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2 de nov. de 2010

Mito da deusa grega da Sabedoria e da Justiça


No mito, a Sabedoria e a Justiça, personificadas pela deusa grega Athena, é fruto de Métis (a astúcia, a inteligência) com o poderoso Zeus.

Após ter sido proferido pelo oráculo que se tivesse uma filha, ela se tornaria ainda mais poderosa que ele, Zeus tratou de engolir Métis para impedir o nascimento. Findado o período de gestação, o supremo deus começou a sentir terríveis dores de cabeça (enquanto a Justiça não nasce, elas são inevitáveis). Desesperado e no limite, Zeus ordena ao ferreiro divino Hefestos (Vulcano) que lhe abra a cabeça. Mesmo a contragosto, com técnica e precisão, desferra-lhe o machado de ouro certeiro e todos se surpreendem ao verem surgir, imponente e armada, a deusa Palas Athena.

Athena é gerada na cabeça do soberano do Olimpo, por isso é associada ao lógos, à ratio.

O epíteto "Palas" significa "a donzela", pois a poderosa filha pede ao pai para manter-se sempre virgem e, desta forma, impor-se com a autoridade de quem não se deixa seduzir ou corromper.

A Espada de Athena é arma para fazer valer a Justiça. Com a espada de ouro em punho ou lança resplandecente (numa imagem mais arcaica), que fora presente do deus da techné Hefestos, a deusa está sempre pronta para a guerra.

Athena é patrona da guerra sim, mas do combate feito com inteligência e astúcia, motivado por um ideal honroso e, somente enquanto último recurso, quando se torna insuficiente a lúcida resolução diplomática e pacífica do prenúncio de uma polêmica.

As aves, por serem considerados os seres mais próximos dos céus, foram, conforme suas características e atribuições, associadas aos deuses. A águia, para zeus; o pavão, de sua consorte, a deusa Hera. A ave símbolo de Athena é a coruja.

Vemos a imagem da coruja, símbolo de uma vigilância constantemente alerta, impressa nas mais antigas moedas atenienses, as dracmas. A coruja, em grego gláuks “brilhante, cintilante”, enxerga nas trevas, e um dos epítetos de Athena é “a de olhos gláucos” (esverdeados).

Em latim é Noctua, “ave da noite”. Noturna, relacionada com a lua, a coruja incorpora o oposto solar. Observem que Atena é irmã de Apollo (Sol). É símbolo da reflexão, do conhecimento racional, mas aliado ao intuitivo que permite dominar as trevas, inteligir o obscuro. Apesar de haver uma forte associação desta ave à escuridão e a sentimentos tenebrosos, o que é natural a um ser noturno, o fato de ela ter sido (devido a suas específicas características) atribuída à deusa Athena também a tornou símbolo do conhecimento e da sabedoria para muitos povos.

A coruja é uma excelente conhecedora dos segredos da noite. Enquanto os homens dormem, ela fica acordada, de olhos arregalados, banhada pelos raios da inspiradora Lua. Vigiando os cemitérios ou atenta aos cochichos no breu, essa ambaixadora das trevas sabe tudo o que se passa, tendo-se tornado em muitas culturas uma profunda e poderosa conhecedora do oculto.

Havia uma antiga tradição segundo a qual quem como carne de coruja participa de seus poderes divinatórios, de seus dons de previsão e presciência. Esta ave tornou-se assim atributo tradicional dos mânteis, daqueles que praticam a mântica, a arte do divinatio, da adivinhação, simbolizando o dom da clarividência.

Eis a ave apropriada à deusa da Sabedoria e da Justiça: atenta coruja, cujo pescoço gira 360°, possuidora de olhos luminosos que, como Zeus, enxerga “o todo”.

Athena carrega ainda, no peitoral de sua armadura (égide feita com pele de cabra), a cabeça de Medusa, rainha das Górgonas.

As Górgonas são três irmãs (Medusa, a dominadora; Euríale, a errante e Esteno, a violenta) que simbolizam os inimigos interiores que temos de evitar. São deformações monstruosas da psique (psyché, alma) nascidas do desvirtuar de três pulsões humanas: sociabilidade (Esteno), sexualidade (Euríale) e espiritualidade (Medusa). Como a perversão espiritual prevalece sobre as demais, Medusa impera.

A perversão da pulsão espiritual, por excelência, é a vaidade (imaginação exaltada em relação a si mesma) que é simbolizada pela serpente, por isso, inúmeras coroam sua cabeça.

No frontispício do templo de Apollo (irmão de Athena), deus da harmonia, lêem-se as palavras que resumem toda a verdade oculta dos mitos: “conhece-te a ti mesmo”. A única condição do conhecimento de si mesmo é a confissão das intenções ocultas, que, por serem culpáveis, são habitualmente maquiadas pela vaidade (por uma justiça falsa, pois sem mérito, infundada).

A inscrição reveladora significa, portanto: desmascara tua falsa razão, ou, o que dá no mesmo, aniquila tua vaidade. Faz-se necessário a clarividência em relação a si mesmo, o inverso do ofuscamento vaidoso e petrificante.

Ver Medusa significa reconhecer a vaidade culposa, perceber a nu suas falsas razões, suas intenções ocultas, o que ninguém consegue confessar a si mesmo, da qual ninguém suporta a visão.

A cabeça da rainha das Górgonas foi presente do herói Perseu, a quem Athena muniu com seu escudo. Ao refletir a imagem verídica das coisas e dos seres, o escudo reluzente permite conhecer a si mesmo: é o espelho da verdade. Neste escudo, o homem se vê tal como é, e não como gosta de imaginar ser.

Athena é a deusa da combatividade espiritual (as três manifestações da elevação espiritual são a verdade, a beleza e a bondade). A sapiência, o amor pela verdade é a condição para ascender ao conhecimento de si e, em conseqüência, para adentrar na harmonia (Apollo).

Para derrotar a Medusa, foi necessário que o herói a surpreendesse enquanto dormia, pois o homem somente é lúcido e apto ao combate espiritual quando a exaltação de sua vaidade não está desperta. Arma muito cobiçada, mesmo morta, a cabeça da Medusa continuou mantendo seu poder de petrificar quem a encarasse.

Contra a culpabilidade advinda da exaltação vaidosa dos desejos, não há senão um único meio de salvaguarda: realizar a justa medida, a harmonia (sophrosyne).

A deusa, símbolo da combatividade que inspira o amor à verdade, convida os mortais a reconhecerem-se em Medusa, incitando-os à luta contra a mentira essencial, a mentira subconscientemente desejada, o recalcamento, as falsas razões.

Antes de fazer jus, merecer o apoio de Athena, todo mortal deve encarar o símbolo da decadência espiritual (a vaidade). Somente assim têm-se certeza de que sua reivindicação não oculta outra intenção, ou seja, não é capricho, teimosia. Ante a imagem da Medusa, quem busca a deusa clamando por justiça tem somente duas possibilidades: contar com sua proteção (vitória certa, pois é sempre acompanhada por Niké) ou imobilizar-se no pânico, num desespero paralisante.

1 de out. de 2010

Introdução à Fenomenologia


"Existe uma coisa que eu não sei o que é.
Porém, sei que se essa coisa não existisse nada mais existiria, nem Deus.
Que coisa é essa?"


A pergunta acima foi feita a Jéssica, uma estudante de 11 anos de Curitiba. Para espanto do professor, ela respondeu que essa coisa era a realidade. O “real” existe, independente de nós? Através de nós? Ou ainda: É possível alcançarmos o entendimento do que é real?

Sabemos que, tanto nós mesmos, quanto as atividades políticas, econômicas, sociais e culturais (artísticas) que vivenciamos estão em constante movimento. E, na realidade (literalmente), quando um movimento desses se destaca, se sobressai, é comum utilizarmos o termo “fenômeno”. Constatamos assim, o fenômeno das redes sociais; o fenômeno da crise econômica mundial; do elevado número de divórcios; da corrupção, fenômenos da moda, da música e até mesmo o brilhantismo técnico de um esportista o alça à alcunha de “fenômeno”.

Ininterrupto e imensurável, o caldeirão da realidade abarca tudo o que aparece aos nossos sentidos ou à nossa intuição intelectiva. Realidade é espelho, aparência de “algo” e tudo o que manifesta (phainestai) é fenômeno (phaenomenon). Assim, é também o que aparece no placar que faz ou não, de Ronaldo, “fenômeno”.

Fenômeno é algo em constante movimento, sempre em aberto e justamente por ter seu campo ilimitado, se esquiva a ser enquadrado dentro de uma ciência particular. Desta espécie de “árvore”, com suas raízes ocultas, proliferam inúmeros galhos, em diferentes direções, sem um télos (propósito) pré-determinado ou definitivo.

Diante dessa imensidão, Paul Ricouer (1913-2005) diz que “atendo-se à etimologia, quem quer que trate da maneira de aparecer do que quer que seja ou, consequentemente, que descreva as aparências ou as aparições, faz Fenomenologia”. Contando com estudiosos de diversas áreas, grupos ou associações acadêmicas mais informais, o “círculo” (os alemães denominavam "kreis”) de fenomenólogos é vasto. Um exemplo interessante é o do experiente engenheiro Kleber Sernik, que discorre sobre o desencadeamento da crise econômica mundial valendo-se do sistema dialético hegeliano (http://www.blogdoklebers.blogspot.com/).

Uma vez que esse “movimento” se assentou definitivamente na Filosofia e, a rigor, “o movimento fenomenológico” ambiciona, nas palavras de Merleau-Ponty (1908-1861) “revelar o mistério da razão e o mistério do mundo”, há de se estabelecer um recorte mais austero do que é Fenomenologia.

Dos pré-socráticos aos modernos, muitos versaram sobre a questão das aparências. Platão (427 a.C. – 347 a.C.) já tratara do problema do “ser em si e suas aparências no mundo sensível” quando, no Livro VI da República, em diálogo com Glauco, Sócrates diz: “Reconhecerás que o Sol proporciona às coisas visíveis, não só, segundo julgo a faculdade de serem vistas, mas também a sua gênese, crescimento e alimentação, sem que seja ele mesmo a gênese”.

O termo “fenomenologia” foi utilizado pela primeira vez na obra “Novo Organon” (1764), de J.H. Lambert (discípulo de Christian Wolff), entendendo-o como sendo “a teoria da ilusão” e suas inúmeras formas. Ilusão porque a aparência pode: a) revelar ou apontar o caminho rumo à verdade; b) iludir encobrindo-a ou ainda, c) ocultar a verdade.

Immanuel Kant (1724-1804), afirmou numa carta, que a primeira parte de sua “Crítica da Razão Pura” deveria ter o título de “A Fenomenologia em geral”, uma espécie de introdução a preceder à metafísica. Mas preferiu o título de “Estética Transcendental”, atribuindo-lhe a “tarefa de investigar a estrutura do sujeito e das ‘funções’ do espírito, circunscrevendo o campo do aparecer ao ‘fenômeno’”. Com isso, Kant delimitou as pretensões de alcance de nosso conhecimento e, incognoscível, a metafísica foi excluída de nossas faculdades de entendimento.

Ao estudo do “Ser” (em si e por si, que subjaz à realidade/manifestação) já se denominou teologia, metafísica, mas é com o fundador do movimento fenomenológico, Edmund Husserl (1859-1938) que temos um conteúdo novo a uma palavra já antiga: Ontologia – o ramo da Filosofia que se propõe a estudar a ciência do Ser como uma disciplina distinta.

Na evolução do “Movimento Fenomenológico” ao longo da História, foi o alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830) quem impôs definitivamente o termo na tradição filosófica. Com a obra “Fenomenologia do Espírito” (1807), nos apresentará conceitos de Ser em si, de “o Absoluto”.

Será no modo como concebe a relação entre o fenômeno e o ser – ou o Absoluto, que Hegel ultrapassará a fenomenologia kantiana, pois, enquanto Kant insiste na incognoscibilidade, ele afirmará que, sendo cognoscível, o fenômeno nada mais é que a manifestação do próprio Ser, ou seja, do Absoluto, qualificando-o como sendo o Espírito.

Assim, a Fenomenologia em Hegel será uma filosofia do Espírito, do Absoluto: “O trágico na História humana é um momento necessário para o vir-a-ser do Espírito, por ser o que Hegel denomina o negativo – isto é, o motor do movimento da História, sem o qual o Espírito não poderia enriquecer-se de suas sucessivas figuras e manifestações”.

A fenomenologia hegeliana, refutando a incognoscibilidade dessa ciência, acaba por fornecer “todos os materiais ao filósofo, cabendo a este pensar sobre esta ordem oculta e falar de seu significado absoluto”.

Enquanto que na fenomenologia kantiana, o Ser é concebido como limitador do conhecimento do “nômeno”, que é a “causa” do fenômeno (inalcançável por nossa vã filosofia, pois não pode ser pensado como objeto dos sentidos, mas somente como coisa em si), no sistema hegeliano: “o fenômeno é reabsorvido dentro do conhecimento sistemático do ser”.

O filósofo francês André Dartigues, em sua obra “Qu’est-ce que la phénomenologie”, esclarece: “Não se trata, para Hegel, de construir uma filosofia na qual a verdade do absoluto se enunciasse de fora ou ao lado da experiência humana e sim de mostrar como o absoluto está presente em cada momento desta experiência, tanto religiosa, como estética, jurídica, política ou prática”.

A genialidade de Hegel está em elucidar que tudo o que aparece na realidade, o fenômeno (suspendamos juízos de valor) é manifestação do Absoluto. A magnitude que sua teoria atinge, através de uma peculiar dialética (a presentificação do eterno e o mecanismo intrínseco de seu incessante vir a ser), o eleva a vertiginosa estatura de um Platão.

1 de set. de 2010

Pluto - A Riqueza (Parte II)

Testa Di Vecchia – Antonio Carneo

Prosseguindo na comédia de Aristófanes sobre Pluto, o deus da Riqueza, conheceremos Blepsidemo, o incrédulo amigo do camponês Crêmilo; testemunharemos a expulsão da Pobreza, indignada com a nova ordem das coisas, a aflição de uma velha patética, lamentando o abandono do amante e a ardilosidade de Hermes, buscando “emprego”, agora que o Olimpo faliu.

Ao saber que o deus da Riqueza era realmente cego, Blepsidemo interpreta: “Ora aí está, porque nunca foi a minha casa”. Constatando banimento, chega a Pobreza: “Oh, empresa temerária, sacrílega e ilegal, o que dois homens de nada, os desgraçados, tentam fazer!”

Crêmilo pergunta: “E tu quem és? Pareces-me pálida!”. Blepsidemo diz que talvez seja a Erínia, vinda da tragédia. “Tem um olhar de loucura e de tragédia”.

Com altivez, indaga a Pobreza: “sabes quem eu sou?”. E Crêmilo: “Uma taberneira ou regateira”. Ela prossegue: “Ah, sim? Não procederam vocês de forma mais ameaçadora, ao procurarem expulsar-me de toda a terra? (...) A Pobreza é que eu sou, a pobreza que vive convosco, há muitos anos”.

Em pânico, Blepsidemo avisa que irá fugir: “É a Pobreza, oh velhaco, o animal mais daninho que jamais existiu (...). Qual é a couraça, qual é o escudo que esta enorme patifa não faz pôr... no prego?” Crêmilo tenta contê-lo: “Coragem, porque o nosso deus sozinho, é bom que o saibas, é capaz de erguer um troféu de vitória contra as manhas desta fulana”.

A Pobreza protesta: “E vós ainda ousais, parelha de imbecis, grunhir, apesar de apanhados em flagrante fazendo coisas monstruosas? (...) estais convencidos de que não me prejudicais nada, ao tentar fazer com que Pluto recupere a vista?”

Mas o camponês está convencido de que fez o bem, expulsando-a da Grécia.

Pobreza argumenta que isso é o maior mal que se pode fazer aos homens e, imbuída de dar-lhes suas razões diz: “E se vos provar que só eu sou a causa de todos os bens que gozais e que é, graças a mim, que vós viveis...”.

Crêmilo alega que se Pluto não vaguear como cego “dirigir-se-á àqueles homens que são bons e não os abandonará. E fugirá dos maus e ateus. E depois fará que todos sejam bons e ricos – naturalmente – e respeitadores da divindade. E quem jamais poderá descobrir alguma coisa melhor do que isso, para os homens?”

Ela diz que isso não seria útil “Se Pluto voltasse a ver de novo e se repartisse por igual, ninguém mais dentre os homens se preocuparia com a arte ou com a sabedoria. E tendo vós feito desaparecer estas duas, quem quererá trabalhar os metais, construir navios, coser tecidos, fazer rodas, cortar o couro, moldar tijolos, lavar, fazer correias ou ‘com o arado rasgando da terra a superfície, colher o fruto de Deméter’, se vos for possível viver na ociosidade sem vos preocupardes com isso?”

Os criados que agüentem, diz Crêmilo. Pobreza quer saber onde Crêmilo os arranjará e ele diz que comprando. Ela quer saber quem é que os venderá se também tem dinheiro: “Alguém que queira ganhar, um comerciante que chegue da Tessália, onde há insaciáveis ladrões de escravos”.

Pobreza esclarece que não haverá traficantes de escravos, que sendo rico, ninguém arriscará a própria vida nisso e que, desse modo, ele mesmo será obrigado a lavrar o campo, cavar e colher: “(...) em tudo o mais e levarás uma vida muito mais dolorosa do que a atual”.

Não haverá quem faça camas, tapetes, perfumes, mantos: “de que vale ser rico, estando privado de tudo isso? Comigo, todavia, está à vossa disposição tudo aquilo de que precisais, porque eu fico aqui, como uma patroa que força o trabalhador manual, por meio da necessidade e da pobreza, a procurar meios de vida”.

Crêmilo começa a descrever os infortúnios da pobreza: falta de higiene, piolhos, fome, andrajos em vez de um manto, esteira de junco, ao invés de uma cama, pedra, no lugar de travesseiros e inquire: “Não estou eu mostrando que tu és a causa de muitos bens para todos os homens?”

Injuriada, Pobreza contesta, pois isso não é sua vida, mas a dos mendigos, que nada têm. E Crêmilo: “Então não é verdade que se diz que a pobreza é irmã da mendicidade?”

Ela diz que sua vida não passa por tais carências e que nem há de passar: “Mas a vida do pobre é a de quem poupa e se aplica ao trabalho, a quem nada sobra, decerto que não, mas também nada falta”. Crêmilo provoca: “Que feliz, ó Deméter, essa vida do pobre de quem tu falas, se depois de poupar e de penar não deixará com que ser enterrado”.

Convicta de seus predicados até no aspecto físico das pessoas, assinala que os ricos são gordos: “Ao passo que os meus são magros, de cintura de vespa, e incômodos aos inimigos”. Irônico, Crêmilo retruca: “É talvez com a fome, que tu lhes arranja a cintura de vespa”.

Pobreza diz então que a moderação (sophrosyne é o que há de mais caro aos gregos) mora com ela e que Pluto é a própria insolência. Crêmilo cita os ladrões e conclui que furtar e arrombar as casas é o cúmulo da moderação.

Imbuída de provar o quanto a riqueza corrompe, Pobreza diz que basta observar os políticos, que enquanto pobres, são justos com o povo, mas que basta enriquecerem com o dinheiro público para, imediatamente, se tornarem injustos e conspirarem contra a plebe.

Crêmilo reconhece que nisso, a Pobreza tem toda razão, mas roga que não tente se enfeitar, persuadindo-os que é melhor que a riqueza. Senão, diz ele, “como é que todos fogem de ti?”.

Pobreza exclama que os faz melhores. “Pode ver-se muito bem o que acontece com as crianças. Fogem dos pais, porque estes só querem o bem delas. De tal modo, conhecer o que é justo é coisa difícil”.

Irredutível, Crêmilo expulsa Pobreza, que se vai, com a ameaça de que ele ainda haverá de chamá-la. Aliviado, Blepsidemo diz: “Sim, por Zeus, eu quero enriquecer e viver regaladamente com filhos e mulher e, depois de tomar banho, sair reluzente do balneário, a dar peidos para os artesãos e para a Pobreza”.

Eis que entra um denunciante (Sicofanta) com uma testemunha: “Infeliz de mim, como estou perdido, desgraçado que sou! (...) estou submerso num destino cheio de infelicidades”.

Confessa ter perdido tudo o que tinha por causa desse deus que há de voltar a ser cego, se a justiça não o abandonar. Crêmilo inquiri: “Por ventura, era tu dos patifes e dos arrombadores?”.

O denunciante protesta a insolência. Um Justo pergunta se é lavrador e ele diz que não é assim tão maluco. Negociante, então? “Sim, finjo sê-lo, quando convém”. O Justo prossegue: “Se não aprendeste um ofício, como ganhavas a vida ou donde, se nada fazias?”

Diz-se, então, curador dos negócios da cidade e de todos os negócios particulares. O Justo fica indignado. E o denunciante: “Não me diz respeito prestar serviços à minha cidade, pateta, na medida das minhas forças?”.

Sagaz, prossegue: “Sim senhor, é socorrer as leis existentes e não deixar passar, se alguém prevarica”. E o Justo: “Então a cidade não estabelece expressamente que os juízes superintendam nessa matéria?”.

Presunçoso o denunciante pergunta: “E quem é o acusador?”, ao que o Justo responde: “Quem quiser”. O patife afirma que esse tal é ele, por tal forma que nele vêm a dar os negócios da cidade. Carião diz que o denunciante, que agora foge, não merece o que come.

Entra uma velha que, desolada, pergunta a Crêmilo se chegara à casa de Pluto: “Acabo de sofrer ofensas terríveis e contra a lei, meu querido. Desde que esse deus começou a ver, ele fez com que minha vida não se pudesse viver”.

Crêmilo fica curioso e a coroa então prossegue: “Ora ouve! Eu tinha um mocinho por amigo, pobrezinho, mas bem apessoado e belo e bom. Se eu precisava de alguma coisa, ele tudo fazia ao meu serviço com delicadeza e graça. E eu, pela minha parte, servia-o em todos os seus desejos”.

Salienta que o rapaz não pedia muito porque tinha nela um acanhamento excepcional. Crêmilo a assegura que: “É de fato um homem com um amor muito excepcional”.

Ela diz que agora rico, o desavergonhado foge de suas investidas, dizendo que “outrora eram poderosos os milésios”. Crêmilo não se contém: “(...) já não se contenta com sopa de lentilhas. Dantes, levado pela pobreza, comia de tudo”.

Inconformada, a velha diz que antes, o rapaz vinha todos os dias à sua porta: “E dizia que eu tinha as mãos lindíssimas...”. “Principalmente, quando exibiam as vinte dracmas”, satiriza Crêmilo. Ingênua, prossegue nostálgica: “E afirmava que a minha pele cheirava bem... (...) que meu olhar era terno e belo...!”.

Crêmilo conclui que não era bronco o sujeito, “sabia comer os recursos de uma velha no cio”. Ela insiste que é injusto que não receba recompensa nenhuma. Ele pergunta se por acaso o rapaz não retribuía a cada noite. Ela diz que sim, mas que havia prometido jamais abandoná-la enquanto fosse viva. Sarcástico, Crêmilo ironiza: “E agora crê que tu já não vives”.

Eis que, passa o rapazinho e a cumprimenta cerimoniosamente: “As minhas saudações! (...) vetusta amiga (...)”. Isso a mortifica: “Infeliz de mim, pela insolência com que sou tratada”. Crêmilo diz parecer que há muito tempo não a vê. “Qual muito tempo, ó infeliz! Ele esteve em minha casa, ontem!”.

O jovenzinho aproveita para troçar perguntando se a velha quer brincar um pouco. Quando ela se anima e pergunta de que brincadeira, ele diz: “Quantos dentes tens”. Crêmilo arrisca: “Mas sabê-lo-ei, também eu. Tem talvez uns três ou quatro”. E o jovem: “Paga! Só é portadora de um molar”. Empolgados, fazem pilhérias aviltantes.

Chega Hermes dizendo que Zeus está furioso porque ninguém sacrifica coisa alguma aos deuses. Carião rememora que no passado, os deuses mal se preocupavam com o povo. Aflito, Hermes confessa: “Mas com os outros deuses pouco me ralo, eu é que estou perdido e destruído (...).

Outrora mensageiro dos deuses, Hermes implora: “Não guardes ressentimento, agora que estais por cima. Mas recebei-me como companheiro de casa, pelos deuses”. Carião se espanta: “O quê? Achas correta a tua deserção?” Ao que ele responde: “Pátria é toda a terra onde alguém é feliz”.

Hermes enumera seus talentos e Carião o deixa entrar: “Como é bom ter muitas invocações! Não é sem razão que todos os juízes se apressam a fazer-se inscrever em muitas letras”.

A peça finda com a chegada do Sacerdote de Zeus, dizendo estar morto de fome, pois as pessoas só entram no templo para fazer as necessidades: “Portanto, também eu creio que vou mandar passear Zeus Salvador e ficar aqui mesmo”.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br