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Nesta próxima sexta-feira, dia 26 de junho, às 14h, teremos uma LIVE com Ana Venticinque, do VouPraRoma sobre Bernini e o mito do rapto de Perséfone (Prosérpina) diretamente da Galleria Borghese (Roma).
Compartilhe e avise seus amigos, pois será belo, divertido e muito informativo!
Para assistir, basta entrar no meu Instagram @lufelixlamy ou no @VouPraRoma.
Um grande abraço e até lá!
PS: Ambas as LIVE's estão disponíveis no IGTV do Insta @voupraroma.
Julie Andrews (1935) interpretando a deusa Tétis, mãe do herói Aquiles, no filme Tróia.
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Minha área é Filosofia que, em
seus primórdios, entrelaça-se com a mitologia grega.
Quando me debrucei sobre “O
Banquete (sobre o Amor)”, de Platão (AQUI), ressaltei: “não é um só”,
objeta Pausânias (um dos convidados) que, cingindo a unidade do Amor,
subdivide-o (não os excluindo) e hierarquiza-os imediatamente (sim, o lógos hierarquiza!):
Afrodite não é só uma, há a mais velha, Urânia (Celestial) e
a Pandêmia (pan = todos e demos = povos). Nesta última [os
homens], amam mais o corpo que a alma.
Inevitavelmente, a mais poderosa divindade, Afrodite
Pandêmia (a popular, a vulgar) é vencida pelo tempo (Chronos/Saturno), seu temido, invencível e fiel inimigo, obviamente, perde seu poder: “Com efeito, ao mesmo tempo em que cessa o
viço do corpo, que era o que ele amava “alça ele o seu voo” (aqui é Platão citando o aedo/poeta Homero),
sem respeito a muitas palavras e promessas feitas.
Bom é o amante do caráter,
que é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é
constante”.
Pausânias revela, então, duas
formas da deusa do amor e da beleza: Afrodite
Urânia, associada ao eterno, imortal e Afrodite Pandêmia ao transitório, mortal.
Ambas são
necessárias, embora sucumbir, dando ênfase à Pandêmia (corpórea, sensível,
carnal), desvirtue a pólis (cidade). Essa Paidéia (pedagogia) tinha no horizonte o desencadeamento da mais famosas das guerras, a de Tróia.
Postulando sobre a questão da
velhice, especificamente no que tange às Afrodites na faixa dos 50+ (outrora
mais pandêmias, hoje, infelizmente, nem sempre Urânias) a abrangência que essa
questão suscita é vasta, pois há o viés filosófico, mitológico, biológico,
psíquico (psicanalítico), econômico, cultural, estético, literário,
antropológico, midiático, etc. Eis aqui, nosso breve recorte.
Mas, antes, uma piada:
Como não envelhecer? Esquece,
pede outra coisa. Aceita que dói menos. Bem, na verdade vai doer de qualquer
forma.
Envelhecer é vislumbrar o
crepúsculo, é ir despedindo-se da vida. Daí o medo, a paúra em testemunhar a
decrepitude do corpo. Mas nosso “canto do cisne”, único, pessoal, intransferível
pode ser belíssimo!
Das sujeitas à alteração de
Chronos (o deus do Tempo, na mitologia grega; Saturno, na romana), ou seja,
TODAS NÓS, MORTAIS, a perda de PODER (cujo objeto simbólico é o “falo”) é causa
das maiores angústias.
Psicanaliticamente falando,
mulher no lugar da “falta” e homem no lugar da “potência” (dynamis).
Não é de hoje que o prêmio
(poder) se dá através do homem (força, afirmação, virilidade), e o processo de
envelhecimento exige um realocamento dessa
fonte de poder.
Atentar a esse mecanismo liberta de nos sentirmos reféns do
índice de desejabilidade, nos elevando a outro patamar, ao não menos poderoso terreno da serenidade e da suprema sabedoria: ao
de Afrodite Urânia.
Inegavelmente, somos todos
escravos da beleza, tanto que, à revelia, o belo atrai, o belo catalisa, é
magnético, é quem “manda” em nosso olhar.
Seja o belo concreto de uma mulher, um cavalo ou uma panela (lembrando
Sócrates) e/ou o belo de um ideal
(que por métexis, participam a
mulher, o cavalo e a panela), o belo de um sentimento ou de uma atitude.
O belo, sobretudo a beleza da
juventude, traz em seu bojo, além da “promessa
de felicidade” proustiana, o claro indício da capacidade natural (e
sobrenatural!) de criar novas vidas, portanto, é notório o poder oriundo da
potencial fertilidade feminina. Utilitaristas que somos, o que não gera é
inerte.
No entanto, voltando ao Banquete,
recordemos as palavras da sábia sacerdotisa Diotima da Mantinéia: há geração
nos corpos e geração nas almas!
São diversos os arquétipos
(comandos principiais que servem de modelo) primordiais: a Terra (Gaia), a
Grande Mãe, a Sábia, a Desbravadora, a Sedutora, a Guardiã do fogo sagrado,
etc.
O empoderamento feminino, seja
por conta da beleza, da astúcia (ou de ambos) é antigo: Eva, Nefertiti, Helena,
Cleópatra, as bíblicas Maria Madalena, Judite e Salomé, as estadistas Golda
Meir, Margareth Thatcher e Ângela Merkel, além das mitológicas Afrodite
(Vênus), Athena (Minerva) e Hera (Juno), soberana do Olimpo.
Enquanto viventes, estamos atreladas
ao nosso corpo, mortal, sujeito à corrupção de Chronos (o Tempo devora tudo o
que cria) e ele, o corpo, é também condição “sine qua non”
para que nos manifestemos.
É dos argumentos a favor da aceitação (que pode ou não
ser precedida por negação, raiva e barganha) dos efeitos da decrepitude neste corpo
que ponderamos.
Pois bem, considerando que este
corpo é veículo perecível e que após meio século de vida (tenho no horizonte a
expectativa de vida em torno de 80 anos) os sinais de Geres (a velhice) vão se
intensificando e se impondo, cabe a nós, fazendo uso da “ratio” (razão), ponderarmos sobre a ressignificação que a manifestação deste corpo – no tempo, no
espaço – requer, que pode vir a ter. Sim, analógicas e digitais, além de vivenciarmos o que foi "cair a ficha" nos orelhões das esquinas da vida, temos Instagram, um armário abarrotado, além dessas décadas "extra"! Talvez ainda não estejamos sabendo lidar muito bem com isso. "Nada em excesso", roga o frontispício do Oráculo do deus Apolo, em Delfos.
É mais comum uma jovem de trinta
anos achar-se “velha” (coisas do 1º Regresso de Saturno) que uma senhora de 50+ aceitar interditos à sua faixa
etária.
Ageless é o nome da nova onda
que, se não estiver sob o escrutínio do bom senso revelará algo de forçosamente hipócrita ou fake.
Convém discernimento para separar
o joio do trigo: ageless é grande
conquista para o emprego de todo esse gás (Nietzsche denominou de “vontade de
potência”) que ainda dispomos, para adotarmos o confortável (jamais desleixado)
estilo normcore (código de vestir “normal”),
atentar ao mindfulness e se
reinventar desbravando novos mundos, na medida do possível.
Como todo e qualquer pharmakón, ageless é um bom paliativo (bora dropar essa onda!), uma vez que Thánatos não tem cura.
No mundo pós-moderno, nossas
ações não se resumem mais às questões de cunho moral binário, no sentido “certo
X errado”, mas de sentir se aquilo que Homero denominou os “phrenas” manifesta-se ou não em nosso
íntimo; é um mundo favorável a nos tornarmos “patetikós”.
Sim, já vivenciamos o ápice do
vigor de nossa juventude, de nossos vinte, trinta anos!
Corremos, focamos, nos dedicamos
e cumprimos inúmeras tarefas, trabalhamos muito. Vivenciamos anseios, dúvidas,
angústias, enfrentamos desafios, superamos provações.
Carregamos a árdua e imperativa
tarefa de escolher – com mais ou menos liberdade – nosso destino em várias
esferas da vida: do ponto de vista profissional e também amoroso, afetivo.
Provavelmente até mais de uma vez.
Optamos por gerar ou não nossos
filhos. Por cultivar ou não afetos, por priorizar ou não galgar elevadas
posições, obter destaque na sociedade.
Isso às quais coube tal escolha, pois
sabemos que, infelizmente, a muitas mulheres a natureza biológica ou a
limitação socioeconômica vetou tais liberdades.
Para nós, na faixa 50+, talvez as
duas últimas décadas talvez tenham sido mesmo as de maior empenho de nossa
parte pelo “Outro”, quando estivemos absortas, fazendo o que podíamos por nossa
carreira e pela família, tanto a que originamos quanto àquela que nos originou.
Foram muitos os encontros e
desencontros, todos edificando nosso caráter, nos jantares, nas festinhas,
batizados, aniversários e ceias natalinas. Ah, os afetos alinhavados enquanto
estávamos entretidas na criação de nossa prole. “Velhos tempos; belos dias! ”.
E fizemos! Meu Deus, como
fizemos!
Mas eis que chega esse momento de
reavaliação das principais ações, que nos ocupou e preocupou por décadas, essa faixa,
a dos 50+ na qual nos flagramos prostradas diante de nós mesmas, inquirindo
perplexas:
“Então, fiz, agi como conforme meu meio social, minha época, a cultura
e os valores vigentes pautavam. Mas.... É só isso? Agora é afogar no mar do
vazio, da opacidade, da ausência de desejos e, pior, coroando todas essas
angustiantes indagações, velar a decrepitude do corpo, resignar-me? ”.
Toda essa avalanche de
questionamentos (o que elenquei acima foi somente um exemplo dos que podem vir
a surgir), acompanhados da sensação de inutilidade, é fruto do que realmente?
De não determos mais o poder de
gerar?
Mas já geramos. Ou optamos por
não gerar, antes mesmo que o aplicativo do interdito biológico (menopausa) se
instalasse.
Da expectativa de levarmos a cabo
(e bem) a tarefa de educar, preparando a prole para a vida?
Mas já os encaminhamos!
De não saber o que mais fazer?
Ah, desejante homo-faber!
Bem, de praxe, equiparamos o Ser
ao fazer. “O que você faz? ”
Culturalmente é com a resposta a esta pergunta que definimos a nós mesmas e aos
demais.
E sequer havia necessidade de
algo reconhecidamente brilhante ou extraordinário para uma resposta
legitimamente satisfatória, que nos definisse, bastava um simples “cuido da
casa; zelo pela família, os filhos, o marido, o lar. ”
Há algo mais distinto e
moralmente positivo do que responder assim, com toda honra e toda glória?
Eis que a guardiã do fogo dos
antepassados, do lar, a deusa Héstia (Vesta, para os romanos) nos empodera,
meninas!
Claro, muitas de nós conquistaram
um papel de inegável destaque no seio social: Mãe de Família! Há título mais
respeitoso?
Tão virtuoso que eclipsa até o de
uma cientista que se dedique à cura do câncer, por exemplo. Para cada dez mães
de família, uma cientista bastaria. O contrário, talvez não.
Porque, vamos combinar de falar a
verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, por conta do que o Pai da
Psicanálise, Sigmund Freud denominou “desamparo
estrutural”, a maternidade – apropriadamente – reivindica para si a maior
glória do mundo. Sem [boas] Mães não há sequer seres humanos. Ponto.
No entanto, contudo, todavia, à
medida em que o Tempo passa (Oh, Chronos impiedoso!), a capacidade (leia-se
PODER) de gerar se extingue, os filhos gerados crescem, saem de casa, vão eles
próprios buscar seus caminhos e, vem a angústia, a síndrome do “ninho vazio” (no vídeo abaixo o psicanalista Paulo Gaudêncio chama de "síndrome das mães desempregadas").
Também pode haver a cama vazia, o
bolso vazio e, talvez, ainda mais danoso: a cabeça vazia.
Amor. Desejo. Voltemos ao início,
à deusa da beleza e do amor, Afrodite (Vênus), a potestade com a qual iniciamos
essa prosa.
Amar/desejar SEMPRE dá um sentido
para a vida, um propósito para o viver.
Amar a si mesma. Amar aos filhos.
Amar o que se faz. Quanto aos demais, compreender talvez já seja o suficiente.
Pois bem, compreender aos pais,
aos irmãos, aos amigos, àqueles que – à revelia ou não – o acaso colocou em
nosso caminho.
O filósofo grego pré-socrático
Heráclito de Éfesos dizia: “O tempo é
criança brincando, de criança o reinado.”. Entreter! Entretemo-nos e
enriqueçamo-nos com as mundanidades que agradam aos nossos olhos, que edificam
e enobrecem a nossa alma!
Temos Dante, Victor Hugo, Dostoievski,
Shakespeare, Guimarães Rosa e Machado de Assis (temos as séries no NetFlix!); temos a beleza das flores e da
decoração dos ambientes, os bons odores, as artes, as viagens, as amizades, a
solidariedade, o curso de idioma, de danças de salão, as atividades tão
prosaicas, cotidianas e por isso mesmo, tão salutares; as sofisticações
gastronômicas, os carteados semanais, a caminhadinha diária.
Temos toda uma desfavorecida e,
portanto, necessitada humanidade à nossa volta para olhar e fazer, homo faber!
Mas tal qual a birrenta imatura
que se recusa a passar o bastão, o cedro, ansiando por uma irrealizável
imortalidade, não nos enxergamos em todas as dimensões, pomos em relevo as rugas, a flacidez
e o prateado dos cabelos. Nós mesmas nos limitamos a isso, míopes à grandiosidade do Cosmos, à Afrodite Urânia em nós.
É tão feio assim, envelhecer? Contemple a enfermeira polonesa Irena Sendler (imagem acima) e veja o quão
bela – no corpo e na alma! – uma mulher bondosa e sábia pode ser.
Como boa e prática chronida que
sou (Capricórnio), francamente, rebelar-se contra o invencível Chronos é pura
perda de (e para o) tempo. Mire lá em cima, no alto, a plateia agora é outra, capisce?
Desfrutar profunda e serenamente o crepúsculo que já se avizinha, usufruir destas preciosas últimas
décadas de vida (Oh, dádiva!) com lucidez, gratidão e sobretudo com ALTIVEZ é,
sim, uma belíssima saída possível.
Saída. Foi o que escrevi, pois
sairemos. Que seja de forma digna e honrada, como convém aos sábios.
luciene felix lamy
Whats (13) 98137-5711
Acima, esclarecendo sobre "Afrodite Urânia e Pandêmia", do renascentista veneziano Tiziano Vecellio, na Galleria Borghese, em Roma. TURMAS ANUAIS, http://cursodemitologiaemroma.blogspot.com/
No vídeo abaixo, minha singela homenagem à Sabia que tive a honra de conhecer: a psicanalista Anna Verônica Mautner (1935-2019). Confira mais vídeos dela no YouTube.
"Não se trata somente de união sexual, mas de 'uma coisa' que a alma de um quer da alma do outro". Platão
Indômita potência, inspirador de virtudes, a divindade mais antiga, eterno, universal, pois presente em todo cosmos, belo e jovem, o amor é a busca pela unidade e também um tipo de delírio.
Especialmente neste mês dos namorados, insisto no poder que o amor possui. Segundo Platão, o amor é fruto de Póros e Penia (abundância e falta). Tendo isso em mente é compreensível o afã de encontrar uma alma que nos complete.
Eis o sonho de todos aqueles nos quais um coração pulsa, bombeando sangue até o último suspiro. De onde vem essa ideia (ou sensação, se preferir) de incompletude? Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo somente casais heterossexuais?
Um dos mitos gregos que ilustra bem a condição da busca pela alma gêmea é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes, no início da obra "O Banquete" (sobre o Amor), de Platão.
No famoso mito dos andróginos, os seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E também eram duplicados (dois em um só) e unidos pelo umbigo. Tínhamos então, dois homens "colados"; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo, os andróginos, juntos e de sexo opostos.
Reza o mito que Zeus, o soberano do Olimpo, observa-os e constata que são muito presunçosos, autossuficientes, felizes. Foi então que, preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca desesperada por sua "outra metade" esqueçam do poder que possuem.
Eventualmente, quando qualquer um desses três tipos encontrava sua outra metade ficava tão embasbacada e feliz que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente: enlaçavam-se com seus pares e não se desgrudavam.
Ficavam inertes, pois nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de inanição. E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra "metade".
Foi então que Zeus, o ordenador do Cosmos, tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a frente, para que pudessem gerar novos seres.
Segundo esse mito, o amor entre almas gêmeas ocorre quando se encontra no outro uma parte que seja igual, idêntica àquilo que já se possui em si mesmo.
Predileções sexuais à parte, o amor entre os iguais (homói) é de uma ordem de ideias, de interesses comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do amor físico, sensual, carnal, por isso o amor platônico (ideal) é, nesse sentido, perfeito.
Não há como afirmar a existência de uma única alma gêmea. Polítropos, seres humanos são multifacetados e, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não fizeram mais do que retratar a si mesmos, em seus múltiplos anseios.
Os encontros e desencontros fazem parte do que se denomina "aspectos das divindades". E como são diversos esses aspectos!
Há a divindade do erotismo, presidido pela deusa Afrodite e seu filho Eros (Vênus e Cupido), a divindade do matrimônio, deusa Hera (Juno), a presidir os amores legítimos, a divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia, que é encabeçado por Dioniso (Bacco), o deus do vinho e do êxtase, e muitos outros.
Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e, certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão sendo "mais gêmeas" com a nossa alma que qualquer outra.
E, uma das coisas que nossa alma gêmea tem a nos ensinar, certamente é sobre nós mesmos: "Semelhante atrai semelhante", afirma o inglês estudioso de magia do século XVII, Sir James Frazer em "O Ramo de Ouro".
Essa "alma gêmea" nos faz falta porque Eros, que personifica o poder de união, que é a maior dýnamis, potência do universo é dos deuses mais antigos e a tendência (do grego, pathós) do ser humano é se unir a outro alguém.
Obviamente, quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.
Sem dúvida, a primeira condição para que encontremos "alma gêmea" é que estejamos realmente ansiosos e dispostos a isso. Para exemplificar como essa sintonia e reencontro de almas pode acontecer, recorramos ao grande poeta Hesíodo (600a.C), que em sua obra "Teogonia" esclarece que Zeus é kydistos, pois possui o "Kydós".
A palavra grega Kydós (variação de Niké, que é vitória) é uma derivante de Kleós (glória) é, portanto, um dos atributos de Zeus. Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o vencedor já até sabia que sairia vitorioso da batalha porque trazia a vitória dentro de si.
Do mesmo modo, estamos na vida como entidades livres, leves e soltas. A partir do momento em que acalentamos o interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e apreendido por alguém que também esteja se sentindo desejoso de amor. Eis o segredo! Ou melhor, não há segredo.
Convém esclarecer ainda que, embora esteja assentado para o senso comum que o amor platônico é o amor ideal e perfeito, ele é também irrealizável. Ao menos por um tempo muito longo: o amor platônico se dá no campo mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e maravilhoso no campo das ideias mesmo.
No entanto, a realidade é que vivemos aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos (Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a perfeição se esvai com o tempo.
Mas isso não significa, obrigatoriamente, o fim do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em cultivar o amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena. Até porque, na condição de mortais, como afirma Platão, será a ação (do Amor) o que garantirá alcançarmos a imortalidade que nos é possível.
Com estima e consideração para o querido amigo Anthony Majanlahti.
O trecho que transcrevo abaixo é
um recorte de um artigo que publiquei quando estudei “O Banquete” no Curso de
Graduação em Filosofia na PUC-SP com a Titular de Filosofia Antiga, Profª Drª
Rachel Gazolla.
O comediógrafo grego Aristófanes insistirá no poder
que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito
dos andróginos, legitimará a homo afetividade e a desenfreada busca pelo que
denominamos “almas gêmeas”.
Eis que os seres humanos,
inicialmente eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram também
duplicados e unidos pelo umbigo.
Zeus (Júpiter, o soberano do Olimpo), temendo a presunção de tanta autossuficiência,
para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à
procura de sua outra metade original, que pode ser um outro homem, caso o
original tenha sido a união de dois homens, uma mulher, em busca de outra OU ainda um
homem e uma mulher que se anseiam, caso dos andróginos.
Para Aristófanes, o Amor é
justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se
restabelecer o original e primitivo “todo”.
Não se trata somente de união
sexual, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa
“coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.
Se o ferreiro divino Hefestos (Vulcano,
na mitologia romana) surgisse com seus instrumentos indagando aos amantes: “Que
é que quereis, ó homens, ter um do outro? (...). Porventura é isso que
desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que
nem de noite nem de dia vos separeis um do outro?
Pois se é isso que desejais,
fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um
só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e
depois que morrerdes, lá no Hades (Plutão na mitologia romana), em vez de dois ser um só, mortos os dois
numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se
conseguirdes isso”.
Aristófanes diz que depois de
ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria
querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava
desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.
Reiterando que nossa natureza é
una, que éramos um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e procura do todo
que se dá o nome de Amor.
(...)
Ao ser indagada por Sócrates
sobre a origem do Amor, Diotima (da cidade de Mantinéia, uma sábia versada nas artes da feitiçaria) relata-nos o belíssimo mito de que quando
Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os demais, se
encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza.
Esse rico rapaz era
filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois
que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem
mendiga], e ficou pela porta.
Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de
Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso,
deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.
O Amor, filho de um pai sábio e
rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: “Eis
porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício,
ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”.
(...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo,
como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra
e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a
natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão.
Segundo o pai, porém, ele é
insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador
terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a
filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no
meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser
sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa.
Nem também
os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o
difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina
ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.
A estrangeira reitera que uma das
coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é
forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo filósofo está entre
a sabedoria e a ignorância.
A ação (do Amor) é o que garante
aos mortais alcançar a imortalidade que lhes é possível.
Diotima ressalta uma
hierarquia sobre a concepção amorosa dizendo que há os que concebem na alma
(belos pensamentos e virtudes) mais do que no corpo. Mas a mais importante,
disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos
negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça.
Será o Amor, um grande deus?
Indômita potência? Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga? Eterno?
Universal, pois presente em todo cosmos? A busca pela unidade? Belo e jovem? Um
tipo de delírio?
Filósofo por excelência? Concepção de nossa alma? Um daímon
(anjo) entre o divino e o humano? Afortunada benção que garante felicidade
(eudaimonia)? O que é o Amor? Entusiasmada que sou, do Belo em si platônico,
vivencio-o como a assinatura do theós (divino) em todos nós.
Saiba mais:
O Banquete, ou, Do amor – Platão.
Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.
SOBRE ALMAS GÊMEAS (entrevista concedida a Revista
Capricho em Fev/2008 )
Como a mitologia grega explica a existência de almas gêmeas? É algo
entre homem e mulher apenas?
Um dos mitos gregos que ilustra
bem a condição das almas gêmeas, é o proferido pelo comediógrafo Aristófanes no
início da obra “O Banquete” (sobre o Amor) de Platão.
No famoso mito dos andróginos, os
seres humanos, inicialmente, eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E
também eram duplicados (dois em um só), unidos pelo umbigo. Tínhamos então,
dois homens “colados”; duas mulheres também unidas e, por fim, o terceiro tipo,
os andróginos, juntos e de sexo opostos.
Mas Zeus, o soberano do Olimpo,
observa-os e constata que se tornaram muito presunçosos, autossuficientes,
felizes. Preocupado e temendo que resolvessem escalar os céus e investir contra
os deuses, decide enfraquecê-los dividindo-os ao meio para que, na busca
desesperada por sua “outra” metade esqueçam do poder que possuem.
Acontece que, quando qualquer um
desses três tipos encontrava sua outra metade, ficava tão embasbacada e feliz
que não faziam mais nada a não ser pensar no ardor de se fundirem novamente:
enlaçavam-se com seus pares iguais e não se desgrudavam.
Ficavam inertes, pois
nada queriam fazer longe um do outro. Resultado: ao menos um, morria de
inanição (fome). E o que sobrevivia, tornava a buscar novamente uma outra
“metade”, fosse outro igual ou mesmo diferente.
Zeus, o ordenador do Cosmos,
tomado de compaixão, temendo que se dizimassem, mudou-lhes o sexo para a
frente, para que pudessem gerar novos seres.
Segundo esse mito, o amor entre almas
gêmeas ocorre quando se encontra no outro algo que seja igual, idêntico àquilo
que já se possui em si mesmo.
É curioso que nesse mito, o amor de homem para
homem seja valorizado como estando acima do amor homem-mulher. Isso porque o
amor entre dois homens iguais (homói) é de uma ordem de ideias (ideal) e interesses
comuns, e o grego hierarquizava o amor, colocando o amor espiritual acima do
amor físico, sensual, carnal.
Todos nós temos uma ou elas são aspectos das divindades?
Não há como afirmar a existência
de uma única alma gêmea. Somos polítropos, ou seja, somos muitos. Os homens, ao antropomorfizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características humanas, não
fizeram mais do que retratar a si mesmos.
Os encontros e desencontros fazem
parte do que você denomina “aspectos das divindades”. E como são diversos esses
aspectos!
Há a divindade do erotismo (Afrodite e seu filho Eros), a divindade
do matrimônio (deusa Hera, patrona do casamento e dos amores legítimos), a
divindade da desordem, do caos, do bacanal, da orgia (Dioniso, o deus do vinho
e do êxtase) e etc.
Todos eles fazem parte de nossa psyché (Alma) e,
certamente, existem almas que, num determinado momento de nossas vidas, estarão
sendo “mais gêmeas” com a nossa alma que qualquer outra.
O que a nossa alma gêmea tem a nos ensinar e por que ela nos faz falta?
Se nossa alma gêmea tiver algo a
nos ensinar, certamente será sobre nós mesmos. Semelhante atrai semelhante
(essa é a 1ª Lei da magia, segundo Sir James Frazer em "O Ramo de
Ouro").
Ela nos faz falta porque Eros (o poder de união) é dos deuses mais
antigos e a tendência (do grego pathós) do ser humano é sempre se
unir.
É por isso que quando essa tendência se dirige a uma pessoa de forma
muito insistente, ela se torna uma patologia, ou seja, uma doença. E doença do
coração, da alma, só se cura com a lucidez da razão.
Há algo que possamos fazer para
encontrá-la?
Sem dúvida. Basta que estejamos
predispostos a isso. O grande poeta Hesíodo (600a.C), na obra “Teogonia”
esclarece que Zeus, o ordenador do Cosmos é kydistos.
Kydós (Vitória) é uma derivante
de Kleós (Glória). Num combate entre dois guerreiros, àquele no qual Zeus
encontraste o kydós (a marca da vitória) era destinado vencer, ou seja, o
vencedor já sabia que sairia vitorioso da batalha porque tinha, trazia a
vitória dentro de si.
Do mesmo modo, estamos na vida
como entidades livres, leves e soltas. À partir do momento em que acalentamos o
interesse amoroso, o desejo de união em nós, certamente isso será captado e
apreendido por alguém que esteja também desejoso de amor. Eis o segredo! Ou
melhor, não há segredo.
E sobre o amor platônico?
Para o senso comum, e assim está
assentado, o amor platônico é o amor ideal, perfeito e, portanto irrealizável.
Ao menos por um tempo muito longo. Explico: o amor platônico se dá no campo
mental, na idealização do ser amado. Acontece que tudo isso é muito lindo e
maravilhoso no campo das ideias mesmo.
Mas a realidade é que vivemos
aqui na terra, sujeitos às mudanças, aos humores e à corrupção de Chronos
(Saturno, o deus do Tempo). Somos perecíveis, enrugamos, envelhecemos, a
perfeição se esvai com o tempo.
Mas isso não significa, necessariamente o fim
do amor. Daí a necessidade de se ter maturidade para manter constância em
cultivar o Amor, não somente do corpo, mas sobretudo da Alma. E vale a pena.
O que causa mais dano: luxúria ou
ressentimento? Há tanto ressentimento entre os “justos” e os “corretos”. Há
tanto julgamento, condenação e preconceito entre os “santos”. Henri J.M. Nouwen
Mitos, parábolas, lendas,
alegorias, enfim, são muitos os clássicos relatos que preveem e revelam no que
culminam nossas emoções ao nos compararmos com nossos “homói” (iguais): raiva, ódio,
inveja, ciúme, desprezo, mágoa, amargura, vingança, ressentimentos, etc.
Na sublime obra de Rembrandt (1606-1669) “A Volta
do Filho Pródigo” (acima), que está no Hermitage, em São Petersburgo
(Rússia), está retratado o momento em que o pai acolhe o filho pródigo (esbanjador)
sob o olhar do filho mais velho.
É famosa essa parábola bíblica narrada
por Lucas, que conta a história de dois irmãos: o mais velho, correto,
trabalhador, obediente, sempre junto ao lar; e o mais novo, que no afã de
ganhar o mundo, apressa-se a pedir logo ao pai sua parte na herança e viaja para,
longe de casa, desfrutar de suas aventuras.
Depois de dissipar todo o
dinheiro numa vida de devassidão, o filho mais novo cai em desgraça, começa a
passar privações e, lembrando-se de que até mesmo os empregados de seu pai
possuem mais do que ele, se arrepende e volta em busca de perdão: “Pai, pequei
contra o Céu e contra ti; já não sou mais digno de ser chamado teu filho.
Trata-me como um dos teus empregados”.
Repleto de compaixão e generoso, mais
do que perdoá-lo, de braços abertos, o pai o recebe em festa, cobrindo-o de
beijos: “Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, pondo-lhe um
anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e
festejemos, pois, este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido
e foi encontrado!”.
Já o filho mais velho, que estava
no campo, ao se aproximar da casa paterna, indagando a um servo o porquê de
tanta festa que escutara de longe, ouve que é por causa do retorno de seu
irmão, que muito alegra ao pai.
Indignado, o filho mais velho
recusa-se a adentrar ao lar; seu pai então sai para suplicar-lhe, mas ele lhe
responde; “Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus
mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos.
Contudo, veio esse teu filho [aqui ele já se distancia do irmão], que devorou
teus bens com prostitutas, e para eles matas o novilho cevado!”.
Foi quando o pai lhe disse:
“Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos
e nos alegrássemos, pois, esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele
estava perdido e foi encontrado!”.
É fácil identificar aqueles que
se encaixam no perfil do filho pródigo (gastador): trata-se do perdulário, do
fanfarrão, inconsequente; daquele que se esquece que dinheiro não leva desaforo
e, não demora muito, se vê rodeado de dívidas, em penúria, na miséria. É um
“bon-vivant”, tal qual a cigarra da fábula, um hedonista, enredado por uma vida
de prazeres, que pensa ser eterna.
Analisando este comportamento, o
padre holandês Henri J.M. Nouwen afirma: “Há algo de claramente definido a
respeito de sua má conduta. Depois, tendo visto que esse procedimento errado
não levava senão à miséria, o filho mais jovem recobrou o bom senso, deu a
volta e pediu perdão. Temos aqui uma falha humana clássica, com uma decisão
acertada. Fácil de entender e fácil de aceitar.”.
Sabemos que, mais dia, menos dia,
se mal-empregado, o dinheiro acaba, os amigos interesseiros se vão, e lá está a
pessoa, arrasada, endividada, arrependida. Qual pai – ou mãe – não perdoaria,
não acolheria em seus braços, saltitando de alegria pela recuperação do desregrado
degradado? E por que assim, pronta e efusivamente procedem?
Saltitam de alegria pura e
simplesmente porque amam. O amor é sempre a resposta. Esse amor filial é como –
para os que creem – como o de Deus: incondicional. Não importa o que façam ou o
quanto deixem de fazer, filhos – sobretudo os distantes – são muito amados e
ansiados por seus pais.
Mas, e o irmão? Revoltado, é
envenenado pela raiva e profundamente ressentido que ele protesta: “Há tantos
anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só de teus mandamentos, e nunca me
deste um cabrito para festejar com meus amigos.”.
Nessa reivindicação, condenando a
alegria do pai pela chegada do irmão mais jovem, entrevemos que a obediência e
o dever foram um peso, e o trabalho, uma escravidão. Ele cumpriu o seu dever,
trabalhou duro, deu conta de suas obrigações, mas se tornou amargo, sentiu
inveja da vida desfrutada pelo irmão mais novo. Por acalentar tais sentimentos,
ele também se tornou um perdido.
A Volta do Filho Pródigo, por Pietro Faccini.
Ambos precisam de cura e de
perdão, mas a conversão mais difícil, o resgate mais árduo é justamente o desse
irmão mais velho, que se tornou um ressentido.
Nouwen esclarece que essa queixa
íntima é sombria, pesada, faz com que a pessoa se ache a mais incompreendida,
rejeitada, negligenciada e desprezada do mundo: “Essa experiência de não poder
partilhar da alegria [do próximo] é a experiência de um coração ressentido. O
filho mais velho não podia entrar na casa e partilhar da felicidade de seu pai.
Sua mágoa íntima o paralisava e o deixava taciturno [quieto, calado].”.
Essa parábola lega a preciosa
lição de aprendermos a reagir ao amor de Deus sobre os outros.
Vaidoso, ferido em seu orgulho, será
que o irmão mais velho está disposto a admitir que não é melhor que seu irmão
mais jovem, o filho pródigo?
Convém abandonarmos toda
comparação, rivalidade, competições, enfim, buscar a luz, pois fora da luz, diz
Nouwen, os outros sempre parecem ser mais amados pelo Pai do que eu; de fato,
fora da luz, não posso mesmo vê-lo como meu próprio irmão. Na escuridão,
prossegue, irmãos e irmãs, maridos e esposas, amantes e amigos se tornam rivais
e mesmo inimigos, cada um eternamente empestado de ciúmes, suspeitas,
ressentimentos.
E, nessa categoria de dor, afirma
Nouwen, tudo perde sua espontaneidade: “Tudo se torna suspeito, constrangedor,
calculado e cheio de segundas intenções. Não há confiança. Cada pequeno passo
requer uma retribuição; cada pequena observação pede uma análise; o menor gesto
tem de ser medido. Esta é a patologia da escuridão, daqueles que estão
perdidos, precisam ser encontrados e trazidos para casa.”.
Sentir medo ou mostrar desprezo,
submeter-se ou controlar, oprimir ou vitimar-se... Assim vivem, nessa luta
contra a auto rejeição e o desprezo, os que optam por comparar-se. Trata-se de
um combate ferrenho, árduo, contínuo, pois o mundo e seus demônios conspiram
para que – nos comparando – nos consideremos sem valor, incapazes e
insignificantes.
Como atesta Henri Nouwen, nem
ganância, nem raiva, nem luxúria, nem ressentimento, frivolidades ou ciúmes
estão totalmente ausentes em nós; nossa imperfeição pode ser vivenciada de
muitas maneiras, não há ofensa, ciúme ou guerra que não tenha raízes em nossos
próprios corações. Por isso é tão importante cultivarmos a gratidão, atitude
que não coexiste com o ressentimento. Ao que de bom e benéfico ocorrer a um
irmão, sejamos gratos.
É difícil admitir, mas talvez
esse amargo e ressentido filho mais velho esteja psiquicamente muito mais perto
de nós do que gostaríamos. Os “pharmakons”
para esses sentimentos é a confiança e a
gratidão, essas são as matérias para a conversão.
Podemos escolher, sempre podemos
optar por viver nas trevas –, nos queixando, mesmo que em silêncio, cultivando
o ressentimento –, ou partir em busca da luz –, alegrarmo-nos pelas bênçãos aos
nossos semelhantes.
Dedicado ao inestimável e
inesquecível Mestre, Prof. Dr. Marcelo Perine.
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E vídeos disponíveis no Youtube digitando "luciene felix lamy"
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa(no todo)precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.
Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.
Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.
Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché)de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.
A necessidade da ordem(kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida(hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneoversus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia(Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").
Com os exponenciais poetas(aedos) Homero(Ilíada e Odisséia), Hesíodo(A Teogonia e O trabalho e os dias),além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.
O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências(dýnamis)envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.
AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.
E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.
Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.
Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.
Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.
A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga(Arcaica, Clássica e Helenística).
Nessa imagem de Bouguereau, Orestes(Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc)é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).
O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.
Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.
A ARETÉ (excelência) do Homem
se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto.(Aristóteles)
Busque sempre a excelência!
TER, vale + que o SER, humano?
As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.
Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.
Ser "sem nôus", ser "sem amor"(bom daimon) é ser "sem noção".
A Sábia Mestre: Rachel Gazolla
O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)
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