“A lição sabemos de
cor, só nos resta aprender...”. Sol de Primavera, Beto Guedes
Escrever é bom ou mau? Registrar nossas descobertas, nossos saberes,
legando-os aos demais ajuda ou atrapalha? Sócrates, que nada
escreveu, através de seu mais famoso discípulo, Platão (427-347
a.C.), retomando uma tradição muito antiga, nos traz um mito que
oferece alguns elementos para pensar.
Sobre a invenção da escrita, no Fedro, Platão narra que o antigo deus egípcio Thoth, inventor de muitas ciências e técnicas, durante o encontro com o rei Tamuz apresentou-lhe a arte da escrita, asseverando a necessidade de propagá-las entre as pessoas.
Afirmando tratar-se de um conhecimento que tornará os egípcios mais sábios, com entusiasmo, Thoth comemorou: “memória e ciência encontraram o seu remédio!” Prudente, Tamuz, que reinava sobre todo o Egito, respondeu-lhe: “Muito engenhosa [a arte da escrita] Thoth, mas uma coisa é ser capaz de criar as artes, outra é julgar em que medida trarão malefícios, ou serão úteis, aos que as deverão usar”.
E o rei então prosseguiu argumentando que Thoth, por ser o pai da escrita, é benevolente ao atribuir à ela efeitos contrários aos que tem, pois ela desenvolverá o esquecimento nas almas dos que a adquirirem uma vez que, confiando nos escritos, as pessoas negligenciarão a memória. Ressaltou que será a partir de fora, através de caracteres [letras/palavras] e não a partir de dentro [reflexão íntima] e graças ao esforço pessoal, que cada um lembrará as suas recordações.
A conclusão que o rei chega é que Thoth não encontrou uma solução para fortalecer a memória, mas para ajudar a lembrar: “Quanto à ciência, apenas forneces a sua aparência [de sabedoria] aos teu alunos e não a realidade. Visto que, depois de muito ter aprendido nos livros sem receber ensino, terão um ar muito sábio, e serão na maior parte dos casos desprovidos da capacidade de julgar (...)”, dizendo ainda que se tornarão insuportáveis, cultivando a aparência de sábios sem o ser.
Sócrates afirma que aquele que crê deixar para o futuro uma arte consignada nos caracteres da escrita, e aquele que por sua vez a recolhe com a ideia de que obterá algo certo e sólido, são sem dúvida muito ingênuos, e desconhecem certamente a profecia de Amom [divindade egípcia], se acreditam que discursos escritos são algo mais que um meio de recordar, àqueles que já as conhecem, as coisas tratadas nesse escrito.
O filósofo pondera sobre os inconvenientes da escrita comparando-a à pintura: “Com efeito, os seres que esta [a pintura] produz tem a aparência de vida; mas se lhes pusermos uma questão eles guardam silêncio. O mesmo se passa com os discursos escritos: poder-se-ia acreditar que falam como seres sensatos, mas se os interrogarmos com a intenção de compreender o que dizem, limitam-se a significar uma só coisa, sempre a mesma.
Uma vez escrito, qualquer discurso chega a todos os lados, e passa indiferentemente por aqueles que nele se reconhecem e por aqueles que nada tem a fazer com ele; ignora a quem deve ou não dirigir-se”.
Afirma que a escrita parece aumentar a memória e portanto a ciência, e poderia por esse fato servir como solução para o esquecimento e a ignorância. Mas isso é apenas uma ilusão, na realidade dá-se o contrário: a escrita promove o esquecimento. Quantos nºs de telefones, por exemplo, sabemos de cor?
E isso porque longe de desenvolver a memória, paradoxalmente, a escrita desenvolverá “o esquecimento nas almas”: a confiança nos traços no exterior de si desabituará a alma da rememoração no interior de si.
É que a escrita não é uma verdadeira memória, é apenas um apoio à memória que, ainda por cima, dará ao indivíduo a impressão de saber, ou a aparência de saber, e favorecerá ao mesmo tempo a preguiça e a pretensão intelectual.
Segundo as ponderações do rei, o texto escrito sofre três males congênitos. À semelhança de uma pintura, por ser apenas uma imitação ou cópia da realidade viva, não pode ter senão somente a aparência da vida.
O escrito é estático, mudo, fechado sobre si mesmo: face àquele que o interroga só pode remeter-se ao silêncio, ou repetir “a coisa única que se contenta em significar, sempre a mesma, de uma vez por todas.” Uma vez publicados, os escritos tem existência própria, entram no domínio público: são de todos e de ninguém, e dirigem-se ao mesmo tempo e indiferentemente tanto ao conhecedor quanto ao leigo.
Por fim, abandonado a si mesmo, e na ausência dos seus autores, é incapaz de se defender, de contestar ou de entrar em polêmica com os seus adversários: “Assim, inerte, imutável, intocável, petrifica o sentido, e monologa consigo mesmo.” adverte Tamuz.
Segundo Geneviève Droz (Les mythes platoniciens), a crítica à escrita presente no mito de Thoth, inventado por Platão, pode ser melhor compreendida se considerarmos que se enraíza na longa meditação que o filósofo conduziu sobre a memória (mnemósyne), e que é inseparável da doutrina da reminiscência (anamnesis): as almas estiveram, numa vida pré-empírica, em contato com as verdades; ainda que algumas apenas as tenham avistado muito indistintamente, ainda que, antes da sua nova encarnação, tenham tido que atravessar o Letes (o rio do esquecimento), elas tem neste mundo o poder de recordar.
Sobre a invenção da escrita, no Fedro, Platão narra que o antigo deus egípcio Thoth, inventor de muitas ciências e técnicas, durante o encontro com o rei Tamuz apresentou-lhe a arte da escrita, asseverando a necessidade de propagá-las entre as pessoas.
Afirmando tratar-se de um conhecimento que tornará os egípcios mais sábios, com entusiasmo, Thoth comemorou: “memória e ciência encontraram o seu remédio!” Prudente, Tamuz, que reinava sobre todo o Egito, respondeu-lhe: “Muito engenhosa [a arte da escrita] Thoth, mas uma coisa é ser capaz de criar as artes, outra é julgar em que medida trarão malefícios, ou serão úteis, aos que as deverão usar”.
E o rei então prosseguiu argumentando que Thoth, por ser o pai da escrita, é benevolente ao atribuir à ela efeitos contrários aos que tem, pois ela desenvolverá o esquecimento nas almas dos que a adquirirem uma vez que, confiando nos escritos, as pessoas negligenciarão a memória. Ressaltou que será a partir de fora, através de caracteres [letras/palavras] e não a partir de dentro [reflexão íntima] e graças ao esforço pessoal, que cada um lembrará as suas recordações.
A conclusão que o rei chega é que Thoth não encontrou uma solução para fortalecer a memória, mas para ajudar a lembrar: “Quanto à ciência, apenas forneces a sua aparência [de sabedoria] aos teu alunos e não a realidade. Visto que, depois de muito ter aprendido nos livros sem receber ensino, terão um ar muito sábio, e serão na maior parte dos casos desprovidos da capacidade de julgar (...)”, dizendo ainda que se tornarão insuportáveis, cultivando a aparência de sábios sem o ser.
Sócrates afirma que aquele que crê deixar para o futuro uma arte consignada nos caracteres da escrita, e aquele que por sua vez a recolhe com a ideia de que obterá algo certo e sólido, são sem dúvida muito ingênuos, e desconhecem certamente a profecia de Amom [divindade egípcia], se acreditam que discursos escritos são algo mais que um meio de recordar, àqueles que já as conhecem, as coisas tratadas nesse escrito.
O filósofo pondera sobre os inconvenientes da escrita comparando-a à pintura: “Com efeito, os seres que esta [a pintura] produz tem a aparência de vida; mas se lhes pusermos uma questão eles guardam silêncio. O mesmo se passa com os discursos escritos: poder-se-ia acreditar que falam como seres sensatos, mas se os interrogarmos com a intenção de compreender o que dizem, limitam-se a significar uma só coisa, sempre a mesma.
Uma vez escrito, qualquer discurso chega a todos os lados, e passa indiferentemente por aqueles que nele se reconhecem e por aqueles que nada tem a fazer com ele; ignora a quem deve ou não dirigir-se”.
Afirma que a escrita parece aumentar a memória e portanto a ciência, e poderia por esse fato servir como solução para o esquecimento e a ignorância. Mas isso é apenas uma ilusão, na realidade dá-se o contrário: a escrita promove o esquecimento. Quantos nºs de telefones, por exemplo, sabemos de cor?
E isso porque longe de desenvolver a memória, paradoxalmente, a escrita desenvolverá “o esquecimento nas almas”: a confiança nos traços no exterior de si desabituará a alma da rememoração no interior de si.
É que a escrita não é uma verdadeira memória, é apenas um apoio à memória que, ainda por cima, dará ao indivíduo a impressão de saber, ou a aparência de saber, e favorecerá ao mesmo tempo a preguiça e a pretensão intelectual.
Segundo as ponderações do rei, o texto escrito sofre três males congênitos. À semelhança de uma pintura, por ser apenas uma imitação ou cópia da realidade viva, não pode ter senão somente a aparência da vida.
O escrito é estático, mudo, fechado sobre si mesmo: face àquele que o interroga só pode remeter-se ao silêncio, ou repetir “a coisa única que se contenta em significar, sempre a mesma, de uma vez por todas.” Uma vez publicados, os escritos tem existência própria, entram no domínio público: são de todos e de ninguém, e dirigem-se ao mesmo tempo e indiferentemente tanto ao conhecedor quanto ao leigo.
Por fim, abandonado a si mesmo, e na ausência dos seus autores, é incapaz de se defender, de contestar ou de entrar em polêmica com os seus adversários: “Assim, inerte, imutável, intocável, petrifica o sentido, e monologa consigo mesmo.” adverte Tamuz.
Segundo Geneviève Droz (Les mythes platoniciens), a crítica à escrita presente no mito de Thoth, inventado por Platão, pode ser melhor compreendida se considerarmos que se enraíza na longa meditação que o filósofo conduziu sobre a memória (mnemósyne), e que é inseparável da doutrina da reminiscência (anamnesis): as almas estiveram, numa vida pré-empírica, em contato com as verdades; ainda que algumas apenas as tenham avistado muito indistintamente, ainda que, antes da sua nova encarnação, tenham tido que atravessar o Letes (o rio do esquecimento), elas tem neste mundo o poder de recordar.
Talvez de forma desigual, certamente sob determinadas condições,
mas a mensagem é indiscutível: saber é recordar-se e “não há
ensino, há apenas reminiscências (Ménon 82b).”
No entanto, dialogar faz-se necessário, pois sabemos que a maiêutica socrática consiste na arte de ajudar a “parir” o saberes. Sendo assim, a discussão, a pesquisa compartilhada, tem precisamente a função de reavivar e ajudar à rememoração de conhecimentos que escaparam.
Certamente que o ato da escrita assegura simultaneamente tanto a fixação das informações quanto a sua rememoração quase mecânica. Aquele que escreve, fixando suas ideias e descobertas numa matéria exterior (cadernos, jornais, revistas, livros, blogs, etc.), conserva-as, instala-as na duração, garante-lhes a perenidade e permite-lhe sobreviver.
A escrita oferece um processo mnemotécnico útil sem dúvida, pois a alma, encontrando no exterior de si mesma o acervo onde está conservada a informação, tem apenas que se reportar a esse suporte material: a informação “regressa” então à memória, sem que tenha existido sequer esforço de memória. No entanto, a prazo, isso pode ser nefasto para a alma em busca da verdade.
Porque assim a escrita mata a verdadeira memória, aquela que permite através de uma disciplina exigente reencontrar o “divino saber” que cada um traz em si. Ela assegura a sobrevivência, mas mata a vida do pensamento em ação. Habitua a alma a buscar ajuda em vez de a habituar a lembrar.
No entanto, dialogar faz-se necessário, pois sabemos que a maiêutica socrática consiste na arte de ajudar a “parir” o saberes. Sendo assim, a discussão, a pesquisa compartilhada, tem precisamente a função de reavivar e ajudar à rememoração de conhecimentos que escaparam.
Certamente que o ato da escrita assegura simultaneamente tanto a fixação das informações quanto a sua rememoração quase mecânica. Aquele que escreve, fixando suas ideias e descobertas numa matéria exterior (cadernos, jornais, revistas, livros, blogs, etc.), conserva-as, instala-as na duração, garante-lhes a perenidade e permite-lhe sobreviver.
A escrita oferece um processo mnemotécnico útil sem dúvida, pois a alma, encontrando no exterior de si mesma o acervo onde está conservada a informação, tem apenas que se reportar a esse suporte material: a informação “regressa” então à memória, sem que tenha existido sequer esforço de memória. No entanto, a prazo, isso pode ser nefasto para a alma em busca da verdade.
Porque assim a escrita mata a verdadeira memória, aquela que permite através de uma disciplina exigente reencontrar o “divino saber” que cada um traz em si. Ela assegura a sobrevivência, mas mata a vida do pensamento em ação. Habitua a alma a buscar ajuda em vez de a habituar a lembrar.
Alimenta a confusão entre saber “aprendido” (do exterior) e saber reconquistado (em si mesmo), entre erudição livresca – conhecimentos – e sabedoria autêntica. Isso explica porque sempre houve, há e haverá iletrados de grande sabedoria.
Sócrates suspeita do livro e da escrita porque eles nos habituam a procurar conhecimentos fora de nós mesmos, além de encorajar a preguiça e incitar à pretensão de que basta ter lido muito para se julgar sábio, nos fazendo crer que – grande engodo! – uma mente cheia substitui uma mente bem formada.
Para Sócrates – bem lembrado! – a pesquisa, à semelhança da própria vida, é partilha, conflito, contribuição mútua, mutação perpétua. Ela permanece aberta à interrogação, à crítica, à polêmica ou à aporia (sem saída), jamais inerte ou indiferente ao parceiro. Nada que já não saibamos.
Luciene Felix Lamy
Anote em sua agenda: dias 4 e 5 de março (6ª e sábado), em Higienópolis.
Programa, acesse a página acima "Cursos & Palestras".
Reservas: mitologia@esdc.com.br




Um comentário:
Adorei o tema, Lu.
É sempre bom ver talento + criatividade em atividade (e vê-los escritos!).
Mas Sócrates não teve tempo de chegar a conclusão que o cérebro-mente é uma "máquina" extremamente instável e limitada em relação à psique.
(Tem-se dito: “Conheça-se a si mesmo” – entre os gregos, entre os antigos hindus, etc. Estudam a psique dos outros, mas nunca estudam a sua própria. Os psicólogos, os filósofos, os especialistas, nunca estudam a si mesmos. Eles estudam ratos, coelhos, pombos, macacos, etc., mas nunca dizem: “Vou examinar a mim mesmo. On Mind and Thought, p132 ~ de Krishnamurti).
Seria muito bom se ele (Sócrates) tivesse se utilizado do dom de Thoth. Foi um prazer te ler, Nac
Postar um comentário