A queda de Faetonte,por Van Eyk
O filósofo
francês Jean-Jacques Rousseau, em sua obra “Discurso sobre a origem da
desigualdade dos homens”, também chamou a atenção para esse fato, ilustrando
que, mesmo em situação, aparentemente, de igualdade, como um grupo animado, dançando
em torno de uma fogueira, por exemplo, há algo que faz com que alguns se
empenhem em dançar mais e melhor que os outros, a fim de se sobrepor aos
demais, angariando mais “likes”:
olhares, aplausos, mais admiração.
Talvez nem convenha mesmo combater – de
todo – a vaidade, pois como afirma Bastos Tigre: "A vaidade profissional [por exemplo] é virtude merecedora do máximo respeito. Ela é que estimula o obreiro a aperfeiçoar o seu trabalho para não se deixar vencer pelos concorrentes."
Orgulhoso, Faetonte
é um belo e corajoso jovem criado por sua mãe Climene. Noutras versões é filho
da ninfa Rodes, que nomeia a ilha a qual o deus Apolo (Hélio, na mitologia
romana) preside.
Certo dia, cansado
do constrangimento de ser constantemente desafiado por seu mui amigo Épafos, filho de Zeus com Io, que vivia a provocá-lo
afirmando sarcasticamente que ele não tinha pai, Faetonte confronta sua mãe,
inquirindo-a sobre sua paternidade: “Eu não me envergonharia de ser filho de um
mortal, mas o que me deixa triste é que venho sendo enganado por minha própria mãe!
”.
No entanto, além das juras de sua mãe, assegurando que ele era sim, filho do deus Apolo, Faetonte desejava algo mais: provar para o amigo Épafos, o quão divino e poderoso era seu pai e, por conseguinte, ele também.
Faetonte decide
então procurar Apolo, o deus da harmonia, saúde e da música, para que, confirmada
sua paternidade, ele o atenda num pedido que lhe confira distinção.
Recebido com
festa, Faetonte sente-se acolhido por seu divino pai e o desafia a atender seu
ousado e temeroso pedido: dirigir o carro do Sol. Ao ouvir o que o jovem
pleiteava, Apolo recusa-se a atendê-lo.
Cônscio da
inexperiência do jovem, Apolo declina, mas como já havia jurado pelo rio Stix que
atenderia a qualquer pedido do filho, se vê obrigado a manter a palavra diante
de todos.
Aos prantos, é
em vão que Climene roga que o filho desista de tão perigosa façanha. Faetonte
está decidido! Após mil recomendações à imponente parelha de corcéis, Apolo lastima:
“Não é justo que a coragem de meu filho acabe para sempre nas profundezas do
Tártaro.”. E, apressa-o, pois já passava da hora do Sol nascer.
Deslumbrado, é
com altivez que Faetonte dá início a sua majestosa jornada, a fim de mostrar a
seu amigo Épafos e os demais moradores da aldeia onde vive, quem ele é: o brilhante
e invejável Faetonte, filho do próprio deus Apolo!
De fato, o jovem
viu e ouviu – lá do alto – a quão poderosa e venerada era a posição que agora
ocupava. Ainda de longe, os poucos, via cada vez mais e mais pessoas admiradas,
muitas ainda em trajes de dormir, bocejando, erguendo os olhos aos céus, alardeando
sua chegada, enaltecendo sua beleza: “O dia hoje está lindo!”; “Radiante!”;
“Magnífico!”.
Isso era o que mais ele ouvia enquanto proclamavam seu surgimento,
ou melhor, do resplendoroso carro do Sol que, precedido pela deusa Aurora,
trazia um novo dia, repleto de luz, de promessas e esperanças, da dádiva da
vida. Acima das nuvens, Faetonte sente a glória de ser reverenciado como um deus.
Como previsto
por Apolo (sim, ele também é o deus da profecia!), no afã de exibir-se para
Épafos, o jovem não detém maestria para dominar a indômita parelha de corcéis
que, desgovernada, sai da rota e aproxima-se demais da terra, começando a
causar danos aterrorizantes: florestas, colheitas e cidades inteiras
incendiadas, tanto os animais quanto os seres humanos, aflitos, correndo desesperados,
de um lado para outro, agonizando em chamas, sem nada compreender do fenômeno
que os acometia.
Ao constatar
tamanha tragédia, Faetonte, agora assombrado, ergue as rédeas dos cavalos do
carro do Sol para o alto, o que também não ajuda, pois, a terra tornava-se
escura e congelada, sem o calor do Sol.
Diante do caos
desses nefastos efeitos – da superfície às entranhas –, Gaia (a terra) decide,
então, apelar a Zeus, para que interrompa toda aquela temeridade: homens e
animais padeciam, ora carbonizados, ora congelados, por conta dos extremos de
elevada e de baixa temperatura.
Sem titubear, o
soberano do Olimpo dispara um raio certeiro, mesmo sem saber que fulminava o
sobrinho, que precipita numa queda mortal. Desolado, Apolo abraça Climene, que
sem cessar pranteia a morte do filho.
O exibicionismo,
por conta da insolente vaidade, causou a morte do jovem que –, mais que estar
cônscio ser filho legítimo de um deus – ansiava mostrar a todos sua
singularidade.
Não é muito
diferente de como agimos, sobretudo na web. Nem precisa ser a exibição de algo
de inequívoca envergadura, de espetacular supremacia como comandar a LUZ,
detendo o poder que Faetonte ambicionou e ousou mostrar.
Na atual “Idade Mídia”, somos todos “faetontos” quando insistimos em alardear nossas – tantas vezes tão prosaicas e quase sempre ordinárias – façanhas (lugares, vestes e alimentos, etc.), bombardeando a todos o tempo todo, com nossos reais e/ou supostos méritos, gabando-nos, só para provar aos inúmeros duvidosos “amigos” como Épafos – o quanto somos ilustres, singulares e abençoadamente prestigiados e aclamados pelo “theós” (divino).
Na atual “Idade Mídia”, somos todos “faetontos” quando insistimos em alardear nossas – tantas vezes tão prosaicas e quase sempre ordinárias – façanhas (lugares, vestes e alimentos, etc.), bombardeando a todos o tempo todo, com nossos reais e/ou supostos méritos, gabando-nos, só para provar aos inúmeros duvidosos “amigos” como Épafos – o quanto somos ilustres, singulares e abençoadamente prestigiados e aclamados pelo “theós” (divino).
Curiosamente,
mas não por acaso, “Nada em excesso” alerta o frontispício de Apolo, em Delfos.
Quando passamos da medida – o métron
grego – também “caímos do cavalo”. E, embora a queda não seja mortal como a de
Faetonte, não deixa de ser patética.
Luciene Felix Lamy
E-mail: mitologia@esdc.com.br
WhatsApp: (13) 98137-5711
PS: Confira Programação de OUTUBRO da Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, SP.


2 comentários:
Fui fascinada pela mitologia desde que eu era criança. Alguns dias atrás eu assisti Animais Fantásticos e Onde Habitam Filme e amei. ❤️ As criaturas que aparecem são de natureza diversa e muito impressionantes! A produção é excelente, se você gosta desses temas, é um fato que você vai adorar essa história!
Normalmente eu nao comentaria tão imponente texto, mas como há uma citação ao tempos atuais ao relacionar a internet com "likes"... Digo que exibicionismo pode ser letal. Por despertar além de admiração, inveja. E alguns invejosos não medem esforços para derrubar o objeto de sua inveja
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