Alexandre Charles Guillemot (1827)
Um dos maiores trunfos da
mitologia Greco-romana consiste na criatividade com a qual os antigos aedos (poetas) transmutam fraquezas e
mazelas humanas em poesia, imprimindo em seus relatos uma singela e rara
beleza.
O estranhamento e, às vezes, até
repulsa, de um corpo que porta ambos os sexos, masculino e feminino, na
narrativa alegórica torna-se digno de encanto e magia, pois no mito, o que
poderia ser tomado inicialmente por aberração, explicita o enlace amoroso entre
deuses imortais.
Há duas versões para a origem do Hermaphróditos, filho do mensageiro dos
deuses, Hermes (Mercúrio, na mitologia romana) e da deusa do amor e da beleza,
Afrodite (Vênus). Inspiremo-nos, primeiro, no poeta romano Ovídio, em sua obra
Metamorfoses.
O ferreiro divino e mestre da techné, Hefestos (Vulcano), legítimo
filho de Zeus (Júpiter) e da soberana deusa Hera (Juno), profundamente admirado
por todos os deuses e heróis olímpicos, é casado com a estonteante Afrodite,
que o trai constantemente com o violento deus da guerra, Ares (Marte), que só
não pensa em trucidar um, quando está inebriado em seus braços.
Trabalhador incansável, o feioso deus
coxo, Hefestos, marido da mais bela e desejada divindade, é disciplinado e
extremamente focado em seus afazeres. Diariamente, segue para o vulcão, sua
oficina, de onde só sai tarde da noite, já bem exausto.
Um belo dia, ao partir para a
labuta como de costume, Hefestos é interpelado por Apolo (Hélios) – o Sol, de
quem ninguém nem nada se escondem – e ouve a revelação de que sempre que sai,
sua mulher recebe o viril deus Ares em casa, com quem fica a sós por horas e
horas enquanto um atento sentinela fica de plantão, do lado de fora.
Diante da incredulidade do
marido, Apolo o desafia a fazer um teste: que no dia seguinte finja que vai
trabalhar como de costume, mas que volte algum tempo depois, sem avisar para
flagrá-los em adultério.
Hefestos, que é exímio artesão,
prepara então uma rede de aço inquebrantável e retorna ao lar silenciosamente.
Qual não foi o espanto de tão dedicado (ao trabalho!) marido em confirmar a
denúncia, surpreendo-os em pleno deleite amoroso!
Inconformado, Hefestos joga a
rede sobre o casal de amantes e chama todos os deuses para testemunhar a
traição protagonizada por Afrodite e Ares.
A ala feminina do Olimpo, até por
solidariedade ao gênero, se recusa a assistir tamanho constrangimento. Já os
demais deuses, correm curiosos para presenciar.
Alvoroçados, comentam o quão espetacularmente
divinos são os predicados de Afrodite e, uns mais discretos, outros nem tanto, tecem
as piadinhas mais infames sobre a cena.
Apolo pergunta a Hermes o que ele
acha da situação e o tagarela não titubeia em conjecturar sobre o que não daria
para ter Afrodite no leito, mesmo que fosse somente uma vez, que para ter o
privilégio de estar no lugar de Ares, um vexame desses não era nada, arrancando
uma gargalhada geral.
Os deuses intercalam o murmuroso lamento
devido ao ultraje sofrido pelo competente e talentoso Hefestos, sempre tão
honesto e digno e a secreta cobiça pela proeza de Ares, cuja virilidade ímpar,
tanto invejam.
Irado, pois constata que a lâmina
de sua espada é ineficiente às poderosas tramas da rede trançada por Hefestos,
Ares amaldiçoa ali mesmo o pobre sentinela que deixava de plantão:
penalizando-o por ter cochilado, transforma-o imediatamente num galo e profere
que dali em diante ele nunca mais deixará de cantar, alertando sobre a chegada
do Sol (Apolo).
Afrodite abaixa a cabeça e esconde
o rosto com uma das mãos; com a outra, em vão, tenta cobrir o corpo, pois
cobiçada por sua estupenda nudez, se sente devorada por todos. Envergonhada, decide
se exilar por uns tempos na ilha de Chipre, até a poeira assentar e o episódio
deixar de ser o principal assunto no Olimpo (o que demorou um bocado).
Mas a deusa do amor e da beleza
ouvira as galanteadoras palavras que Hermes dirigiu a Apolo. Tomada de desejo por
saber que era assim tão desejada, sente-se envaidecida e, antes de partir,
decide se unir a ele.
E é assim que, após uma noite de
amor, geram o Hermafrodito, que nasce com os dois sexos: masculino por parte de
Hermes e feminino por parte dela.
Noutra versão, segundo o especialista, Junito de Souza
Brandão, o deus Hermes teve muitos amores e vários filhos, mas o mais famoso é
o Hermafrodito, criado pelas ninfas, nas florestas do monte Ida, na Frígia.
Diz-se que o rapaz era de uma beleza física tão
paralisante quanto Narciso. Aos quinze anos, viajou pela Ásia Menor e, um dia, ao
avistá-lo nas margens de um lago, a ninfa Sálmacis se apaixonou perdidamente
por ele.
Repelida, a jovem fingiu conformar-se, mas quando
Hermafrodito se despiu e se lançou às águas do lago, enlaçando-o com uma toda a
força de sua paixão, Sálmacis rogou aos deuses que os unissem para sempre.
Eles decidiram atender à súplica da apaixonada e
assim fizeram surgir um novo ser, de dupla natureza.
O mito do Hermafrodito, segundo Brandão, explicita uma repetição ou recapitulação do andrógino primordial que, além de contar com as duas versões acima, também já vimos na fala do comediógrafo Aristófanes, n'"O Banquete" (sobre o Amor), de Platão, AQUI.
O mito do Hermafrodito, segundo Brandão, explicita uma repetição ou recapitulação do andrógino primordial que, além de contar com as duas versões acima, também já vimos na fala do comediógrafo Aristófanes, n'"O Banquete" (sobre o Amor), de Platão, AQUI.
Conta-se que o Hermafrodito também fez um pedido
aos olímpicos e foi prontamente atendido: que todo aquele que se banhasse no
lago de Sálmacis perdessem a virilidade.



Um comentário:
Lu,
Quando ouvimos ou lemos essas histórias mitológicas, nos deparamos com nossos próprios sentimentos e valores... Sem dúvida, uma bela experiência, um aprendizado para que não sejamos tão rígidos em relação a nós mesmos e mais tolerantes em relação aos outros.
Obrigada por ser esta obstinada mediadora do conhecimento!
MaVi
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