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É impressionante a estatura moral desta obra do Antigo Testamento –
literária, se assim insistirem os ateus – em termos de arquétipos
éticos e políticos alicerçados na crença em uma JUSTIÇA divina.
No “Livro de Judite”, que narra o cerco à cidade de Betúlia a
mando do rei dos assírios, Nabucodonosor, através de seu temido
general Holofernes, encontramos a beleza e a astúcia feminina –
guiada pela sabedoria – a serviço do Bem.
Por Michelangelo Merisi da Caravaggio (1598), na Galleria Borghese, em Roma.
O épico bíblico (século II a.C.) relata as aventuras da bela,
digna e rica viúva chamada Judite (judia) que salva seu povo da
ameaça de um terrível inimigo.
Após enviar seus mensageiros conclamando todos a submeterem-se ao
seu poder e vê-los chegar de mãos vazias, Nabucodonosor jura
vingança e, chamando o chefe de seus exércitos, Holofernes, ordena
que ele marche contra os que desprezaram suas ordens.
Assim, impiedosamente, a tropa de Holofernes, por onde passava,
arrasava e apoderava-se dos bens que saqueavam, passando a fio de
espadas os que lhe opunham resistência, tornando-se sinônimo de
terror para todos, que entregavam à ele tudo o que possuíam:
“Doravante, tudo o que nos pertence está nas tuas mãos. Nós e os
nossos filhos, somos teus escravos.”.
Também os magistrados recebiam-no com coroas e archotes. No entanto,
nem mesmo a rendição abrandava a ferocidade de tal exército.
Segundo o relato, assombrados com a aproximação de Holofernes, os
filhos de Israel cercaram suas cidades com muros, armazenaram trigo e
se preparam para o combate: “Lembrai-vos de Moisés, servo do
Senhor.”.
Holofernes foi avisado da intenção deles em resistir e, furioso,
quis saber todos os detalhes sobre esse povo. Foi então que Aquior,
chefe dos amonitas, disse a ele: “Este povo é da raça dos
caldeus. (…) Oprimidos pelo rei do Egito, e forçados a trabalhar
(…), clamaram ao seu Senhor, o qual feriu toda a terra do Egito com
vários flagelos. Eles fugiram, e o Deus do céu abriu-lhes o mar e
eles atravessaram a pé enxuto (…).”.
Indignado, Holofernes quis matá-lo: “Já que nos predisseste que o
povo de Israel será defendido pelo seu Deus, vou mostrar-te que não
há outro deus fora de Nabucodonosor.”.
Ordenou aos seus homens que prendessem Aquior e o levassem a Betúlia,
deixando-o nas mãos dos filhos de Israel, que encontraram-no
amarrado e conduziram-no para a cidade.
Betúlia era governada por Ozias, da tribo de Simeão. E estando
Aquior, agora no meio dos anciãos, referiu tudo o que respondera
quando fora interrogado e como Holofernes o quis matar por ele ter
falado daquela maneira [a saber]: “O Deus do céu é o defensor dos
filhos de Israel”.
Após essa declaração de Aquior, todos rezaram: “Senhor, Deus do
céu e da terra (…). Mostrai que não abandonais aqueles que
confiam em Vós.”.
Ozias hospedou Aquior e ofereceu-lhe uma grande ceia. Depois,
convocou todo o povo, e oraram, durante toda a noite, pedindo socorro
ao Deus de Israel.
Holofernes descobriu a fonte de água que corria por meio de um
aqueduto até Betúlia e mandou cortá-lo. Depois de 20 dias, o povo
perecia de fome e sede.
Todos reuniram-se e disseram a Ozias: “Deus seja juiz entre nós e
ti, pois, recusando a negociar a paz com os assírios, és o causador
desses males. (…). Agora, entreguemo-nos voluntariamente, é melhor
viver no cativeiro e bendizer ao Senhor, do que morrer, vendo morrer
sob nossos olhos as nossas mulheres e os nossos filhos.”.
Banhado em lágrimas, Ozias disse que, se depois de 5 dias não
chegasse nenhum socorro, se renderiam. Quando soube que Ozias havida
fixado prazo para rendimento da cidade, Judite, a bela viúva, muito
rica (seu marido deixou-lhe numerosos criados, fartos rebanhos de
bois e ovelhas), que todos estimavam por seu temor a Deus e da qual
ninguém jamais falara mal, concebeu um plano.
Manifestando sua indignação aos anciãos, rogando que declinassem
dessa decisão, afirmou que era necessário rogar pela misericórdia
divina. Após concordarem, ela os avisou que sairia com sua criada e
que em cinco dias retornaria.
Preparando-se para a empreitada que arquitetou, orou: “Fazei,
Senhor, que o orgulho desse homem seja cortado com a sua própria
espada. (…). Os soberbos sempre Vos desagradaram, e sempre
aceitastes as preces dos mansos e humildes.”.
Dos pés à cabeça, trajando-se e ornando-se como muito esmero,
rumou ao acampamento de Holofernes. Quando a patrulha a deteve,
esclareceu que, por discordar da resistência de seu povo, decidiu
desertar e revelar os segredos de como subjugá-los sem uma só perda
a seu exército.
Deslumbrados diante de tanta beleza e eloquência, levaram-na à
tenda do general, que ficou extasiado por indescritível formosura.
Diante dele, Judite fez-lhe uma profunda reverência.
O temido Holofernes a tranquilizou, encorajando-a a dizer por que
razão abandonara os seus. Foi então que ela argumentou que, estando
Deus ofendido por seu povo, esse está entregue à derrota certa e
que por isso anseia por juntar-se a eles, jurando fidelidade a
Nabucodonosor.
Essas palavras o agradaram muito. Judite pediu – e ele consentiu –
que ela tivesse passe livre para sair com sua criada quando quisessem
para rezar ao seu Deus. Com o coração ardendo de paixão por ela,
pediu a Vagao, seu eunuco, que persuadisse a judia a consentir
voluntariamente a coabitar com ele. No 4º dia ofereceu um banquete
e, nessa noite, bebeu vinho como nunca.
Após todos se retirarem e Holofernes adormecer profundamente, Judite
orientou sua criada a ficar de sentinela enquanto, tomando a espada,
aproximou-se, cortou-lhe a cabeça e entregou-a à criada, para que a
metesse num saco. Depois, ambas saíram como de costume, como se
fossem fazer orações.
Por Pietro Benvenutti (1769-1844), no Museu Nacional de Capodimonte, em Nápoles.
Chegando às portas de Betúlia, a judia gritou aos sentinelas: “Abri
as portas, porque Deus está conosco, e manifestou o Seu poder em
Israel.”. Toda cidade correu ao encontro dela, que tirando o troféu
do saco, ostentou-o, dizendo: “Eis a cabeça de Holofernes, general
do exército dos assírios (…). Louvai-O todos porque Ele é bom, e
eterna a Sua misericórdia.”.
Incrédulo, Ozias proferiu: “Bendito seja o Senhor, criador do céu
e da terra, que guiou a tua mão Perante os sofrimentos e a angústia
do teu povo, salvaste-nos da ruína na presença do nosso Deus.”.
Penduraram a cabeça de Holofernes no alto das muralhas. Ao verem que
fora decapitado, o pânico apoderou-se de sua tropa: “(…) e todos
eles perderam a razão e o siso”.
Fugiram, mas muitos foram perseguidos e mortos. Seus despojos foram
entregues à Judite: “Tu és a glória de Jerusalém, tu és a
alegria de Israel, tu és a honra de nosso povo; porque te portaste
com alma viril e coração valente; amaste a castidade e não
quiseste, depois da morte de teu marido, conhecer outro homem; por
isso o Senhor confortou-te, e serás eternamente bendita!”.
Judite viveu 125 anos e durante toda sua vida, e muitos anos depois
da sua morte, não houve ninguém que perturbasse a paz de Israel.
Dedicado à magnífica cantoraFortuna, cuja bela voz inebria e
enleva a Alma.
Disponibilizo + de 100 (cem) obras de arte retratando “Judite e Holofernes”
em nossa Página no Facebook, para acessá-las, basta clicar no link ao lado.
Luciene Felix Lamy
Professora de Filosofia e
Mitologia Greco-romana da Galleria Borghese, Roma.
O Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) realiza dias 1 e 2
de setembro (5ª e 6ª feira), das 15 às 17h, o Curso de Mitologia Greco-Romana com a
professora Luciene Felix Lamy.
As inscrições podem ser feitas pelo telefone (13) 3222-5484 ou pelos e-mail's: ihgs@ihgs.com.br ou mitologia@esdc.com.br.
A taxa é de R$ 50 e inclui
apostila e certificado.
O IHGS fica na Avenida Conselheiro Nébias, 689,
Boqueirão - Santos, SP
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa(no todo)precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.
Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.
Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.
Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché)de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.
A necessidade da ordem(kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida(hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneoversus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia(Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").
Com os exponenciais poetas(aedos) Homero(Ilíada e Odisséia), Hesíodo(A Teogonia e O trabalho e os dias),além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.
O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências(dýnamis)envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.
AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.
E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.
Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.
Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.
Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.
A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga(Arcaica, Clássica e Helenística).
Nessa imagem de Bouguereau, Orestes(Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc)é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).
O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.
Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.
A ARETÉ (excelência) do Homem
se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto.(Aristóteles)
Busque sempre a excelência!
TER, vale + que o SER, humano?
As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.
Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.
Ser "sem nôus", ser "sem amor"(bom daimon) é ser "sem noção".
A Sábia Mestre: Rachel Gazolla
O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)
Você se sentiu ofendido...
irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br