Apollo e Daphne por Gian Lorenzo Bernini - Galleria Borghese (Roma)
“E
mesmo que esteja passível de cometer um engano, um erro de pessoa,
quem ama verdadeiramente é digno de nobreza”. Pausânias, n’O
Banquete, de Platão.
É possível que em
algum momento de nossas vidas tenhamos amado sem que fôssemos
correspondidos. Mas isso não é motivo para constrangimento, pois
até mesmo um deus foi irremediavelmente preterido: Apolo vivenciou a
dilacerante dor da recusa e transmutou aflição em glória.
O poeta romano Ovídio
(43a.C.-17d.C), que inspirou Dante Alighieri, William Shakespeare e
tantos outros, expõe esse mito com ampla riqueza de detalhes. Vamos
ao relato, tão apropriado nesse mês dos namorados.
O brilhante Apolo ou
Febo (do grego, phobos = luz e vida) é também
conhecido por Hélios (SOL). O deus da harmonia, saúde e profecia,
filho de Júpiter (Zeus) e Latona (Leto) ousou subestimar um
aparentemente inofensivo garoto, Cupido (Eros), detentor de poderosas
flechas, tomando-o por inferior.
Desde o nascimento,
Júpiter entreviu as perturbações que a imaturidade do filho da
mais bela divindade – Vênus (Afrodite) – causaria.
De fato, o Amor é poderosíssimo e, aleatórias, as flechas de Cupido também causam danos terríveis.
De fato, o Amor é poderosíssimo e, aleatórias, as flechas de Cupido também causam danos terríveis.
Ao avistar o menininho
(de cerca de sete ou oito anos) carregando um arco, Apolo provoca: “Ó
jovem tolo, o que você está fazendo com uma arma dessas? Isso é
para gente grande!”.
Aproximando-se com
imponência, relata ter acabado de subjugar a terrível Píton, que
nunca falha e, orgulhoso, desdenha: “O archote,
meu garoto, é o melhor brinquedo para você, para pôr fogo no
coração dos apaixonados. Não tente igualar proezas que são
minhas!”, proibindo-o de intrometer-se com seu
tipo de arma.
Percebendo a
provocação, Cupido atenta que Apolo incorreu em hýbris
(desmedida) e abanando suas asinhas protesta: “Seu arco acerta
todas as coisas, Apolo – talvez –, mas o meu acerta você! Você
se coloca acima de todas as criaturas vivas, e só por essa distância
sua glória é menos que a minha”.
Ovídio relata que
depois disso, Cupido desceu até as sombras de Parnasso e de lá
trouxe diferentes tipos de flechas: as douradas, afiadas e
cintilantes, para inspirar e despertar o sentimento de amor; e outras
com ponta de chumbo, grossas e rombudas, que provoca repulsa e
aversão ao amor.
Apontou a de ouro para
Apolo e disparou-a, perfurando-o até a medula, através dos ossos e,
com a de chumbo, mirou acertando a graciosa ninfa Dafne, filha do
deus dos rios, Peneo.
Dafne tornou-se a
primeira donzela amada por Apolo, mas ela estava acometida por uma
forte aversão ao deus, horrorizando-se à ideia de amar, de
submeter-se a um senhor.
Da parte de Apolo foi
amor à primeira vista. Imediatamente queria desposá-la. Inebriado
pela beleza da jovem, imaginava como ela ficaria se ricamente
adornada, o quanto belas vestes a tornariam ainda mais encantadora.
Enlevado pelo brilho, displicência e sedosidade de seus cabelos,
sonhava acordado: “Como seriam eles penteados?”.
Contempla os olhos de
Dafne, que brilham como as estrelas, seus lábios, e sabe que a
contemplação não é suficiente. Maravilha-se com seu corpo, com os
ombros nus, e o que ele não vê pensa que deve ser melhor ainda do
que o que enxerga.
Mais fugidia que o
vento, a ágil e casta donzela escapa dele. Quando Apolo a chama,
Dafne esquiva-se de seu clamor, nem ouve. Em desespero, implora que
não corra, diz que a ama, admira e que, se a persegue, é porque o
amor o fez seu seguidor. Mas a jovem dispara, cada vez mais
apavorada.
Roga que ela corra
mais devagar, prometendo também reduzir a corrida, que não fuja
dele como a ovelha do lobo, pois teme que se machuque.
Esclarece que não é
um rude camponês ou grosseiro pastor cheirando a gado, mas legítimo
filho de Júpiter: “Eu sou o senhor de Delfos (...) sou aquele
que revela o presente, o passado e o futuro; pelo meu poder, a lira e
a canção se harmonizam; minha flecha tem certeza de seu objetivo –
só existe uma flecha assim, a que fere meu coração.”.
Mas, se não amamos, que importa os atributos de quem nos
ama?
Refém de uma espécie
de “doença”, Apolo se vê fragilizado, impotente: “O poder
da cura é descoberta minha; todas as ervas são minhas súditas.
Mas, para minha desgraça, o amor não se cura com nenhuma erva; a
arte que cura os outros não faz a mim, seu senhor, nenhum bem!”.
Dafne assustada e em
fuga, com seus braços nus ao vento, suas vestes esvoaçantes e seus
longos e macios cabelos revoltos, tornava-se, aos olhos de Apolo,
mais linda do que nunca.
Ovídio relata que
assim corriam o deus e a ninfa, ele, veloz e esperançoso, ela,
aterrorizada: ela, com asas do medo, ele, no entanto, cada vez mais
rápido, pois era “Levado pelas [incansáveis]
asas do amor”.
O desespero de ambos
permanece até que, totalmente esgotada, Dafne sente suas forças se
extinguirem: “De longo voo, mortalmente pálida, olha para o rio
de seu pai e grita: ‘Ajuda-me! Se existe algum poder nos rios, que
ele transmute e destrua o corpo que despertou tanta adoração”.
Roga então, ser livre e poder ignorar os deveres do himeneu.
Mal terminou de
implorar, sentiu suas extremidades transformarem-se como nas de uma
árvore de loureiro: seus cabelos viraram folhas, seus braços em
ramos se alongaram, seus pés criaram raízes: “Tudo se
transfigurou, exceto sua graça, seu brilho”. A
cena inspirou muitos artistas.
Apolo presenciou a
transformação com grande tristeza e a amou mesmo assim, afirma o
poeta.
Colocou as mãos sobre
seu coração ainda pulsando, beijou a madeira e sentiu vibrar a mais
bela de todas as virgens: “Já que você nunca poderá ser minha
noiva, (...) deixe que os louros adornem, doravante, meus cabelos,
minha lira, minhas conquistas: deixe que os vitoriosos romanos, numa
longa procissão, usem as folhas de louro para o triunfo e a
aclamação”.
Num último apelo: “E,
já que minha cabeça é sempre jovem, deixe que os louros sejam
sempre verdes e brilhantes!”. Arrebatada, Dafne parecia
consentir.
Acredita-se que a
romana Dafne de Ovídio corresponda à diáfana grega Aurora, que
foge sempre que a luz do sol (Apolo) surge e seus primevos raios a
tocam, fazendo-a desmaiar sob os olhos do deus imortal.
Ondulando suavemente
sua copa, inclinando-a em sinal de gratidão, ela concordou com as
intenções de Apolo e manteve suas folhinhas de louro imperecíveis.
Ornamento a cingir a
augusta fronte dos poetas e dos valorosos guerreiros que triunfam,
“Apolo e seu loureiro (Dafne) estarão juntos para sempre, onde
quer que se cantem canções e se contem histórias”.
Amar é tão
nobilitante que mesmo quando não correspondido, tem mérito. Por
isso Apolo consagrou os louros à vitória, coroando-se pela glória
de ter amado.
Em
memória do querido e inesquecível Mestre, Antônio
Medina Rodrigues (1940-2013), doutor em
Língua e Literatura Grega pela FFLCH (USP), poeta, crítico,
tradutor e professor de Mitologia Greco-romana.
Desde meus longínquos tempos de Anglo, ensinando, encantando, celebrando a vida. Profundo pesar pela partida desse Sábio e adorável Leão.
Abaixo, uma de suas preciosas obras, a qual me presenteou. Minha eterna gratidão à você, Professor.
Desde meus longínquos tempos de Anglo, ensinando, encantando, celebrando a vida. Profundo pesar pela partida desse Sábio e adorável Leão.
Abaixo, uma de suas preciosas obras, a qual me presenteou. Minha eterna gratidão à você, Professor.
Referências bibliográficas:
Ovídio – Metamorfoses (pág. 20-23). Ed. Madras. São Paulo
(2003).
Mattiuzzi, Alexandre – Mitologia ao alcance de todos (pág. 62-75).
Ed. Nova Alexandria. São Paulo (2000).
Graves, Robert – Mitos gregos (pág. 32-36). Ed. Madras. São
Paulo (2004).
Bulfinch, Thomas – O livro de ouro da mitologia – histórias
de deuses e heróis (págs. 30-32). Ediouro. Rio de Janeiro (2006).
Hamilton, Edith – Mitologia (pág. 160-2). Ed. Martins Fontes.
São Paulo (1997).
Souza Brandão, Junito. Mitologia Grega – Vol. II (pág.
86-87). Ed. Vozes, Petrópolis (2002).
Commelin, Paul. Mitologia Grega e Romana (págs. 34-38 e 71).
Ed. Martins Fontes. São Paulo (1997).
Meunier, Mário. Nova Mitologia Clássica (Pág. 31-36). Ed.
Ibrasa. São Paulo (1997).
Genest, Émile. As mais belas lendas da mitologia (pág. 1632).
Ed. Martins Fontes. São Paulo (2000).











4 comentários:
Lú querida, mais um maravilhoso texto e uma grande contribuição para nosso intelecto.
Obrigada por dividir tanto saber.
Beijo grande. Alexandra
Parabém pela estrutura e conteudo de seu blog
compartilhando aqui, abração Renato
http://www.renatoartesanato.com/
Lindo seu blog, parabéns por disseminar a cultura da mitologia grega, tão importante para a formação da nossa civilização!
Ajudou muito na compreensão do texto, obrigado mesmo.
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