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23 de jan. de 2008

Sartre: "O inferno são os Outros"


No artigo anterior, versando sobre "A Morte de Ivan Ilitch", constatamos que, dentre os riscos de se deixar pautar por valores alheios está o de viver uma vida destituída de sentido pessoal. Ponderemos agora como o ser humano, enredado pela má fé, acaba por delegar a terceiros a angustiante responsabilidade de decidir sobre sua vida. Como "piolhos", viver pela cabeça dos outros pode tornar nossa existência um inferno. Mas afinal, quem são os "outros"?

O Filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), além das famosas obras filosóficas ("A Náusea", "O Ser e o Nada"), escreveu romances, contos, peças teatrais e atuou também como crítico literário e de artes. (...)

Esse artigo estará disponível no site da Escola Superior de Direito Constitucional - ESDC ( http://www.esdc.com.br/ ) no início de fevereiro de 2008.

12 de jan. de 2008

A morte de Ivan Ilitch - Tolstói


“O que justifica o ato de viver é a solidariedade, ativa e iluminada que aniquila o eu egoísta e fornece a paz interior” Luiz Venere Décourt (1911-2007)

Nessa magistral obra-prima (considerada por Vladimir Nabokov “a mais artística, mais perfeita e de mais sofisticada realização da história mundial”) legada pelo conde russo Leon Tolstói (1828-1910), defrontamo-nos com o soberano do destino: o fim. Eis nosso denominador comum.

Fim! Decreta a morte. Pode-se até contestar que seja ou não o “fim último”, mas abster-se desse encontro marcado ninguém conseguiu. A morte é uma prova final, aplicada a qualquer momento; e por mais que se creia não estar preparado, todos somos aprovados.

Impossível não se comover com esse personagem: “A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares e, contudo, das mais terríveis. Juiz do Tribunal, falecia aos 45 anos”.
Escarafunchando a angustiada consciência do irrepreensível juiz Ivan Ilitch, em breves 85 páginas, Tolstói nos brinda com o relato de um “acerto de contas”, revelando a futilidade do modelo de vida burguês. Será, preso ao leito, frente a morte certa, que a vida de Ivan Ilitch se revelará mais livre, mais autêntica e pujante. As preocupações corriqueiras, os afazeres mundanos impediram-no de pensar nela.

É com espanto que, diante da morte iminente, atina que viveu uma vida de aparências, tanto no desempenho de seu trabalho, quanto no casamento e em suas demais relações sociais. Ivan Ilitch conclui que sua existência fora desprovida de um propósito mais significativo, que não passou daquilo que a sociedade, com seu mero jogo de interesses, de galgar posições de prestígio, de “parecer estar bem”, preconizava. Em resumo: uma autêntica vida de falsidades. Para seu desespero, até mesmo àqueles a quem julgava ser fundamental e amado, sua mulher e filhos, vivenciam sua convalescênça como sendo um capricho inexplicável (a mulher) ou um aperreio, um estorvo (sua filha).

O sucesso profissional, o empenho pela manutenção da ordem, do status quo, daquilo que, aos olhos dos outros era tido como o “certo”, sempre fora o norte de sua “aparentemente” bem sucedida (na verdade, ordinária) vida: “Não era um adulador, nem quando menino, nem quando homem feito, porém, desde a infância, sentira-se naturalmente atraído pelas pessoas que ocupavam posição elevada na sociedade, tal como mariposas pela luz, e assimilava-lhes as maneiras e as opiniões, forçando ainda relações amistosas com elas”.

Leia esse artigo na íntegra no site da Escola Superior de Direito Constitucional - ESDC

Parmênides, Heráclito e a Caixa de Pandora


Alexandre Cabanel - Pandora

O eterno, a mudança e a esperança no porvir

Amigos leitores, estamos chegando ao final de mais um ciclo. Novamente, outro se iniciará, num eterno devir (vir a ser, porvir, tornar-se). 

A eternidade é uma espécie de presente contínuo; é o que experimentamos agora, em nossa vida, sempre em mudança. Filosofemos com os exponenciais filósofos pré-socráticos Heráclito, Parmênides e Hesíodo.

Parmênides, nasceu na cidade de Eléia, na Magna Grécia, em cerca de 540 a.C. Ele legou uma das maiores posições metafísicas radicais da história do pensamento filosófico ocidental. 

Trata-se da primeira grandiosa formulação do princípio de não-contradição; aquele princípio que afirma a impossibilidade de os contraditórios coexistirem simultaneamente. Esses dois supremos contraditórios são o “ser” e o “não-ser”. 

Para o Eleata, “O Ser é, e é impossível que não seja” e também afirma: “O Não-Ser não é e dele não se pode sequer falar”. Junto a essas duas proposições, há ainda uma terceira: “É o mesmo o Ser e o Pensar”. O ramo da filosofia que se debruça ao estudo do “Ser enquanto Ser”, chamamos ontologia.

O Ser, é ingênito e incorruptível. Impossível ter sido gerado pois se fosse, teria sido derivado do não-ser ou do ser: do não-ser é impossível, porque o não-ser não é; do ser é também impossível, porque então já seria e não haveria necessidade de ter sido gerado. 

E é também por essas mesmas razões que é impossível que se corrompa. O “Ser” não tem um passado (porque nesse caso não seria mais) e tampouco um futuro (porque não seria ainda). O “Ser” é o que há de imutável no mundo, o (tempo) presente eterno sem início nem fim. É o “agora”, é o que vivemos.

Heráclito, da cidade de Éfeso, contemporâneo de Parmênides (aquele da afirmação de que não se banha duas vezes no mesmo rio), legou o célebre aforisma de que “Tudo Flui” (Panta Rhei). Tudo muda, o tempo todo; que tudo se altera é uma certeza que temos. 

O Filósofo francês Marcel Conche afirma: “Que tudo muda, é algo que não muda. Que tudo passa, é algo que sempre será verdadeiro”. O que não muda é o devir. O que não se altera é o “Ser” (o tempo presente, o eterno “agora” do Ser de Parmênides).

Tudo passa. Mas é só no presente que nos damos conta dessa passagem. O passado já era, não é, não existe mais (embora no presente possamos rememorá-lo). 

O futuro é o porvir, ainda nem existe, não passa de uma promessa de vir a ser, tornar-se. Também, somente no presente possamos ponderar sobre o futuro; é necessário então, dispor do nosso tempo presente para imaginá-lo.

A eternidade é e, paradoxal e simultaneamente, está em mudança contínua. É agora e também será em instantes; será um outro “agora” (não mais enfadonha!), mas o será sempre.

Logo, o que caminha de mãos dadas com a eternidade parmenidiana é a certeza de mudança heraclitiana.

Ainda anterior aos Filósofos acima, o aedo (poeta) Hesíodo, em sua obra “Os Trabalhos e os Dias”, narra o mito de Prometeu e Pandora. 

O soberano do Olimpo, Zeus (Júpiter), encolerizado, encomendou ao mestre da technée, Hefestos (Vulcano), uma mulher belíssima, fascinante, perfeita, com todos os dons (pan = todos e dora = dons), juntamente com um grande e misterioso vaso (pithos = jarro) ou caixa, na versão mais corriqueira. 

Era para que os homens fossem castigados em razão de Prometeu ter roubado e lhes entregue o fogo divino. O ordenador do cosmos era contrário a esta dádiva, sabia que os homens se julgariam melhores que os deuses e esqueceriam seus deveres para com os semelhantes. 

Prometeu, conhecedor do que que estaria por vir (pro = antes e metheus = vidente), esquivou-se de tal presente, alertando também seu irmão, Epimeteu (que só sabe do resultado de uma ação depois de tê-la infringido). 

Mas Epimeteu não resistiu aos encantos da fêmea e acolheu Pandora. Dentre todos os dons com os quais fora guarnecida, ela contava também com a persuasão, a graça e a ardilosidade, a imprudência e a curiosidade: fez-se o malefício, brincadeira de Hermes (Mercúrio). 


Após muito resistir, Pandora sucumbe, abre a caixa e... tarde demais! Espantosa fonte de calamidades, dela escapam todos os males que assolam a humanidade (peste, guerra, violência, fome e miséria; também geres, a velhice maldita para o corpo e inveja, despeito e vingança para o espírito).

Desesperada, Pandora fecha imediatamente a caixa. Lá, só restou... o porvir.

O porvir, o futuro, o que está para acontecer, benéfico ou não, foi o que restou na magnética caixa, astutamente enviada por Zeus. E não poderia ser de outra forma. Ao sair da caixa, o porvir torna-se presente, passa a ser.

Santo Agostinho, ao esclarecer sobre a eternidade, dizia que ela era um presente que permanece presente, e que o real é, portanto, a própria eternidade: o perpétuo hoje de Deus (ou, para os não-religiosos, o perpétuo hoje do mundo).

Na expectativa, nós é que acalentamos a ESPERANÇA (Élpis) de que, na cidade dos homens e/ou na cidade de Deus, o porvir seja afortunado. 

Feliz e abençoada nova (eterna) caixa de Pandora para todos nós!

► Saiba mais:
Hesíodo – O Trabalho e os Dias. Trad. Mary de Camargo Neves. Ed. Iluminuras (1996)
Curso de Mitologia Greco-Romana na Galleria Borghese, em Roma, clique AQUI.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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