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1 de jul. de 2014

A atemporalidade dos ensinamentos de Maquiavel - Parte I


"Ao imitarmos os caminhos já percorridos pelos grandes homens, mesmo que não alcancemos totalmente suas virtudes, aproveitaremos muita coisa."

Do clássico “O Príncipe” (confira artigo já publicado AQUI), podemos extrair ensinamentos úteis em nosso cotidiano, seja na vida pessoal, para o convívio entre familiares e amigos, bem como no mundo “corporativo”, com a chefia e os subalternos.

Ao escarafunchar os meandros que regem os conchavos políticos, Maquiavel evidenciou nuances da natureza humana, por isso, embora sua análise tenha aflorado no renascimento, o legado dele é atualíssimo e precioso aos que quiserem aprender sobre a sorte, o papel da astúcia e da prudência em suas relações.

Maquiavel nos ensina que os homens mudam de boa vontade de senhor quando supõem que irão melhorar, e que é justamente essa crença o que os faz lutar contra quem estiver no poder.

Alerta que são nossos inimigos todos aqueles que se sentem ofendidos por ocuparmos lugar de destaque e ressalta que não podemos conservar como amigos aqueles que nos puseram ali, pois estes não podem ser satisfeitos como pensavam.

Orienta que convém que estejamos sempre presentes e disponíveis, pois nossos subalternos ficam satisfeitos em saber que somos acessíveis: “assim, terão maiores razões de amá-lo, se é o caso, ou de temê-lo”.

O florentino diz ser importante que os insatisfeitos sejam minoria, dispersos e reduzidos à pobreza, pois, segundo ele, a ordem das coisas é que quando um novo poderoso chega, todos aqueles que se acham enfraquecidos não hesitem em lhe dar adesão, movidos que estão pela inveja.

Prudência (a pré-vidência, o ver antes) é uma virtude a ser sempre acalentada, pois se deve “não só remediar o presente, mas prever os casos futuros e preveni-los com toda perícia (...), e não deixar que se aproximem os acontecimentos, pois deste modo o remédio não chega a tempo (...)” e isso torna a moléstia incurável.

Os prudentes se empenham em conhecer os males possíveis com antecedência e providenciam curá-los, enquanto que aqueles que os ignoram, deixando as contendas aumentarem a ponto de serem conhecidas de todos, não encontram mais meios de remediar os malefícios que florescem.



Ao pressentir perturbações, devemos agir imediatamente, não permitindo jamais que sigam seu curso, pois àqueles que se esquivam de uma atitude mais afirmativa para evitar uma guerra estejam cônscios de que guerra não se evita, apenas protela-se. 

E isso é temerário, pois redundará em proveito dos outros. Adiar o enfrentamento de uma situação que requer atitude firme é contribuir para sua própria desvantagem.

O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária, diz Maquiavel. E os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados. Querer e não poder é que constitui um erro merecedor de censura.

Salienta que uma regra que nunca ou muito raramente falha é a de que, quando alguém é causa do poder de outrem, arruína-se, pois se trata de um poder oriundo de astúcia ou força e, qualquer destas é suspeita ao novo poderoso.



Algumas figuras tornaram-se referência, mesmo sob condições extremamente adversas, foram “príncipes” por mérito próprio, pelo seu valor e não por sorte. Ele diz que se examinarmos as vidas e as ações de Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu, por exemplo, concluiremos que eles não receberam da fortuna (sorte) mais do que a ocasião de poder amoldar as coisas como melhor lhes aprouve.


Se não tivesse se apresentado determinada ocasião (nos casos citados, de sérias dificuldades), as qualidades pessoais desses teriam se apagado. E sem as virtudes, capacidades e talentos que eles tinham, de nada teria adiantado aparecer a ocasião propícia.




Maquiavel explica que àqueles que conquistam posição de destaque por mérito próprio, enfrentando os transtornos, penam na conquista, mas em contrapartida, conseguem manter a posição mais facilmente que aqueles que, tendo nascido “em berço de ouro”, herdaram renome, patrimônio e fama de seus antepassados. Para esses, o começo pode ser fácil, mas a manutenção do posto não se dá facilmente.



E isso porque aquele que ganha o posto de destaque de “mão beijada”: “(...) está na dependência exclusiva da vontade e boa fortuna de quem lhes concedeu (...), duas coisas extremamente volúveis e instáveis”.

Sucesso que surge de modo súbito é frágil: ao primeiro golpe da adversidade, aniquilam-se. A não ser que saibam preparar-se para conservar aquilo que a sorte lhes pôs no regaço e estabeleçam solidamente as bases fundadas anteriormente por outros.

É fundamental ter crédito junto aos subalternos. Citando frei Savonarola, ele nos lembra que a causa do fracasso dele foi justamente não poder mais contar com o apoio do povo.

Para Maquiavel, é mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar porque, segundo ele “Vai tanta diferença entre o como se vive e o modo que se deveria viver, que quem se preocupar com o que deveria fazer em vez do que se faz, aprende antes a própria ruína, do que o modo de se preservar”.

No que tange à administração das finanças, convém que sejamos lúcidos, gastando pouco para não nos vermos obrigados a contrair dívidas, para termos sempre com o que nos defendermos e principalmente para não empobrecermos, tornando-nos desprezíveis.

Sem dúvida, é agradável ser amado, mas é ainda mais seguro, ser temido [e poderoso]: “É que os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos de dinheiro, e, enquanto lhes fizerem bem, todos estão contigo, oferecem-te [de tudo e mais um pouco], desde que a necessidade [penúria] esteja longe de ti (...)”.



Quanto às amizades, o Florentino alerta que as conquistadas por interesse (e não por grandeza e nobreza de caráter) são compradas e não se pode contar com elas no momento de necessidade: “E o príncipe, se confiou plenamente em palavras e não tomou outras precauções, está arruinado”.

Deve-se evitar lesar aproveitando-se dos bens dos outros porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda de seu patrimônio.

Das duas formas de se combater, pelas leis ou pela força, a primeira é própria do homem e a segunda, dos animais. Mas se tivermos que recorrer à animalidade, Maquiavel sugere que tiremos as qualidades da raposa e do leão. O leão não tem defesa contra os laços [alianças e contratos], já a raposa, nenhuma defesa contra os lobos: “Se os homens fossem todos bons, este preceito seria mau. Mas, dado que são pérfidos e que não a observariam [as regras] a teu respeito, também não és obrigado a cumpri-las para com eles”.

O que melhor souber valer-se das qualidades da raposa (astúcia) se sairá melhor, mas é necessário que disfarce muito bem essa qualidade, sendo um bom simulador e dissimulador: “E tão simples são os homens, e obedecem tanto às necessidades presentes, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar”. É também importante que nos resguardemos dos aduladores.



Mesmo que não possuas todas as boas qualidades tais como: piedade, fé, integridade, humanidade, religião, basta que aparentes possuí-las, pois: “Todos veem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente, e esses poucos não tem a audácia de contrariar a opinião dos que tem por si [boa reputação diante da maioria].”.

Sem falar que o vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, confirma o autor.

Prossigamos com o que há de “maquiavélico” em Maquiavel, há muito a aprender sobre nós.

1 de mai. de 2014

A VONTADE DE CRER - William James (Parte II)


“A ciência pode nos dizer o que existe, mas, para comparar os valores tanto do que existe como do que não existe, precisamos consultar não a ciência, mas o nosso coração”. William James

Prosseguimos com um dos fundadores da psicologia moderna, William James (1842-1910), e suas ponderações sobre a legitimidade da Fé, de se crer em algo (Clique AQUI para conferir o artigo anterior).

O autor afirma que a crença é profana quando conferida a afirmações não provadas e não questionadas, pelo conforto e prazer pessoal do crente: “Uma crença assim é pecadora porque é roubada em desrespeito a nossa obrigação para com a humanidade.”.

Quanto à proposição que temos de que existe uma verdade e de que nossa mente e essa verdade são feitas uma para a outra: “o que é isso senão uma afirmação apaixonada de desejo, em que nosso sistema social nos dá suporte?”.

Sim, queremos ter uma verdade, queremos acreditar que nossas experiências, estudos e discussões devem nos colocar numa posição melhor e concordamos em lutar para levar adiante nossa vida pensante. Mas, se um cético nos perguntar como sabemos tudo isso, será que nossa lógica poderá encontrar uma resposta? Não, afirma William James. “É apenas uma volição contra outra (...).”.

Como regra, diz o autor, desacreditamos de todos os fatos e teorias para os quais não temos uso: “Essa própria lei que os lógicos pretendem impor a nós – se posso chamar de lógicos os que descartariam nossa natureza volitiva nessa questão – é baseada em nada mais do que em seu próprio desejo natural de excluir todos os elementos para os quais eles, em seu atributo profissional de lógicos, não podem encontrar um uso”.

James diz ser evidente que nossa natureza não-intelectual influencia de fato nossas convicções: “Puro discernimento e lógica, o que quer que possam fazer idealmente, não são as únicas coisas que de fato produzem nossos credos.”.

A tese que James defende é a de que nossa natureza passional não só pode, como deve, licitamente decidir-se por uma opção entre proposições sempre que esta não possa, por sua natureza, ser decidida sobre bases intelectuais.

Sobre “sistemas”, diz: “Um sistema, para que seja realmente um sistema, deve vir como um sistema fechado, reversível neste ou naquele detalhe, talvez, mas, em suas características essenciais, jamais!”.

A ortodoxia escolástica, diz ele, à qual sempre é preciso recorrer quando se deseja encontrar afirmações perfeitamente claras, fez uma bela elaboração dessa convicção absolutista numa doutrina que ela chama de “evidência objetiva”.

Ele nos chama a atenção para o fato de que, se somos incapazes de duvidar que existimos e estamos lendo esse texto, de que 2 + 2 = 4 e de que todos os homens são mortais e que também somos mortais, é porque essas coisas iluminam nosso intelecto de forma irresistível.

A base decisiva dessa evidência objetiva possuída por certas proposições, diz ele, é adequação de nosso intelecto à realidade, pois o objeto mentalmente recebido não deixa atrás de si nenhuma possibilidade de dúvida.

De certas coisas, consideramos estar seguros: sabemos, e sabemos que sabemos. Há algo que dá um “clique” dentro de nós.

Para James, somente experimentando e refletindo sobre nossa experiência é que nossas opiniões podem se tornar mais verdadeiras e há apenas uma verdade indefectivelmente certa (...) – a verdade de que o presente fenômeno da consciência existe. Esse é o mero ponto de partida do conhecimento, algo sobre o que filosofar.

As várias filosofias não passam de muitas tentativas de expressar o que esse algo [fenômeno da consciência] realmente é, mas nenhum teste concreto do que é realmente verdadeiro encontrou consenso até hoje.

Afirmar que certas verdades agora a possuem [evidência objetiva] é simplesmente dizer que, quando as pensamos como verdadeiras e elas são verdadeiras, então sua evidência é objetiva, caso contrário não o é. Porém, na prática, a convicção de uma pessoa de que a evidência que ela adota é de fato do tipo objetivo é apenas mais uma opinião subjetiva acrescentada às demais.

James afirma que, para um empirista, não importa de que parte uma hipótese pode chegar até ele; a paixão pode tê-la sussurrado ou o acidente a sugerido; porém, se a tendência total do pensamento continua a confirmá-la, isso é o que ele leva em conta para considerá-la verdadeira.

Não só encontramos nossa natureza passional nos influenciando em nossas opiniões como um processo natural, como também que há algumas opções entre opiniões em que essa influência deve ser vista como um determinante inevitável e lícito de nossa escolha.

O autor pondera que os tribunais de justiça, de fato, têm de decidir com base nas melhores evidências obteníveis no momento, porque a tarefa de um juiz é tanto fazer a lei como verificá-la, e (como um juiz douto certa vez disse a ele) poucos casos são merecedores de que se gaste muito tempo neles: o bom é decidi-los com base em qualquer princípio aceitável e tirá-los do caminho.

Porém, pondera, em nossa relação com a natureza objetiva, somos evidentemente registradores, e não criadores, da verdade; e decisões tomadas com o simples propósito de decidir sem demora e passar para o próximo assunto seriam totalmente inadequadas.

Reitera que por toda a extensão da natureza física, os fatos são o que são, independentemente de nós (...) e a ciência seria muito menos avançada do que é, se os desejos passionais dos indivíduos de ver suas próprias fés confirmadas tivessem sido mantidos fora do jogo.

O investigador mais útil, por ser o observador mais sensível, é sempre aquele cujo interesse por um lado da questão é equilibrado por um receio igualmente ansioso de estar enganado.

A ciência organizou esse receio numa técnica regular, seu chamado método de verificação, e se apaixonou de tal forma por esse método que seria mesmo possível dizer que deixou de se preocupar com a verdade em si. É apenas a verdade tecnicamente verificada que interessa a ela. As paixões humanas, porém, são mais fortes do que as regras técnicas.

E, por mais indiferente que o juiz, o intelecto abstrato, possa ser a tudo que esteja fora das puras regras do jogo, os jogadores concretos que o suprem do material a ser julgado geralmente estão, cada um deles, apaixonados por alguma hipótese favorita pessoal.

Questões morais apresentam-se imediatamente como questões cuja solução não pode esperar por uma prova sensível, diz James: “Uma questão moral não é uma questão do que existe no plano sensível, mas do que é bom, ou do que seria bom se existisse.”.

A própria ciência – aponta o autor – consulta seu coração quando afirma que a infinita determinação do fato e a correção da falsa crença são os bens supremos para o homem. Desafie-se a afirmação, e a ciência só poderá repeti-la oracularmente, ou então prová-la mostrando que tal determinação e tal correção trazem ao homem todo tipo de outros bens que seu coração, por sua vez, declara.

 Temos o direito de acreditar, assumindo nossos próprios riscos, em qualquer hipótese que seja suficientemente viva para atrair nossa vontade. Em todas as situações importantes da vida, temos de dar um salto no escuro.


Agir da melhor maneira, esperar pelo melhor e assumir o que vier. Se a morte for o fim de tudo, não poderemos ter encontro melhor com ela, conclui, citando Fitz-James Stephen.

1 de abr. de 2014

A VONTADE DE CRER - William James (Parte I)


“A fé é uma das forças pelas quais os homens vivem, 
e a sua ausência total significa colapso.” William James


O médico e filósofo norte americano William James (1842-1910) é um dos fundadores da psicologia moderna e seus escritos figuram entre os clássicos.

A genialidade de James está em fundir a mente “científica” com a inquietação espiritual e seu opúsculo “A vontade de crer” é considerado por muitos a expressão dessa fusão, explicitando coerência ao afirmar a necessidade da fé.

Suas ponderações, que iniciaremos agora, culminarão numa afirmação positiva da fé religiosa, justificando: “(...) nosso direito a adotar uma atitude de crença em questões religiosas, mesmo que nosso intelecto meramente lógico talvez não tenha sido compelido a isso”. A questão é cara à filosofia, pois abarca ontologia (ciência do ser enquanto ser) e epistemologia (teoria do conhecimento).

Seus argumentos visam estabelecer de modo filosoficamente lícito, a fé quando voluntariamente adotada. Para isso, começa estabelecendo algumas distinções técnicas.

Ele chama de hipótese qualquer coisa que possa ser proposta à nossa crença e, assim como os eletricistas falam de fios vivos e mortos, James falará das hipóteses como vivas ou mortas: “Uma hipótese viva é a que aparece como uma possibilidade real para a pessoa a quem é proposta”.

O que ele quer dizer com essa “hipótese viva” é que, se pedirem para que acreditemos no Mahdi (em árabe, “aquele que é guiado por Deus”) e desconhecermos o que seja um Mahdi, essa ideia não criará nenhuma conexão elétrica com a natureza e, como hipótese, será completamente morta. Mas para um árabe (mesmo que nem seja um dos seguidores de Mahdi), a hipótese estará entre as possibilidades, portanto é “viva”.

Ele nos esclarece que: “o caráter vivo ou morto de uma hipótese não é uma propriedade intrínseca [da hipótese em si], mas está relacionado ao pensador individual [que poderá ou não cogitá-la].

Assim o caráter “vivo” de uma hipótese é aferido pela disposição do indivíduo para agir [e/ou reagir] diante dela: “Na prática, isso representa uma crença; mas há alguma tendência de crença [ao menos uma suspeita] sempre que existe alguma disposição a agir”, diz o estudioso.

William James chama de opção a decisão entre duas hipóteses e diz que as opções podem ser de vários tipos:

1) Vivas ou Mortas: opção viva quando ambas as hipóteses tem algum apelo (mesmo que pequeno) à crença, por exemplo: “Seja agnóstico ou seja cristão”. E, opção morta quando para nosso entendimento, nenhuma das hipóteses nos fale de perto, por exemplo: “Seja teosofista, ou seja muçulmano”.

2) Forçosas ou Evitáveis: se pedir que escolham entre sair com ou sem o guarda-chuva, por exemplo, não está sendo oferecida uma opção genuína, pois ela não é forçosa, basta que se decida não sair para que seja evitável. Mas, se digo: “Aceitem esta verdade ou passem sem ela” é uma opção do tipo forçosa, pois não deixo margem para uma posição fora dessas alternativas. E o autor estabelece: “Todo dilema baseado numa disjunção lógica completa, sem nenhuma possibilidade de não escolher, é uma opção forçosa”.

3) Prementes (urgentes) ou Triviais: se lhes propusesse participar de uma expedição ao Polo Norte, diz o autor, sua opção será premente (urgente), pois seria uma oportunidade única e sua escolha implicaria na perda dessa experiência, ou, na chance de vivenciar essa aventura: “Aquele que se recusa a abraçar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente como se tivesse tentado e falhado. A opção por uma hipótese é trivial quando a oportunidade não é única, quando o que está em jogo é insignificante, ou quando a decisão é reversível se, posteriormente, se revela equivocada”, afirma James.

Após assentar esses pressupostos sobre uma hipótese (significativa quando viva, forçosa e premente), Willian James passa a considerar a psicologia da opinião humana.

Quando olhamos certos fatos, diz ele, é como se nossa natureza passional e volitiva (de querer, desejar) se encontrasse na raiz de todas as nossas convicções. Já quando olhamos para outros [fatos], parece-nos que eles não poderiam fazer mais nada após o intelecto ter dado seu veredicto.

Mas não parece despropositado, diante disso, indaga o autor, supor que nossas opiniões possam ser modificáveis de acordo com nossa vontade? Pode nossa vontade ajudar ou atrapalhar o intelecto em suas percepções da verdade?

Será que seríamos capazes de, por um profundo desejo ou por uma força de vontade homérica acreditar que estamos realmente bem quando fomos diagnosticados com câncer e estamos sentindo dores insuportáveis?

Podemos até dizer que estamos bem, afirma ele, mas nos é absolutamente impossível acreditar nisso: “e exatamente dessas coisas é constituída toda a tessitura das verdades em que acreditamos (...)”. Do constatável e do imponderável.

O autor então chama a atenção para a célebre passagem conhecida como a aposta de Pascal, quando este, como num jogo de azar, pergunta: “É preciso acreditar ou não acreditar que Deus existe – o que você fará?”. Nossa razão humana não pode dizer, pondera James.

E, no terreno da justificativa lógica prossegue: “Pese quais seriam seus ganhos e suas perdas se você apostasse tudo o que tem na existência de Deus: se você ganhar, o prêmio será a beatitude eterna; se perder, não perderá absolutamente nada (...). Por que não? No fim das contas, o que você tem a perder?”.

Bem, quando a fé religiosa se expressa dessa maneira, diz ele, na linguagem da mesa de jogos, é sinal de que está reduzida a seus últimos trunfos. A fé adotada intencionalmente após tal cálculo mecânico seria desprovida da alma interior da realidade da fé; e, se estivéssemos nós mesmos no lugar da Divindade, provavelmente teríamos um prazer especial em excluir os crentes dessa espécie de sua recompensa infinita, salienta William James.

A menos que haja alguma tendência preexistente a acreditar em Deus, a opção oferecida à vontade por Pascal não é uma opção “viva”, diz.

A discussão quanto a acreditar por nossa própria vontade parece tola e até pior do que tola, vil, diz ele, afirmando que quando nos voltamos para o magnífico edifício das ciências e vemos como foi construído, quantos milhares de vidas morais desinteressadas encontram-se enterradas em suas fundações, que paciência, que sacrifício de preferências, que submissão às leis gélidas do fato externo estão gravados em suas pedras, quão absolutamente impessoal ele se ergue em sua vasta majestade – diante de tudo isso, quão estúpido e desprezível parece cada pequeno sentimentalista que vem pretendendo decidir coisas a partir de seu próprio sonho pessoal.

James, indaga: “Podemos ter alguma dúvida de que aqueles criados na escola árdua e briosa da ciência terão vontade de vomitar tal subjetivismo (...)?”. E revelando o outro lado da mesma moeda, aponta que é assim que, aqueles que pegaram a febre científica passam para o extremo oposto, professando como se o intelecto incorruptivelmente confiável devesse sem nenhuma hesitação preferir amargor e inaceitabilidade ao coração inebriado.

Puro discernimento e lógica, o que quer que possam fazer idealmente, não são as únicas coisas que, de fato, produzem nossos credos. William James diz ser evidente que nossa natureza “não intelectual” influencia nossas convicções e que: “Há tendências passionais e volições que vem antes e outras que vem depois da crença (...)”.

Prosseguiremos esmiuçando como e por que a volição nos encaminha e também legitima a crença até que, com ajuda desse brilhante intelectual, tenhamos iluminado (ao menos de relance) o imbróglio essencial em filosofia, que é a questão de “fides et ratio”. E, a propósito: Boa Páscoa!


Convido os amigos para conferir o vídeo sobre a Villa Tantafera, em Florença, onde comemoraremos o término de nossos Cursos em Roma, previstos para Maio/2014.

Confira Programação dos Cursos na Galleria Borghese (Roma), AQUI.


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ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!


Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br