“(...)
não é a alma uma dessas realidades aparentadas com as Ideias [...] que servem
de traço de união entre o sensível e o inteligível? ”
Após nos
sentirmos dilacerados com o desolador artigo na edição do mês passado (O que é
o niilismo? AQUI), voemos às esferas supra celestes e vislumbremos a fonte da
verdade sobre nossa alma imortal.
No diálogo intitulado
Fedro, Platão (427 a.C – 347 a.C.) apresenta a hipótese da imortalidade da
alma, discorre sobre sua natureza (confira a triplicidade da alma em Platão AQUI) e, embora afirme que, para dizer o que ela é,
seria preciso uma ciência, uma arte absolutamente divina, narra um mito
(analogia simbólica) apresentando uma imagem ao que a alma se assemelha.
Imaginemos a
alma, diz ele, com um poder no qual se reúnem naturalmente uma parelha de cavalos alados e um cocheiro. Mas eis que, enquanto os
cavalos e os cocheiros dos deuses são todos bons e de boa raça, para o homem as
suas qualidades não são puras.
O cocheiro (parte da alma logística,
lógos, discernimento,
inteligibilidade) é quem comanda e conduz os dois cavalos atrelados.
Um dos cavalos é excelente e de
excelente raça (parte da alma timocrática corajosa, que anseia por honras
e glórias).
O outro cavalo é exatamente o contrário,
em si mesmo e pela sua origem (parte da alma epitimética, animalesca, que
anseia por satisfazer os desejos concupiscentes).
Eis porque a
condução da nossa alma, digo, da parelha de corcéis ser uma tarefa árdua, difícil
e muitas vezes ingrata.
Há almas em que
as parelhas avançam com grandes dificuldades: um cavalo puxa para baixo,
fazendo inclinar o carro para terra, fazendo sucumbir o cocheiro que não o
soube adestrar.
Quando a alma é
perfeita e tem asas, eleva-se nas alturas e governa o mundo inteiro. Mas quando
perde ou danifica suas asas, é arrastada até alcançar algo de sólido; aí
estabelece a sua morada, tomando um corpo terrestre que parece mover-se com
movimento próprio graças à força que pertence à alma.
As que seguem
melhor os deuses e se lhes assemelham erguem a cabeça do seu cocheiro para o
espaço que está fora do céu, o movimento circular transporta-as.
As almas a que chamamos imortais, quando atingem o cume saem,
erguem-se no dorso da abóbada celeste, e aí, de pé, deixando-se levar pela
revolução circular, contemplam as
realidades inteligíveis que estão num espaço fora do céu:
“A essência que não tem cor nem forma, e que não podemos tocar, a essência que realmente é, a única que é capaz de ver o piloto [cocheiro] da alma – a inteligência, enfim, aquela que é objeto do verdadeiro saber, ocupa este lugar [a região supra celeste, o espaço fora do céu]”.
“A essência que não tem cor nem forma, e que não podemos tocar, a essência que realmente é, a única que é capaz de ver o piloto [cocheiro] da alma – a inteligência, enfim, aquela que é objeto do verdadeiro saber, ocupa este lugar [a região supra celeste, o espaço fora do céu]”.
Platão prossegue
esclarecendo que a partir dessa altura, o pensamento divino (belo,
sábio, bom e justo), que se alimenta da inteligência
e do saber puro, experimenta
alegria ao avistar finalmente O SER EM SI e, nesta contemplação da verdade,
encontra o seu alimento e a sua delícia.
Quando volta,
tendo contemplado a Justiça em si, a Sabedoria em si e a Ciência que não está sujeita ao devir,
adquire discernimento para conduzir aparelha de corcéis.
A razão deste
grande esforço das almas para alcançar a Planície da Verdade é que a pastagem
que convém à melhor parte da alma [o cocheiro] provém da pradaria que aí se
encontra. A asa, à qual a alma deve a sua leveza, deve tomar aí o seu alimento.
A asa recebeu da
natureza o poder de levar para o alto o que pesa, pois participa do divino.
O divino é belo,
sábio, bom e justo, alimenta e desenvolve as asas da alma. A deformidade, a
ignorância, o mal e a injustiça causam ruína e destruição das asas da alma dos
mortais.
Algumas almas,
não divinas, tão depressa se erguem como se baixam, não dominam bem os seus
cavalos, apercebem-se de certas realidades imutáveis, mas outras lhes escapam.
Quando
embaraçadas pelos seus cavalos, tem grande dificuldade em dirigir os olhos para
os objetos reais [ideais, imutáveis, o Ser em si e por si, o Absoluto em sua
pureza].
Outras almas,
aspiram elevar-se, mas a sua fraqueza as faz soçobrar no turbilhão que as arrasta:
atropelam-se umas às outras, empurram-se, tentando cada uma ultrapassar as
demais.
Desordem,
agitação, tumulto, confusão, rivalidade, esforços violentos e vãos atingem o
auge, e então, por erro dos cocheiros, muitas almas ficam estropiadas, com as
suas asas danificadas; apesar dos seus esforços, se afastam sem ter atingido a
contemplação do Ser, e a partir daí tem a “opinião” (dóxa) por alimento.
Isso porque,
esclarece, se todas as almas estão ávidas por seguir e aspiram elevar-se, muitas
acabam reféns dos caprichos de seu cavalo indócil.
Com todo desassossego, asas
se estragam, as parelhas tornam-se mais pesadas e caem. A alma ganha corpo e,
ao encarnar, esquece aquilo a que teve acesso lá em cima.
Fica assim
explicada a desigualdade dos destinos humanos: “que diferença, com efeito,
entre aquele que noutro tempo avistou a Verdade e que será por toda a vida
amante da sabedoria ou da beleza, e aquele que então só pôde contentar-se com a
opinião e que, cá embaixo, estará condenado a amar apenas mentiras e poderes
falaciosos...”.
A visão
pré-empírica das coisas que São (eternas, imutáveis, ideais) enraíza a alma,
dota-a de convicção.
Essa realidade (da
imortalidade da alma) é em si mesma indemonstrável, mas perseguir o saber, ainda
que seja um saber imperfeito, recordar o imutável, ainda que sob a forma de uma
reminiscência tênue, vale a pena, pois nos leva a ascender às mais altas
esferas celestes e a vislumbrar aquilo que por “métexis” (participação) comungamos com os deuses imortais.
Dedicado à alma imortal da genitora do meu Amor, Antonia Loureiro Lamy que, do céu, olha por nós. Obrigada por tudo, vó Mause.
Decreto de Adrástea*
(Epíteto de Nêmesis,
significa o Inevitável, simboliza a Justiça distributiva)
Ordem das “encarnações” – por Platão, no Fedro
É o seguinte o decreto de Adrástea. Todas as almas que, no
cortejo de um deus, tenham de algum modo contemplado as verdadeiras realidades
ficam isentas de provações até a revolução seguinte, e se forem capazes de o
fazer sempre, ficam para sempre isentas de danos.
Mas quando alguma incapaz de seguir corretamente, não viu, e
que por algum infortúnio, plena de esquecimento e de perversão, se tornou mais
pesada e sob o efeito deste peso perdeu as suas asas e se abateu sobre a terra,
então uma lei dita que na primeira geração ela não pode implantar-se em nenhuma
espécie animal, mas que a alma que teve a visão mais vasta se introduza na
origem de um homem destinado a tornar-se amigo do saber, ou amigo do belo, ou
inspirado pelas Musas e pelo amor;
A alma que estiver na segunda posição estará
na origem de um rei que obedece à lei, OU que é dotado para a guerra e para o comando;
A terceira irá para o político,
ou um intendente, ou um financeiro;
A quarta, para um homem que gosta do
esforço físico, um ginasta, ou um homem destinado a cuidar do corpo;
A quinta
terá uma existência de adivinho ou de iniciado;
À sexta corresponderá o homem
que faz da poesia profissão, ou qualquer outro daqueles que praticam a
imitação;
À sétima corresponderá o artesão ou o cultivador;
À oitava o
profissional da sofística ou da arte de lisonjear o povo;
À nona o homem
tirânico.
Em todas as encarnações, o homem que levou uma vida justa
recebe uma melhor sorte, e uma sorte menos boa no caso contrário.
Com efeito, cada alma só volta ao sítio [lugar] de onde
partiu ao fim de dez mil anos: se não pertencer a um homem que tenha sido amigo
leal do saber, ou tenha amado ternamente os jovens com um amor filosófico, não
receberá asas antes de todo esse tempo passar.
Na terceira revolução milenária, as almas deste tipo, se
escolheram três vezes seguidas este gênero de vida, retomam as asas e, no
terceiro milênio, afastam-se deste mundo.
Quanto às outras, depois de terminadas a sua primeira vida,
serão julgadas. Depois de julgadas, umas dirigir-se-ão para as prisões
subterrâneas para aí expiarem a sua dor, as outras vão para qualquer parte do
céu, absolvidas por decisão de justiça, e vivem como mereceram pela sua
existência sob forma humana.
No milésimo ano, umas e outras vêm tirar à sorte e escolher
uma segunda existência: cada uma escolhe à sua vontade. Então a alma de um
homem passa para uma existência animal, e aquele que foi homem uma vez deixa a
existência animal e regressa à condição humana.
Traduzido a partir de Platão por Paul Vicaire – Les Belles
Lettres, Paris, 1985.
(*) Os decretos de Adrástea: relativos à hierarquia dos
modos de existência.




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