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1 de set. de 2012

Como distinguir o amigo do bajulador - Plutarco (I)


 “O cúmulo da injustiça é querer passar por justo sem ser.” Platão
 
 
Ao tratar da sutil distinção entre um verdadeiro amigo e um mero oportunista, Plutarco (69-120 d.C.) nos leva a refletir sobre nossas próprias falhas, revelando o quão somos responsáveis por nos cercarmos de bajuladores, expondo-nos a riscos desnecessários.
 
Logo no início da obra, o autor chama a atenção para o fato de que é ao acalentarmos um excesso de amor-próprio – tão salutar quando em boa medida – que não fazemos um julgamento íntegro e imparcial sobre nós mesmos: "o amante é cego a respeito do que ele ama.", diz ele.
 
Superestimando nossos talentos, preparamos o terreno para as ações dos bajuladores. Esse embotamento é propício a que nos acessem: "cada um de nós é o primeiro e o maior adulador de si próprio.". Ansiosos pela confirmação de nossos dotes, regojizamo-nos a toda aprovação.
 
Plutarco ressalta que quem gosta de bajulação está perdidamente enamorado de si. O efeito nocivo disso abarca muito mais do que imaginamos: "supondo-se que a verdade seja divina e seja, segundo Platão, o princípio 'de todos os bens para os deuses e de todos os bens para os homens'", o bajulador é inimigo dos deuses e dos homens, pois nos ilude, tornando-nos cegos no que diz respeito às nossas virtudes e nossos vícios. Sabota o famoso imperativo "Conhece-te a ti mesmo".
 
Ele afirma que assim como os vermes penetram de preferência nas madeiras tenras e odoríferas, são as almas bondosas e generosas – no entanto narcísicas – que acolhem e nutrem a bajulação. E, o bajulador “não acompanha os indigentes, os anônimos ou os desprovidos de recursos (…)", por isso, os mais pobres tanto se orgulham dos amigos sinceros.
 
O sábio alerta que espreitar as ardilosas manobras dos bajuladores para apanhá-los em flagrante e impedi-los de nos prejudicar não é uma questão irrisória, pois com o passar do tempo, esses invejosos caluniadores envenenam e destroem reputação, amores, lares, sonhos, carreiras e outras amizades.
 
Enquanto o amigo quer bem ao amigo, o bajulador quer bem somente a si mesmo e, seduzidos por glória e poder, ocorrendo alguma indesejável alteração na roda da fortuna do bajulado, abandona-o rapidamente.
 
É prudente não esperar passar por reveses para descobrir quem possui um coração sincero e honesto e quem é falso e desonesto: "é preciso pô-lo à prova antes de recorrer a ele (...) não é após ter sido enganado, mas precisamente para não sê-lo, que devemos pôr à prova e desmascarar o bajulador".
 
Nobreza e dignidade caracterizam a verdadeira amizade que, além de somar prazer e encanto aos sucessos, alivia sofrimento, os embaraços das más fases. O amigo é, de fato, condescendente com o agradável e o útil e, é nessa vestimenta emprestada que o bajulador se insinua.
 
Assim como o ouro falso muito se assemelha ao verdadeiro, o bajulador imita a benevolência e a boa vontade do amigo, tenta parecer sempre simpático e divertido, além de evitar se opor às nossas opiniões.
 
Obviamente, não é porque alguém nos louva que devemos desconfiar, "(...), pois o elogio é tão conveniente para a amizade quanto a censura no momento oportuno.". Aliás, será do amigo que virão francas repreensões, que devem ser ouvidas "(...) com confiança e acolhidas com reconhecimento, na convicção de que são necessárias (...).".
 
Amigo sincero nos elogia com prazer, mas nos censura a contragosto. Considerando que, nem o prazer do desfrute do que há em comum, tampouco os elogios são critérios distintivos, é realmente difícil distinguir entre o amigo e o bajulador que exerce seu ofício com mais habilidade e talento, tomando parte em nossas emoções e adotando hábitos semelhantes aos da amizade.
 
Plutarco salienta que a vontade de ajudar, de prestar serviços e, de algum modo tornar-se útil a fim de favorecer a quem se preza, caminha na esteira da amizade: "a ponto de um amigo, diz-se, ser mais indispensável que o fogo e a água.".
 
O bajulador, "entregando-se aos bons ofícios, se dedica sem cessar a ostentar zelo, diligência e prontidão". Astuto camaleão, assim ele procede.
 
Uma amizade é fundamentada na semelhança de costumes, na identidade dos estilos de vida: "a similitude dos gestos e das aversões”. O bajulador sabe disso e se modela a fim de imitar àqueles de quem buscam ganhar confiança.
 
Corroborando a afirmação acima, cita ainda um poema em que diz que, "o velho, por seus discursos, sabe agradar ao velho, e a mulher à mulher, e a criança à criança, o doente ao doente e, quando o indigente encontra seu semelhante, sente menos a sua miséria".
 
O verdadeiro bajulador, diz Plutarco, imiscui-se em nossas atividades, partilha nossos segredos. Em função de sua postura amigável, conjugada com certa gravidade assumida diante de tudo o que é nosso, entregamos de bandeja a oportunidade de se instalar em nosso ego sedento de afeto.
 
Eles estão sempre atentos a transitar por entre afortunados, assediando-os. Desmascará-los exige que estejamos preparados para recusar o útil e agradável de suas palavras e atitudes encantatórias (abrindo mão de falso julgamento sobre nós mesmos) a fim de repelir o mal OU expor-nos a algum dissabor enquanto o pouparmos de um crivo mais lúcido.
 
Cônscio de que a franqueza é a linguagem característica da amizade, o bajulador nos ilude: "(...) afetam uma sinceridade que não é nem espontânea nem salutar (...)", e sabe usar dessa artimanha.
 
Como distinguir aquele que não é nem se tornou nosso semelhante e, entretanto, quer se passar por tal?
 
Primeiro, diz ele, é preciso examinar se seus princípios são duráveis e inabaláveis: "Se sua vida é regrada, e dirigida num mesmo e único plano”, isso requer tempo.
 
A psique do bajulador não tem consistência, pois ele confunde todos os valores morais: "ele leva uma vida apoiada na exigência de um outro e não na sua própria exigência". Com um, jura ser pacato; com outro, diz que adora sair. Isso o leva a, ora fazer-se de íntegro com uns; ora a compactuar injustiças com outros.
 
Embora uma boa autoestima seja algo benéfico, é um descompassado componente 'narcísico' que nos coloca na mira deles, pois não existe bajulador sem o prazer em ser bajulado.
 
Sua inconstância e volubilidade, no entanto, podem ser os indícios reveladores de sua natureza. Para percorrer essa trilha, antes, convém abrirmos mão da tolice que é a confirmação de juízos exacerbados sobre nós mesmos. A isso, um ego pueril sempre reluta.
 
 
PS: Em outubro, prosseguiremos com esse legado de Plutarco (II).



Matrícula: http://esdc-idc.webstorelw.com.br/products/curso-presencial-de-mitologia-greco-romana
 

1 de ago. de 2012

Pigmalião e Galatéia - A idealização do ser amado


"Eu aprendi que ninguém é perfeito, até que você se apaixone por essa pessoa.” Shakespeare.
                         
"As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam". Bernard Shaw.                     
            
                  
Todos os mitos versam sobre algum drama que vivenciamos. Paul Diel afirma que: “Os mitos falam do destino humano sob seu aspecto essencial; destino resultante do funcionamento sadio ou doentio (evolutivo ou involutivo) do psiquismo.”. O que pode haver de salutar ou doentio no anseio pela personificação do ser amado, previamente idealizado?

O poeta romano Ovídio (início da era cristã), em sua obra “Metamorfoses”, relata-nos o mito de Pigmalião, um habilidoso escultor que, chocado com tanta leviandade e abominando o comportamento despudorado das mulheres, decide viver solteiro.

Para se distrair, esculpe então a estátua de uma donzela incomparavelmente bela. Primoroso e requintado em todos os detalhes, uma vez concluída, ele se apaixona perdidamente por sua obra, que passa a chamar de Galatéia.

Iludido com a materialização de tamanha perfeição – “era como se estivesse viva e somente o recato impedisse de mover-se” –, ele a enfeita, abraça, beija, faz elogios e lhe mima com inúmeros presentes tais como joias, flores e elegantes vestes.

Esperançoso, no festival de Vênus (Afrodite), celebrado em Chipre, Pigmalião implora à deusa por uma bela e virtuosa companheira: “Se vocês podem nos dar tudo, todas as coisas, ó deuses, rezo para que minha mulher possa ser como minha menina de marfim.”.

Comovida,  a deusa do amor e da beleza, fazendo a chama do altar se erguer três vezes, dá indícios de que atenderá a seu pedido. Mas não encontrando na terra nenhuma mortal que atingisse a perfeição de beleza física de tão amada escultura, decide dar vida à pedra.

Ao regressar à sua casa, Pigmalião deita-se ao lado de Galatéia, a quem chama de adorada esposa e, ao beijá-la, sente-a corar, percebe que “as veias pulsam sob seus dedos”. Atônito e extremamente agradecido, Pigmalião une-se à sua Galatéia e gera uma bela menina chamada Pafos.

Guiado pelo mito, o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw (1856-1950), escreve a peça intitulada “Pigmaleão” (comédia satírica) – que inspirou o musical “My Fair Lady” e os filmes (comédias românticas) de mesmo título, inclusive o de 1964, com a adorável Audrey Hepburn. Nos filmes, firmando aposta com um amigo, o professor Higgins decide transformar uma humilde florista ambulante numa refinada dama da sociedade.

Atingido seu intento, apaixona-se pela ‘obra’ que criou, mas tem seu amor recusado pela moça. Empenhando-se, no entanto, o professor acaba por conquistá-la.

Explorando o mito, nos fins dos anos sessenta, os psicólogos americanos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson mostram que acalentar alguma idealização pode se revelar profícuo numa relação. Focando na relação professor/alunos, eles se dedicaram à análise do quanto o otimismo de nutrir boas expectativas pode se revelar benéfico.

Nossa expectativa, nossa percepção, quer seja de pessoas, quer seja da realidade tem efeito sobre as pessoas que conhecemos, convivemos, sobre a própria realidade e também na maneira como nos relacionamos.

Segundo a teoria que denominaram “Efeito Pigmalião” (ou efeito Rosenthal), ao confiar previamente no benéfico, o benéfico se presentifica. Se partirmos do pressuposto de que alguém ou alguma situação é favorável (bondosa, cortês, virtuosa), consequentemente estaremos contribuindo para que essas características se presentifiquem.

Para o estudioso Douglas McGregor: “quem tem expectativas ruins sobre os outros, não acredita neles ou não vê suas qualidades, costuma colher o pior dessas pessoas; já quem tem expectativas positivas, tende a obter o melhor de cada uma delas.”.

Se decidirmos antecipadamente que alguém é vulgar, idiota ou inimigo, por exemplo, estaremos ‘dando o tom’ e o que surgir alinhar-se-á mais facilmente a essa expectativa.

No afã da realização de um ideal de parceria, esquadrinhamos em nossa psique as características desejáveis (sobretudo no cônjuge) e, meio que cegos ao direito à individualidade, nos esquecemos de que as pessoas têm personalidade própria e que é improvável que alguém venha a atender inteiramente aos nossos anseios.

Embora essa esperança de correspondência abarque a todos àqueles que nos cercam – em maior ou menor grau, idealizamos os pais, irmãos e até mesmo os amigos –, será ao projetar nossos ‘ideais’ no parceiro e nos filhos que mais poderemos nos sentir desapontados. Prevenidos com uma consciência mais realista em relação à diversidade, às fraquezas humanas, enfim, munidos de certa sensatez, amenizaríamos algumas desilusões.

No caso de Pigmalião – talentoso artista –, seu desejo foi plenamente atendido. Para nós, demais mortais, uma pretensão exagerada pode culminar – em maior ou menor grau – n’alguma frustração. Insistir em ‘tirar leite de pedra’, então, pode até terminar em tragédia, como exibem os noticiários.

Constatamos que, no mito, graças à crença no poder de uma divindade, Pigmalião teve a benção de ver se materializar o ideal de perfeição que ansiava encontrar numa esposa. O professor de “My Fair Lady” pelos seus esforços, pôde – além de fazer emergir na humilde mocinha, a distinta dama que a habitava –, aflorar nela o amor que sonhava. E o “Efeito Pigmalião” também pode contribuir nesse sentido.

Obviamente, nada garante que nossas expectativas serão plenamente realizadas, sobretudo quando elevamos padrões e almejamos nada menos que a 'perfeição' (e isso quando nem mesmo nós somos assim, 'perfeitos'). Mas, no caminho que leva à concretização desse ideal, é salutar que, ao invés de pedras nas mãos, tenhamos flores.






















1 de jun. de 2012

MEDEIA e a Tragédia da Alienação Parental


Medeia é a famosa personagem da tragédia grega que, abandonada, assassina os próprios filhos a fim de se vingar do marido.

Alienação parental também é uma dissimulada forma de ‘assassínio’: independente da idade cronológica, inocentes são consciente ou inconscientemente ‘sacrificados’ como forma de retaliação a um ultraje que se acredita ter sofrido.

Nesse peculiar modo de destruição, preserva-se o corpo (soma) enquanto velada e sorrateiramente, aniquila-se a alma (psyché). E são muitos os que, embora vivos, se sentem mortos.

Como pode o amor avizinhar-se de tamanha fúria, transmutando o que outrora era doce, no mais amargo fel?

Antigas e ao mesmo tempo atuais, tragédias são atemporais. Será sobre as potestades que presidem ‘medéicos’casos de alienação parental, que versaremos.


Na comovente peça, escrita em 341 a.C. pelo premiado tragediógrafo grego Eurípides (Salamina, 480 – Macedônia, 406 a.C.), Medeia é a nobre (filha do rei Eétes) que se apaixona por Jasão e se empenha ferrenhamente para que ele reconquiste a elevada posição social que almeja.


Após auxiliá-lo, casar-se e gerar um casal de filhos, a estrangeira se vê traída, pois fora preterida em favor de uma nova aliança, dessa vez com a filha de Creonte. Narro o drama nesse link: http://www.esdc.com.br/audio/02.mp3


A tragédia, ao fazer emergir o embate entre o ‘pré-direito’ x ‘direito’, como diz Rachel Gazolla, no Capítulo intitulado "Para não ler ingenuamente uma tragédia grega", de sua obra “Pensar mítico e filosófico” (Edições Loyola), trata da dramatização de antigos – e até então, intocáveis valores, que alicerçavam famílias e fratrias – diante dos novos (e constantemente retocados) rumos que a pólis do discurso prenuncia.

E, na cidade, em caótica ebulição, alimentando o conteúdo desses episódios: uniões com estrangeiros, novos contratos sobrepujando os antigos, direitos antigos versus novas leis, que a retórica faz eclodir e, claro, o dramático modo pelo qual essas inescrutáveis e invisíveis instâncias – titânicas (ctônicas) ou olímpicas – se fazem notar.

Entrelaçando retórica e política à poética, as tragédias (trágos = bode + aoidé = canto) – consideradas por Aristóteles educativas por excelência, pois formadoras do espírito – remontam aos rituais que explicitam sagrados interditos e tensões que afloram quando se menospreza o peso do sagrado.


Nos primórdios “do uso de uma linguagem técnico-jurídica”, a tragédia inculca penalidades por profanação de valores, como o são o cosmos e as leis antigas (como em Antígona: http://lucienefelix.blogspot.com.br/2008/01/embate-entre-lei-divina-thmis-e-lei-dos.html ) que, quando infringidos, são tratados no sacro tribunal do Areópago, que vigia e responde pelos crimes mais graves, a saber, os de sangue.

Mas a tragédia, ritual político-religioso que visa ensinar aos novos cidadãos os antigos paradigmas aristocráticos do bem agir, aos poucos, vai se laicizando: de Sófocles a Eurípides, na Atenas de Péricles, os gregos já contam com tribunais e uma assembleia (laica e isonômica) para a discussão de grandes delitos ou corriqueiras desavenças.

Graças à logógrafos como Lísias, Górgias e Protágoras, muitas peças contendo acusações, defesas e sentenças são organizadas e devidamente arquivadas para consulta e/ou modelo: o lógos bem concatenado persuade e a retórica ameniza a penalidade ou, até mesmo, liberta criminosos.

A instância que hoje denominamos de ‘jurídico’ já está presente no modo da poesia dialógica encenada da aconselhadora tragédia. A kátharsis (purificação) não redime, mas expondo, alertando e punindo o réu diante do público, ensina.



Numa época em que cada vez mais e com maior frequência, grandes impasses entre o mundo ‘invisível’ (leis de Antígona) e o mundo ‘visível’ (leis de Creonte) começam a ser decidido na oralidade (via persuasão) o trágico emerge como reduto onde o ‘invisível’ de uma ‘instância inefável’ se manifesta sequestrando o juízo de quem a subestima.


São inúmeras as leituras e os ensinamentos a serem extraídos dos mitos e das tragédias: a vingança impetrada pelo cônjuge traído e/ou abandonado, como Medeia, é um ‘clássico’ e, por isso mesmo, atualíssimo, vide as alienações parentais.


Se o encerramento de contratos antigos fosse lúcida e pacificamente aceito... Mas como diz o amigo Kleber Sernik, “o ‘SE’ num joga”, então, perscrutemos as potências que, em fúria cega, desencadeiam o ódio.


Curiosamente, filhas do mesmo pai e nascidas no mesmo instante, gêmeas opostas, ‘estrelas’ de grandes tragédias são elas: Afrodite e as Erínias (Moiras, as Fúrias), intensas dýnamis (potência), presentes no cerne de toda polemós.

Em sua origem mítica, Afrodite, a arrebatadora deusa do amor e da atraente beleza, detentora do poder que promove a união, nasce do esperma dos órgãos genitais de Ouranós (o Céu), ceifado por Chronos (o Tempo).

Concomitantemente, do sangue vertido por tal violenta foice, surgem atentas Erínias, que governam a sinistra fatalidade do Destino, o lote de cada um nessa vida; instâncias cruéis, sob cujos domínios, nem mesmo os deuses escapam.

Uniões ilícitas (como a do inocente Édipo), amores desprezados ou ultrajados, desencadeiam guerras, vinganças, retaliações. Sabemos que o rapto de uma mulher casada, sela o fim de uma antiquíssima e rica dinastia e que a predileção de Hipólito por uma austera e casta divindade (Ártemis) em detrimento de outra (Afrodite) culmina na morte do jovem.


Expoente mor de alienação parental, pois portadora de uma terrível hamartía (marca da falta, erro), Medeia anseia pela desforra contra Jasão e, nisso, seu comportamento assemelha-se ao daqueles que militam denegrindo o ex-cônjuge. Sim, ela os mata. E afirma retirar ‘forças’ para empreender tão nefasta façanha, imaginando o martírio do ‘ex’.


Envoltos pela atér (cegueira que leva ao desvario, à ação desvairada e por fim à ruína), ressentidos, mas cônscios de que essas dissimuladas atitudes realmente afetam àqueles por quem miseravelmente nutrem aversão, alienadores parentais (independente de raça, credo, condição econômica ou grau de instrução), quando tomados por um mau daímon (a presidir furor, maldição e vingança) ignoram os incomensuráveis e muitas vezes irreversíveis danos psíquicos naquelas Almas que dizem (e até acreditam!) zelar.


Ao arregimentar os frutos do que outrora fora amor, alienadores parentais desferem-lhes sutis – mas certeiros – golpes psíquicos. Afastando-os gradativamente, física e/ou afetivamente, atingem não somente o progenitor desmoralizado, mas também negam aos próprios filhos o direito à plena eudaimonia (felicidade).

Oriundo do período arcaico, o ‘bode expiatório’ ressoa: “Recusar o sagrado não basta para retirá-los de nós”, afirma Rachel Gazolla. É no inocente – caprichosa exigência do trágico – que recai a expurgação. Sobre esses, o míasma (tenebroso que cai sobre uma família e seus descendentes).


Saibamos ler os sinais dos deuses, ponderando. A própria filosofia, “Herdeira da tragédia, saberá demonstrar que os limites da autonomia da ação não são fáceis de reconhecer, e que a reflexão para o bom agir deve ser um objetivo do homem comum.”, aponta a estudiosa.

Ampliar categorias mentais que incluam o simbolismo sagrado presente nos interditos explicitados nas tragédias – “Qual homem que não tendo qualquer autoridade a temer, se comporta com Justiça?”, indaga Platão –, nos permite reconhecer, considerar o “invisível” e respeitá-lo. Se não por legítimo amor à prole, por mera questão de bom senso mesmo.

Reconhecimento, consideração e respeito não como uma ameaça à decisão de romper um ‘contrato’ de união, pois não há mesmo como garantir o desejo de querer estar junto por toda a vida, mas como alerta à covardia que é envolver os próprios filhos numa doentia vingança pessoal, abusando de suas fragilidades, tornando-os joguete do ego ao, “medeicamente”, recrutá-los como trunfo. 


Elucidativa palestra proferida no Colégio Sion, pelo Prof. Flavio de Leão Bastos sobre Alienação Parental:

















Trechos de "MEDEA", de Pasolini - Com Maria Callas:


Todos os demais vídeos com a Diva, Maria Callas, encontram-se disponíveis no youtube.


Referências Bibliográficas:

Medeia - Hipólito - As Troianas - Eurípides. Trad. Mário da Gama Kury. Jorge Zahar Editor (6ª edição) Rio de Janeiro, RJ (2003).

Minicurso: Tragédia Grega - Sobre a Retórica e o Jurídico - Ministrado pela Profª Drª Rachel Gazolla durante o XIX Simpósio Interdisciplinar de Estudos Greco-romanos - Tema: Dialética e Retórica - na PUC-SP, de 14 a 17 de Maio de 2012.

Pensar Mítico e Filosófico - Estudos sobre a Grécia Antiga (Para não ler ingenuamente uma tragédia grega), Rachel Gazolla. Edições Loyola. São Paulo, SP (2011).



Dedico ao meu Amor, Marcelo Lamy, que a despeito de continuar ou não sendo o bom marido que é, sempre será o melhor pai que nossos filhos poderiam ter.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br