“Os
deuses olham pelas pessoas boas, e quem nutre será nutrido. ” Ovídio
Atemporal, a “Paidéia” (pedagogia)
presente nos mitos norteia e promove ações justas, indicando comportamentos
virtuosos. Neste “mês dos namorados”, trazemos o romântico relato do casal de
idosos Filêmon e Báucis, exponenciais da importância de se receber bem o
“kxenós” (estrangeiro) e de como os deuses recompensam os humildes e piedosos.
“Um
carvalho cresce ao lado de uma tília nas colinas da Frígia ”, assim o poeta romano, Ovídio (cerca
de 43 a.C.) inicia sua narrativa, mas enriquecemos esse precioso mito com as
versões de Edith Hamilton, Paul Commelin e Thomas Bulfinch.
Eis que, de vez em quando, Zeus
(Júpiter) disfarçava-se e, em companhia do leve, comunicativo e divertido
mensageiro dos deuses, Hermes (Mercúrio), descia à terra a fim de testar a
índole hospitaleira dos mortais.
Esse atributo – a hospitalidade – era especialmente caro
ao soberano do Olimpo, pois, sendo ele mesmo um estrangeiro (kxenós), estavam
sob sua proteção todos os vulneráveis que necessitam de abrigo em outras terras
(importante: não confundir com perversos terroristas dos tempos atuais, que pagam
acolhida com tragédia e dor).
Chegando à Frígia como se fossem
viajantes que sucumbem ao cansaço, os deuses bateram de porta em porta, tanto
nas casas mais abastadas quanto nas mais simples, rogando por alimento e algum
lugar para repousar. No entanto, os habitantes inóspitos não quiseram
levantar-se para recebe-los, todos se recusavam a dar-lhes guarida.
Frustrados e exaustos com tantas
negativas, chegaram a uma humilde cabana, coberta de palha e, mais uma vez,
bateram na porta. Surpreendentemente, ela se abriu, e de dentro surgiu uma voz
muito agradável, convidando-os a entrar.
Espantados, os deuses repararam
que, apesar de simples, o interior do casebre estava muito bem limpinho e
arrumado. Apareceu então, um casal de velhinhos, em cuja expressão fisionômica
transparecia benevolência.
Diligentes, eles deram logo as
boas-vindas, não medindo esforços para que os visitantes se sentissem “em casa”.
Muito atencioso, o marido, Filêmon tratou de trazer logo um banquinho para
perto da lareira, enquanto sua caridosa mulher, Báucis, corria para buscar uma
manta, enquanto ia contando que ela e Filêmon haviam se conhecido ainda muito
jovens, que viviam naquele modesto lar desde o casamento e que sempre foram
felizes: “Somos pobres, mas a pobreza não é uma coisa assim tão má quando não
se tem grandes ambições, e uma boa disposição de espírito também ajuda muito.
”.
Modestos, de fato, Filêmon e Báucis
não tinham vergonha de sua pobreza e para não a sentirem moderavam seus
desejos, no que eram ajudados por suas boas disposições.
Do casal emanava toda
tranquilidade, aquela paz e sossego que somente nos verdadeiramente satisfeitos
é notória. Alegre, Báucis abanou os tições da lareira, apressando-se a pendurar
logo uma panela de cobre com água, enquanto Filêmon voltava do quintal com um
belo repolho. Cortaram um bom pedaço da carne de porco já defumada e
apressaram-se a preparar o jantar para os hóspedes.
Zeus e Hermes observavam o quanto a
generosidade e o bom coração supriam a fortuna desses anfitriões. Frágeis e ligeiras,
as mãos pintadinhas e trêmulas de Báucis colocavam a mesa que, bamba, com uma
das pernas mais curta, foi logo ajeitada com um caco para nivelar.
E
disponibilizaram tudo o que tinham: azeitonas, rabanetes, endívias, queijos, ovos,
convidando-os logo a tomarem assento nos tamboretes para saciar a fome.
Filêmon trouxe uma jarra de vinho,
que nem era de nenhuma vindima especial e, assim que o cozido ficou pronto, exalando
um convidativo aroma pela casa, ele se sentiu muito orgulhoso em poder
acrescentar esse luxo à ceia, cuidando de encher novamente as taças logo que as
percebia esvaziar.
Os dois velhinhos estavam tão encantados
em receber os estranhos que demorou a se darem conta de que algo muito estranho
estava a acontecer: a despeito de quantas taças já tivesse sido bebida, a jarra
de vinho nunca se esvaziava!
Estupefatos diante dessa
constatação, entreolharam-se amedrontados, abaixaram a cabeça e, cerrando os
olhos, começaram a rezar em silêncio. Em seguida, com a voz embargada, rogaram
aos hóspedes celestes que os perdoassem pela frugalidade da ceia ofertada.
Foi
quando Filêmon lembrou-se: “Temos um ganso! Um ganso de estimação. Tenham a
bondade de esperar, pois vamos prepará-lo e servi-lo em seguida. ”.
Depois de muitas tentativas – em
vão – de agarrar o ganso que se refugiou entre as pernas dos deuses, Zeus os
interrompe dizendo ser desnecessário tal sacrifício. E, confirmando que
hospedaram deuses, teriam uma merecida recompensa, mas que puniria os que
tinham negado guarida, desprezando os vulneráveis estrangeiros.
Os deuses decidem inundar tudo ao
redor, poupando somente a cabana do casal de idosos, que testemunharam ela ser
transformada num majestoso templo, todo em mármore e ouro.
Ao indagar a Filêmon e Báucis o que
mais desejavam, ouviu: “Permiti que nos tornemos vossos sacerdotes, e que
passemos a tomar conta deste vosso templo – e, já que vivemos tanto tempo
juntos, não deixeis que nenhum de nós sobreviva ao outro, concedendo-nos a
graça de morrermos juntos. ”
Comovido com o que ouviu, Zeus os
atendeu. E, certo dia, quando enfim, chegaram à mais avançada velhice, enquanto
rememoravam o passado, perceberam que folhas começavam a brotar, enquanto seus
corpos iam se transformando em árvore.
Em paz, por terem desfrutado de uma
longa vida de amor e concórdia, conformados e felizes com destino com o qual
foram agraciados e desejando que a mesma e única hora os levasse desta vida, ao
mesmo tempo, disseram um ao outro: “Adeus, meu grande amor. ”
Pronunciadas essas palavras, entrelaçados,
transformaram-se em árvores: ele, como um soberbo carvalho, e ela, uma magnífica
tília. De todas as partes do mundo, chegam pessoas para admirar e honrar esse
apaixonado casal.
Para Johannes e Camilla.
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