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1 de abr. de 2012

Xenofonte - Lições de Economia com Sócrates - Parte II


"Ordem é clareza. Ordem é harmonia. Ordem é método e celeridade. Ordem é razão e direito." Rui Barbosa

Prosseguindo com a obra “Econômico”, de Xenofonte (vide artigo anterior, já publicado nesse Blog), Sócrates nos ensinará sobre a importância da ordem, que é o que permite poder se encontrar tudo o que se precisa, em perfeito estado e bem acomodado, dentro do Lar.

Dessa vez, ele dialoga com Iscômaco – um rico proprietário –, considerado por todos os seus concidadãos um homem belo e bom.

Sobre a tarefa de bem administrar o patrimônio, Sócrates indaga por que algumas pessoas constroem casas inúteis enquanto que outros, com muito menos dinheiro, dispõem de tudo quanto é necessário, enfim, por qual razão, “Uns, possuindo bens móveis e numerosos e variados, não podendo usá-los quando precisam, nem sabendo se os têm em bom estado, ficam por isso muito aflitos e afligem muitos seus servos; outros, nada possuindo a mais, até muito menos que esses, têm logo à mão o que precisam usar.”? 

Conclui que isso se deve ao fato de que, para os que costumam agir ao léu, cada coisa está onde caiu por acaso e, para os zelosos e sérios, tudo está convenientemente disposto em seu devido lugar.

Fundamental é saber tratar bem a mulher – guardiã do Lar – de modo que ela seja colaboradora no crescimento do patrimônio doméstico e não de forma que o arruíne. Se isso ocorrer, mesmo tendo sido bem orientada, a culpa é dela; Mas se o marido não se dispôs a instruí-la no que é belo e bom, tratando-a como ignorante, ele seria o responsável.

Sócrates pergunta a Iscômaco como ele educou sua mulher para que fosse capaz de cuidar tão bem das tarefas que lhe cabem, já que a desposou tão jovem e, aparentemente, despreparada.

Ele disse que antes de tudo, junto com a mulher, fez preces e ofereceu sacrifícios aos deuses, rogando que, ele ensinando, e ela, aprendendo, conseguissem o melhor para ambos, o que, sem as bênçãos dos deuses, é luta vã.

Iscômaco disse que esperou pelo momento apropriado para conversar com a esposa, declarando que tudo o que possuíam – uma casa – era comum e que não deviam ficar calculando qual dos dois havia contribuído mais em quantidade e que, ao contrário, era preciso que soubessem que aquele que for o melhor parceiro é que estará contribuindo com o que há de mais valoroso.

Quanto aos filhos, diz que os deuses os formam a partir do casal, para que não pereça a raça dos seres vivos, para que tenham os melhores aliados, proteção e amparo na velhice e que, quando os conceberem, deliberarão sobre qual será a melhor educação para eles.

Após discorrer sobre a distinção sobre a natureza física e psíquica do homem e da mulher, Sócrates afirma que ambos devem dar e receber, pois os dois receberam em partes iguais memória e zelo: “E, pelo fato de que, por natureza, ambos não são igualmente bem dotados para tudo, precisam muito um do outro e a união é mais útil ao casal quando um é capaz daquilo em que o outro é deficiente”.

Ansiosa por saber quais trabalhos deve realizar, a mulher de Iscômaco é orientada a zelar pela casa, não deixando que as servas fiquem ociosas, para que saiba distribuir bem as tarefas, que cuide bem da prole, que esteja à frente da preparação dos alimentos – que dos grãos resulte boa comida – e administrar tudo o que entra e sai do lar: “deveras receber o que foi trazido de fora, separar o que for preciso gastar e, quanto às sobras, deverás pensar o que fazer com elas, cuidando que o gasto previsto para um ano não seja feito em um mês”.

Entre o casal, a cumplicidade é sublime, e a mulher diz: “Seria um pouco ridículo eu vigiar e distribuir o que está dentro de casa, se tu não tivesses o cuidado de fazer entrar o que foi colhido fora...”, ao que o marido responde: “Ridículo, em compensação, pareceria trazer algo para dentro, se não houvesse quem conservasse o que foi trazido. Não vês, que são dignos de lástima aqueles que, como se diz, ‘tentam encher de água o jarro furado porque parecem labutar em vão? ’”.

Iscômaco pede à mulher que cuide dos serviçais que estejam doentes e que ocupar-se de acolher alguém ignorante no governo da casa e do serviço, tornando-a perita, pois, digna de confiança e merecedora de todo apreço, é gratificante.

E essa pessoa valerá muito: “(...) confies em que, ao ficares mais velha, na medida em que te tornares melhor companheira para mim e melhor guardiã da casa para os filhos, mais honrada serás em nossa casa”.

Sócrates ouviu de Iscômaco que ele e a mulher fizeram governanta aquela que os pareceu mais moderada no comer e no beber vinho, no sono e nas relações com os homens e, além disso, previdente para cuidar que nada de mau acontecesse em sua casa, capaz também de ver que, agradando-os, receberia recompensa: “nela inculcamos a virtude da justiça, dando maior apreço aos mais justos que aos injustos e mostrando-lhe que a vida dos justos tem maior riqueza e liberdade que a dos injustos.” Compartilhando nossas alegrias e tristezas, ensinamos o valor da lealdade.

Alertou também à mulher que de nada adiantariam essas providências se ela própria não cuidasse que a disposição de cada coisa fosse mantida: “aos cidadãos não basta que tenham boas leis. Ao contrário, elegem guardiães da lei que, mantendo a vigilância, elogiam os que cumprem as leis, mas punem, se alguém age contra as leis.”. E então, aconselhou-a a ser a guardiã das leis da casa.

Sobre a importância da ordem no Lar, Iscômaco disse a Sócrates que ao visitar um cargueiro fenício viu um arranjo de equipamentos que lhe pareceu excelente e muito cuidadoso, já que tinha diante de si um grande número de objetos distribuídos num espaço mínimo: “Notei que as coisas estavam colocadas de forma que uma não impedia o acesso a outra, nem havia necessidade de um encarregado de procurá-las, nem estavam desarrumadas, nem esparramadas de forma que causassem perda de tempo quando era preciso usá-las”.

O timoneiro (ajudante do piloto) estava sempre atento se, na eventualidade de algo acontecer, havia algo faltando ou se encontrava mal arrumado no navio: “Quando o deus torna tempestuoso o mar, não é possível nem ficar procurando aquilo de que se precisa, nem fornecê-lo a um outro, se está mal arrumado. O deus ameaça e pune os preguiçosos e se ele só não faz perecer os que não cometeram erros, isso já é bastante e, se salvar também os que fizeram bem seu trabalho, disse, grande será a gratidão devida aos deuses.”.

Depois de ter visto esse arranjo tão cuidadoso, Iscômaco disse à mulher que seria muita preguiça da parte deles não ter, em terra, tudo em perfeito estado: “se os que estão em cargueiros, mesmo pequenos encontram lugar para seus pertences e, ainda que sejam sacudidos violentamente, apesar de tudo mantêm a ordem, conseguindo, mesmo muito aterrorizados, apanhar o necessário e nós, de nosso lado, ainda que, em nossa casa, haja grandes depósitos destinados a cada tipo de coisas, que nossa casa esteja em chão firme, não achássemos um lugar bom e acessível para cada coisa. Isso não seria uma grande estupidez de nossa parte?”. Que cada coisa tenha seu lugar adequadamente determinado.

Calçados, vestes, guarnições de mesa, livros: “Como é bom que o conjunto de utensílios fique em ordem e como é fácil encontrar na casa um espaço para acomodá-los como convém.”.

E, concluindo que os objetos, dispostos ordenadamente, parecem mais belos, reitera: “Afirmo ainda – e disso rirá, não o homem austero, mas o pedante – que até panelas parecem algo harmonioso quando arrumadas com bom gosto!”.

Mesmo que desprovida de maiores requintes, ao se adentrar numa casa onde reina a ordem e o comedimento, evitando-se o desperdício, nota-se que “os aposentos são planejados para serem como que recipientes muito bem adequados para o que aí deve ficar de forma que, por si mesmos, reclamem o que convém pôr aí.”. Cuidados de uma atenta guardiã do lar, ciente e ciosa da relevância de seu trabalho para o bem estar de toda família.

Parcimônia como critério; discernimento quanto à funcionalidade e bom gosto na escolha dos móveis e objetos, asseio, limpeza, além do bom aroma que os pratos exalam, são convidativos. Bons tecidos nos aconchegantes aposentos de banho e de descanso aprazem o corpo, deleitam a Alma. Riqueza, pois tiramos bom proveito disso.


Dedico esse artigo à primorosa Costanza Pascolato, que em suas obras "O essencial" e "Confidencial" muito nos ensina sobre elegância, bom gosto e economia no trato com nosso corpo, com nossas vestes e acessórios.


E também à sua primogênita, a querida amiga, Consuelo Susan Blocker, que em seu www.consueloblog.com, prossegue nessas preciosas lições de moda, estilo e afins.


1 de mar. de 2012

Xenofonte - Lições de Economia com Sócrates (Parte I)

É o olho do dono (que produz o que é belo e bom)”. Frase atribuída a um bárbaro quando Artaxerxes – o Grande Rei – indagou o que faria um cavalo engordar rapidamente.


Assim como a Sabedoria e a Beleza, a Riqueza é um bem muito desejável. E, tanto, que dentre nossas preocupações constantes está a de saber como realizar um trabalho que traga prazer, do qual tiremos proveito, de como amealhar e administrar nossos bens, enfim, como agir com discernimento com nossas finanças, propiciando-nos conforto, segurança e bem estar, beneficiando o Lar.

Enquanto a pólis refere-se ao público e diz respeito à vida do cidadão político, seja participando do governo ou submetendo-se às decisões de seus representantes, oîkos refere-se ao âmbito privado e diz respeito à vida do indivíduo enquanto membro de um grupo familiar, sua casa, seus bens, seus valores e tradições.

Do vasto legado do Sábio grego Xenofonte (430/425 a.C. – 359 ou 355 a.C.), a Obra “Econômico”, que traz Sócrates como protagonista é: “(...) um tratado eminentemente prático sobre a economia, a arte de bem administrar o oîkos (...)”, diz a tradutora Anna Lia Amaral de Almeida Prado.

Nesse tratado de Economia, das “normas do Lar” (oîkos + nomós = leis da casa), o casal tem funções específicas nas obrigações para com a família, cabendo ao ‘chefe’ da família se ocupar da propriedade, construindo o patrimônio e, à esposa, o governo do Lar: “Os bens entram na casa através dos atos do marido, mas são gastos, em sua maioria, através das despesas feitas pela mulher.”.

O papel da mulher é de vital importância, mas ambas as funções, diz a intérprete, exigem as mesmas qualidades psicológicas e éticas: prudência, moderação, modéstia, amor ao trabalho, desejo de adquirir novos conhecimentos e transmiti-los aos outros, capacidade de delegar funções e de exercer sua autoridade.

Já no início da obra, através de sua irresistível dialética, Sócrates e Critobulo – um rico proprietário – chegam ao consenso de que, realmente, a economia é um saber. Assim como o é a medicina, a metalurgia e a carpintaria, por exemplo, e que, do mesmo modo que podemos dizer qual é a tarefa de cada uma dessas artes, também podemos dizer que a do bom administrador é administrar bem o seu patrimônio familiar.

Também estão de acordo que, mesmo que não possua riqueza, o detentor desse saber, pode tornar-se um homem de negócios muito hábil, apto a cuidar do patrimônio de outro e também enriquecer, mediante salário: “Quem consegue economizar a partir do pouco que tem, a partir de muito, espero, conseguirá facilmente um superávit.”.

Inicialmente, acompanharemos o raciocínio dialético socrático ao conceituar o que é “riqueza” e, por quais razões, enquanto uns as possui, outros padecem à míngua.

Empenhando-se em definir “patrimônio”, Sócrates nos esclarece que nem tudo o que se possui é patrimônio, pois uma pessoa pode ter inimigos, mas seria ridículo alguém fazer crescer o número de inimigos e ainda receber por isso, de modo que, riqueza é um bem. Mas, é um “bem” somente se pudermos tirar proveito (logo adiante, veremos que até mesmo um inimigo, desde que tenha utilidade, pode ser proveitoso).

Se alguém compra um cavalo (hoje talvez disséssemos um automóvel), mas não tira proveito dele, porque não sabe usá-lo ou tem prejuízo com ele, não dispõe de um bem.

Conclui então que o que traz proveito é ‘riqueza’, o que prejudica é ‘não-riqueza’. E as mesmíssimas coisas são ‘riquezas’ para quem sabe usá-las e ‘não-riqueza’ para quem não sabe.

Um instrumento musical é uma riqueza para quem saber tocá-lo, mas é inútil a quem não sabe. Para os que os vendem, é riqueza; para àqueles que os detém sem saber usá-los, são inúteis.

Riqueza, então, é aquilo de que alguém pode tirar proveito. Nem mesmo o dinheiro é riqueza para quem não sabe usá-lo. Embora saibamos que há quem se aproveite perversamente do simples fato de tê-lo, piorando sua alma.

Indagando sobre os amigos, Sócrates pergunta se alguém sabendo usá-los, de forma que tire proveito deles, se são riqueza e Critobulo afirma que são, e muito mais que os bois, se forem mais proveitosos que os bois.

Então, “se soubermos tirar proveito de nossos inimigos, temos ai também riqueza?” – pergunta Sócrates –, e Critobulo responde que “é próprio do bom administrador do patrimônio saber usar até os inimigos de tal forma que tire proveito dos inimigos.”.

O abastado indaga a Sócrates o que ele pensa das pessoas que, mesmo sabendo e tendo meios para trabalhar e fazer crescer seu patrimônio, não o faz. Afinal, de que adianta esse saber se em nada lhe é proveitoso?

Sócrates esclarece que são assim – e até se gabam de serem felizes – porque tem ‘senhores’ que os governam e que esses ‘senhores’ dos quais são escravos, não os impedem de fazer aquilo donde tiram coisas boas.

Critobulo fica curioso... Ora, que ‘senhores’ invisíveis são esses?

São bem visíveis, diz o Filósofo: “Que são muito maus nem tu podes deixar de ver, se julgas que a ociosidade, a fraqueza de alma e a negligência são maldade.”.

E nos alerta que “há mais ‘senhoras enganadoras’ que se fazem de prazeres, a jogatina e a má companhia que, com o correr do tempo, aos que foram enganados, revelam-se como sofrimentos disfarçados em prazeres e, dominando-os, os afastam das ações proveitosas.”.

Critobulo lembra que diferente dos ociosos, dos fracos de alma e dos negligentes, há também aqueles que são muito apegados ao trabalho e à busca de ganho para si mesmos, mas mesmo assim seu patrimônio acaba e ficam emperrados pela ausência de recursos.

Sócrates afirma que esses também são escravos, e de ‘senhoras’ muito mais duras!

Uns, da gulodice, outros da libertinagem, da embriaguez, de ambições tolas e dispendiosas (Oh, vanitas!) que tão encantatória e cegamente arrebatam os homens, governando duramente sobre os quais tem domínio “enquanto os veem jovens e aptos a trabalhar, a trazer-lhes o produto do trabalho e a pagar por suas próprias paixões (...)”.

E isso se repete incessantemente, pois, quando geres (a maldita velhice) se aproxima e somos incapazes de trabalhar, nos deixam perecer na miséria, encontram outros mais aptos a se deixar escravizar: “Tais senhoras, porém, desfiguram os homens em seus corpos e almas, enquanto os tem sob seu poder.”.

É em defesa de nossa liberdade que é preciso lutar, diz Sócrates. Persistir em nos ocuparmos proveitosamente, em nossos anos de vitalidade, acalentar uma alma forte e sermos diligentes nos liberta da escravidão pecuniária.

Moderação nos prazeres (da gula, do sexo, dos jogos e das drogas) e autodomínio sobre a vaidade também evita que nos tornemos escravos de governantes “invisíveis”. E, em Economia – que o diga Adam Smith – é fundamental atentar ao “Invisível”.

1 de fev. de 2012

AMOR CORTÊS - Pedagogia do Amor Nobre

Consagração de Lancelot, cavaleiro da Corte do Rei Arthur, por sua Rainha Guinevere
    
 "Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo".
Ortega y Gasset (Filósofo espanhol)


É com preocupante desgosto que constatamos o desserviço que a produção cultural contemporânea presta a toda nossa sociedade. Na atual Idade Mídia, seja através da web (sites, blogs, youtube, twitter, tumblr, redes sociais, ‘correntes’ por e-mails, etc.,) ou dos veículos midiáticos mais clássicos (TV, cinema, rádio, jornais, revistas e CD’s), nunca tantos puderam produzir tanto e, pior, compartilhar tanto lixo.

Sujeito moral, o homem intenta refrear os ímpetos instintivos que comunga com os demais animais não racionais e está cônscio da relevância da educação nesse processo na formação de seus valores e, consequentemente, de seu caráter.

Segundo o historiador francês Georges Duby, renomado estudioso da sociedade feudal: “Como todos os organismos vivos, as sociedades humanas são o lugar de uma pulsão fundamental que as incita a perpetuar sua existência, a se reproduzirem no quadro de estruturas estáveis.”. 

O estudioso afirma ainda que a permanência dessas estruturas é, nas sociedades humanas, instituída conjuntamente pela natureza e pela cultura.

Envoltórios jurídicos e litúrgicos sempre se empenharam em impor interditos a fim de normatizar as pulsões que culminam na proliferação de práticas desordenadas da copulatio: “No centro desses mecanismos de regulação, cuja função social é primordial, tem o seu lugar, com efeito, o casamento.” Sem dúvida, a aliança de casamento é o mais importante ato social.

Se a ‘natureza’ por sua própria índole já opera de forma pervertida, sem educação moral a estrutura social basilar estatela-se no caos. Sendo assim, não surpreende que em nossa sociedade, sobretudo na classe cultural inferior – incontestavelmente predominante – emirja, instantaneamente, a cega adesão e o culto à libertinagem.

Sobre o conceito de “libertino”, Fernando Savater explica que A moralidade sexual estava ligada a essa estrutura da família e da propriedade, a tal ponto que, entre os romanos, por exemplo, os únicos que estavam submetidos a estritos tabus sexuais eram os 'pater familias' ou as matronas, aqueles que possuíam coisas, ao passo que os escravos não tinham moralidade sexual, ou seja, ninguém os criticava por serem promíscuos ou incestuosos.”. 

Esclarece ainda que “Quando alguns dos escravos eram libertados por seus senhores passavam a se chamar libertos. Ao entrarem no mundo das pessoas livres, eles conservavam os costumes da escravidão, condutas mais abertas e menos escrupulosas que as das pessoas com famílias estabelecidas. Daí vem a palavra libertinagem, ou seja, o comportamento desses libertos (...)” .

A educação moral legada por filósofos, literatos, juristas e eclesiásticos contribuiu significativamente para que os menos favorecidos, aos poucos, normatizassem seus costumes.

Na antiga Grécia, por exemplo, semelhante às tragédias, temos nas fábulas do inspirador de La Fontaine – Esopo (séc. VI a.C.) – toda uma lúdica Paidéia (em sua peculiar pedagogia, ele dava voz aos animais) de cunho moralizante. Mítico, Esopo foi enaltecido por Platão, Aristófanes, Heródoto e muitos outros filósofos.

Na literatura, mulheres em posição e ações de destaque foram então, exceção à regra. Inferiorizada em relação ao homem, desde o advento da supremacia do patriarcado sobre o matriarcado, somente pontualmente a História registrou as façanhas de grandes estadistas, intelectuais ou guerreiras indômitas como Cleópatra, Aspásia de Alexandria e Joana D’Arc, respectivamente.

No entanto, por volta do Século XII, surge na aristocrática Europa feudal uma pedagogia literária que põe em relevo o papel da Dama (dominas) no universo do poder.        

Trata-se dos romances de cavalaria que enalteciam o “Amor cortês” (l’amour courtois), o fino amor, o amor gentil e delicado: “um gênero de literatura de sonho, de evasão, de compensação (...) um modelo de relação e de conjunção sentimental e corporal entre um homem e uma mulher (...)”, o Romance.

Como o amor de Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, o amor cortês prima pela distinção dos amantes e um dos mais famosos é o clássico “Le Chevalier à la charrette”, de Chrétien de Troyes, que narra as aventuras de Sir Lancelot, fiel cavaleiro da corte o Rei Arthur e da Rainha Guinevere (confiram o resumo da Obra que postarei nos próximos dias, aqui em nosso Blog).

À literatura do amor virtuoso, cortês, coube o papel fundamental de educar, de civilizar os afoitos jovens cavaleiros. Estamos na Idade Média, de modo que, ou se é membro do clero, da nobreza ou da cavalaria. Os demais, por residirem nas Vilas, são denominados vilões.

Disciplinar os instintos, conter a volúpia, dosar o ímpeto, represar a lascívia, enfim, platonizar o amor. Para tanto, bastava que o jovem se encantasse por uma mulher nobre, casada e, fiel como a Desdêmona de Otelo, retratada posteriormente por Shakespeare.

Tal ousadia trazia ao jogo do amor cortês um componente altamente perigoso, mas também irrecusável a um destemido cavaleiro: pôr a vida em risco pelo amor de uma mulher resolutamente casta, inacessível.

O adultério feminino era a pior das subversões e uma mulher honrada, jamais, em hipótese alguma poderia ceder aos caprichos do cavaleiro que lhe fizesse a corte: “(...) a justa [luta] amorosa opõe dois parceiros desiguais, um dos quais, por natureza, está destinado cair (...). Pelas leis naturais da sexualidade. Pois, trata-se bem disso, que o véu das sublimações, todas as transferências imaginárias do corpo para o coração não chegam a dissimular.”. Mesmo que, insistentemente, profira com veemência não desejar possuí-la, mas somente merecê-la, a glória (entenda-se prêmio) do vassalo é apoderar-se do tão sonhado corpo da amada.

Impensável em nossos dias de “Amor líquido” (como conceituou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vide artigo já publicado neste Blog), de imediatez e facilidades vãs, viver “um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e autodisciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente”, significava exercitar-se e treinar extenuadamente por semanas, às vezes, meses, empenhando-se em vencer uma árdua batalha ou duelo, para então, vitorioso em combate, ser agraciado com um olhar mais detido, um aceno, um menear de cabeça ou tímido sorriso. Toda dádiva exige uma contra-dádiva, nisso consiste a vassalagem. Uma verdadeira Dama jamais destrata um cavaleiro.

Arquitetar a oportunidade – por mais remota que fosse – de dedicar-lhe um triunfo, de se oferecer um poema, uma rosa ou jóia rara, preciosa; esperar pela possibilidade de manifestar, respeitosamente, o quão sincero e sublime era esse sentimento. Eis a razão do viver de um nobre cavaleiro.

Segundo Jardel D. Cavalcanti: “O amor cortês se fincava na tríade prisão da qual não se pode fugir ao se amar: sujeito/objeto/falta”. Some-se a isso que também implica valores caros à nobreza, tais como altivez, honra, fidelidade, moderação, controle: “Na sua extrema ‘delicadeza’, o amor não podia ser o do clérigo, nem o do ‘plebeu’, isto é, do homem de dinheiro. Ele caracterizava, entre as pessoas da corte, o cavaleiro.”, tamanho refinamento é de difícil assimilação entre despudorados e levianos libertinos.

Da literatura do amor cortês legada pelos medievos (que muitos denominam rasa e erroneamente de ‘Idade das Trevas’) temos, portanto, uma proposta pedagógica que, – "Cherchez la femme!", como diria Alexandre Dumas – pela retidão das Damas (Mestres) educava-se chevaliers: “Graças à revolução amorosa, os homens refinaram-se, poliram-se, tornaram-se um pouco mais civilizados, corteses, aprendendo a cortejar a dama até onde ela o permitisse.” Sublime, balizado por consagrar-se ao respeito, ao pudor, ideal delicado, nunca o Amor resplandeceu tanto. Terno. E Eterno.


 









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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br