos convidados) que, cingindo a unidade do Amor, subdivide-o (não os excluindo) e hierarquiza-os imediatamente (sim, o lógos hierarquiza!):

Afrodite não é só uma, há a mais velha, Urânia (Celestial) e a Pandêmia (pan = todos e demos = povos). Nesta última [os homens], amam mais o corpo que a alma.

Inevitavelmente, a mais poderosa divindade, Afrodite Pandêmia (a popular, a vulgar) é vencida pelo tempo (Chronos/Saturno), seu temido, invencível e fiel inimigo, obviamente, perde seu poder: 

“Com efeito, ao mesmo tempo em que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava “alça ele o seu voo” (aqui é Platão citando o aedo/poeta Homero), sem respeito a muitas palavras e promessas feitas.

Bom é o amante do caráter, que é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante”.

Pausânias revela, então, duas formas da deusa do amor e da beleza: Afrodite Urânia, associada ao eterno, imortal e Afrodite Pandêmia ao transitório, mortal

Ambas são necessárias, embora sucumbir, dando ênfase à Pandêmia (corpórea, sensível, carnal), desvirtue a pólis (cidade).

Essa Paidéia (pedagogia) tinha no horizonte o desencadeamento da mais famosas das guerras, a de Tróia.

Postulando sobre a questão da velhice, especificamente no que tange às Afrodites na faixa dos 50+ (outrora mais pandêmias, hoje, infelizmente, nem sempre Urânias) a abrangência que essa questão suscita é vasta, pois há o viés filosófico, mitológico, biológico, psíquico (psicanalítico), econômico, cultural, estético, literário, antropológico, midiático, etc. Eis aqui, nosso breve recorte.

Mas, antes, uma piada:


Como não envelhecer? Esquece, pede outra coisa. Aceita que dói menos. Bem, na verdade vai doer de qualquer forma.

Envelhecer é vislumbrar o crepúsculo, é ir despedindo-se da vida. Daí o medo, a paúra em testemunhar a decrepitude do corpo. Mas nosso “canto do cisne”, único, pessoal, intransferível pode ser belíssimo!

Das sujeitas à alteração de Chronos (o deus do Tempo, na mitologia grega; Saturno, na romana), ou seja, TODAS NÓS, MORTAIS, a perda de PODER (cujo objeto simbólico é o “falo”) é causa das maiores angústias.

Psicanaliticamente falando, mulher no lugar da “falta” e homem no lugar da “potência” (dynamis).

Não é de hoje que o prêmio (poder) se dá através do homem (força, afirmação, virilidade), e o processo de envelhecimento exige um realocamento dessa fonte de poder

Atentar a esse mecanismo liberta de nos sentirmos reféns do índice de desejabilidade, nos elevando a outro patamar, ao não menos poderoso terreno da serenidade e da suprema sabedoria: ao de Afrodite Urânia.

Inegavelmente, somos todos escravos da beleza, tanto que, à revelia, o belo atrai, o belo catalisa, é magnético, é quem “manda” em nosso olhar. 

Seja o belo concreto de uma mulher, um cavalo ou uma panela (lembrando Sócrates) e/ou o belo de um ideal (que por métexis, participam a mulher, o cavalo e a panela), o belo de um sentimento ou de uma atitude.

O belo, sobretudo a beleza da juventude, traz em seu bojo, além da “promessa de felicidade” proustiana, o claro indício da capacidade natural (e sobrenatural!) de criar novas vidas, portanto, é notório o poder oriundo da potencial fertilidade feminina. Utilitaristas que somos, o que não gera é inerte.

No entanto, voltando ao Banquete, recordemos as palavras da sábia sacerdotisa Diotima da Mantinéia: há geração nos corpos e geração nas almas!

São diversos os arquétipos (comandos principiais que servem de modelo) primordiais: a Terra (Gaia), a Grande Mãe, a Sábia, a Desbravadora, a Sedutora, a Guardiã do fogo sagrado, etc.

O empoderamento feminino, seja por conta da beleza, da astúcia (ou de ambos) é antigo: Eva, Nefertiti, Helena, Cleópatra, as bíblicas Maria Madalena, Judite e Salomé, as estadistas Golda Meir, Margareth Thatcher e Ângela Merkel, além das mitológicas Afrodite (Vênus), Athena (Minerva) e Hera (Juno), soberana do Olimpo.

Enquanto viventes, estamos atreladas ao nosso corpo, mortal, sujeito à corrupção de Chronos (o Tempo devora tudo o que cria) e ele, o corpo, é também condição “sine qua non” para que nos manifestemos.

É dos argumentos a favor da aceitação (que pode ou não ser precedida por negação, raiva e barganha) dos efeitos da decrepitude neste corpo que ponderamos.

Pois bem, considerando que este corpo é veículo perecível e que após meio século de vida (tenho no horizonte a expectativa de vida em torno de 80 anos) os sinais de Geres (a velhice) vão se intensificando e se impondo, cabe a nós, fazendo uso da “ratio” (razão), ponderarmos sobre a ressignificação que a manifestação deste corpo – no tempo, no espaço – requer, que pode vir a ter.

Sim, analógicas e digitais, além de vivenciarmos o que foi "cair a ficha" nos orelhões das esquinas da vida, temos Instagram, um armário abarrotado, além dessas décadas "extra"! 

Talvez ainda não estejamos sabendo lidar muito bem com isso. "Nada em excesso", roga o frontispício do Oráculo do deus Apolo, em Delfos.

É mais comum uma jovem de trinta anos achar-se “velha” (coisas do 1º Regresso de Saturno) que uma senhora de 50+ aceitar interditos à sua faixa etária.


Ageless é o nome da nova onda que, se não estiver sob o escrutínio do bom senso revelará algo de forçosamente hipócrita ou fake.

Convém discernimento para separar o joio do trigo: ageless é grande conquista para o emprego de todo esse gás (Nietzsche denominou de “vontade de potência”) que ainda dispomos, para adotarmos o confortável (jamais desleixado) estilo normcore (código de vestir “normal”), atentar ao mindfulness e se reinventar desbravando novos mundos, na medida do possível.

Como todo e qualquer pharmakón, ageless é um bom paliativo (bora dropar essa onda!), uma vez que Thánatos não tem cura.

No mundo pós-moderno, nossas ações não se resumem mais às questões de cunho moral binário, no sentido “certo X errado”, mas de sentir se aquilo que Homero denominou os “phrenas” manifesta-se ou não em nosso íntimo; é um mundo favorável a nos tornarmos “patetikós”.

Sim, já vivenciamos o ápice do vigor de nossa juventude, de nossos vinte, trinta anos!

Corremos, focamos, nos dedicamos e cumprimos inúmeras tarefas, trabalhamos muito. Vivenciamos anseios, dúvidas, angústias, enfrentamos desafios, superamos provações.

Carregamos a árdua e imperativa tarefa de escolher – com mais ou menos liberdade – nosso destino em várias esferas da vida: do ponto de vista profissional e também amoroso, afetivo. Provavelmente até mais de uma vez.

Optamos por gerar ou não nossos filhos. Por cultivar ou não afetos, por priorizar ou não galgar elevadas posições, obter destaque na sociedade. 

Isso às quais coube tal escolha, pois sabemos que, infelizmente, a muitas mulheres a natureza biológica ou a limitação socioeconômica vetou tais liberdades.

Para nós, na faixa 50+, talvez as duas últimas décadas talvez tenham sido mesmo as de maior empenho de nossa parte pelo “Outro”, quando estivemos absortas, fazendo o que podíamos por nossa carreira e pela família, tanto a que originamos quanto àquela que nos originou.

Foram muitos os encontros e desencontros, todos edificando nosso caráter, nos jantares, nas festinhas, batizados, aniversários e ceias natalinas. Ah, os afetos alinhavados enquanto estávamos entretidas na criação de nossa prole. “Velhos tempos; belos dias! ”.

E fizemos! Meu Deus, como fizemos!

Mas eis que chega esse momento de reavaliação das principais ações, que nos ocupou e preocupou por décadas, essa faixa, a dos 50+ na qual nos flagramos prostradas diante de nós mesmas, inquirindo perplexas:

“Então, fiz, agi como conforme meu meio social, minha época, a cultura e os valores vigentes pautavam. Mas.... É só isso? Agora é afogar no mar do vazio, da opacidade, da ausência de desejos e, pior, coroando todas essas angustiantes indagações, velar a decrepitude do corpo, resignar-me? ”.

Toda essa avalanche de questionamentos (o que elenquei acima foi somente um exemplo dos que podem vir a surgir), acompanhados da sensação de inutilidade, é fruto do que realmente?

De não determos mais o poder de gerar?

Mas já geramos. Ou optamos por não gerar, antes mesmo que o aplicativo do interdito biológico (menopausa) se instalasse.

Da expectativa de levarmos a cabo (e bem) a tarefa de educar, preparando a prole para a vida?

Mas já os encaminhamos!

De não saber o que mais fazer? Ah, desejante homo-faber!

Bem, de praxe, equiparamos o Ser ao fazer. “O que você faz? ” Culturalmente é com a resposta a esta pergunta que definimos a nós mesmas e aos demais.

E sequer havia necessidade de algo reconhecidamente brilhante ou extraordinário para uma resposta legitimamente satisfatória, que nos definisse, bastava um simples “cuido da casa; zelo pela família, os filhos, o marido, o lar. ”

Há algo mais distinto e moralmente positivo do que responder assim, com toda honra e toda glória?

Eis que a guardiã do fogo dos antepassados, do lar, a deusa Héstia (Vesta, para os romanos) nos empodera, meninas!

Claro, muitas de nós conquistaram um papel de inegável destaque no seio social: Mãe de Família! Há título mais respeitoso?

Tão virtuoso que eclipsa até o de uma cientista que se dedique à cura do câncer, por exemplo. Para cada dez mães de família, uma cientista bastaria. O contrário, talvez não.

Porque, vamos combinar de falar a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, por conta do que o Pai da Psicanálise, Sigmund Freud denominou “desamparo estrutural”, a maternidade – apropriadamente – reivindica para si a maior glória do mundo. Sem [boas] Mães não há sequer seres humanos. Ponto.

No entanto, contudo, todavia, à medida em que o Tempo passa (Oh, Chronos impiedoso!), a capacidade (leia-se PODER) de gerar se extingue, os filhos gerados crescem, saem de casa, vão eles próprios buscar seus caminhos e, vem a angústia, a síndrome do “ninho vazio” (no vídeo abaixo o psicanalista Paulo Gaudêncio chama de "síndrome das mães desempregadas").

Também pode haver a cama vazia, o bolso vazio e, talvez, ainda mais danoso: a cabeça vazia.

Amor. Desejo. Voltemos ao início, à deusa da beleza e do amor, Afrodite (Vênus), a potestade com a qual iniciamos essa prosa.

Amar/desejar SEMPRE dá um sentido para a vida, um propósito para o viver.

Amar a si mesma. Amar aos filhos. Amar o que se faz. Quanto aos demais, compreender talvez já seja o suficiente.

Pois bem, compreender aos pais, aos irmãos, aos amigos, àqueles que – à revelia ou não – o acaso colocou em nosso caminho.

O filósofo grego pré-socrático Heráclito de Éfesos dizia: “O tempo é criança brincando, de criança o reinado.”. Entreter! Entretemo-nos e enriqueçamo-nos com as mundanidades que agradam aos nossos olhos, que edificam e enobrecem a nossa alma!

Temos Dante, Victor Hugo, Dostoievski, Shakespeare, Guimarães Rosa e Machado de Assis (temos as séries no NetFlix!); temos a beleza das flores e da decoração dos ambientes, os bons odores, as artes, as viagens, as amizades, a solidariedade, o curso de idioma, de danças de salão, as atividades tão prosaicas, cotidianas e por isso mesmo, tão salutares; as sofisticações gastronômicas, os carteados semanais, a caminhadinha diária.

Temos toda uma desfavorecida e, portanto, necessitada humanidade à nossa volta para olhar e fazer, homo faber!

Mas tal qual a birrenta imatura que se recusa a passar o bastão, o cedro, ansiando por uma irrealizável imortalidade, não nos enxergamos em todas as dimensões, pomos em relevo as rugas, a flacidez e o prateado dos cabelos. Nós mesmas nos limitamos a isso, míopes à grandiosidade do Cosmos, à Afrodite Urânia em nós.


É tão feio assim, envelhecer? Contemple a enfermeira polonesa Irena Sendler (imagem acima) e veja o quão bela – no corpo e na alma! – uma mulher bondosa e sábia pode ser.

Como boa e prática chronida que sou (Capricórnio), francamente, rebelar-se contra o invencível Chronos é pura perda de (e para o) tempo. Mire lá em cima, no alto, a plateia agora é outra, capisce?

Desfrutar profunda e serenamente o crepúsculo que já se avizinha, usufruir destas preciosas últimas décadas de vida (Oh, dádiva!) com lucidez, gratidão e sobretudo com ALTIVEZ é, sim, uma belíssima saída possível.

Saída. Foi o que escrevi, pois sairemos. Que seja de forma digna e honrada, como convém aos sábios. 


luciene felix lamy
Whats (13) 98137-5711




Acima, esclarecendo sobre "Afrodite Urânia e Pandêmia", do renascentista veneziano Tiziano Vecellio, na Galleria Borghese, em Roma. TURMAS ANUAIS, http://cursodemitologiaemroma.blogspot.com/


No vídeo abaixo, minha singela homenagem à Sabia que tive a honra de conhecer: a psicanalista Anna Verônica Mautner (1935-2019). Confira mais vídeos dela no YouTube. 





1 de ago. de 2019

Guia para Viajantes Apaixonados por Museus

Caríssimos amigos,

Como podem ver, nosso Blog alcançou a marca de + de 500 MIL acessos



Realmente, considerando os temas abordados, é um feito e tanto. 



Em virtude disso, estamos disponibilizando gratuitamente nosso E-book "Introdução ao Renascimento" - Um guia para que você possa apreciar e desfrutar de muitos museus mundo afora, sobretudo no Continente da Ninfa raptada por Zeus, Europa. 

Para recebê-lo de presente, basta solicitar por E-mail  mitologia@esdc.com.br 
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Um grande abraço,

ZILHÕES!!!

luciene felix lamy

1 de ago. de 2018

Magnificência – a virtude de saber-se digno de honra

“(...) olhar menos à verdade do que à opinião dos outros, é próprio de um covarde. ” Aristóteles

Segundo Aristóteles, megalopsykhia (a magnanimidade, o apreço, o alto apreço) é a postura correta em relação ao maior dos bens exteriores, a saber, a honra.
Franco e verdadeiro, levando os outros em consideração, magnânimo é quem age de acordo com a areté (excelência).
Versemos sobre essa disposição de caráter que, quando em faltarevela indevida humildade, quando em excessodemonstra vaidade.
Sendo a honra, a finalidade comum de todas as virtudes, indubitavelmente honroso, o magnificente inspira o que tantos desejam, a saber, admiração.
Comumente, deter poder e riqueza confere distinção, e é na explicitação (no uso e emprego) disso que vários intentam angariar admiração. Muitos honram quem possui poder e riqueza, mas só merece ser honrado o ser humano bom, pois dispor desses atributos sem ser virtuoso não têm por que alimentar a pretensão de fazer jus ao epíteto de “magnânimo”, o que implica numa virtude perfeita.
Quanto às posses, as atitudes em relação aos gastos têm sido reveladoras dos princípios e dos valores que permeiam a vida dos indivíduos.
Extravagantes, os vaidosos se exibem, não por terem em vista a honra, mas por pensar que ao ostentar riquezas serão admirados. Ponderemos o quão longe estão da genuína magnanimidade.
Espíritos que têm a si mesmo em altíssimo apreço não ambicionam as coisas vulgarmente acatadas, pois, dotados de um caráter que basta a si mesmo, a pessoa verdadeiramente magnânima se arroga o que corresponde aos seus méritos, ao que não pode ser comprado, que sequer tem preço, mas elevado valor.
Altivo, possuidor de bom e nobre caráter, seria indecoroso para um indivíduo magnânimo fugir ao perigo, praticar atos vergonhosos, incorrer em injustiça.
É sobretudo por honras e desonras que o magnânimo se interessa, e as honras que forem grandes e conferidas por homens bons, ele as receberá com moderado prazer, mas as honras que procedem de pessoas quaisquer e por motivos insignificantes, ele as desprezará, visto não ser isso o que merece.
Quem aspira à magnanimidade irá se conduzir com moderação no que diz respeito ao poder, à riqueza e a toda boa ou má fortuna que lhe advenha, e não exultará excessivamente com a boa fortuna nem se abaterá com a má sorte.
O homem magnânimo despreza respaldado em julgamento justo, mas os ordinários o fazem sem que haja motivo sério.
É magnânimo saber que há condições em que não vale a pena viver. É também característico de quem faz jus à magnanimidade não pedir nada ou quase nada, mas prestar auxílio de muito bom grado. E adotar uma atitude digna em face das pessoas que desfrutam de alta posição e são favorecidas pela boa fortuna.
É coisa difícil e grande marca de altivez mostrar-se superior aos de classe elevada, embora seja fácil com os de classe mediana.
Sem dúvida, uma conduta altiva ao se relacionar com pessoas superiores em poder e riqueza não é sinal de má educação, mas altivez diante dos humildes é vulgar, afirma o Estagirita.
À magnanimidade convém sermos francos em nossos ódios e amores, falarmos e agirmos abertamente: “(...) ocultar os seus sentimentos, isto é, olhar menos à verdade do que à opinião dos outros, é próprio de um covarde. ”. A franqueza do magnânimo provém de certo desdém por miudezas.
Por não ser escravo de ninguém, é incapaz de fazer com que sua vida gire em torno de outro (coisa de aduladores, que sequer respeitam a si próprios) e não guarda rancor por ofensas que lhe façam, prefere relevá-las.
É avesso a maledicências e conversas fúteis, pois não fala sobre si mesmo nem sobre os outros e tampouco fica alardeando seus feitos. Também não sucumbe aos elogios que lhe fazem. A tranquilidade paira sobre as atitudes, a fala e o modo de portar-se de uma pessoa verdadeiramente magnânima, pois quem costuma levar poucas coisas a sério em nada se apressa.
Como afirmamos no início, quem está aquém da magnanimidade é indevidamente humilde, e quem o ultrapassa é vaidoso. Ponderemos sobre esses extremos.
As pessoas vaidosas aventuram-se a honrosos empreendimentos que não tardam a denunciá-las pelo que são. Adornam-se com belas roupas, ares afetados e coisas que tais, desejam que suas boas fortunas se tornem públicas, tomando-as para assunto de conversa, como se desejassem ser honrados por causa delas.
É vaidoso aquele que se julga digno de grandes coisas sem possuir qualidades para tanto. Desdenhosos e insolentes, sem virtude não é fácil carregar com elegância os bens da fortuna, pondera o filósofo.
Vaidosas, exibidas, essas pessoas costumam se julgar superiores aos demais, desprezando-os, proceder como virtuosos está fora de seu alcance, embora imitem o homem magnânimo, excedem em relação aos méritos próprios.
Em contrapartida, é indevidamente humilde, diz Aristóteles, o homem que se julga menos merecedor do que realmente é. Se comparado às pretensões do magnânimo, a pessoa indevidamente humilde revela-se deficiente em confronto com os seus méritos próprios.
O que é digno de coisas boas e ainda assim, indevidamente humilde, está roubando de si mesmo daquilo que merece, e parece ter algo de censurável porque – excessivamente modesto –  não se julga digno de boas coisas e também parece não se conhecer, do contrário desejaria as coisas que merece.
Ambas disposições de caráter são típicas de tolos, no entanto, são vícios que, ainda que equivocados e um tanto indecorosos, não desonram ninguém, até porque nem são nocivas aos demais. Contudo, a humildade indébita se opõe ainda mais à magnanimidade do que a vaidade, tanto por ser mais comum como por ser ainda pior: “Quem se considera indigno de nobreza e riqueza irá se abster de ações e empreendimentos nobres.”.
Mas a pessoa verdadeiramente magnânima, visto merecer mais do que os outros, deve ser boa no mais alto grau, pois o melhor sempre merece mais, e o melhor de todos é o que mais merece, conclui o filósofo.

Referência Bibliográfica: A Ética a Nicômaco - Aristóteles
Luciene Felix Lamy
Profª de Filosofia e Mitologia Greco-romana
Instagram: lufelixlamy
WhatsApp: (13)98137-5711

1 de jun. de 2018

Sobre ALMAS GÊMEAS...

"Não se trata somente de união sexual, mas de 'uma coisa' que a alma de um quer da alma do outro". Platão

Indômita potência, inspirador de virtudes, a divindade mais antiga, eterno, universal, pois presente em todo cosmos, belo e jovem, o amor é a busca pela unidade e também um tipo de delírio.
Especialmente neste mês dos namorados, insisto no poder que o amor possui. Segundo Platão, o amor é fruto de Póros e Penia (abundância e falta). Tendo isso em mente é compreensível o afã de encontrar uma alma que nos complete.
Eis o sonho de todos aqueles nos quais um coração pulsa, bombeando sangue até o último suspiro. De onde vem essa ideia (ou sensação, se preferir) de incompletude? Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo somente casais heterossexuais?
Um dos mitos gregos que ilustra bem a condição da busca pela alma gêmea é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes, no início da obra "O Banquete" (sobre o Amor), de Platão.
No famoso mito dos andróginos, os seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homemmulher e andróginos. E também eram duplicados (dois em um só) e unidos pelo umbigo. Tínhamos então, dois homens "colados"; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo, os andróginos, juntos e de sexo opostos.
Reza o mito que Zeus, o soberano do Olimpo, observa-os e constata que são muito presunçosos, autossuficientes, felizes. Foi então que, preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca desesperada por sua "outra metade" esqueçam do poder que possuem.
Eventualmente, quando qualquer um desses três tipos encontrava sua outra metade ficava tão embasbacada e feliz que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente: enlaçavam-se com seus pares e não se desgrudavam.
Ficavam inertes, pois nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de inanição. E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra "metade".
Foi então que Zeus, o ordenador do Cosmos, tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a frente, para que pudessem gerar novos seres.
Segundo esse mito, o amor entre almas gêmeas ocorre quando se encontra no outro uma parte que seja igual, idêntica àquilo que já se possui em si mesmo.
Predileções sexuais à parte, o amor entre os iguais (homói) é de uma ordem de ideias, de interesses comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do amor físico, sensual, carnal, por isso o amor platônico (ideal) é, nesse sentido, perfeito.
Não há como afirmar a existência de uma única alma gêmea. Polítropos, seres humanos são multifacetados e, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não fizeram mais do que retratar a si mesmos, em seus múltiplos anseios.
Os encontros e desencontros fazem parte do que se denomina "aspectos das divindades". E como são diversos esses aspectos!
Há a divindade do erotismo, presidido pela deusa Afrodite e seu filho Eros (Vênus e Cupido), a divindade do matrimônio, deusa Hera (Juno), a presidir os amores legítimos, a divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia, que é encabeçado por Dioniso (Bacco), o deus do vinho e do êxtase, e muitos outros.
Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e, certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão sendo "mais gêmeas" com a nossa alma que qualquer outra.
E, uma das coisas que nossa alma gêmea tem a nos ensinar, certamente é sobre nós mesmos: "Semelhante atrai semelhante", afirma o inglês estudioso de magia do século XVII, Sir James Frazer em "O Ramo de Ouro".
Essa "alma gêmea" nos faz falta porque Eros, que personifica o poder de união, que é a maior dýnamis, potência do universo é dos deuses mais antigos e a tendência (do grego, pathós) do ser humano é se unir a outro alguém.
Obviamente, quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.
Sem dúvida, a primeira condição para que encontremos "alma gêmea" é que estejamos realmente ansiosos e dispostos a isso. Para exemplificar como essa sintonia e reencontro de almas pode acontecer, recorramos ao grande poeta Hesíodo (600a.C), que em sua obra "Teogonia" esclarece que Zeus é kydistos, pois possui o "Kydós".
A palavra grega Kydós (variação de Niké, que é vitória) é uma derivante de Kleós (glória) é, portanto, um dos atributos de Zeus. Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o vencedor já até sabia que sairia vitorioso da batalha porque trazia a vitória dentro de si.
Do mesmo modo, estamos na vida como entidades livres, leves e soltas. A partir do momento em que acalentamos o interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e apreendido por alguém que também esteja se sentindo desejoso de amor. Eis o segredo! Ou melhor, não há segredo.
Convém esclarecer ainda que, embora esteja assentado para o senso comum que o amor platônico é o amor ideal e perfeito, ele é também irrealizável. Ao menos por um tempo muito longo: o amor platônico se dá no campo mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e maravilhoso no campo das ideias mesmo.
No entanto, a realidade é que vivemos aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos (Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a perfeição se esvai com o tempo.
Mas isso não significa, obrigatoriamente, o fim do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em cultivar o amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena. Até porque, na condição de mortais, como afirma Platão, será a ação (do Amor) o que garantirá alcançarmos a imortalidade que nos é possível.

Com estima e consideração para o querido amigo Anthony Majanlahti.

Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana
WhatsApp (13) 98137-5711

15 de out. de 2017

Aristófanes e o mito dos andróginos no Banquete de Platão


O trecho que transcrevo abaixo é um recorte de um artigo que publiquei quando estudei “O Banquete” no Curso de Graduação em Filosofia na PUC-SP com a Titular de Filosofia Antiga, Profª Drª Rachel Gazolla. 
Para conferir o artigo completo, clique AQUI.


O comediógrafo grego Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito dos andróginos, legitimará a homo afetividade e a desenfreada busca pelo que denominamos “almas gêmeas”.

Eis que os seres humanos, inicialmente eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram também duplicados e unidos pelo umbigo.

Zeus (Júpiter, o soberano do Olimpo), temendo a presunção de tanta autossuficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à procura de sua outra metade original, que pode ser um outro homem, caso o original tenha sido a união de dois homens, uma mulher, em busca de outra OU ainda um homem e uma mulher que se anseiam, caso dos andróginos.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se restabelecer o original e primitivo “todo”. 

Não se trata somente de união sexual, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.

Se o ferreiro divino Hefestos (Vulcano, na mitologia romana) surgisse com seus instrumentos indagando aos amantes: “Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? (...). Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? 

Pois se é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades (Plutão na mitologia romana), em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso”.

Aristófanes diz que depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Reiterando que nossa natureza é una, que éramos um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e procura do todo que se dá o nome de Amor.

(...)

Ao ser indagada por Sócrates sobre a origem do Amor, Diotima (da cidade de Mantinéia, uma sábia versada nas artes da feitiçaria) relata-nos o belíssimo mito de que quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os demais, se encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza. 

Esse rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. 

Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: “Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. 

Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. 

Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.

A estrangeira reitera que uma das coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo filósofo está entre a sabedoria e a ignorância.

A ação (do Amor) é o que garante aos mortais alcançar a imortalidade que lhes é possível. 

Diotima ressalta uma hierarquia sobre a concepção amorosa dizendo que há os que concebem na alma (belos pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça.

Será o Amor, um grande deus? Indômita potência? Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga? Eterno? Universal, pois presente em todo cosmos? A busca pela unidade? Belo e jovem? Um tipo de delírio? 

Filósofo por excelência? Concepção de nossa alma? Um daímon (anjo) entre o divino e o humano? Afortunada benção que garante felicidade (eudaimonia)? O que é o Amor? Entusiasmada que sou, do Belo em si platônico, vivencio-o como a assinatura do theós (divino) em todos nós.

Saiba mais:
O Banquete, ou, Do amor – Platão. Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.


SOBRE ALMAS GÊMEAS (entrevista concedida a Revista Capricho em Fev/2008 )

Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo entre homem e mulher apenas?

Um dos mitos gregos que ilustra bem a condição das almas gêmeas, é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes no início da obra “O Banquete” (sobre o Amor) de Platão.

No famoso mito dos andróginos, os seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E também eram duplicados (dois em um só), unidos pelo umbigo. Tínhamos então, dois homens “colados”; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo, os andróginos, juntos e de sexo opostos.

Mas Zeus, o soberano do Olimpo, observa-os e constata que se tornaram muito presunçosos, autossuficientes, felizes. Preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca desesperada por sua “outra” metade esqueçam do poder que possuem.

Acontece que, quando qualquer um desses três tipos encontrava sua outra metade, ficava tão embasbacada e feliz que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente: enlaçavam-se com seus pares iguais e não se desgrudavam. 

Ficavam inertes, pois nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de inanição (fome). E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra “metade”, fosse outro igual ou mesmo diferente.

Zeus, o ordenador do Cosmos, tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a frente, para que pudessem gerar novos seres.

Segundo esse mito, o amor entre almas gêmeas ocorre quando se encontra no outro algo que seja igual, idêntico àquilo que já se possui em si mesmo. 

É curioso que nesse mito, o amor de homem para homem seja valorizado como estando acima do amor homem-mulher. Isso porque o amor entre dois homens iguais (homói) é de uma ordem de ideias (ideal) e interesses comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do amor físico, sensual, carnal.

Todos nós temos uma ou elas são aspectos das divindades?

Não há como afirmar a existência de uma única alma gêmea. Somos polítropos, ou seja, somos muitos. Os homens, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não fizeram mais do que retratar a si mesmos.

Os encontros e desencontros fazem parte do que você denomina “aspectos das divindades”. E como são diversos esses aspectos! 

Há a divindade do erotismo (Afrodite e seu filho Eros), a divindade do matrimônio (deusa Hera, patrona do casamento e dos amores legítimos), a divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia (Dioniso, o deus do vinho e do êxtase) e etc. 

Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e, certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão sendo “mais gêmeas” com a nossa alma que qualquer outra.

O que a nossa alma gêmea tem a nos ensinar e por que ela nos faz falta?

Se nossa alma gêmea tiver algo a nos ensinar, certamente será sobre nós mesmos. Semelhante atrai semelhante (essa é a 1ª Lei da magia, segundo Sir James Frazer em "O Ramo de Ouro"). 

Ela nos faz falta porque Eros (o poder de união) é dos deuses mais antigos e a tendência (do grego pathós) do ser humano é sempre se unir. 

É por isso que quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.

Há algo que possamos fazer para encontrá-la?

Sem dúvida. Basta que estejamos predispostos a isso. O grande poeta Hesíodo (600a.C), na obra “Teogonia” esclarece que Zeus, o ordenador do Cosmos é kydistos.

Kydós (Vitória) é uma derivante de Kleós (Glória). Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o vencedor já sabia que sairia vitorioso da batalha porque tinha, trazia a vitória dentro de si.

Do mesmo modo, estamos na vida como entidades livres, leves e soltas. À partir do momento em que acalentamos o interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e apreendido por alguém que esteja também desejoso de amor. Eis o segredo! Ou melhor, não há segredo.

E sobre o amor platônico?

Para o senso comum, e assim está assentado, o amor platônico é o amor ideal, perfeito e, portanto irrealizável. Ao menos por um tempo muito longo. Explico: o amor platônico se dá no campo mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e maravilhoso no campo das ideias mesmo.

Mas a realidade é que vivemos aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos (Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a perfeição se esvai com o tempo. 

Mas isso não significa, necessariamente o fim do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em cultivar o Amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena.


luciene felix lamy
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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