"As ações de Zeus respeitam e reforçam princípios reconhecíveis de justiça". Charles H. Kahn
Aristóteles estabelece e explica a estreita relação que se dá entre o mito e a filosofia. Na "Metafísica", ele afirma que é a admiração que impele os pensadores às especulações filosóficas.
O estagirita diz ainda que, no começo, a admiração (ou o espanto) se voltou para as dificuldades que se apresentavam primeiramente ao espírito: "Ora, aperceber-se de uma dificuldade e admirar-se é reconhecer sua própria ignorância. É por isso que mesmo o amor pelos mitos é, de alguma maneira, amor pela sabedoria, pois o mito é uma composição de coisas maravilhosas".
Os relatos mitológicos geralmente culminam em tragédias, causam espanto, impelem a pensar e tem por finalidade dar um norte aos cidadãos, estabelecer valores e propor uma ordem, uma conduta moral.
O mito do minotauro põe em relevo a questão da posse, personificada pelo rei Minos, soberano da Ilha de Creta e de sua mulher, a rainha Parsífae.
Antes do relato, vale esclarecer que desde os primórdios, esse robusto animal - o touro- está associado à força, sobrevivência, riqueza e, consequentemente, ao poder sobre os demais. E de onde vem esse "poder"?
O poder que o touro simboliza vem dos recursos que o animal dispõe.
Da saciedade da fome (carnes, leite, queijos, manteiga, etc.), do
privilégio de vestes e calçados (e demais acessórios, tais como botões,
bolsas, cintos, chapéus, pentes, etc.), da força física, quando ele é
utilizado de forma instrumental para cultivo da lavoura, enfim, tudo
isso traduz a solidez e a segurança que a posse dele representa.
O touro
– com seus diversos recursos – é a insígnia primeva de elevado status material (vide o touro de bronze na Bolsa de Valores, em Wall Street).
Esclarecida a associação do touro aos bens, vejamos como o mito que
trazemos explicita as consequências da ganância e do quanto é vão querer
esconder, a todo custo, aquilo que nos constrange, pois nada nos
envergonha mais que testemunhar a transmissão de nossas falhas aos
nossos descendentes.
Minos era um rei visivelmente abençoado pelos deuses. Muito próspero,
em seu reinado os animais – saudáveis – davam crias robustas, a
agricultura florescia pujante, farta e todos os súditos reconheciam seu
discernimento para tratar dos assuntos polêmicos, agindo sempre com
justiça, harmonizando tudo e todos à sua volta.
Como a paz é o maior sinal de sabedoria, Minos era reverenciado e
bem-quisto, gozava não somente do poder, mas também da autoridade que
lhe outorgavam.
Certo dia, prestes a iniciar mais sete anos de governo, o rei Minos
fez uma oração a Zeus, rogando que lhe enviasse um sinal que aprovasse
seu bom governo, autorizando-o a permanecer no poder por mais sete anos.
Atendendo ao pedido, o soberano do Olimpo enviou-lhe um sinal divino.
No amanhecer, ao postar-se diante do mar, Minos e todos os habitantes
da Ilha de Creta ficaram estupefatos ao ver, emergindo das ondas do mar,
um magnífico, imenso e imponente touro branco.
O touro era fantástico, gigante. Sua pele, de uma brancura que
ofuscava os olhos da plateia que, maravilhados, compreendendo o sinal de
Zeus, saudavam o rei.
Obviamente, todos sabiam que o touro deveria ser sacrificado e
incinerado num altar, remetendo-o de volta ao verdadeiro dono, em
agradecimento e honra a Zeus.
Mas Minos, que também possuía sua belíssima criação de gado, ficou
fascinado pelo animal. Impaciente, passava os dias em angústia e as
noites insones, pensando: – Esse touro é o animal mais belo que meus
olhos já viram.
Ardilosamente, se indagava: − Desfazer-me de um animal robusto e
perfeito como este? E, se eu escolher meu melhor touro e sacrificar no
lugar desse portentoso touro divino? Zeus nem perceberia... E que
linhagem extraordinária de touros eu posso desencadear!
Sem conseguir tirar isso da mente – vir a possuir o mais valioso
rebanho – Minos decide sacrificar o seu melhor touro e o incinera,
oferecendo em gratidão ao todo poderoso.
Onisciente, Zeus não aprova nem um pouco a atitude de Minos e, com
desgosto, mesmo contrariado, pois sentia apreço pelo rei, lhe prepara
uma lição.
Na calada da noite, a rainha Parsifae, esposa de Minos, entra no
estábulo e prostra-se diante do imponente animal. Tomada por uma –
inicialmente terna –, mas depois, louca e furiosa paixão, começa a
acaricia-lo, beijando-o todo, sem parar.
E lá fica: não come, não dorme, não tece, não faz mais nada senão
maravilhar-se do touro, de sua pele macia, branquíssima, de sua
docilidade... O touro parecia compreendê-la e, até mais que isso, o
brilho em seus olhos denunciava retribuir-lhe a paixão.
Desesperada, a rainha vai até o ferreiro divino, Hefestos (Vulcano na
mitologia romana) e lhe implora: − Por favor, Hefestos, construa uma
imponente vaca de madeira, cubra-a com uma branca e macia pele, que seja
enorme, bela e majestosa.
O mestre da technné hesita em atendê-la, mas em se tratando
de um pedido da realeza, cumpre o solicitado: constrói a grandiosa vaca
de madeira e a cobre com um branquíssimo e macio couro, tão perfeita que
ninguém diria ser artificial.
De madrugada, a rainha Parsifae – discretamente – para que ninguém a
veja, caminha até o estábulo onde se encontra o magnífico touro. Entra
dentro da vaca construída por Hefestos e copula com o touro.
Passado um tempo, qual não foi sua surpresa em descobrir-se... Grávida! Sim, a rainha engravidara do touro de Zeus!
Após o período de gestação, dá à luz a uma aberração: corpo de humano, cabeça de touro. Trata-se do famoso Minotauro.
Perturbadoramente impressionado, Minos logo compreende, percebe que o
responsável pela geração daquela anomalia, de certa forma, era ele
mesmo. Sente-se impedido de condenar a rainha por ter se apaixonado pelo
touro, assim como ele mesmo também se apegara.
Vê que aquele monstro é uma demonstração da insatisfação de Zeus.
Constata que toda desgraça – castigo dos céus – é fruto de sua própria
ganância, de seu desvario em se apropriar de algo que não era seu.
Tratou de chamar outro mestre da technné, Dédalo, e pediu
que construísse um labirinto para confinar a criatura, escondendo dos
olhos de todos a besta, nascida de sua ambição irrefletida às riquezas
mundanas.
O que este mito nos ensina é que tudo está posto, tudo nos é dado, à
nossa disposição, mas cabe a nós usufruirmos das coisas, sem permitirmos
que elas sequestrem nosso juízo, corrompam nossos valores, dominem
nossa alma (psique).
Não convém nos escravizarmos, nos tornar cegos a ponto de permitir que a cobiça nos domine. Agindo com desmedida (hýbris), nossos descendentes explicitarão essa falta: ora pródigos, ora avaros, sempre descomedidos.
No exercício do desapego está a maior das riquezas; pois, em geral, o que mais tem é aquele que menos precisa.



Um comentário:
Para um olhar mais profundo sobre nós mesmos, para nos tornarmos melhores e mais leves...é sempre bom estarmos aqui.
Obrigada, sempre!
MaVi
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