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1 de mai. de 2011

KANT e uma Filosofia da História - Para onde caminha a humanidade?



"Quem não pensa e age para melhorar o mundo será atropelado pela História." jornalista Eliane Brum

Pensando sobre o homem em sociedade (antropologia política), Immanuel Kant publica “Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita” (1784), obra considerada pedra angular para a Filosofia da História.

Intrigado, o filósofo de Könisgberg intenta elucidar o que fomenta, de que forma e qual seria o télos (propósito, finalidade) da evolução da raça humana.

Sabemos que a natureza, da qual fazemos parte, nos impõe suas inegociáveis leis. Assim, das estações e das órbitas planetárias, da geração, crescimento, desejo de união, maturidade, decrepitude e morte, como os demais animais, também somos reféns.

Constatamos que a natureza detém um éthos (hábito, conduta, habitat) específico e que este éthos obedece a uma doutrina teleológica própria. E no homem, excetuando-se suas pulsões instintivas, enquanto ser racional a construir seu próprio éthos, há algum propósito oculto? Kant afirma que sim e que as ações do homem em sociedade registradas pela História revela esse propósito.

Sofisticadamente distintos dos animais, pois dotados da centelha que nos torna imortais enquanto gênero (ação racional), avançamos, legando conhecimentos: do afã de saciar a fome a gastrônomos; da necessidade de protegermo-nos, vestindo, criamos moda, do anseio por prazer, aprovação e conforto, desenvolvemos técnicas.

De fato, através de gerações e gerações, nosso cérebro é constantemente aperfeiçoado. Se nossa prole, ainda na mais tenra idade, identifica a água como sendo “H2O” e é capaz de compreender que, quando filtrada está livre de bactérias (mesmo que façam somente uma vaga ideia do que sejam bactérias), isso se deve a toda uma geração que a antecede.

Curiosamente, a História evidencia que muitos de nossos propósitos particulares coincidem com o da natureza.


Um exemplo é a união estável entre as pessoas: “a livre vontade dos homens tem tanta influência sobre os casamentos, os nascimentos que daí advém e a morte, eles não parecem estar submetidos a nenhuma regra (...). E, no entanto, (...) eles acontecem de acordo com leis naturais constantes (...)”.

Nossas atitudes manifestam nossa vontade livre, e esta ‘vontade livre’, embora imaginemos ser aleatória, é determinada por leis naturais universais. Não enxergamos isso observando a atitude de cada indivíduo em si (árvore), mas ao vislumbrarmos a sociedade (floresta) como um todo.

Essas “leis” são reveladas pela história que, por registrar, narrando insensatez e façanhas é capaz de descobrir e por em relevo – não àquilo que fazemos enquanto indivíduos – mas, àquilo que manifestamos enquanto seres políticos, sociais.

Em nossa conduta trazemos a marca da dualidade (animal + racional): nem procedemos somente por instinto, como os animais, “nem tampouco como razoáveis cidadãos do mundo”.

Construímos nossos éthos – não de forma linear – mas de modo inconstante, lento e penoso, num jogo de avanços e retrocessos. O que a ratio retém como comprovadamente bom ou útil à espécie, permanece, já o que ofende ultrajando a racionalidade, vai sendo, aos poucos, preterido até ser completamente excluído de nosso modus vivendi: “o fim último da espécie humana é alcançar a mais perfeita constituição política”, diz Kant.

São tantas as nossas incoerências que não há como pressupor propósito racional no homem individual, mas somente investigar e identificar uma finalidade na natureza racional humana, tomando suas ações como um fio de Ariadne para vislumbrar esse propósito. Cabe à história então, tomando um determinado plano e escopo da natureza como condutor, revelar os erros e os acertos de “criaturas que procedem sem um plano próprio”, como diz.

E qual é o dispositivo que desencadeia este propósito oculto nas “leis” da natureza, leis estas às quais (enquanto sociedade), em nosso desenvolvimento, realizamos mesmo que não estejamos cônscios?

Antagonismo. E explica: “Eu entendo aqui por antagonismo a insociável sociabilidade dos homens, ou seja, sua tendência a entrar em sociedade que está ligada a uma oposição geral que ameaça constantemente dissolver essa sociedade”.

Existir é existir com. E ponto com. O homem tem mesmo uma predisposição a associar-se e assim pode desenvolver melhor sua “humanidade”. Mas Kant ressalta que “ele também tem uma forte tendência a separar-se (isolar-se) porque encontra em si ao mesmo tempo uma qualidade insociável que o leva a querer conduzir tudo simplesmente em seu proveito, esperando oposição de todos os lados, do mesmo modo que sabe que está inclinado a, de sua parte, fazer oposição aos outros”.

Este componente intrínseco – luta de contrários, diria Heráclito –, ao qual Kant dá o nome de “oposição” é o que desafia e move o homem a sair da letargia, a superar sua tendência à preguiça, como ele mesmo diz, e partir para a conquista de seus objetivos, sempre movido pela busca de projeção, pela ânsia de dominação ou cobiça.

Tudo isso para (espantemo-nos, mas nem tanto) destacar-se entre os pares, para proporcionar a si próprio “uma posição entre companheiros que ele não atura, mas dos quais não pode prescindir”. É dessa forma que somos levados da rudeza à cultura, diz o autor da “Crítica da razão pura” e da “Metafísica dos costumes”. Nisto consiste propriamente o valor social do homem.

Do anseio por esta posição de destaque, virão os talentos, o bom gosto, o refinamento e, num “progressivo iluminar-se (Aufklärung), a fundação de um modo de pensar que pode transformar, com o tempo, as toscas disposições naturais para o discernimento moral [eis a razão exercendo seu mister] em princípios práticos determinados e assim finalmente transformar um acordo extorquido ‘patologicamente’ para uma sociedade em um todo moral”.

Topós do livre-arbítrio, este seria o modo de preencher o vazio da criação em vista de nosso propósito enquanto natureza racional. Queremos viver prazerosamente com toda comodidade, mas a natureza exige que nos lancemos ao trabalho até a fadiga para que, usando a inteligência, nos livremos desses últimos: “Agradeçamos, pois, à natureza a intratabilidade, a vaidade que produz a inveja competitiva, pelo sempre insatisfeito desejo de ter e também de dominar! Sem eles todas as excelentes disposições naturais da humanidade permaneceriam sem desenvolvimento, num sono eterno”.

Heraclitiano, embora reconheça que o homem quer a concórdia, Kant afirma que a natureza sabe mais o que é melhor para a espécie, ela quer a discórdia: “Os impulsos naturais que conduzem a isto, as fontes da insociabilidade e da oposição geral, de que advêm tantos males, mas que também impelem a uma tensão renovada das forças e a um maior desenvolvimento das disposições naturais, revelam também a disposição de um criador sábio, e não a mão de um espírito maligno que se tenha intrometido na magnífica obra do Criador ou a estragado por inveja”.

Resgatada a perfeita grandeza do Demiurgo, temos, aqui na terra, a natureza a nos exigir solução para o problema que Kant aponta como sendo o maior para a espécie humana: “alcançar uma sociedade civil que administre universalmente o direito”.

Embora a natureza pareça cega, não o é em seus caprichos com sua mais perfeita criação: a razão humana. Financialismo, Fukushima, Realengo, ditadores, corrupção, tráfico de armas, de órfãos haitianos para pedófilos, contra toda avalanche de miséria refugiada em anonimato e conluio, ergue-se a disposição racional – o éthos humano – que ruma, vagaroso e cambaleante, em direção a um mundo mais digno. Para nossos descendentes.

Dedicado à bela admiradora de Kant, Profª Drª Maria Garcia.


"... Volta os olhos para a Luz da Aurora!
Afasta para longe o véu do sono!
Não tenhas medo de um gesto atrevido,
Enquanto o vulgo hesita e se extravia!
Tudo conseguem os nobres espíritos
Que sabem compreender e decidir."

GOETHE, "Fausto" parte II, 1º Ato

1 de abr. de 2011

PARRESÍA - A Coragem de dizer a Verdade


“A coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras”. Aristóteles

‎"No dia 5 de junho, um jovem solitário e desarmado invade a Praça da Paz Celestial e anonimamente faz parar uma fileira de tanques de guerra. O fotógrafo Jeff Widener, da Associated Press, registrou o momento e a imagem ganhou os principais jornais do mundo. O rapaz, que ficou conhecido como "o rebelde desconhecido" ou "o homem dos tanques" foi eleito pela revista TIME como um das pessoas mais influentes do séc. XX. Sua identidade e seu paradeiro são desconhecidos até hoje".

Não são raras as ocasiões em que preferimos nos abster de dizer a verdade. Também não são infundadas as razões pelas quais optamos por proceder assim. De fato, se ousarmos manifestar o que pensamos, tornaremo-nos, no mínimo, indesejáveis e, se considerarmos que uma das excelências humanas está justamente na capacidade de convívio, no cultivo de aprazíveis relações, nada mais coerente.

Parresía é o termo em grego para designar a coragem de se dizer a verdade, expor tudo, de se falar com franqueza. O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), em sua obra “O governo de si e dos outros”, tratará desta antiqüíssima noção e seu uso político desde os primórdios da politéia (constituição) e da democracia na Grécia.

A palavra certa, proferida no momento adequado (kairós – tempo oportuno) pode denunciar injustiças, impor lucidez e também ferir. Metralhadora ou flecha certeira, dispará-las pode aniquilar moralmente um (a) poderoso (a). Eis a parresía.

Estar convicto é fundamental. Se tratar-se de mero atrevimento, levianamente irresponsável, o dano pode ser irreversível, sobretudo se houver platéia. Mesmo que se tente remediar, a ardilosidade de se ofender em público e se retratar em particular é expediente inaceitável.

A parresía é uma virtude e seu emprego pode se dar tanto na esfera pública quanto na privada. Algumas características lhe são peculiares: uma delas é a de que o destemido que confrontar o poder com a verdade esteja em condição subalterna a seu interlocutor. Não há parresía quando um pai repreende um filho, um professor contesta seu aluno ou o patrão adverte o funcionário.

Embora seja delicado sermos parrésicos na vida privada, pois há de se ter muita intimidade e confiança para que, sem magoar, sejamos autênticos, quando a verdade é proferida sem malícia, não se guarda rancores. Por isso, para nosso próprio bem, num verdadeiro amigo a parresía deve ser incentivada.

No entanto, mesmo que estejamos cônscios de que evitar o confronto, abstendo-se de uma corajosa franqueza implica numa fatura onde se discrimina hipocrisia, falsidade, fingimento e mentira, sobretudo no âmbito das relações familiares e de amizade, quem teria coragem de dizer assim, na lata, que o filho é um ingrato? Que, inconvenientes, os progenitores do cônjuge são insuportáveis? Que o cunhado é um inútil e a cunhada, a hypokrisía em pessoa? Você diria que, após a blefaroplastia*, sua amiga a faz lembrar Sartre?

Ser parresiasta (parrésico ou Parresiázesthai) não é ser irônico, crítico, persuadir ou desafiar proferindo ofensas e insultos gratuitos. Isso é mera opinião (dóxa), não necessariamente uma opinião verdadeira (dóxa alethés). E, salvo raras exceções – desde que a recusa não se dê por covardia ou tibieza –, tanta franqueza é até dispensável.

Na vida privada em desavença, território propício ao império de “futrica de comadres”, as conseqüências de dizer a verdade podem ser relativamente mensuráveis e, dependendo do caso, mesmo que desconfortável, o máximo que pode acontecer é o rompimento de relações comprovadamente desarmoniosas e inautênticas, algo capaz de revelar-se até benéfico à saúde psíquica.

Mais que uma recusa à mentira, à bajulação, peculiar na parresía é haver um alto preço a ser pago. Por isso, será no âmbito da vida profissional e cívica que optar por dizer a verdade pode acarretar implicações gravíssimas, de alcance imprevisível e inimaginável: retaliações, demissões, exílio e até mesmo a morte.

É no dizer público que a parresía é mais parresía. Foucault afirma que “as diferentes maneiras de dizer a verdade podem aparecer como formas” e analisa quatro delas: estratégia de demonstração, de persuasão, de ensino e de discussão.

Embora possa utilizar elementos de demonstração, a parresía não é uma maneira de demonstrar: “não é a demonstração nem a estrutura racional do discurso que vão definir a parresía”.

Quanto à retórica, diz ele: “a parresía como técnica, como procedimento, como maneira de dizer as coisas, pode e muitas vezes deve efetivamente utilizar os recursos da retórica (...) a parresía se define fundamentalmente, essencialmente e primeiramente como o dizer-a-verdade, enquanto a retórica é uma maneira, uma arte ou uma técnica de dispor os elementos do discurso a fim de persuadir.” Sem dúvida, a retórica não se ocupa com o fato do discurso ser ou não verdadeiro e isso é essencial à parresía.

Sobre ser uma maneira de ensinar, uma pedagogia, Foucault também refuta dizendo haver: “(...) toda uma brutalidade, toda uma violência, todo um lado abrupto da parresía, totalmente diferente do que pode ser um procedimento pedagógico. O parresiasta, aquele que diz a verdade dessa forma, pois bem, ele lança a verdade na cara daquele com quem dialoga ou a quem se dirige (...)”.

E complementa dizendo que “(...) quem diz a verdade lança a verdade na cara desse interlocutor de maneira tão cortante e tão definitiva, que o outro em frente não pode fazer mais que calar-se, ou sufocar de furor (...)”.

Seria a parresía uma maneira de discutir? Pertenceria à Erística? Éris é a deusa da discórdia (disputa, querela) e esse termo compreende “uma arte da controvérsia e do debate, desenvolvido principalmente pela Escola de Mégara (séc. V-IV)”. Não. O parresiasta não tem por télos (finalidade) discutir, mas dizer: “Há, de um lado, um dos interlocutores que diz a verdade, e que se preocupa, no fundo, com dizer a verdade o mais depressa, o mais alto, o mais claro possível; e depois, em face, o outro que não responde, ou que responde por outra coisa que não são discursos”.

Michel Foucault afirma que a parresía é uma certa maneira de se dizer a verdade, mas que esta maneira não pertence à erística (arte de discutir), nem à pedagogia (arte de ensinar), nem à retórica (arte da persuasão) nem tampouco a uma arte da demonstração: “Não a encontramos no que poderíamos chamar de estratégias discursivas”.

Pode-se servir da parresía para emitir lições, aforismos, réplicas, opiniões, juízos etc., mas o que mais a caracteriza, onde há verdadeiramente parresía, é quando não se fica impune ao pronunciá-la.

Ele diz crer que, se quisermos analisar a parresía, não devemos nos ater ao “lado da estrutura interna do discurso, nem do lado da finalidade que o discurso verdadeiro procura atingir o interlocutor, mas do lado do locutor, ou antes, do lado do risco que o dizer-a-verdade abre para o próprio interlocutor”.

Arriscado, proferir a verdade é encontrar a fúria: “é abrir para quem diz a verdade um certo espaço de risco, é abrir um perigo em que a própria existência do locutor vai estar em jogo.” De fato, é se expor pelo que o Homem mais preza: liberdade. Corajosos, Parresiázesthai estão dispostos a morrer por ela.

(*) Blefaroplastia – cirurgia plástica de pálpebras.
 
---*---
 
Exemplo recente de PARRESÍA: 

  Alexandre Schwartsman
O diálogo abaixo certamente contribuiu para torná-lo ex-Economista-Chefe do Banco Santander.

"Em palestra no seminário Cenários da Economia Brasileira e Mundial em 2011, o economista-chefe do Santander Brasil e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, chamou de “contabilidade criativa” a cessão onerosa de 5 bilhões de barris da União para a Petrobrás.
 
Ao ter a palavra no evento, o presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, defendeu o processo e disse que Schwartsman tinha chamado “indiretamente” o processo de contabilidade criativa.
 
- Não foi indireto não – retrucou Schwartsman, que ainda estava na mesa principal do evento, promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com o Valor.
 
- Porque é verdade – acrescentou Schwartsman.
 
Gabrielli voltou a responder ao economista, lembrando que a Petrobras recebeu R$ 132 bilhões pela capitalização e pagou R$ 74 bilhões pelos 5 bilhões de barris.
 
- Se isso não é caixa, eu não sei o que é caixa – questionou o executivo.
 
- Caixa é dinheiro, não é promessa – voltou a responder Schwartsman.
 
Irritado, Gabrielli voltou a questionar o economista do Santander.
 
- Não é promessa nenhuma. São fatos. Ele comprou ações por um determinado valor e recebeu dinheiro de outro – afirmou.
 
- Cadê o dinheiro? -, voltou a perguntar Schwartsman.
 
- Tá no Tesouro – afirmou Gabrielli.
 
-Só na cabeça dos contadores do Tesouro – encerrou o economista, recebendo os aplausos de parte da platéia.
 
Em sua apresentação, Schwartsman tinha criticado a política fiscal expansiva do governo e afirmado que “entra qualquer coisa” no cálculo do superávit primário e que “houve criatividade contábil” para fechar as contas.
 
O economista do Santander comentou ainda que o baixo nível de poupança do país não se deve ao elevado consumo das famílias, mas sim do governo. Ele disse não acreditar que vá ocorrer “tão cedo” uma redução dos gastos do governo.
 
- Esperaria por isso sentado e em uma posição bem confortável.
 
Na sua avaliação, o superávit primário foi, na realidade, de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos dos bens e serviços produzidos no país). Cálculos de outros economistas renomados sugerem, citou Schwartsman, algo entre 0,5% e 1%.
 
O ex-diretor do BC disse que o corte de R$ 50 bilhões anunciado pelo governo deveria ter sido maior, entre R$ 85 bilhões e R$ 100 bilhões.
 
Segundo os dados oficiais do governo, o país fez uma economia de R$ 101,696 bilhões, ou 2,78% do PIB em 2010. Como a meta era chegar a no mínimo 3,1% do PIB, o governo teve de descontar parte dos investimentos feitos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – R$ 11,7 bilhões (0,32% do PIB) – para fazer a conta fechar, como aconteceu em 2009. Nessa conta, entrou uma receita extra de R$ 32 bilhões da capitalização da Petrobras.
 
Schwartsman saiu do seminário antes do seu encerramento e com isso não chegou a falar novamente com Gabrielli depois da troca de farpas."


Quando uma imagem vale mais que mil palavras:

1 de mar. de 2011

A AMIZADE - em Aristóteles e em tempos de Internet

Daniel Silva Bernardes e Sofia Felix Lamy – Foto: Luciene Felix - 2007

“Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.” Pitágoras
"Todas as grandezas desse mundo não valem um bom amigo". Voltaire.
"Os maus só têm cúmplices; os libertinos têm sócios de devastidão; o comum dos homens ociosos têm relações. Os homens virtuosos têm amigos." Voltaire
 
Tão antigo quanto o homem, o sentimento de amizade é uma das experiências mais nobilitantes, gratificantes e prazerosas que podemos desfrutar. Embora, ao longo da vida, amealhemos muitos amigos (de infância, faculdade, de balada, no trabalho, de condomínio, na academia, no jogo, na web etc.), uma amizade sincera e verdadeira, assim como o Amor, requer confiança, intimidade e constância que não coaduna com quantidade.

Se antes, diante da lembrança de um amigo, podíamos precisar até a gradação de importância em nossas vidas (foi excepcional ou razoavelmente meu amigo em tal época), nos atuais tempos virtuais (sites, blogs, redes sociais, sms, etc.) o conceito de amizade revela-se amplamente dilatado. Mas...

O que é um amigo? Como se inicia uma amizade? O que buscamos e o que as amizades nos proporcionam? O que é necessário à manutenção da amizade? Com quantos amigos fiéis podemos contar [e igualmente, podem contar conosco]? O que possibilita a amizade entre pessoas aparentemente desiguais [em poder, riqueza ou erudição]? Quando convém romper uma amizade?

Nos Livros VIII e IX de “Ética a Nicômacos”, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) se deteve a essas questões. A amizade, diz o estagirita, além de ser um sentimento extremamente necessário à vida é também uma forma de excelência moral.

De fato, ninguém deseja viver sem amigos e os ricos, importantes e poderosos são os que mais precisam: “(...) de que serve a prosperidade sem a oportunidade de fazer benefícios (...) aos amigos?”.

Ele afirma que uma disposição amistosa é a mais autêntica forma de justiça, chamando a atenção para o fato de que “quando as pessoas são amigas não tem necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade”. De fato, quantos litígios não seriam evitados: havendo amizade, não haveria alienação parental, por exemplo.

Um espelho que ajuda a tornarmo-nos melhores: “Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolver em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos.” dizia Sócrates.

Dentre as dádivas de se ter amigos, Aristóteles cita a proteção na pobreza e noutros infortúnios, no quanto orienta os jovens a evitar os erros e ampara aos idosos, ressaltando que com amigos bons, pensamos e agimos melhor.

Amigo é semelhante, outro “eu” e uma amizade tem início com a manifestação de uma boa intenção natural diante de pessoas que nunca vimos, mas que julgamos boas ou prestativas. Havendo reciprocidade, estarão estabelecidos os pressupostos de uma amizade.

Ele argumenta que somente a amizade segundo a virtude é perfeita e que, por não existir somente um único tipo de amizade, pessoas más também podem ser “amigas” (apropriadamente, entre aspas). De outras pessoas más, de pessoas boas e até mesmo daquelas que não são nem uma coisa nem outra.

O “Pai da lógica” explica que dentre as coisas que merecem ser amadas estão “o que é bom, ou agradável, ou útil”.

Analogamente, afirma que uma afeição recíproca pode basear-se numa ou todas essas três qualidades: amor, prazer e interesse. Sendo assim, as pessoas amam o que parece bom, agradável ou, no caso do mero interesse, o útil.

Assim como um Amor, puro, sincero e verdadeiro, pode ter início por simples prazer e evoluir para uma plenitude mais intensa e profunda, o sentimento de amizade também pode começar de um jeito e evoluir para outro. Sentimentos se alteraram ao longo da convivência.

Útil é aquilo do que resulta n’algum bem ou prazer e, embora somente o bom e o agradável mereçam ser amados como fins [em si mesmo], são devido ao “útil” e ao “prazeroso” que nosso círculo de amizades se torna cada vez maior (a web promove essa elástica expansividade).

Denominamos “amigos” meros conhecidos, amigos de amigos e até simpáticos desconhecidos que interagem conosco na Internet. Com todo o demos (povo) conectado, nada mais democrático!

Nas amizades por prazer, não é pelo bom caráter que gostamos das pessoas espirituosas – sequer as conhecemos tanto – mas porque são afáveis, acolhedoras, aprazíveis: “as pessoas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que amam, mas porque ela é útil ou agradável.”

O certo é que hoje fazemos amizades num clique. Mas amizades desse tipo são apenas “acidentais”: “um desejo de amizade pode manifestar-se instantaneamente, mas a amizade não pode”, diz o estagirita.

Tais ‘amizades’ se desfazem facilmente, pois se as pessoas não permanecem o tempo todo como no início (úteis para os interesseiros ou agradáveis para os que buscam prazer), a amizade arrefece, esfria e por fim, acaba porque a utilidade não é uma qualidade permanente. Como dissemos acima, prazeres e interesses mudam.

Amizades por interesse cessam tão logo o proveito acabe. Não havia estima sincera, mas empenho em se aproveitar: “as pessoas que amam as outras por interesse amam por causa do que é bom para si mesmas” diz Aristóteles.

Cultivar amizades exclusivamente por interesse é para pessoas mercenárias, narcisistas e egoístas, que só visam extrair proveito próprio.

Devido à possibilidade de se desfrutar prazeres e interesses comuns é que pode haver amizade entre pessoas dessemelhantes, inclusive más: “(...) pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenha algum proveito recíproco” alerta. Digite “Muammar Khadafi (ou Gaddafi)” no Google Imagens e surpreenda-se com amizades inimagináveis. Ou não, como diria Caetano.

Amizades por interesse (tão ordinárias entre chefes de Estado e tão corriqueiras entre arrivistas e alpinistas sociais) e por prazer (tão comum entre os jovens e os volúveis) podem ser muitas, pois são igualmente inúmeras as pessoas agradáveis e/ou úteis: “e os benefícios que elas propiciam podem ser fruídos dentro de pouco tempo”. Observamos que pessoas inescrupulosas sabem ser agradabilíssimas quando lhes convém.

Ele chama a atenção para o fato de que, mais reticentes, as pessoas idosas priorizam o útil em detrimento do agradável ou prazeroso. E por sequer se acharem mutuamente agradáveis, preferem os que gozam de vigor e plenitude da qual possam tirar algum proveito.

Já nos mais jovens, o prazer está entre os maiores motivos de amizades, pois “vivem sob a influência das emoções e perseguem acima de tudo o que lhes é agradável e o que está presente”. São amorosos, mas também inconstantes, se tornam e deixam de serem amigos rapidamente, no mesmo dia até.

Sentir prazer na “com-vivência” é uma das características mais marcantes duma amizade. Além de agirem de modo parecido, pessoas boas também são reciprocamente úteis, agradáveis e prazerosas, ou seja, reúnem em si todas as qualidades que os amigos devem ter. Não necessariamente excludentes, bondade, dom de agradar e certa utilidade quando “se manifesta com vistas a objetivos nobilitantes” também se fazem presentes nas amizades deste naipe.

Amizades entre semelhantes em termos de excelência moral, entre aqueles que admiram a virtude e o comportamento ético um do outro, resistem à distância, ao tempo, às fofocas e calúnias: “não é fácil dar crédito ao que diz qualquer um acerca de uma pessoa que foi posta à prova durante muito tempo”. Essas amizades perduram. Porque bom caráter é algo duradouro.

Reza a lenda, que Sócrates ao ser indagado sobre o que Glaucon falava dele, perguntou ao interlocutor: Você já passou o que me vai falar pela peneira da verdade? Já passou pela peneira da bondade? Já passou pela peneira da utilidade? E com a sabedoria que atravessa séculos disse: “Se você não sabe se é verdade, bom ou útil... então, não somente peço que não me conte, mas imploro que esqueça!”. Um virtuoso jamais propaga maledicências.

Assim como não há como amar intensa e apaixonadamente várias pessoas ao mesmo tempo, não há como ser amigo íntimo de muitos: “ambas as partes devem adquirir experiência recíproca e tornar-se íntimas, e isto é muito difícil”, diz Aristóteles.

Nas amizades fundadas no amor e na admiração mútua, amigos rejubilam-se pelo sucesso do outro, vivenciam a alegria como se fosse própria (inexistente em português, a palavra grega para esse nobilitante sentimento é synkhairía - antônimo de inveja).

Nos entristecemos, nos sentimos abandonados e frustrados quando os “amigos” desdenham nossas vitórias. O sucesso de um semelhante só incomoda aos de espírito mesquinho.

Sabemos que somente os verdadeiros amigos se comprazem, se deleitam por nossas alegrias e são solidários diante de nossos fracassos.

Além de confirmar quem são os verdadeiros amigos, o sucesso é também uma forma de atrair interesseiros e angariar invejosos inimigos. Para ilustrar, relembro uma narrativa já postada (vide neste Blog "Os Sete Pecados Capitais"). Na Hélade, precisamente em Atenas, periodicamente os cidadãos eram chamados a, secretamente, escrever o nome de uma pessoa que gostariam que fosse expulsa da cidade num caco de cerâmica chamado “ostrakon”.

Se determinado indivíduo tivesse seu nome registrado muitas vezes, ele era simplesmente expulso da cidade. O período de ostracismo durava cerca de dez anos. Para quem se recusasse a pena era a morte.

Certa vez, um nobilíssimo e muito distinto cidadão ao flagrar seu nome sendo escrito indagou: “O que ele fez para que escrevas seu nome”? – o outro cidadão respondeu: “Nada. É que não suporto mais ouvir falarem tão bem dele”.

Fiéis e verdadeiros amigos indignam-se, manifestam-se e protestam com veemência quando testemunham um virtuoso amigo sendo alvo de injustiça. Sem titubear, defendem-no com vigor.

Indivíduos de tal alma são poucos e é natural que uma amizade assim seja rara. Requer tempo e intimidade para que se possa demonstrar que são dignas da amizade, para conquistar “o sentimento de que uma nunca fará mal à outra”, isto é, confiança!

Pessoas de mau caráter, amarguradas, maledicentes, ressentidas e indelicadas não parecem propensas a amizades e é provável que se ressintam da falta de verdadeiros amigos: “(...) ninguém pode passar seus dias com pessoas cuja companhia é constrangedora ou não é agradável, já que a natureza parece evitar mais que tudo o penoso e buscar o agradável”, diz o Filósofo.

Sendo assim, deve-se romper uma amizade quando uma das partes se distancia excessivamente da outra, até porque, se o acaso, “o destino decide quem vamos encontrar na vida. As atitudes decidem quem fica”.

Democrática par excellence, amizade verdadeira dá-se entre os que se assemelham e, pressupondo igualdade em termos de virtudes éticas, por mais díspares que possam parecer é acalentada entre ricos e pobres, eruditos e ignorantes, jovens e idosos, corinthianos, são paulinos, palmeirenses e santistas.

Somente os iguais em excelência moral compartilham de uma amizade perfeita. Basta, parafraseando Kant: O céu estrelado sobre nós, a Lei moral dentro de nós e, no caso das amizades virtuais, um teclado diante de nós.


Reais ou virtuais dedico estas linhas a todos meus virtuosos amigos,
desejando-lhes que os deuses os protejam e que os abençoem sempre.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

Curso de Mitologia Grega
As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br