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2 de jul de 2012

O mito de Er - Escolha da vida em Platao


“E foi assim, ó Glaucon, que a história se salvou e não pereceu.
E poderá salvar-nos, se lhe dermos crédito (...).” Platão

 
Sobre a vida das pessoas, observamos que, curiosamente, algumas são, desde a origem, pautadas por inúmeras 'facilidades', enquanto que outras nos parece marcadas por infortúnios constantes, do princípio ao fim.

Sócrates, retirando e combinando elementos da antiga tradição órfico-pitagórica – o que dá a seu discurso um caráter de revelação divina –, surpreende ao dizer que somos nós que escolhemos que vida que temos.

O filosofo pré-socratico Heráclito afirmara que, "O daimon do homem é seu destino; o destino do homem é seu daimon". Mas, se formos nós mesmos que elegemos nosso daimon, como explicar escolhas tão pesarosas, de miséria e doenças, por exemplo?

No capítulo final da “República”, seu discípulo, Platão, numa "das mais belas páginas escritas sobre as relações entre destino e liberdade", narra o mito de Er, que regressou à vida doze dias após sua morte, pois fora escolhido pelos ‘juízes’ para narrar aos vivos sobre o além.

Soldado morto em batalha, Er fora o único que, depois de ter permanecido no reino dos mortos, 'voltou para contar'.

No relato, diz-se que quando as almas se apresentam para uma nova vida aqui na terra, um profeta (espécie de "intérprete dos deuses") as dispõe por ordem, apresentando-as à virgem Láquesis que, filha da Necessidade, juntamente com Cloto e Átropos (tecelãs do destino, trindade também conhecidas como as Moiras, as Parcas) presidem o lote de cada um.

Após tomar do colo de Láquesis, os lotes e diversos modelos de vida, ele anuncia então que essas almas irão renascer na condição de mortais, avisando que o primeiro a quem a sorte couber será o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade: “Não é um gênio [daimon, um ser intermédio entre os deuses e os homens] que vos escolhe, mas vós que escolhereis o gênio.”.

Dessa afirmação extraímos que sim, antes de tudo, a sorte (vide que a ordem de preferência na opção de vida se dá por sorteio), mas conta também à escolha do gênio [daimon], direito de toda alma.

Sendo assim, depois do acaso, há liberdade de escolher e atender a um bom daimon: “Cada um a terá [a virtude] em maior ou menor grau conforme a honrar ou a desonrar. A responsabilidade é de quem escolhe. O deus é isento de culpa.”, diz Platão.

Em “Les mythes planotiniciens”, Geneviève Droz aponta que a crença no gênio que desencadeia a sina de cada um de nós já existia antes de Platão, mas que o filósofo contradiz a opinião popular, proclamando que não é o gênio que nos escolhe, mas que somos nós que o escolhemos, tornando-nos assim, responsáveis.

Segundo ele, as almas provêm de duas distintas esferas, a celeste e a terrestre. No caso das primeiras, por ainda não terem vivenciado dores e sofrimentos, precipitam-se na escolha de vidas que, aparentemente são magníficas e que o modo como cada uma das almas escolhia a sua vida futura era um espetáculo curioso de se ver: "Era, realmente, merecedor de piedade, mas também ridículo e surpreendente.", pois, os hábitos da vida anterior condicionavam as escolhas.

Er conta que ter testemunhado que uma alma, vinda do céu (portanto, desde a vida anterior temperante e justa mais por hábito que por inteligência e filosofia) e eleita por sorteio a escolher primeiro, fascinada por uma vida luxuosa, fora gananciosa e, "sem ter examinado suficientemente todas as consequências da sua escolha", viu sua vida culminar em tragédias e horrores.

Lamentou ter escolhido precipitadamente, sem se ater a necessidade de prudência. De seus males, acusava o destino (acaso), a má sorte, os deuses e os homens, menos a si próprio.

Já aqueles que vinham da terra, por terem sofrido e visto outros sofrer, eram mais cautelosos ao escolher em que condições de vida iriam reencarnar.

Quanto às vidas possíveis e disponíveis, longa ou breve, obscura ou ilustre, havia de todos os tipos, humanas e até de animais.

Vidas de tiranos que enriqueciam até a morte, outras interrompidas na meia-idade, diversas culminando em pobreza, de exilados, que acabavam na fuga, na mendicidade, de famosos pela beleza corpórea, pelo vigor e força física, pela raça e virtudes dos antepassados: "todas com a sua parte de alegrias e de sofrimentos, de sucessos e de experiências (...). Mas a escolha – que integra múltiplos dados heterogêneos (nascimento, talentos, acontecimentos favoráveis ou infelizes...) – é complexa.".

Havia também as vidas obscuras sob todos os aspectos, vidas confusas, medíocres, insignificantes e muitas outras. Mas em nenhuma delas, as disposições do caráter estavam determinados: “(...), por ser forçoso que este mude, conforme a vida que escolhem.”. Não é somente a vida que 'acontece' a nós; também nós 'acontecemos' à vida.

Se todos os demais elementos da condição de vida escolhida estavam misturados (a riqueza e a pobreza, a saúde e a doença, a constrangedora e a nobre estirpe, a beleza e a fealdade, numa democracia ou tirania, com facilidade ou dificuldade em aprender, sempre com inúmeras gradações entre esses extremos) quem poderia nos dar a “possibilidade e a ciência de distinguir uma vida honesta da que é má e de escolher sempre, em toda a parte, tanto quanto possível, a melhor.”? O filósofo.

Para Platão, é fundamental que aprendamos a prever o bem ou o mal que produz a mistura das características citadas acima com tal ou tal disposição da alma e suas consequências.  

Ele chama de má a vida que resulta em tornar mais injusta a alma, e boa àquela que a torna melhor, sem atender a mais nada, atestando que essa é a melhor escolha que se pode fazer.

Para uma vida melhor, ou seja, mais justa, “deve-se saber sempre escolher o modelo intermediário dessas tais vidas, evitando o excesso de ambos os lados (...)", pois é assim que o homem alcança maior felicidade, diz o filósofo.

Mesmo àquele a quem a sorte destinou escolher por último seu tipo de vida: "(...) se escolher com inteligência e viver honestamente, espera-o uma vida apetecível, e não uma desgraçada.". Não nos lembramos de termos escolhido, porque antes de reencarnarmos novamente, bebemos da água do rio do esquecimento.

Sobre a alma de Ulisses, herói da guerra de Tróia, diz que a sorte reservou-lhe ser a última a escolher e, feliz por ter encontrado uma vida simples, alheia a complicações, disse que teria feito a mesma escolha, se a sorte tivesse lhe designado ser o primeiro a optar.

Recordando ou não de nossa escolha, o termo romano fatum, a partir do velho radical verbal fare (dizer), indica que a palavra que proferimos é partícipe do que nos acomete.

Platão intenta demarcar a concepção exclusivamente fatalista do destino e salvar, nos limites de uma conciliação arriscada, a parte mais nobre do homem: "a sua capacidade de escolha, e de se escolher, através de uma reflexão informada e responsável.".

Possuímos elementos de deliberação e uma razão para deliberar: "A escolha operada no além determina o esquema de uma vida, não a sua qualidade espiritual, que provém unicamente da responsabilidade individual.".

Quer tenhamos optado pela vida singela ou pela de um gabaritado, pensar em como viver bem é essencial: "o pensamento reflexivo reina soberanamente. Esse será o preço para nos salvarmos.". Faz-se mister que assumamos a parcela que nos cabe.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eles sabiam das coisas.
Creio que se não for exatamente assim, algo muito parecido nos foi reservado.
Acho que escolhi no meio... Nem fui o 1º, nem o último (apesar de saber que
a ordem não influência diretamente numa boa ou má vida).
Obrigado!
Bjo e ótimo feriado.
Hilton Péricles

Anônimo disse...

Belo post. Sou economista e um curioso em filosofia. Como kantiano, acredito na razão para iluminar nossas escolhas.

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ESCOLHA & CLIQUE (leia no topo). Cultura faz bem ao Espírito!

Eis que a Sabedoria reina, mas não governa, por isso, quem pensa (no todo) precisa voltar para a caverna, alertar aos amigos. Nós vamos achar que estais louco, mas sabes que cegos estamos nós, prisioneiros acorrentados à escuridão da caverna.

Abordo "O mito da caverna", de Platão - Livro VII da República.

Eis o télos (do grego: propósito, objetivo) da Filosofia e do filósofo. Agir na cidade. Ação política. Phrônesis na Pólis.

Curso de Mitologia Grega

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As exposições mitológicas explicitam arquétipos (do grego, arché + typein = princípio que serve de modelo) atemporais e universais.

Desse modo, ao antropomorficizarem os deuses, ou seja, dar-lhes características genuinamente humanas, os antigos revelaram os princípios (arché) de sentimentos e conflitos que são inerentes a todo e qualquer mortal.

A necessidade da ordem (kósmos), da harmonia, da temperança (sophrosyne) em contraponto ao caos, à desmedida (hýbris) ou, numa linguagem nietzschiana, o apolíneo versus o dionisíaco, constitui a base de toda antiga pedagogia (Paidéia) tão cara à aristocracia grega (arístois, os melhores, os bem-nascidos posto que "educados").

Com os exponenciais poetas (aedos) Homero (Ilíada e Odisséia), Hesíodo (A Teogonia e O trabalho e os dias), além dos pioneiros tragediógrafos Sófocles e Ésquilo, dispomos de relatos que versam sobre a justiça, o amor, o trabalho, a vaidade, o ódio e a vingança, por exemplo.

O simples fato de conhecermos e atentarmos para as potências (dýnamis) envolvidas na fomentação desses sentimentos, torna-nos mais aptos a deliberar e poder tomar a decisão mais sensata (virtude da prudencia aristotélica) a fim de conduzir nossas vidas, tanto em nossos relacionamentos pessoais como indivíduos, quanto profissionais e sociais, coletivos.

AGIMOS COM MUITO MAIS PRUDÊNCIA E SABEDORIA.

E era justamente isso que os sábios buscavam ensinar, a harmonia para que os seres humanos pudessem se orientar em suas escolhas no mundo, visando atingir a ordem presente nos ideais platônicos de Beleza, Bondade e Justiça.

Estou certa de que a disseminação de conhecimentos tão construtivos contribuirá para a felicidade (eudaimonia) dos amigos, leitores e ouvintes.

Não há dúvida quanto a responsabilidade do Estado, das empresas, de seus dirigentes, bem como da mídia e de cada um de nós, no papel educativo de nosso semelhante.

Ao investir em educação, aprimoramos nossa cultura, contribuimos significativamente para que nossa sociedade se torne mais justa, bondosa e bela. Numa palavra: MAIS HUMANA.

Bem-vindos ao Olimpo amigos!

Escolha: Senhor ou Escravo das Vontades.

A Justiça na Grécia Antiga

A Justiça na Grécia Antiga

Transição do matriarcado para o patriarcado

A Justiça nos primórdios do pensamento ocidental - Grécia Antiga (Arcaica, Clássica e Helenística).

Nessa imagem de Bouguereau, Orestes (Membro da amaldiçoada Família dos Atridas: Tântalo, Pélops, Agamêmnon, Menelau, Clitemnestra, Ifigênia, Helena etc) é perseguido pelas Erínias: Vingança que nasce do sangue dos órgãos genitais de Ouranós (Céu) ceifado por Chronos (o Tempo) a pedido de Gaia (a Terra).

O crime de matricídio será julgado no Areópago de Ares, presidido pela deusa da Sabedoria e Justiça, Palas Athena. Saiba mais sobre o famoso "voto de Minerva": Transição do Matriarcado para o Patriarcado. Acesse clicando AQUI.

Versa sobre as origens de Thêmis (A Justiça Divina), Diké (A Justiça dos Homens), Zeus (Ordenador do Cosmos), Métis (Deusa da presciência), Palas Athena (Deusa da Sabedoria e Justiça), Niké (Vitória), Erínias (Vingança), Éris (Discórdia) e outras divindades ligadas a JUSTIÇA.

A ARETÉ (excelência) do Homem

se completa como Zoologikon e Zoopolitikon: desenvolver pensamento e capacidade de viver em conjunto. (Aristóteles)

Busque sempre a excelência!

Busque sempre a excelência!

TER, vale + que o SER, humano?

As coisas não possuem valor em si; somos nós que, através do nôus, valoramos.

Nôus: poder de intelecção que está na Alma, segundo Platão, após a diânóia, é a instância que se instaura da deliberação e, conforme valores, escolhe. É o reduto da liberdade humana onde um outro "logistikón" se manifesta. O Amor, Eros, esse "daimon mediatore", entre o Divino (Imortal) e o Humano (Mortal) pode e faz a diferença.

Ser "sem nôus", ser "sem amor" (bom daimon) é ser "sem noção".

A Sábia Mestre: Rachel Gazolla

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O Sábio Mestre: Antonio Medina Rodrigues (1940-2013)

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