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1 de out. de 2013

Movimentos filosóficos helenísticos - os estoicos


“Nós ignoramos as causas que a razão universal estabelece, mas tudo está entrelaçado, de maneira que nada é fruto do acaso”. Néstor Luis Cordero

A moral roga que suportemos “estoicamente” os reveses da vida. Mas, no que consiste e por quais linhas se pauta essa escola que surgiu em Atenas, por volta de 310 a.C.?

As bases do estoicismo foram lançadas por Zenão, da cidade de Cítio, no Chipre, que se tornou ouvinte do cínico Crates, discípulo de Diógenes de Sínope (clique aqui e confira o artigo anterior).

Aos poucos, Zenão foi se tornando independente, construindo seu próprio caminho, reunindo-se com seus seguidores em frente a um dos pórticos da ágora.

Na ágora, em Atenas, havia pórticos (grego, stoá) e por Zenão estar sempre por lá, identificaram-no como sendo “o do pórtico”, e de “estoico” (stoikós) os que costumavam acompanhá-lo.

No cinismo de Diógenes, as ideias eram apaixonantes, mas marginais, já as de Zenão caíram no gosto do povo, dos escravos e até dos poderosos porque “(...) o tipo de vida proposto pelo estoicismo não diz respeito à exterioridade do ser humano, mas sim a seu foro íntimo”, afirma o estudioso Néstor Luis Cordero.

Esse universalismo interior ofereceu um norte ao emergente cidadão do cosmos (kosmopolités), pois toda diferença de nacionalidade, de raça e até mesmo de status social é tida como antinatural. 

A identificação com essa escola foi tal, que o estoicismo se propagou pelo Império Romano e prolongou-se por muito tempo.

Segundo Cordero, costuma-se distinguir o estoicismo em três etapas: o período “antigo”, iniciado por Zenão e seus discípulos Cleantes de Asso e Crisipo de Soles; um período “intermediário”, com as figuras de Panécio de Rodes e Possidônio de Apameia; e o período “tardio”, cujos representantes de destaque foram Sêneca, o Imperador Marco Aurélio e o escravo Epiteto.

Algumas respostas ao problema do conhecimento, sobre a realidade das coisas e a conduta a ser seguida já havia sido pensadas por filósofos anteriores, ressalta o autor, mas dependia da habilidade do pensador encontrar um nexo entre domínios tão diversos e complexos.

O estoicismo é a primeira escola filosófica que se apresenta como um sistema (que é um conjunto de respostas relacionadas entre si, que se complementam umas às outras) organizando-se sobre três principais eixos interligados, formando uma unidade: física, ética e lógica.

A filosofia é como um animal: ossos e tendões são a lógica; sangue e carne, a física; e a alma é a ética. Essas três partes se encontram reunidas na máxima que resume a filosofia estoica: “É preciso viver segundo a natureza [phýsis]”.

Para tanto, supõe um conhecimento (do qual se ocupa a física), alcançado de certa maneira (do que se ocupa a lógica) e tudo isso para que vivamos de certo modo, cujas normas sejam ditadas pela ética (terreno da alma).

Notoriamente, o âmbito privilegiado é o da ética (alma) e, prática, a filosofia estoica é um exercício cotidiano, já que “viver segundo a natureza” pressupõe um exercício constante.

Por isso, os estoicos retomam dos cínicos o termo áskesis que é “refinar graças a um exercício” diário, pois, quem deseja os louros deve preparar-se diariamente: “se o ser humano quer ser feliz, deve exercitar-se a todo momento na técnica que consiste em viver segundo a natureza”.

Para eles, somente uma vida segundo a natureza conduz à felicidade, que é o bem supremo. Mas, diferente dos cínicos que propunham um atalho, os estoicos apresentam um programa original.

A convivência social já não é o que costumava ser e Zenão não encontra respostas satisfatórias nem na Academia nem no Liceu, para ele, urge que o ser humano alcance a felicidade, cujas regras devem ser ditadas pela phýsis.

Diz-se que do oráculo, Zenão ouviu: “Toma o aspecto dos mortos” e ele interpretou que deveria estudar os filósofos do passado: “É assim que sua doutrina da natureza recolhe vários elementos dos pensadores pré-socráticos, que interpretavam a phýsis abarcando toda a realidade (em função de certos elementos ou princípios) e que sublinhavam seu caráter material e mesmo vital”.

Como todos os gregos, salienta Cordero, os estoicos defendiam a eternidade da matéria, já que não admitiam a noção de criação: “E como a única entidade éter é a divindade, os estoicos assimilavam deus à natureza”.

A física – estudo da natureza – ensina de que maneira uma substância divina onipresente organiza, controla e dirige o mundo: “(...) a totalidade da realidade é divina” e no materialismo dos estoicos – que é muito especial – estão incluídos também valores, sentimentos e as qualidades morais.

Retomam a definição do que existe e do que não existe proposto por Platão no Sofista e assentam que: “existe aquilo que é capaz de atuar ou de sofrer uma ação”, considerando que a vergonha, por exemplo, é uma emoção: faz-nos enrubescer, ou seja, influencia no corpo, e se influi é porque é material.

Diógenes Laércio postula que: “os princípios de todas as coisas são de dois tipos: o que atua (agente) e o que padece (paciente). O que padece é a matéria; o agente é o lógos que se encontra nela, quer dizer, a centelha divina (deus). Este, que é eterno, modela tudo por intermédio da matéria”. Eis a teoria exposta por Zenão.

Os dois princípios [agente e paciente] são eternos e opostos: limitada, a matéria é passiva, e o lógos, ativo. Quando os dois princípios se unem – pois um ‘fecunda’ o outro (o lógos é chamado espermático ou seminal) –, a realidade que resulta é ativa e passiva ao mesmo tempo.

O lógos, que é divino fecundará a matéria: “O lógos tem um projeto do que pensa fazer, como o carpinteiro tem em mente o plano de sua mesa. O lógos “racionaliza” sua produção, e por esta razão apenas no estoicismo o termo lógos adquire plenamente o sentido de ‘razão’”.

E, como é divino, o universo é fabricado com materiais preexistentes, por uma razão divina. Essa originalidade da teoria estoicista influenciará a doutrina cristã.

Sendo o lógos imanente à matéria, fecunda-a de dentro dela mesma. Eles se inspiram em Heráclito: “(...) o lógos está presente na matéria como um sopro ígneo que, como o fogo do ferreiro, molda a matéria (...)”.

Cordero aponta que Crisipo associará a esse sopro ígneo a noção de pnéuma, “espírito” (noção também adotada pelo cristianismo), que também é material, mesmo que não o enxerguemos, como o vento.

Em maior ou menor grau, o pnéuma-lógos está presente em tudo o que há por “simpatia” (syn+pathós) universal.

O pnéuma, que é o lógos ígneo, vai se misturando com a matéria de forma progressiva e hierárquica: numa rocha (minimamente), nos vegetais (phýsis), nos animais (psyché, princípio de movimento) e nos seres humanos (diánoia, o raciocínio), diz o autor.

Esse universo – “simpatético”, uma vida segundo a natureza – não comporta a dicotomia teoria/práxis, mas presume que a teoria só tem sentido em função da ação prática e que esta supõe uma teoria prévia: “Assim como os médicos têm sempre à mão uma caixa de primeiros socorros para os casos de urgência, deves ter à mão para qualquer ocasião os preceitos que te permitem conhecer as coisas divinas e humanas para atuar em cada caso com a certeza de que há um encadeamento mútuo de todas as coisas”, recomenda Marco Aurélio.

Diferente de Platão, que no Fédon opõe o corpóreo ao racional, no estoicismo a natureza, em seu conjunto é racional (interpenetrada pelo lógos): “Um ser 'natural' é um ser 'naturalmente racional', apto a conhecer”. Cordero afirma que no estoicismo, a busca pela felicidade não conflita com nossas “tendências naturais”.

O imperativo “Viver segundo a natureza” visa a busca racional pela felicidade e significa tomar consciência do estado natural do ser humano, adequando condutas que não violentem nem ponha em perigo esse estado natural.

A moral estoica, diz o autor, constituiu um autêntico inventário de noções que descrevem esse estado natural e o tipo de ações que devem ser realizadas em função do mesmo.

Cícero afirma que o ser vivo tem uma “tendência (ou inclinação) a amar sua natureza, quer dizer, tudo o que é capaz de conservá-la, e a fugir de tudo o que pode destruí-la.”, e o ser humano possui a razão, que é o que rege sua vida natural e permite “julgar, apreciar e valorar tudo o que a natureza oferece”.

Para Cícero, o ser vivo sente-se como em sua casa na natureza, mas não é o homem quem se apropria da natureza, mas a natureza que se apropria do ser humano.

Há noções valiosas (áxios), boas, justamente porque estão de acordo com a natureza (justiça, sabedoria) e não valiosas (anáxios) e más porque são contrárias à natureza (injustiça, loucura).

O senso comum apontará cada uma delas como sendo boa ou má, mas há também a vida, a morte, a saúde, doença, prazer, dor, riqueza e pobreza – indiferentes –, pois “tudo depende do uso que se lhes dê, o que supõe a responsabilidade do sujeito moral”.

Obviamente, alguns são preferíveis enquanto outros são “suprimíveis” e entre os preferíveis, tudo aquilo que é positivo segundo a natureza, diz Cordero, merece o nome de “conveniente”.


Às ações apropriadas, adequadas, estoicos romanos denominaram “officium”, que é uma contração de “opus facio”, “faço o que devo”, afirma o autor. E tudo o que se opõe às ações convenientes é chamado de ‘falta’ (hamárthema), termo que os cristãos transformaram em ‘pecado’.

Ações convenientes que permitem alcançar a excelência ou virtude (areté) são ditas “perfeitas” (kathórtoma) e trazem a presença do bem supremo em cada ser humano, que é o summum da ética estoica: “a excelência é o cume do ser racional enquanto racional”, dizia Diógenes Laércio.

A meta da maioria dos filósofos gregos era atingir a excelência, a consciência daquilo que nos falta: “Quem alcança a excelência ‘possui’ o bem supremo, que é um habitus, uma posse (latim habeo, possuo) que é inalienável. O indivíduo excelente pode estar privado de tudo (liberdade, bens, etc.), mas ninguém pode despojá-lo de seu bem supremo.”.

O sujeito moral estoico sabe escolher, devido à faculdade da phrónesis (prudência, sagacidade) que é o que nos previne contra nosso pior inimigo: as paixões, que, como alerta Diógenes Laércio “é um movimento da alma irracional e contrário à natureza”, pois em vez de nos incitar a viver ‘segundo’ (katá) a natureza, nos leva a atuar ‘contra’ (pará) ela.


Se considerarmos que nossa natureza é ser racional, tudo o que vai ‘contra’ essa faculdade é irracional e prejudicial, pois a alma, em vez de raciocinar, pode muito bem se deixa levar “pelo que se diz” e, por vaidade e ganância, por exemplo, seguindo falsos valores, enreda-se em ciúmes, raiva, mágoas, etc. Esse caráter das paixões será denominado pelos estoicos romanos de “perversio” ou “perturbatio”.

O antídoto contra esse embotamento seria ver as coisas como elas são “o bem reside no bom uso das representações”, diz Epiteto. E Cordero enfatiza: “A origem da paixão é um erro de apreciação, de juízo”.

Como exemplo do engano causado pelas errôneas representações, citam o caso da criança que, não fazendo juízo prévio de um tirano, não o teme, pois não faz ideia do pavor e repulsa que esse causa, como ocorre nos adultos: “É a representação do tirano que te dá medo”.

Antifonte dirá que o mundo se divide entre sábios e ignorantes e que todos nós podemos chegar a ser sábios, caso levemos uma vida de acordo com a natureza.


Quem for capaz de vencer as paixões e viver segundo a razão (ou seja, segundo a “natureza”, que é “racional”) torna-se “sábio” (sophós): “O sábio não é apático (privado de “pathós”, paixão), mas antes imperturbável, já que sabe distinguir entre aquilo que depende de nós e aquilo que escapa ao nosso controle”.

Riqueza, fama ou honras não dependem de nós, mas das circunstâncias, são frágeis; já nossos desejos, tendências e aversões, estão em nossas mãos. Assim, é sábio regularmos nossa vida em função do que depende de nós, sempre mediante uma prévia representação correta das coisas.

Sábio é aceitar o que escapa ao nosso controle, regularmos nossa vida em função do que depende de nós, harmonizando nossa vontade com o que nos acontece, de maneira que nada aconteça apesar de nós, que nada ocorra contra a nossa vontade, diz Epiteto: “A liberdade consiste em aceitar a necessidade cósmica”.

É preciso desejar que ocorra o que vai ocorrer, roga o estoicismo. Os estoicos pensam no destino de modo diferente dos antigos filósofos e poetas trágicos, não é um poder impessoal, mas uma realidade natural, afirma Néstor.

Aulo Gélio, no séc. II escreveria para Crisipo dizendo que “o destino era um certo ordenamento natural e eterno da eternidade, segundo o qual uma das coisas sucedem outras e vão se substituindo, em um entrelaçamento inviolável”.

E Cícero responde que “o destino em questão não é o da superstição, mas sim o da física, causa eterna das coisas, segundo a qual o passado se produziu, o presente se produz e o futuro se produzirá”.

Cordero diz que tudo está relacionado não apenas no espaço, como também no tempo, e somos atores do que ocorrerá, ainda que não o saibamos. Os estoicos apreciavam a adivinhação, que Crisipo dizia ser a capacidade de detectar os sinais que os deuses enviam aos homens.

A escola estoica afirma que uma gota de vinho lançada ao mar modifica sua composição, que somos artífices de tudo o que ocorre no universo, responsáveis pelo equilíbrio (ou desequilíbrio) cósmico.


Referências bibliográficas: Néstor Luis Cordero




Para um maior aprofundamento: Rachel Gazolla



1 de set. de 2013

Movimentos filosóficos helenísticos: os cínicos


“As novas leis da cidade são arbitrárias e já não observam o equilíbrio cósmico.” Néstor Luis Cordero


Sobre propostas que fundamentem nosso agir, sabemos algo dos hippies, dos punks e dos grunges, por exemplo, mas talvez saibamos pouco sobre os movimentos que surgiram na Grécia, como os cínicos, estoicos e epicuristas. Ponderemos sobre os cínicos.

Segundo o estudioso Néstor Luis Cordero, em sua obra “A invenção da Filosofia”, a proposta dos cínicos se inspira em uma dicotomia que surgiu na época da sofística, entre os partidários das leis da pólis (consagração dos costumes) e os defensores das leis da natureza (phýsis).

Cordero afirma que tanto Platão quanto Aristóteles concebiam que a excelência humana é alcançada no exercício político, ou seja, na participação social, na pólis.

A pólis de Platão e Aristóteles foi uma estrutura social formada por um conjunto de cidadãos unidos por leis estabelecidas por seus membros e “consolidadas por organismos coletivos de poder, o que supõe uma autonomia [...] total”.

A Atenas de Aristóteles, no entanto, testemunhou o desmoronamento dessa estrutura quando, derrotada na Batalha de Queroneia (338 a.C.), passou a ser parte do império macedônico de Felipe, pai do lendário Alexandre, o grande: “As leis de uma cidade ocupada já não são autônomas, e a democracia que subsiste é somente formal”.

Na “época helenística”, progressivamente foram desaparecendo as pequenas cidades-estados, reduzidas ao denominador comum identificado, genericamente, como sendo a “Grécia”. E as coisas continuaram assim, inclusive séculos depois, quando essas cidades-estados passaram a integrar o Império Romano.


Sendo a filosofia, como bem salienta o autor, um reflexo de seu tempo, testemunha-se uma sutil alteração: “o cidadão (polítes) transforma-se em cidadão do universo (kosmopolítes)”.

Perdido em meio à globalização imperial que o cerca, o indivíduo dirige seus pensamentos para seu interior, em estabelecer os meios de garantir sua plenitude, sua felicidade, pois “A participação natural nos assuntos da cidade, fonte da excelência humana”, enfraqueceu.

A nova maneira de filosofar não se pauta mais no modelo da harmonia que se poderia encontrar na pólis, mas no que se encontra à disposição na própria natureza. O tecido da “lei” da pólis (que se dá quando um costume, um hábito se torna objetivo, normativo) se esgarça.

Nesse momento histórico e dos povos, as leis da cidade tornam-se arbitrárias, corruptíveis, inconstantes, enquanto as leis da natureza são imutáveis. Encontrando nela um “norte”, as escolas helenísticas conclamavam que era preciso viver de acordo com a natureza, “pois somente ela determina o útil e o nocivo”. Obviamente, cada escola (cínicos, estoicos e epicuristas) buscou interpretar a natureza a seu modo.

Os cínicos (do grego kynikós = como um cão), os primeiros a testemunhar e reagir à perda da autonomia de Atenas, surgiram durante o reinado de Alexandre e tomaram a palavra “natureza” ao pé da letra, desconsiderando as normas sociais e identificando-se especificamente com os cães de rua.

Segundo Cordero, o cínico era um filósofo desapegado que vivia de maneira selvagem, marginal, tal qual um cão.


Espelhavam-se na figura de Sócrates, de quem Antístenes – fundador do cinismo – teria sido ouvinte. Filho de uma escrava, Antístenes não possuía cidadania ateniense, necessária para adquirir uma propriedade (como Platão), nem fortuna pessoal para alugar uma (caso de Aristóteles); por isso, contentou-se em ocupar um ginásio abandonado conhecido como Cinosargo (mesmo nome do fiel cão de Ulisses).

Discípulo de Antístenes, Diógenes da cidade de Sínope é o lendário propagador do movimento. Teria sido por volta de 380 a.C. que Diógenes, fugindo de Sínope por falsificação de moedas, ingressou ao grupo dos “do Cinosargo”.


Diógenes, como Sócrates nada escreveu, tornou-se um personagem sobre o qual muitos escreveram. Mais largado ainda e com muito mais bom humor, desdenhava os superpoderosos monarcas enxergando-os como míseros escravos. Hilárias são as frases que se atribuem a ele: “Já que nos tratam como cães, agiremos como tais”.

Rechaçando tudo o que era supérfluo, Diógenes trazia consigo apenas um grande jarro (semelhante a um barril), seu tríbon (um manto grosseiro que usava tanto para se cobrir quanto para dormir) e uma lanterna acesa até mesmo durante o dia, que dizia trazer para ajudá-lo a procurar um homem que fosse justo.


Pioneiro na crítica à sociedade de consumo, ele desprezava as pessoas que dependiam de seus bens e tornavam-se escravas deles e das convenções e regras sociais que certa posição exigia. Não tardou a angariar seguidores que o imitassem.


Semelhantes aos cães, que satisfazem suas necessidades, inclusive as sexuais, como lhes apraz, os cínicos primavam pela falta de pudor (anáideia) contra a falsa moral vigente. Após masturbar-se em praça pública, Diógenes lamentava: “Pena que a fome não passe alisando o estômago”. Conta-se que quando pessoas “respeitáveis” fugiam de sua presença, desprezava-os ironizando: “Não temam, nós cães não comemos carniça”.


Essa e muitas outras sacadas espirituosas de Diógenes estão disponíveis em nosso Blog, inclusive a mais famosa que ousou proferir ao próprio Alexandre. Reza a lenda que após ouvir do poderoso que lhe concederia o que desejasse, Diógenes pediu apenas que ele saísse da frente do sol que o aquecia. O temido conquistador teria proferido: “Se não fosse Alexandre, gostaria de haver sido Diógenes”.

Por não ter uma doutrina, instituição ou tratados específicos, o movimento cínico foi tomado mais como mera provocação, uma filosofia de ocasião; mas há controvérsia, pois segundo Cordero: “os cínicos representam fielmente o sentido que teve a filosofia desde suas origens: assentar as bases de um modo de vida.”.

Privilegiando uma didática provocativa, “o cínico quer despertar a consciência da massa globalizada vítima de necessidades impostas por falsos valores [...].”.

O credo cínico proclamava: “necessário é aquilo que satisfaz a vida do ser humano; o supérfluo, ao contrário, faz dele um escravo que destrói a natureza e que termina por acabar com os recursos naturais”.

Na theoría dos cínicos, a excelência humana consiste na obtenção da felicidade, esse é o propósito (télos) da vida. E sem delongas: “Infeliz, tu pretendes filosofar e arruínas com longos discursos o melhor da vida humana”, repreendia Diógenes.

Como atalho, os cínicos propõem a áskesis, uma espécie de exercício cotidiano que supõe pôr em prática uma força física e moral. Assim como a prática conduz a excelência, a áskesis permite ao infeliz tornar-se feliz: somos infelizes porque permitimos que nos imponham falsos valores e falsas metas, devemos então suprimir os dois pilares sobre os quais se apoia a sociedade: o luxo e o prazer, que tanto
 causam sofrimentos e infortúnios.

O afã por prazeres não encontra limites e debilita o caráter. Esforça-se e desgasta-se muito para satisfazê-los. Na verdade, o homem teria uma personalidade forte se fosse capaz de resistir às privações e sofrimentos.


A palavra sofrimentos (pónos) – diz Cordero –, significa uma “experiência dolorosa” (daí “pena”): “Quando esse tipo de experiência se acaba, sobrevém o único tipo de prazer admitido pelos cínicos: a ausência de sofrimento.”. Os cínicos praticavam a áskesis para poderem suportar as penas (pónoi).

Afirma também que a áskesis apoia-se sobre três pilares: autossuficiência, liberdade e apatia.

A autossuficiência é a situação de quem se satisfaz com o que tem. Isso conduz à liberdade, pois o indivíduo torna-se independente, não se submetendo às obrigações externas.

Mas o autor salienta que há dois tipos de liberdade: a recusa das convenções (o que permitiria fazer o que se quer) e a aceitação voluntária de fatos que não dependem de nós (tsunamis, doenças, morte).

Chegamos então ao 3º pilar da áskesis: para se enfrentar os reveses inerentes à vida eles propõem a apatia, a ausência de páthos, de emoção e de paixão.


Por fim, avaliemos: escolhemos viver como estamos vivendo ou nos deixamos manipular por valores impostos pelos outros?

1 de ago. de 2013

Um inimigo do povo – Henrik Ibsen (Parte II)



“Os poderosos, os mesquinhos, os interesseiros, cultivam a ignorância para se manterem no poder e obter lucros e vantagens”. Henrik Ibsen

Por quanto tempo ainda, esse clássico magistral, de 1882, permanecerá tão atual?

Prosseguindo com o artigo anterior, os editores do jornal A Voz do Povo, concluem que o artigo-denúncia do médico, Dr. Stockmann é arrasador e animam-se, crendo que o jornal dedicará grandes espaços para mostrar a incapacidade administrativa do prefeito: “Sim, mas essa gente não se derruba no primeiro golpe...”.

Para o doutor, agora não é só pelo esgoto, mas é toda sociedade que é preciso limpar, desinfetar: “(...) vejo que só os jovens poderão realizar o sonho de uma vida melhor”, e se entusiasma: “Basta que nos conservemos unidos.”.

Depois que sai da redação, os editores conversam que a educação cívica e a consciência dos cidadãos é importante, mas ponderam que quando um homem tem bens, o importante é protegê-los, e não meter-se em questões políticas.

O prefeito adentra sorrateiramente à redação, pela porta dos fundos. Apela à sensatez do Editor para que não publique a denúncia do médico, dizendo que ele tem certa influência. 

Esse confirma que sim, mas que é somente sobre os pequenos contribuintes, nada mais. E o prefeito: “Os pequenos contribuintes, a classe média, aqui como em toda parte, são os mais numerosos, os que decidem”.

Salienta ainda que quem pagará por esses gastos será a cidade, que a Estação Balneária ficaria por fechada pelo período mínimo de dois anos, que isso acabará com o turismo. O editor se preocupa: “E de que viveremos durante esse tempo, nós os proprietários?”.

O prefeito o tranquiliza dizendo que redigiu uma breve exposição sobre o caso, onde indica, as obras que são possíveis realizarem sem ultrapassar os recursos dos cofres.

Ao perceber que o Dr. Stockmann também chega à redação, o prefeito se esconde.

Antes exultante por ter a seu favor, a opinião pública, ao perceber o boné e a bengala do prefeito sobre a mesa, compreende que já não pode contar com a imprensa. O dono do jornal declinara.

O médico se exalta: “Só quero que publiquem meu artigo e eu vou mostrar como se defende uma ideia quando se tem a convicção de que se está certo”.

Ao ouvir a negativa, pergunta se não é ele que manda no jornal: “Não, senhor doutor, são os assinantes”. O prefeito surge e emenda: “Felizmente.”.

O diretor do jornal argumenta: “É a opinião pública, doutor. As pessoas esclarecidas, os proprietários de casas, a classe média, são eles que dirigem os jornais.”.

Asseguraram ao prefeito que o dele, sim, será publicado. O médico se dispõe a pagar pela impressão do seu, mas o editor afirma que não irá contra a opinião pública.

O Dr, Stockmann, então, tem a ideia de convocar uma assembleia popular. Para presidi-la, o prefeito indica o presidente da Associação dos Pequenos Proprietários de Imóveis, Sr. Aslaksen.

O prefeito pede a palavra: “(...) a meu juízo, nenhum dos cidadãos aqui presentes deseja que circulem boatos, rumores tendenciosos sobre a situação sanitária da Estação Balneária e da população”.

Inúmeras vozes o corroboram: “Não, não, não! Nada disso! Protestamos!”.

E prossegue: “Em vista disso, proponho que a assembleia não autorize o médico da Estação Balneária a ler o seu relatório (...) pode-se verificar que (...) tende, no fundo, a impor aos contribuintes um gasto inútil”.

O diretor do jornal toma a palavra e reitera que o doutor pretende que se promovam mudanças na estrutura de poder da cidade, que suas ideias custariam dinheiro aos cidadãos e que, por isso, é contra. É aplaudido.

Afirma que o jornal sempre defendeu as ideias progressistas e democráticas: “não é dever do jornalista estar sempre de acordo com a vontade do leitor? Não recebeu ele uma espécie de mandato tácito que o obriga a combater sem tréguas, para o bem daqueles cuja opinião representa?”.

Chocado, o médico confessa uma descoberta de muito mais alcance do que o envenenamento das águas: “Descobri que todas as fontes morais estão envenenadas e que toda a nossa sociedade repousa sobre o solo da mentira (...) vi a colossal estupidez das nossas autoridades...”.

Insiste que o assusta a enorme irresponsabilidade das pessoas que detêm o poder na comunidade, que tudo o que sabem fazer é destruir. O inimigo mais perigoso da verdade e da liberdade entre nós, diz ele, é a enorme e silenciosa maioria dos concidadãos que o priva da liberdade e o impede de dizer a verdade.

O público contesta: “A maioria sempre tem razão!”.


Contesta a pseudo-verdade de que a voz do povo é a voz da razão, perguntando que sentido tem as verdades proclamadas pela massa, que é manobrada pela mídia e pelos poderosos: “É a unanimidade, a massa – enfim, essa satânica e compacta maioria –, é ela, quem envenena as fontes de nossa vida e empesta o solo em que nos movemos”.

Vocifera que a doutrina segundo a qual a massa, a multidão constitui-se a essência do povo é perversa, pois atribui ao homem vulgar e ignorante, que representa as mazelas sociais, os mesmos direitos dos seres distintos que compõem uma elite intelectual.

Vozes protestam: “(...) Vamos por no olho da rua este sujeito que diz estes absurdos contra o povo.”.

Resoluto, o médico denuncia que a imprensa manipula o pensamento da população para ter vantagens. “Somos, sim, somos animais! (...), entre nós, há poucos animais de raça. Ah! Existe uma distância terrível entre o homem “de raça” e o homem “vira-lata”. E isso não tem nada a ver com classe social.”.

Esclarece que para se encontrar a plebe de que fala não se deve procurar somente nas classes mais baixas, mas principalmente nas classes sociais privilegiadas que também acolhe sua cota de plebeus “(...) enquanto um homem não tiver eliminado o que há de vulgar para atingir a verdadeira distinção espiritual.”.

Aponta para o prefeito: “Ele é um plebeu! Aqueles que obedecem e pensam somente pelas cabeças dos outros sempre serão plebeus morais! (...) Somente o pensamento livre, as ideias novas, a capacidade de um pensar diferente do outro, o contraditório, podem contribuir para o progresso material e moral da população”.

Atesta que verdadeiro grande mal é a pobreza, são as miseráveis condições de vida que esmagam muitas pessoas: “(...) Todos aqueles que vivem de mentiras devem ser exterminados como ervas daninhas!”.

Infectam todo o país: “E se todo o país ficar infectado com este nível de corrupção merecerá ser reduzido ao nada junto com seu povo!”. Um homem de bem não deve encobrir imundícies. É por isso que o idealista se manifesta.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

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Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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