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1 de fev. de 2010

A Família - Parte II (Os idosos)


"Os infelizes são ingratos; isso faz parte da infelicidade deles."

Victor Hugo

Ao dar continuidade ao artigo anterior (Família – Parte I) intento chamar a atenção para um drama cada vez mais comum que não é normal: desamor, culpa, abandono, exploração e solidão na esfera doméstica.

Com raríssimas exceções, abordar questões familiares é remexer em “caixas pretas” que, independente do porte, por medo todos preferem manter devidamente enterradas, bem longe dos próprios olhos e, sobretudo dos alheios.

Num passado não muito distante (cerca de 2.500 anos), os tragediógrafos gregos revelaram, com irrepetível maestria, muitas das potências (dýnamis) que subjazem aos atemporais dramas familiares. Há pouco mais de um século, cabe aos profissionais das áreas psíquicas (psicólogos, psicanalistas, psicoterapeutas, psiquiatras e afins) a tarefa de adentrar a esses secretos labirintos.

Nesse sentido, eles se assemelham ao deus grego Hermes (Mercúrio na mitologia romana) que, regendo a velocidade, a mente e a fala, é o deus da comunicação.

Vale informar que Hermes, muito mais que “assistente” do soberano do Olimpo, Zeus, muitas vezes inadvertidamente tido como mero “moleque de recados”, é a única divindade a ter livre acesso às profundezas da psique (alma) e ao misterioso e temido reino do Hades (mundo dos mortos).

Não se perscruta caixas pretas impunemente! Como Hermes, muitos advogados, promotores, jornalistas, investigadores, médicos e psicanalistas, por exemplo, chegam com as novidades – honrosa e maldita função, pois, “ossos do ofício”, as notícias nem sempre são boas e, se a verdade dói, a cabeça do mensageiro é a primeiríssima a rolar. Grande injustiça!

Parafraseando o notável escritor Guimarães Rosa – Falar é perigoso. Foi por flagrar e revelar o que não devia que Tirésias ficou cego (veja abaixo, nesse Blog) e, nesse sentido, tivemos também a pobre Cassandra a quem, agraciada com o dom da profecia pelo deus Apolo, ninguém dava crédito. Foi incansavelmente e em vão que tentou impedir que os troianos aceitassem o famoso presente dos gregos.

Mais recentemente (em termos históricos), Freud escandalizou a sociedade vienense ao, entre outras descobertas, apontar a latente sexualidade infantil e, até hoje, a fim de evitar desconforto, convém se abster de xeretar os “esqueletos nos armários”. Mas nem sempre o que está quieto permanece quieto e infelizmente (ou felizmente) a irrupção do nefasto torna a investigação obrigatória e o conteúdo das caixas pretas vem à luz.

As tragédias gregas, shakespearianas e as grandes obras literárias como “Os irmãos Karamazov” de Dostoievski, nos revelam muito do “dark side” dessas constelações: hediondos crimes de matricídio, parricídio e infanticídio, por exemplo, reais ou simbólicos são (não matem o mensageiro!) atualíssimos e (também não se iludam com tantos sorrisos nos porta-retratos) se fazem presentes em insuspeitáveis lares “felizes”.

Por um lado, não são raros os casos em que as crianças veem ao mundo com o prévio fardo de alicerçar uniões já fracassadas ou de satisfazer o desejo de vaidade de seus progenitores. Há ainda as concepções por acaso e as absolutamente indesejadas (incesto, estupro, etc.).

Noutra ponta, também não são poucos os idosos vitimados por seus próprios filhos (vide o filme “A casa de Alice”, do diretor Chico Teixeira). Usurpados em suas parcas economias, contraem empréstimos consignados que nunca são pagos, cedem moradia, realizam diariamente extenuantes afazeres domésticos e até tomam para si a árdua tarefa de criar os netos dedicando-se integralmente ao bem estar dos filhos, filhas, genros e noras.

Mesmo quando a situação econômica apresenta-se confortável, outro silencioso e velado matricídio/parricídio é perpetrado em doses “hipócrito-homeopáticas”: ameaçados pelo abandono à espreita, vulneráveis, acalentam datas, anseiam pelo telefonema, um e-mail, algum convite. Esperançosos, fitam a porta, aflitos pela condescendente visita dominical.

Idosos têm sido explorados e/ou desprezados pela prole. Erro, pecado ou vício, condenados sem direito a julgamento, imputa-se-lhes uma pena que não prescreve.

Se, otimistas, imaginarmos a expectativa de vida média do ser humano em 90 anos, por exemplo, observaremos que, aurora da vida, a infância é período muito breve, mas de inocente frescor e vivacidade singular. Ah, a infância... caixinha dourada que aconchega selecionadíssimas pedrinhas preciosas; por todo o resto de nossas vidas regressaremos a ela. Mnemósyne, a memória, é seletivamente benfazeja, mesmo nos inícios de vida mais difíceis.

Passada a infância e a juventude (esta última com tudo o que lhe é perdoável, pois como dizem “a adolescência é uma doença que o próprio tempo se encarrega de curar”), as décadas de plenitude da vida, o grande “miolo” da vida (30/40/50/60 anos) também decorrem num estalo. Mas geres, a velhice maldita, maior surpresa que quem viver testemunhará, dura “para sempre”, até o fim.

Afora a que herdamos, será no mencionado “miolo da vida” que fomentaremos caixinhas a legar. Faremos nossas opções, tomaremos decisões, escolheremos os tons que pincelarão nossa velhice.

Nem na aurora (crianças são verdadeiramente inocentes e jovens são inexperientes), tampouco no crepúsculo quando, perseguidos pela culpa, sentimos a alma aprisionada e tudo o que mais buscamos é perdão e redenção.

Amor, carinho e afeto não são incondicionais: não é porque gerou que é Mãe, nem somente porque semeou que é Pai. Sabemos que, levianos, irresponsáveis e “gente ruim” também envelhecem. E nascem!

Quando é nosso o momento de agir, narciso reina, sentimo-nos ilimitados, desejamos “poder” tudo. Poder? E o que “não pode” hoje, no mundo? Convém indagar é se deve.

Diz a piada que “fazer análise após os cinqüenta anos é como querer mudar a rota de um avião que já pousou”. Discordo. Só pousamos, quando o caixão baixa ao túmulo. E fica a “caixa preta”... Nunca é tarde para buscar ajuda profissional a fim de lidar com a angústia de caixas pretas herdadas ou confeccionadas e perseguir tons mais gloriosos (menos culpados) para colorir nosso crepúsculo.

Em gratidão pela benção de todas as manhãs, poder dizer: "Bom Dia, mamãe!" e "Oi, papito!". Eu, meu Amor e os netinhos, amamos muito vocês.

4 de jan. de 2010

Família - Parte I (Elisabeth Roudinesco)


Existir é existir com. Você é livre para escolher esse 'com' quem existir. Mas o "cônjuge" é também fruto de uma herança familiar. Eis um exemplo de como a liberdade (paradoxalmente) se entrelaça ao destino.


O filósofo grego Aristóteles (384a.C. a 324a.C.), definiu "família" como sendo uma comunidade (oikós - casa) que serve de base para a cidade (pólis). Desde então, sempre ouvimos e repetimos que a família é a base da sociedade.

Embora a estrutura familiar tenha sofrido profundas e significativas alterações ao longo dos últimos séculos (e mais ainda nas últimas décadas), o desejo de fundar e pertencer a uma "ordem" familiar, fonte de afeto, amparo e segurança, tanto psíquico-emocional quanto material, revela-se indestrutível: não naufraga.

Encobrindo diferentes realidades, afetada pelas debilidades dos indivíduos desnorteados e cada vez mais dessacralizada, a família permanece sendo, indubitavelmente a mais sólida instituição humana.

Até cerca de 1860 e 1871, o que sabíamos das famílias era o que nos descreviam as obras literárias ou registros de cunho histórico. Esses saberes foram ampliados e aprofundados graças às novas ciências humanas: sociologia, antropologia e psicologia, por exemplo.

Uma das mais perspicazes análises sobre essa questão nos é apresentada pela renomada psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco em sua obra "A Família em desordem". Mas antes mesmo de nos atermos à família, nessa lâmina de microscópio que é a psicanálise, contextualizemos: o que é a família?

Do ponto de vista antropológico, o inesquecível cientista Claude Lévi-Strauss (1908-2009) nos fez cientes de que "a vida familiar apresenta-se em praticamente todas as sociedades humanas, mesmo naquelas cujos hábitos sexuais e educativos são muito distantes dos nossos".

Trata-se, portanto, de um fenômeno humano universal que abarca a união mais ou menos duradoura e socialmente aprovada entre um homem, uma mulher (aliança de casamento) e seus filhos (aliança de filiação). Roudinesco, em nota de rodapé, informa que foram recenseadas de quatro a cinco mil sociedades no mundo desde os primeiros estudos do historiador Heródoto e que em todas elas a família conjugal está presente.

Mas para que haja uma "clássica" família, além da diferenciação biológica (homem + mulher), há também a social: a interdição do incesto "cuja aplicação assegura, na história da humanidade, a passagem da natureza à cultura. A proibição do incesto é, portanto, tão necessária à criação de uma família quanto a união de um macho com uma fêmea" diz Lévi-Strauss.

Cidades são compostas por famílias. Gens, genos, raça, dinastia, linhagem, casa, mais que a mera constituição de um grupo, a família possui uma estrutura hierarquizada cujo poder fora, em seus primórdios, centralizado na figura do pai. E são três as estruturas básicas de relações com esse "todo-poderoso" na terra: a relação dos escravos para com o senhor; a da esposa para com o marido e o vínculo entre os filhos e o pai.

A família dita "nuclear" (pai, mãe e filhos) é fruto de uma longa evolução, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII. Antes disso, família também compreendia um grupo mais extenso que incluía a outros (agregados): os demais parentes, os criados e até mesmo amigos muito próximos.

A evolução das famílias ao longo da história compreende três grandes períodos: antiga, moderna e contemporânea.

A antiga família "tradicional", presidida pela autoridade patriarcal, objetivava assegurar a transmissão do patrimônio (sangue, nome e educação refinada também são patrimônios). Os próprios pais se incumbiam de escolher os cônjuges para seus filhos, ainda em idade precoce. As afeições e afinidades sexuais dos nubentes não são levadas em conta e casamento, quer queira, quer não, é até que a morte os separe: "a célula familiar repousa em uma ordem do mundo [supostamente] imutável (.)", diz Roudinesco.

Herança dos tempos arcaicos, honrado guerreiro, senhor da família, o pai é a encarnação de um Deus, rei - amado ou temido - mas sempre respeitado por seus súditos: "Herdeiro do monoteísmo, reina sobre o corpo das famílias e decide sobre os castigos infligidos aos filhos". Castigos (com diferentes graus de perversidades) que podem causar distúrbios indeléveis nas crianças, fraturando a psique irreparavelmente, por toda uma vida.

Resquícios dum passado ainda recente, ainda hoje muitas famílias "conservadoras" cultivam essa rigidez nefasta: mesmo que a angústia e a frustração acompanhem os cônjuges, a resignação mal disfarçada em seus rostos testemunha o alto preço que pagam para não desapontar: a própria felicidade e também, em maior ou menor grau, a felicidade daqueles que os cercam.

No mundo moderno, entre o final do século XVIII e meados do XX, uma lógica afetiva reivindicará as 'vontades' dos indivíduos: "Fundada no amor romântico, ela sanciona a reciprocidade dos sentimentos e os desejos carnais por intermédio do casamento".

O poder econômico é modulador que, alterado, também modifica os direitos e deveres entre os cônjuges. Isso se torna ainda mais evidente quando o macho deixa de ser o único provedor. A divisão do trabalho e de outras responsabilidades entre o casal e a prole - cuja educação a pátria deve assegurar - faz com que a atribuição da autoridade torne-se motivo de uma divisão incessante entre o pai e a mãe e entre o Estado e os pais.

A escassez de oportunidades profissionais ainda relega muitas mulheres à observância de uma servidão voluntária, circunscrevendo-as exclusivamente ao âmbito doméstico - sobretudo nas camadas sociais desprovidas de uma formação cultural mais elevada. Desse modo, o poder patriarcal ainda permanece quase inabalável.

A família contemporânea impõe-se a partir da década de 1960. O advento da pílula confere à mulher maior domínio sobre sua sexualidade e contribui para romper os grilhões d'outrora. Essa fragilizada família 'pós-moderna' caracteriza-se por unir dois indivíduos em busca de relações íntimas ou realização sexual: "A transmissão da autoridade vai se tornando então cada vez mais problemática (...)". Multiplicam-se os divórcios, as separações e a proliferação de novas recomposições conjugais ficam absolutamente "a gosto (ou desgosto) do freguês".

Desde o cenário moderno, o conceito de família não está mais atrelado a uma mística divina (quase um dogma) às pré condições biológicas ou ao Estado. Desde o século XIX a vida privada ganha relevo e independência: "A esfera do privado surgiu de uma zona 'obscura e maldita' para se tornar o lugar de uma das experiências subjetivas mais importantes de nossa época".

O sujeito agora goza de toda liberdade, inclusive para se furtar à responsabilidade e se sente autorizado a poder sacrificar toda(s) a(s) família(s) que forma. O que havia de excesso por um lado [austero limite] deságua noutro exagero de outro: imprudência ilimitada.

Prossigamos debruçando-nos sobre as origens míticas da família, a transição do matriarcado para o patriarcado, analisando o fracasso da outrora triunfante família autoritária (hoje melancólica e vitimada pelo parricídio/matricídio/infanticídio real ou simbólico) e refletindo sobre as mutiladas famílias de nossos tempos atuais "feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de lembranças recalcadas" como aponta a estudiosa psicanalista.

Esses tópicos são fundamentais para que possamos desvendar e compreender melhor a família. Com propriedade, Elisabeth Roudinesco afirma que: "Ao perder sua auréola de virtude, o pai, que a dominava, forneceu então uma imagem invertida de si mesmo, individualizado, cuja grande fratura a psicanálise tentará assumir durante todo o século XX".

Tendo a família por base, não nos surpreende que toda sociedade esteja mesmo refém do divã, das drogarias - ou de ambas - num caos e desordem total.

A meus amados pais, João Antonio e Maria Helena.

1 de dez. de 2009

Por que cremos?



“Oh! Virtude, ciência sublime das almas simples, serão necessários então, tanta pena e tanto aparato para conhecer-te? Teus princípios não estão gravados em todos os corações?" Jean-Jacques Rousseau.

Nessa época do ano realça-se o sentimento de religiosidade. Muitas pessoas, até involuntariamente, experimentam solene introspecção. A ocasião parece apropriada para refletirmos sobre o surgimento da religiosidade humana e seu desaguar no vasto campo das religiões.

Surpreende o fato de somente agora a religiosidade estar sendo apontada como um dos fatores que contribuíram para a evolução do homem na terra. Segundo o jornalista do The New York Times, Nicholas Wade: “A religião carrega as marcas de um comportamento evoluído, o que significa que existe porque foi favorecida pela seleção natural. É universal porque está impressa em nossos circuitos neurológicos desde antes de os primeiros humanos se dispersarem a partir da África”.

Se, como diz Nicholas, “(...) a religião evoluiu porque conferia benefícios essenciais às primeiras sociedades humanas e seus sucessores”, estamos diante de fato irrefutável, mas não paradoxal. Numa palestra intitulada “Origens da Religião e Pólis Grega(disponível em vídeo no site da Escola Superior de Direito Constitucional: www.esdc.com.br), que proferi em 2007, explico como e porque o próprio Estado já nasce no seio da religiosidade humana.

O artigo do Times, começa afirmando que dois arqueólogos “fizeram uma descoberta notável sobre a origem da religião ao longo de 15 anos de escavações (...)”. Ora, os primeiros ensaios de uma comunidade gregária se deram em torno dos alimentos. As primevas organizações políticas, as mais primitivas comunidades surgem tendo como esteio essa voraz necessidade dos indivíduos de, juntos, enaltecerem a magia que os circundava e, desse modo, em sincronia se estreitarem à natureza que os provia.

Embora o “Pai” da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) com propriedade, tenha apontado a religião como sendo uma espécie de delírio coletivo, a religiosidade “em si”, que floresceu em nossos antepassados não fora um mero e infundado “delírio coletivo”: a crença, em sua origem, foi fomentada por instinto de sobrevivência.

A abundante, diversificada e bem orquestrada “mãe-natureza” serviu de base a nosso primevo e rústico tecido social. O nascente e o poente, os ciclos de lunação, as estações do ano, o cortejo dos planetas por entre as constelações fixas, cachoeiras, rios, lagos e mares; trigo, milho, oliveira, cevada e todas as aves e os animais, além de reais, eram tudo o que tinham para inteligir a potência (dýnamis) da vida.

O homem primitivo, de racionalidade ainda rudimentar, encontra uma forma mítica para compreender e explicar aos demais a realidade que os circunda. O pequeno grupo ao qual pertence, se convence da lógica embutida nessas explicações.

Surge então um elo comunitário de compreensão dos fenômenos mais prosaicos, irrompidos periodicamente em seus habitats. Rituais que celebram a magia de inícios e fins (ciclos de vida e morte) são estabelecidos consensualmente.

É sabido que o comportamento religioso (qualquer que seja a forma de religação adotada) é identificado em todas as sociedades humanas, independente de qual seja o estágio de desenvolvimento em que se encontre. Digno de nota é o fato de que nesse estágio da religiosidade, o sujeito encontra, no meio no qual se insere, correspondência análoga às suas expectativas individuais.

A adesão aos ritos é espontânea e essa sacra consonância, essa fusão de valores criará um elo de fidelidade entre os membros, tornando o grupo forte e coeso. Unidos, amparando-nos mutuamente, sempre fomos mais fortes e detemos maiores oportunidades.

A religiosidade humana se impôs, inicialmente, por questão utilitária, sobretudo depois que o homem deixou de ser nômade, buscou abrigo fixo e, dependendo da agricultura (entenda-se estações do ano) sabiamente passou a ir ao encontro do tempo cíclico, em simbiose com a natureza.

Embora até hoje não tenhamos deixado de beneficiarmo-nos da caça (presente, ao menos duas vezes por dia, na mesa dos abastados), foi devido ao reconhecimento às misteriosas dádivas de Deméter (deusa grega da agricultura - Ceres em romano, daí a palavra cereal) que nossos ancestrais se aproximaram comungando e rejubilando-se num sentimento de pertença (confira breve relato desse mito celebrado nos “mistérios de Elêusis”, cerca de 800a.C. em "primavera", nesse Blog).

Mas não se intenta subjugar o acaso e seus inescrutáveis caprichos apenas manifestando gratidão . É fundamental evitar os “castigos” interpretados como zangas divinas. Deimos e Phobos (1) sempre foram meios de persuasão muitíssimo convincentes.

Por receio de que mazelas sucedam a todo o clã, expulsa-se transgressores das leis, os profanadores dos costumes sagrados; rituais de expiação zelam pela manutenção da ordem, da paz e das boas graças de uma “autoridade invisível”.

Arregimenta-se credulidade também sob coação, pelo sentir dilacerado da dor. Podia acometer-nos a morte, oriunda das guerras, da fome, de doenças, furacões, vulcões, raios, enchentes, maremotos, enfim, temíamos que pairasse sobre nossa família e/ou comunidade grandes males e infortúnios.

Nesse estágio da religiosidade humana, legitimar a autoridade do grupo levando-nos a colocar o bem-estar do clã acima de nossos interesses pessoais é atitude altruísta que mais nos humaniza; é o que nos tornou e nos tornará sempre mais “humanos”.

Alguns estudiosos tem levantado a hipótese de que, se com a teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1882) compreendemos que sofremos alterações com o constante aprimoramento de nossas aptidões físicas, não é improvável que o mesmo tenha ocorrido em nossa psyché.

Nesse sentido, Nicholas Wade afirma: “O que a evolução fez foi dotar as pessoas de uma predisposição genética a aprender a religião da sua comunidade, assim como há uma predisposição para a linguagem. Tanto na religião quanto na linguagem, é a cultura, e não a genética, que fornece o conteúdo do que é aprendido”.

O fato da religiosidade poder ser observada sob uma perspectiva psiquicamente evolucional, como algo que tenha fomentado, alicerçado e impulsionando o desenvolvimento das sociedades humanas não desempata o duelo entre crentes e ateus pois, como aponta o próprio autor: “O favorecimento da religião pela seleção natural não comprova nem refuta a existência dos deuses”.

Nicholas chama a atenção para o fato já sabido de que em “sociedades hierárquicas maiores, os governantes cooptaram a religião como fonte de autoridade”, o que resvalará em atrocidades ou, no mínimo nos tais “delírios coletivos” apontados por Freud, algo que nem crentes nem ateus suportam mais testemunhar.

Se lastimavelmente, algumas religiões e seus ferrenhos seguidores acalentam preconceitos, promovem guerras e perseguições é porque se esqueçam de que seu longinquo e nobilíssimo berço é ser primeva fonte de amparo à fragilidade humana. Deturpam a religiosidade que surgiu, em nossos antepassados unindo os homens na imprescindível promoção do bem estar da coletividade, que “subjaz a” e “abarca a” função social.

A religiosidade primeva não escandaliza a razão. É de uma inteligibilidade intuitiva, dispensando provas ou argumentos, é puro instinto de sobrevivência “impressa em nossos circuitos neurológicos” como denominam os cientistas.

Vislumbraram a Alma (psyché), outrora tão magnânima em seu propósito de nos religar com a ordem (cosmos) presente na natureza (physis) da qual também fazemos parte. Espantados constatam: fomos feitos para crer.

1- Deimos e Phobos: terror e medo, filhos do deus grego da guerra, Ares, que na mitologia romana será denominado Marte. Esse é também o nome dos satélites naturais desse planeta.
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Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

Você se sentiu ofendido...

irritado (em seu "phrenas", como diria Homero) ou chocado com alguma imagem desse Blog? Me escreva para que eu possa substituí-la. e-mail: mitologia@esdc.com.br