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1 de jan. de 2013

CONSUMO versus CONSUMISMO - Bauman (Parte II)

 
A sociedade de consumidores (doravante “SC”) projeta uma cosmovisão que nos contagia, direcionando nosso olhar sobre a felicidade e a infelicidade. Estamos conscientes dessa contaminação?
 
Os valores com os quais a sociedade se compromete motiva os comportamentos individuais. Hoje, a tal ‘busca da felicidade’ move, alimenta e alavanca o PIB. Busquemos elucidar, no intrincado engodo de nossa SC, aonde a melancolia encontra refúgio.
 
O ‘Pai da Psicanálise’, Sigmund Freud, apontou que, basicamente, o ser humano busca o prazer e evita a dor, ao que Zygmunt Bauman corrobora: “desejam a felicidade e evitam a infelicidade”. E esclarece: “os dois conceitos assinalam a distância entre a realidade tal como ela é e a uma realidade desejada (...)”.
 
A atual SC orquestra uma ‘renegociação do significado do tempo’, perpetuando o prazer que, incansável e incessantemente, queremos repetir. Dogmática, a ‘obrigação’ de ser feliz, o tempo todo, tornou-se vício.
 
O valor supremo da SC está numa vida feliz e é a essa ‘vida feliz’ que todos os outros valores são instados a justificar seu mérito: “A sociedade de consumidores talvez seja a única na história humana a prometer a felicidade na vida terrena, aqui e agora e a cada ‘agora’ sucessivo. Em suma, uma felicidade instantânea e perpétua”, afirma o sociólogo.
 
Ser feliz a todo instante se tornou tão imperativo que “(...) a infelicidade é crime passível de punição, ou no mínimo um desvio pecaminoso que desqualifica seu portador como membro autêntico da sociedade (...)”. Até a lua é de fases, mas a nós, nem por um instante, é permitido "minguar".
 
Habitando uma sociedade que tem como télos (propósito, objetivo, finalidade) reforçada imposição do prazer, somos levados a nos autoavaliar ininterruptamente, sem perspectiva histórica, pela acumulação e repetição de momentos apoteóticos “em um grau desconhecido e dificilmente compreensível a qualquer outra sociedade de que se tem registro”. Prima-se pela constância em felicidade, sempre atrelada ao poder de consumo, proporcionada por maiores rendimentos.
 
Mas, quanto ao impacto do dinheiro sobre o sentimento de felicidade, Bauman cita que Richard Layard recolheu evidências de que isso só ocorre até o patamar que coincide com a satisfação das necessidades básicas, de sobrevivência, essenciais ou naturais.
 
Ocorre que a SC induz à ampliação desse patamar: “tenta afastar, ou pelo menos marginalizar, substituindo-os por desejos mais flexíveis e grandiosos e por vontades mais caprichosas e impulsivas”, afirma o sociólogo.
 
Contrariando o que os marqueteiros insistem em garantir e as crenças mundanas endossam, ganhar mais não garante, necessariamente, aumento no volume da felicidade: “o consumo não é um sinônimo de felicidade nem uma atividade que sempre provoque sua chegada”. Atentemos ao fato de que, inócuo o consumo como ‘fator de felicidade’, naufraga quando se trata das necessidades do ser ou das realizações pessoais.
 
A infelicidade – melancólico desconforto – que a SC acarreta, parece notória. O estudioso destaca alguns sintomas evidentes: extenuantes jornadas de trabalho, falta de autoconfiança, conflitos e fracassos nas relações amorosas e/ou familiares, insegurança sobre estar ou não estabelecido de maneira razoável, a necessidade de ‘ter razão’ e o excesso de informações, que tendem a crescer em frequência, volume e intensidade.
 
De fato, com tantas as informações disponíveis, se faz necessário desenvolver a habilidade de filtrar as indesejadas. Segundo Ignacio Ramonet: “Nos últimos 30 anos se produziu mais informação no mundo do que nos 5 mil anos anteriores (...) Um único exemplar da edição dominical do New York Times contém mais informação do que a que seria consumida por uma pessoa culta do século XVIII durante toda a vida”.
 
Entretanto, por ser mais capaz de discernimento, desconfio que uma pessoa ‘culta’, consuma com qualidade, alcançando maior plenitude.
 
Bauman esclarece que o conceito de ‘melancolia’ representa, em seu uso atual “não tanto um estado de indecisão, uma hesitação, entre seguir um ou outro caminho, mas um recuo em relação às próprias divisões. Ele representa um ‘desenredamento’ em relação à ‘estar atado a qualquer coisa específica’”.
 
Paralisante, a melancolia é “um distúrbio resultante do encontro fatal entre a obrigação e a compulsão de escolher/o vício da escolha e a incapacidade de fazer opção (...) e pela indisponibilidade de critérios fidedignos capazes de separar o relevante do irrelevante e a mensagem do ruído”.
 
A ser afugentada a qualquer custo, a infelicidade constitui a matéria-prima da SC que, paradoxalmente, “prospera enquanto consegue tornar perpétua a não satisfação de seus
membros (...)”. Curiosamente, o pharmakon que essa sociedade oferece gera ainda mais daquilo que se diz combater, a insatisfação.
 
O renomado sociólogo alerta que o medo é a principal causa da variedade líquido-moderna de infelicidade e que uma economia orientada para o consumo “promove ativamente a deslealdade, solapa a confiança e aprofunda o sentimento de insegurança.”.
 
Como uma Hydra, a SC satisfaz cada desejo, cada vontade com tal incompletude que a pseudo-satisfação fomenta mais do mesmo, outros novos desejos e vontades: “O que começa como um esforço para satisfazer uma necessidade deve se transformar em compulsão ou vício”.
 
Vício encorajado, avidamente perseguido e propositalmente aporético, pois a promessa deve ser enganadora, ou ao menos exagerada: “O domínio da hipocrisia que se estende entre as crenças populares e as realidades das vidas dos consumidores é condição necessária para que a sociedade de consumidores funcione de modo adequado”.
 
O tempo todo, somos bombardeados com mais opções e ‘incríveis’ ofertas: “É o excesso da soma que neutraliza a frustração causada pelas imperfeições ou defeitos de cada uma delas e permite que a acumulação de experiências frustrantes [try again] não chegue a ponto de solapar a confiança na efetividade essencial dessa busca”.
 
 
Vislumbra-se uma vida de abundantes novos recomeços, novas chances e oportunidades de renascimento: “(...) a construção e reconstrução da autoidentidade, com a ajuda dos kits identitários fornecidos pelo mercado (confira no vídeo abaixo) continuará sendo a única estratégia plausível ou ‘razoável’ que se pode seguir num ambiente caleidoscopicamente instável no qual ‘projetos para toda a vida’ e planos de longo prazo não são propostas realistas, além de serem vistos como insensatos e desaconselháveis”.
 
O espaço que os consumidores líquido-modernos necessitam, diz Bauman, só pode ser conquistado expulsando outros seres humanos – em particular os que não se enquadram, os tipos que se preocupam ou podem precisar da preocupação dos outros.
 
Dotada de instrumentos de coerção e meios de persuasão ocultos, a SC avalia, recompensa e penaliza segundo a prontidão da resposta ao consumo, nos levando a perseguir esse objetivo de vida como sendo o alfa e o ômega de nossa existência.
 
 
Pautada por uma dinâmica perversa, a SC, além de orientar a distribuição do apreço e dos estigmas sociais (reduzido a poder ou não poder TER), confunde o ser humano, fazendo-o sentir-se inadequado, indigno, incapaz de SER.
 
 
 

 

30 de nov. de 2012

CONSUMO versus CONSUMISMO - Zygmunt Bauman


Tentamos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa Alma projetou sobre elas.” Marcel Proust
Consumimos! Desde a aurora de nossa existência, rotineira e ininterruptamente, da hora em acordamos ao momento em que vamos dormir, antes mesmo do nascimento e até após a morte, consumimos.

Mas, uma coisa é o consumo de bens necessários e até indispensáveis à vida e ao bem estar (morar, comer, beber, dormir, saúde, estudos, lazeres... prazeres!); Outra é o consumismo.

Desenfreado, o consumismo excede a necessidade, culminando na profusão de mercadorias, na ostentação do luxo e num portentoso descarte de lixo.

Analisar o fenômeno do consumismo é fundamental para que possamos compreender um aspecto funesto e nevrálgico da sociedade em que vivemos.

Da obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “Vida Para Consumo – A transformação das pessoas em mercadoria” trazemos uma breve reflexão sobre o Capítulo intitulado “Consumo versus Consumismo”.

Segundo o autor, o fenômeno do consumo “tem raízes tão antigas quanto os seres vivos (...) é parte permanente e integral de todas as formas de vida (...)”.

Mas, enquanto o consumo constitui uma característica e ocupação de todos os seres humanos enquanto indivíduos, o consumismo, alerta o estudioso, é um atributo da sociedade.

Não precisamos de uma lupa superpoderosa para observar que, nos últimos séculos, galopando cada vez mais em mega escala, rumamos a um consumismo vertiginosamente apoteótico: de uma natural necessidade de segurança, conforto e, até sobrevivência mesmo, o que justifica o consumo, ao abismo propulsionado do vício do consumismo.

Governado por nossas ‘vontades’, o consumismo se tornou o propósito de nossa existência quando nossa capacidade de ‘querer’, ‘desejar’, ‘ansiar por’, passou a sustentar a economia (oikós = casa + nomós = norma) mediando o convívio humano.

Bauman afirma que o ‘consumismo’ é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros (neutros quanto ao regime), transformando-os [e transmutando-os] na principal força propulsora e operativa da sociedade.

O ‘consumismo’ chega, diz ele, quando o consumo assume o papel-chave que na sociedade de produtores era exercido pelo trabalho.

Passa a ser central quando “a capacidade profundamente individual de querer, desejar e almejar deve ser, tal como a capacidade de trabalho na sociedade de produtores, destacada [‘alienada’, o termo aqui empregado não em conotação pejorativa] dos indivíduos e reciclada/reificada numa força externa que coloca a ‘sociedade de consumidores’ em movimento e a mantém em curso como uma forma específica de convívio humano, enquanto ao mesmo tempo estabelece parâmetros específicos para as estratégias individuais de vida que são eficazes e manipula as probabilidades de escolha e conduta individuais”.

Ou seja, o coletivo mais que se sobrepõe: dita o modus vivendi/modus operandi do indivíduo que se afoga, ‘engolfado’ pelo ‘Todo’.

A revolução consumista, diz o sociólogo, é uma questão que exige investigação mais atenta, diz respeito ao que ‘queremos’, ‘desejamos’ e ‘almejamos’, e como as substâncias de nossas vontades, desejos e anseios estão mudando no curso e em consequência na passagem ao consumismo.

Equivocadamente, pensamos que os consumistas se empenham pela apropriação e acumulação de objetos pelo conforto e/ou respeito que outorgam a seus donos, mas, embora essa possa ser a principal motivação, na verdade, foi “um tipo de sociedade comprometida com a causa da segurança estável e da estabilidade segura, que baseia seus padrões de reprodução a longo prazo em comportamentos individuais criados para seguir essas motivações” que serviu de esteio para alicerçar a pedra fundamental do consumismo.

Àquela em que Bauman nomeia fase “sólida da modernidade” foi basicamente orientada para a segurança e, norteada por esse anseio, “apostou no desejo humano de um ambiente confiável, ordenado, regular, transparente e, como prova disso, duradouro, resistente ao tempo e seguro...”.

Lícito, sem dúvida, todo esse afã constituiu a matéria-prima convincente e “bastante conveniente para que fossem construídos os tipos de estratégias de vida e padrões comportamentais indispensáveis para atender à era do ‘tamanho é poder’ e do ‘grande é lindo’: uma era de fábricas e exércitos de massa, de regras obrigatórias e conformidade às mesmas, assim como de estratégias burocráticas e panópticas de dominação que, em seu esforço para evocar disciplina e subordinação basearam-se na padronização e rotinização do comportamento individual (...)”.

Assim, afirma o renomado sociólogo, foi-nos incutido que a posse de um grande volume de bens garantiria uma existência segura, imune aos caprichos do destino: “Sendo a segurança a longo prazo o principal propósito e o maior valor, os bens adquiridos não se destinavam ao consumo imediato – pelo contrário, deviam ser protegidos da depreciação ou dispersão e permanecer intactos”.

Não era exatamente pelo desfrute imediato que ansiávamos, ao contrário, esse modelo preconizava que se adiasse (quase indefinidamente) a fruição dos bens arduamente conquistados, acumulados e estocados.

No começo do século XX, o ‘consumo ostensivo’, diz ele, portava um significado bem distinto do atual: “consistia na exibição pública de riqueza com ênfase em sua solidez e durabilidade, não em uma demonstração da facilidade com que prazeres imediatos podem ser extraídos de riquezas adquiridas (...)”.

Bens resistentes e preciosos, como joias e palacetes ricamente ornamentados, “Tudo isso fazia sentido na sociedade sólido-moderna de produtores – uma sociedade que apostava na prudência, na durabilidade (...)”.

Mas o desejo humano de segurança e os sonhos de um ‘Estado estável’ definitivo não se ajustam a uma sociedade de consumidores, alerta Zygmunt Bauman: “(...) o consumismo, em aguda oposição às formas de vida precedentes, associa a felicidade não tanto à satisfação de necessidades (...), mas a um volume e uma intensidade de desejos sempre crescentes, o que por sua vez, implica o uso imediato e a rápida substituição dos objetos destinados a satisfazê-la”.

A insaciabilidade – maldição de Tântalo! –, permeia nosso ambiente líquido-moderno, inóspito ao que é estável, à placidez de um ‘Tempo Eterno’.

O pensador Stephen Bertman cunhou os termos ‘cultura agorista’ e ‘cultura apressada’ para denotar a maneira como vivemos atualmente: “O consumismo líquido-moderno é notável, mais do que por qualquer outra coisa, pela (até agora singular) renegociação do significado do tempo”. Ser feliz? Só se for para já!

Nem cíclico, tampouco linear, o tempo agora é pontilhista*: “(...) fragmentado, ou mesmo, pulverizado numa multiplicidade de ‘instantes eternos’ – eventos, incidentes, acidentes, aventuras, episódios –, mônadas contidas em si mesmas, parcelas distintas, cada qual reduzida a um ponto cada vez mais próximo de seu ideal geométrico de não-dimensionalidade”.

Agora, imediatamente. E o motivo da pressa é, em parte, o impulso de adquirir e juntar. Mas o motivo mais premente que torna a pressa de fato imperativa é a necessidade de descartar e substituir, aponta Bauman. Entediante, esse enfadonho ‘viciante círculo vicioso’ gera angústia, melancolia.

Mesmo os que encontram uma real necessidade de algo, “logo tendem a sucumbir às pressões de outros produtos ‘novos e aperfeiçoados’”. Vem-nos à mente a imagem do cão correndo em círculos, a perseguir o próprio rabo.

E, ao “sentir a infinidade da conexão, mas não estar engatado em coisa alguma”, sobrevém sorrateira melancolia, o que Bauman aponta como sendo a aflição genérica do consumidor.

Isso, abordaremos oportunamente. Desejo a todos os distintos amigos leitores, Abençoado Natal e Um Ano Novo repleto de felicidades.


(*) “Fazendo uma analogia com o movimento pontilhista de mestres como Sisley, Signac ou Seurrat, Pissaro ou Utrilo”.



1 de nov. de 2012

O último dia de um condenado - Victor Hugo



A morte só pertence a Deus! Com que direito os homens põem a mão nessa coisa desconhecida?” Victor Hugo, em Os Miseráveis.


Victor Hugo (1802-1885) é considerado o maior escritor francês do séc. XIX. Em 1829, com 27 anos, ele publica o que afirma ser um manifesto contra a pena de morte: “Le Dernier jour d'un condamné”. Mesmo os familiarizados com as tragédias, concordarão que essas linhas guardam os pensamentos mais dilacerantes com os quais já nos deparamos.

Segundo Bénédicte Houart, a grande repercussão dessa obra contribuiu para que Portugal fosse o primeiro país europeu a abolir a pena de morte, em 1876. Victor Hugo se congratulou: “felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa (…). A Europa imitará Portugal. Morte à Morte! (…) A liberdade é uma imensa cidade da qual todos somos concidadãos”.


Não sabemos qual delito o atormentado cometeu, mas entrevemos tratar-se de um homicídio.
Condenado à morte!”.

É com essa dramática sentença que Hugo inicia sua obra para, logo a seguir, nos fazer adentrar a psique do infeliz que, outrora, era um homem cheio de vida: “Cada dia, cada hora, cada minuto trazia consigo uma ideia nova (...). Entretinha-se desenvolvendo-as umas após outras, sem ordem e sem objetivo, bordando com arabescos inesgotáveis esse rude e frágil tecido de vida (...). Podia pensar no que quisesse, era livre.” Tão livre quanto nós.

O relato abarca as seis semanas que antecedem a degola. Atordoado por portentoso sofrimento psíquico, o condenado tenta amenizar o inaceitável absurdo de estar ciente de sua hora, aventando sobre quantos, sem o saber, não morrerão antes dele, quantos não caminham e respiram e, no entanto, passarão à sua frente, para depois reconhecer no funesto, o abominável de sua situação.

Limitado à calamitosa condição de prisioneiro, conversa com os outros detidos, que lhe ensinam a falar o calão (gíria dos ladrões e criminosos): “É uma linguagem [de] (…) palavras estranhas, misteriosas, feias, sórdidas (...)”. Alguns desses termos chulos são falados até hoje. Mas, embora berço e linguagem os distinguisse, a solidariedade o comovia, pois sabia que esses homens eram os únicos que se apiedavam dele.

Imbuído de articular para si mesmo o angustiante tormento que vivencia, escreve suas memórias de condenado, como diz, inacabadas, mas nem por isso incompletas: “Não haverá nesse corpo a corpo do pensamento agonizante, nessa progressão aritmética da dor, nessa espécie de autópsia intelectual de um condenado, mais do que uma lição para aqueles que julgam e condenam? Talvez que a sua leitura lhes torne a mão menos ligeira quando se tratar outra vez de atirar um corpo pensante, uma cabeça humana, para aquilo que eles chamam a balança da justiça?”.

Questiona se os ‘operadores’ da justiça “teriam refletivo sobre essa lenta sucessão de torturas que a expedita formulação de uma condenação à morte encerra”, se teriam meditado haver nesse homem que despedaçam “(...) uma alma que não se preparou para morrer”.

O cérebro do condenado à morte agoniza a cada linha é sua tortura é de magnitude tal, que nos faz invejar a condição dos condenados aos trabalhos forçados na prisão perpétua.

Sabe que deixará a mãe, mulher e filhinha ainda pequena. Admite que esteja a ser punido com justiça, mas ignora o que essas “três viúvas pela lei”, fizeram para merecer tal infortúnio.

Fica indignado com a postura algo vaga, fria e formal com que todos veem aos condenados. Nem mesmo o titular capelão da prisão se exime desse distanciamento: “Mas o que me diz esse ancião? Nada de sentido, nada de carinhoso, nada de emocionado, nenhum derrame da alma, nada que se soltasse do seu coração e se dirigisse para o meu, nada que nos tornasse um do outro cúmplices”.

Conclui que esse comportamento deve-se ao fato de já estar acostumado ao que faz estremecer os outros, que já envelheceu a encaminhar homens para a morte e que por isso tudo é mecânico.

Anseia por uma alma sensível, por um padre ‘comum’ que compreenda: “Há um homem que está prestes a morrer, e é preciso que sejais vós a confortá-lo. É preciso que estejais presente quando lhe atarem as mãos, quando lhe cortarem o cabelo; que subais para a carroça com o vosso crucifixo para lhe esconder da vista o carrasco (...); que o abraceis no degrau do cadafalso, e que permaneçais junto dele até que sua cabeça e o seu corpo jazam cada qual para seu lado”.

Victor Hugo nos comove: “Então, que mo tragam, de coração a palpitar, a tremer da cabeça aos pés; que me atirem para os seus braços, que me ponham de joelhos a seus pés; e ele há de chorar, e havemos de chorar ambos, e ele será eloquente, e eu sentir-me-ei reconfortado, e o meu coração, demasiado cheio, esvaziar-se-á no seu, e ele tomará a minha alma em suas mãos, e eu abraçarei o seu Deus”.
 

Durante toda via-crúcis rumo ao cadafalso, não escapa ao aflito nenhum detalhe de tudo o que, pela última vez seus olhos podem enxergar. Ao ouvir os festivos “comerciantes de sangue humano”, ávidos em negociar lugares para o horrendo espetáculo: “Quem quer um lugarzinho? Quem quer um lugarzinho?”, sentiu raiva e teve vontade de gritar-lhes: “E quem quer o meu?”.

Após o término da ‘toilette do condenado’, ao se deparar o clamor da multidão, “um mar de cabeças na praça”, pondera que “Por mais que um rei fosse amado, a festa não seria tão grande”. Tomado de incredulidade, confessa ter sido para esse temido momento que tinha tentando guardar todo o seu sangue-frio.

Estava preparado, mas não estava pronto: “Esta multidão na qual todos me conhecem e eu não conheço ninguém.... É uma sensação insuportável esse peso de tantos olhares sobre nós”.

Ao avançar pelo pátio atulhado da populaça que ria e batia os pés na lama, sentiu-se “violentamente conquistado pelo terror. Receei desfalecer, ó última vaidade! Então, atordoei-me voluntariamente, para estar cego e surdo a tudo, exceto ao padre (...). Ó meu Deus, tende piedade de mim (...)”.

Ao ver um magistrado que acabara de chegar, uniu as mãos e arrastando-se de joelhos, implorou que o agraciasse: “A minha graça! A minha graça! Repeti, ou, por piedade, só mais cinco minutos”.

Em desespero: “Estou sozinho. – Sozinho com dois policiais. Oh! O povo horrível com os seus gritos de hiena! Quem sabe não lhe escaparei? (...) É impossível que não me concedam uma graça! Ah! Miseráveis!”. Pressente... O carrasco sobe a escada.

Mesmo cônscios de que por trás de todo berço existe um túmulo, ignorar o quando de nosso último suspiro constitui indicativo incontestável da benevolência divina.
 


Quando Victor Hugo veio a falecer, em 22 de maio de 1885, cerca de um milhão de pessoas acompanharam seu cortejo fúnebre, em Paris.

Sugiro que assistam ao vídeo sobre a obra: http://vimeo.com/30504904
 
E que realmente desfrutem dessa magnífica obra, preferencialmente ao som de Korsakov:
 
 
 
 
Último "Curso de Mitologia Grecoromana" do ano: dias 22 e 23 de novembro.
 
 
 
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br